--Cala-te estupor, cala-te diabo!--Era n'uma sombra de panno de fundo,

que vinham, de correr. E a Velledo debatia-se, aterrada do escandalo,

cahida do respeito usual por semelhante violencia. Rogério tinha-a

cingido pela cintura, e apertado contra o peito, nas agonias d'um

toiro; e aos beijos por toda ella, na bocca, na garganta, nas

espaduas, sobre o peito, percorria, babava-a, delirante, horrivel de

desejo, deixando-lhe vermelhidões por toda a parte, signaes de dedos

crispados, babugens de raiva lubrica, que no pó d'arroz deixavam

listrões nojentos de vêr. Enxovalhada da brutalidade, a

Velledo chorava, gaguejando:

--Infame! Infame!

Despenteara-se na lucta, tinha-se aberto o colar, um dos colibris da

túnica cahira, violentamente roçado. Rogério ficára a resfolegar n'um

canto. Mas ouviu-se o contra-regra chamar para a scena do jardim; e

com a voz musical de quando estava elegre, a Velledo desatou a rir

alto entre os bastidores. E mal o galã disse--_é ella, conheço-a, o

coração m'o diz!_--entrou em scena radiante e magnifica, monologando

para si:

--_Elle prometteu-me que viria. O seu amor é leal. Virá de certo_--e

n'uma expansão d'amor:--_adoro-o, sim, adoro-o!..._

--Has de cá cahir, cegonha! fez Rogério esfregando as mãos. E ao outro

dia foi-lhe pagando as contas da modista. Mas já entravam a rosnar. Os

ganymedes de palco, gentinha disposta a explorar, intrigar, levar e

trazer segredinhos, bilhetinhos, cobriam Rogério de perguntas sobre a

tristeza em que o viam, com subtis allusões á actriz. Nos camarins não

se fallava n'outra coisa. Sabia-se que elle hypothecára as ultimas

propriedades, perdia ao jogo, e mandava á Velledo todos os

dias, uma grande _corbeille_ de camelias e rosas confeccionada no

Neves. De quando em quando, presentes de galantarias antigas que ella

colleccionava com paixão, _bibelots_ de Sèvres, pratos e _netskés_ do

Japão, aguarellas, bronzes e moveis delicados, pequenas peças

vasculhadas nos adelos e casas de penhores, com paciencia de santo,

regateadas durante horas, e muitas vezes adquiridas por preços

escandalosos. Como amador de _bric-à-brac_, Rogério era uma besta,

chegando a pagar por libras monos de loja de chá, fallidos de todo o

merito. Velledo encolhia então desdenhosamente os hombros, mirando a

bugiganga. E com irónica piedade:

--Decididamente tem o gosto caraíba. Vê-se logo que é da provincia.

Foi do leite. Obrigado. Ou era uma fayança repetida, qualquer peça que

ella pedia para lhe comprar, e Rogério já não encontrava no bazar

indicado. A actriz impacientava-se então, fazia momo com o seu

beicinho vermelho, batia o pé vendo-o chegar de mãos vasias.

--Se elle é um desastrado! Fosse quando eu lhe disse.

E predilecções de momento, ambições por quanto via nos armazens, e

logo tédios pelo que ia adquirindo. Em dias de nervos quebrava,

mordia e rasgava tudo para se vingar, na epilepsia dos que tendo feito

das impressões violentas um habito abusivo, desesperam por fim, se

acaso em vão apoz ellas correm. Tão raras as horas de bom humor, que

Rogério, se alguma surprehendia, dir-se-hia gosal-a como recompensa

disputada. Esse homem altivo cahia aos pés da sua gata sabia, em

pieguices de collegial, deixando-se explorar por prazer. E sobre a

posse tão ardentemente implorada, nem rastro d'esperança! Se ia

beijal-a com mais furia, se a queria enlaçar pela cinta, ou a

respiração cortada n'elle trahia alguma ideia occulta de deleite, ella

logo de pé, faiscante e sarcastica, para o repellir com desprezo.

--Olhe que me não esqueci d'aquella canalhice do theatro, hein?--ou

fazendo saltar o _lorgnon_ Regencia:

--Ora filhinho! Deixa-te d'asneiras. Isto é do brasileiro.

Mezes passavam assim. Se por um lado Rogério não adeantava com a

actriz, recebia por outro, do brasileiro, provas de deferencia e

familiaridades em cada dia mais profusas. Tinham começado as relações

por uma polidez reservada, que parecia occultar as mais cathegoricas

antipathias. Dopois, aquella crosta d'indifferença estalára

aqui e além, n'um cavaco mais vivo, n'um accordo ou outro d'acaso.

Rogério sondava os gostos do brasileiro, lisongeava-lhe os ridiculos,

punha-se ao lado das suas opiniões, aturava-lhe as estopadas, ou

conseguia rir das graçolas d'elle. Era um pobre homem, limitado e

benevolo esse brasileiro, que todo entretido a enriquecer-se, na

mocidade, mal tivera tempo para gostar d'uma mulher--e assim

conseguira embarcar na velhice, conservando intactas, pudicas quasi,

as intimas juventudes do seu coração, uma singeleza timida e crédula,

uma especie de convicção da sua inferioridade, como animal, em face

daquella grande rainha da scena, e pequenas attenções balbuciantes

para os caprichos d'ella, torturas soffridas sem revolta, e

humilhações inda por cima agradecidas, n'uma effervescencia de

lagrimas.

Esse mudo velho de olhar ardente e mãos de cavador, de continuo

enluvadas, alto, negro, com uma barba branca de negreiro, e uma

gravata de coleira á volta dos collarinhos molles, esse mudo velho,

parecia marchar somnambulo na sua idéa fixa, dolorosamente algemado á

sua paixão como a um cepo de patibulo, para toda a gente

affavel, dizendo _muito obrigado_ á creadagem, orgulhoso de ter em

casa da Velledo o ar d'um intendente, desolando-se em suspiros que a

edade já fazia grotescos, desdenhado, repellido, porém fincando sempre

nas derrotas de cada dia, a coragem para insistir nos dias seguintes.

Emquanto o pobre suspeitou que as denguices de Rogério viessem a ter

resultado, foi sempre mantendo á vista d'elle, uma reserva polida,

quasi fria. Os cumprimentos que trocavam, traziam, mesmo de longe, um

asco a desconfiança. Os risos d'elles, ao toparem-se, no serão da

tragica, eram um espremer de beiços seccos, com distillo d'amargura.

Mas breve o nababo concluiu que não viria de Rogério o vento mau de

desgraça, que lhe varresse a Velledo, como uma _nau dos quintos_, do

mar banzeiro em que elle a trazia balanceada e repreza. Uma magua

identica, parece, lentamente os conduzira a uma sorte de camaradagem.

E vieram jantares, pequenos conselhos ditos na meia intimidade d'um

segredo, favorsinhos que se calculam e estão prestes ao primeiro

signal. Por fim deram o braço, trocaram brindes, começaram a

sympathisar; e havia quatro mezes que o brasileiro já não

passava sem Rogério, e Rogério se afizera a procurar todas as tardes o

brasileiro. Velledo espiava aquelles manejos, deixava-os consolarem-se

um no outro, e ia-os explorando systhematicamente. Era o tempo em que

a fortuna de Rogério via o começo do fim, e Lisboa lhe ia notando as

primeiras joelheiras, as luvas safadas e as golas russas. E os beiços

d'elle enlivideciam, uma magreza patibular fazia-lhe duro o perfil; e

enfastiado, mãos febris, não dava palava a ninguem. Em volta ao caso

ria toda a gente. Apenas o grupo sério de Pirralho, philosopho

Horacio, festejado Peres, e a ninhada de fedelhos positivo-publicistas,

lia n'essa fronte sulcada, n'esse olhar fixo e interior, a gestação

laboriosa d'algum grande livro. Actores, já o tratavam de resto, não o

sentindo como outr'ora, generoso d'emprestimos, e tão prodigo

d'alegres ceias no _Gibraltar_. A primeira vez que appareceu sem

relogio, fumando cigarros de mendigo, quasi todos, achando-o pulha,

lhe voltaram as costas.

Por esse tempo revelava-se Alcina, que passára da opera-buffa ao

theatro de declamação, prima de Rogério e sua primeira amante. Fôra na

Suzanna do _Demi-Monde_, papel de prova, cheio de movimento

e finura, em que por confronto a Velledo tinha dado um estenderete

medonho, e que Alcina fez com distincção surprehendente. Sobre o caso,

a critica fez-se ouvir muito acerba contra a Velledo, mau grado as

supplicas do brasileiro e de Rogério, a que fosse poupada a grande

sacerdotisa. Em quasi toda a linha jornalistica, de repente, as

hostilidades romperam com violencia brutal, bipartindo-se os criticos

na hoste dos que bradavam--Velledo!--e na dos que punham Alcina na

mais brilhante evidencia. A prima de Rogério, por conseguinte, passou

a synthetisar a escóla nova, como a Velledo era a expressão da antiga

arte. Pirralho e o magreirão Lindôso, macacos-pontifices da alta

critica moderna, saudaram a musa nova em rutilos artigos crivados de

referencias picaras á antiga primeira actriz portugueza, na qual tudo,

segundo elles, era convencional. A historia do corpete fez escandalo

de morrer a rir. E dois ou tres _distinctos escriptores e nossos

amigos_ estiolavam-se a calcular os annos que ella teria d'edade, o

que esbanjava em cabellos postiços, e da composição chimica d'aquelles

seios esculpturaes...

A actriz Alcina, não! Era a mocidade maleavel e viva, a

intelligencia sagaz que tudo penetrava sem esforço, o genio

desprezando artificios, e dando-se á plateia em relampagos--e como

mulher, uma nympha de Clodion, elançada e viva.

--É necessario derribar os falsos deuses, escrevera Lindôso. A arte é

constantemente evolucionista. Quem não progride, não a acompanha, e

elimina-se pelo esquecimento ou pelo desprezo...

--Isso é forte, homem...

--Qual forte! Uma velhaca que nem bilhetes manda para o jornal! E

d'ahi põe recusas ás nossas mais ternas blandicias. Póde-se lá

soffrer!

No entanto crescia o desespero da Velledo, que chorava dias e dias

accusando o emprezario, não querendo estudar os papeis, cobrindo a

imprensa d'insultos, Rogério e o brasileiro de repellões. Uma manhã,

apenas aquelle veio, ella resolutamente:

--Essa creatura que elogiam por ahi, é sua prima, e foi sua amante, já

sei. Porque não accedo ao que o senhor pretende, move-me guerra nos

jornaes.

Rogério ia protestar. Ella disse--canalha! e mais

rapido:--em todo o caso, oiça. Se a peça nova fizer reviramento

completo na imprensa, expulso o velho e entrego-me a si. Ha uma

condição de que não abdico, note bem. Que essa bebeda seja posta de

rastos, fóra do theatro em que eu represento. O resto é com o senhor.

Acceita?

Elle poz o chapéu na cabeça, disse:

--Não!--E sahiu como doido.

* * * * *

Chovia, e elle sem guarda-chuva, pisando a lama com sapatos de baile,

seguia alagado ao longo dos predios. Dois ou tres amigos chamaram-n'o

de dentro de trens, para que viesse abrigar-se. Olhou-os com ar vasio

e foi andando. A sua paixão pela actriz, avolumada pela resistencia,

obstruia-lhe a livre esphera da deliberação, da acção, e desvairava-o.

Que havia de fazer? A pobreza fizera-o mesquinho: e vinha-lhe com

teimozia a ideia do dinheiro gasto com essa mulher, sem reserva, sem

egoismo e sem calculo, n'uma boa vontade de rapaz. E nem mulher nem

dinheiro!... Então recrudescia-lhe o desejo d'ella, e era uma febre

bestial d'amor que o espicaçava a todo o instante e lhe fazia

delirios. Foi pelas ruas de mãos nas algibeiras, flanando ao

acaso na lama. Vendo um antigo freguez, os cocheiros paravam

fazendo-lhe signal--e era uma humilhação para Rogério ter de recusar,

ou virar a cabeça fingindo não ver. As ruas surprehendidas por essas

primeiras gottas de chuva hibernal, tinham sobresaltos e gritos de

vida que procura abrigar-se, a um tempo frenetica e contente...

mulheres apanhando os vestidos, homens erguendo as calças até á origem

das polainas, chamando os trens, ou entrando á pressa nas escadas.

O ar frio dava ás epidermes das mulheres um côr de rosa mais pudico.

Era a hora do Chiado, e os trens desciam para os armazens de modas, em

cujas _vitrines_ se encontravam já densos estofos, chapéus e capotas

do ultimo modelo. Lisboa, que voltava das praias e estações d'aguas,

procedia á sua installação, buscava nos livreiros as ultimas edições,

lia os cartazes dos theatros, escolhendo a sua noite, dictando a sua

_toilette_, familiarisando-se com os aspectos das ruas e o rolar das

carruagens. E a cada instante, Rogério tinha de fazer um signal aos

conhecimentos antigos, actrizes dos pequenos theatros, jornalistas,

_dandies_, horisontaes; toda a mascarada elegante passeando

os primeiros paletots estofados, no giro da evidencia e da moda. E

intimidades que roçavam pela fadiga do seu casaco um velho dito

maldoso, desdens que lhe acenavam de longe co'as pontas das luvas

amarellas, piedades vis que o lastimavam, ou peccadoras que lhe riam

pela ferida dos beiços pintados, tendo partilhado outr'ora o luxo dos

dias aureos de Rogério. Parece que tinha combinado cruzar com elle

hombro a hombro, essa tarde, toda a revoada de doidas sereias avivadas

de chic!--Primeiro Laura, a _condessa_, uma soberba rapariga que

explorava um club de velhos, e era gosada por acções. E as mais:

Annita, que surprehendendo a primeira sombra na face, ia casar com um

judeu capitalista; Hermine, o vampiro, de cujo leito phosphorejavam as

monstruosidades dos harens da Asia; Luiza, alta, morena, sã, com os

seus eternos grandes sapatos de homem, e os seus modos decididos de

_commis-voyageur_... E o pobre auctor de preoccupado, nem reparava no

espanto e na commiseracão com que o fitavam. Uma patifaria sem nome,

quererem voltal-o contra Alcina, rapariga de talento afinal, cuja

carreira difficil ella percorrera toda, sem auxilio nem reclame!

Doida, boa, sincera de mais, e por isso mesmo enganada sem

rebuço. Eil-a ahi na celebridade, chegando ruidosamente ao pinaculo,

musa de um grupo de artistas. Promover-lhe a queda, expulsal-a do

primeiro theatro--que negra infamia pretendia então a outra d'elle?

Chegara ao jornal do Lindôso sem dar por isso. Subiu. Inda não tinham

sahido das repartições, e a redacção estava deserta.

--O snr. Lindôso, disse Rogério para o gerente.

--Primeiro gabinete, á esquerda.

Estava lá. Ora viva! disse Rogério.

--Sei a que vens. Não posso pagar-te inda hoje. Sê benevolo uns dias

mais. E volubilmente:--Então sabes? Os constituintes venderam-se.

Estou aqui a rachal-os de meio a meio. A que chegámos! E mostrava os

linguados escriptos--Lisboa vae vêr o bom.

--Eu cá, disse Rogério, vinha para outro negócio. Janta hoje commigo.

Tenho lá baixo um trem.

--Demonio! pois sim. Ao _Central_?

--Em minha casa. Descobri uma cozinheira incomparavel. Pulcheria se

chama. Então a mais acrisolada sciencia nos molhos! Tenho um Murillo

no quarto, que outro dia, sentindo o olor d'um bacalhau

confeccionado por ella, sahiu á casa de jantar acceso em fome.

--Raio de cozinheira!

--Vens d'ahi?

--Dois minutos para terminar a demolição d'um partido politico. E como

se porta na lebre ensopada, essa tal Pulcheria?

--N'isso então! Imagina um d'estes acepipes tenros, alpestres,

perfumados, extranhos... A pastoral de Beethoven com tubaras de

recheio. Homem, no Algarve estava um defunto no esquife; vae ella,

chega-lhe ás ventas carneiro com batatas--e o morto pega a bailar no

meio da casa.

--A caminho, fez o outro espicaçado pela fome de quarenta cães sem

dono.

A casa de Rogério era perto, e em dez minutos faziam elles a sua

entrada no escriptorio. Rogério fechou a porta da escada e metteu a

chave na algibeira.

--Ah diabo! exclamou Lindôso com uma palmada na testa. De todo me

esqueceu falar da tua peça. E que tinha planeado uma coisa magnifica!

Artigo para o publico, está claro, coisa d'arrombar ahi tudo. Entre

nós, franquezinha. Deves deixar o genero: o teu drama, aqui para nós,

era quasi infantil.

Rogério, surpreso, nem falava. Que exhuberancia de malandro!

pensava elle.

--Nem admira, continuou Lindôso. Tu, o que ha de mais moderno no

estylo ligeiro, de mais elegante, de mais parisiense, cahes agora na

monomania de fazer viver sobre a scena os assumptos historicos!?

Primeiro, não és um erudito. Segundo, não tens a corda dramatica. E

olha que influe alguma coisa, a gente não se chamar Walter Scott ou

Shakespeare, menino.

--Sopra-te o vento d'outro lado, esta manhã, tornou o dramaturgo com

os beiços brancos. Em todo o caso, ouve. Eu li o que escreveste sobre

a Alcina...

--O artigo para amanhã é superior. Vaes vêr que maravilha d'analyse e

graça humoristica. A sagacidade do Taine na fórma irisada do Wolff.

Ah, meu caro Rogério, meu bem! Ponho a Velledo em picado. Dez annos de

lucta, e regeneramos o theatro portuguez.

--Trazes o artigo?

--Vou lêr-t'o. Ficas assombrado.--Mas onde foi elle buscar este vigor

de linguagem, este conhecimento do assumpto, esta chuva de sarcasmo e

pedras preciosas? dirás tu. Ah, Rogério! Nasce-se.

Enfastiado, risonho, o dramaturgo fez-lhe signal para que

lêsse. O artigo era uma catilinaria habil, gradual, bem deduzida, e

feita com esse sarcasmo sereno, quasi limpido, de quem não receia lhe

tomem contas. Definia a arte nova em termos firmes, historiava-lhe a

evolução rapidamente, frisando-lhe os intuitos, explicando-lhe o

destino e o nivel philosophico. Cahia em seguida sobre os actores, no

tom desdenhoso de quem trata subalternos--e uma vez alli, tocava na

Velledo. Desde esse instante, uma furia explosia no artigo, e as

ironias eram um crivar de balas no corpo d'um fuzilado. Segundo elle,

não era possivel mais tolerar sobre a nossa primeira scena, uma actriz

cheia d'artificios e ronceiras manhas; cantando, se declamava; e não

tendo mais a voz maleavel, nem vivaz o gesto, nem a _pose_ esculpida

na proporção da figura que reproduzia. Desmemoriada, envaidecida,

tola, velha, quasi feia...

E no final, em palavras metallicas, enthusiasmadas, relampejando

fundos d'apotheose, entrava a dizer que Alcina era o astro do dia novo

na arte, subindo tocado de flammas, com a grandeza d'uma redempção

pronunciada de ha muito, pela critica imparcial...

--Admiravel, hein?

--Pois sim, fez Rogério retesando as pernas. Quanto ganhas tu por essa

canalhice?

O outro, embasbacado! Quanto ganhava?

--Ora essa! Eu não trafico com o sacerdocio. É convicção.

--Sabido! O artigo de hontem trazia as tuas iniciaes. Publica o de

hoje com o nome todo; tens dez libras.

--Hein?

--Sómente onde estiver Alcina, porás Velledo, e onde Velledo, Alcina.

--Que quer dizer toda essa cantiga?

--Nada de scenas. Entre pulhas, o descaramento é a alma dos negocios.

Dez libras para virares d'opinião. Recusas? perdes o dinheiro e

quebro-te as costellas. Tão certo!...

Lindôso fizera-se verde, queria-se erguer, não podia; e tudo era olhar

para a porta, calcular a retirada.

--De maneira que o teu jantar era isto? E a cozinheira Pulcheria...

Traste!

Rogério nâo respondeu.

--Mas tu? a ferro e fogo com a Velledo, porque te voltastes á ultima

hora? Arranjos! A corja que se entende e se harmonisa.

--Faz as emendas que te disse, tornou Rogério docemente.

Mas o desenterrado hesitava.

--Com quem imaginas tu que estás falando? aventurou-se elle a

perguntar.

Rogério agarrou-o pelo pescoço, como as cozinheiras fazem aos gatos

lambareiros.--Anda! Senão desfaço-te! Senão atiro comtigo da janella!

--É violencia. Protesto! ganiu o desenterrado debatendo-se. Mas a voz

de Rogério rebentou n'um estampido.

--Olha que eu estrangulo-te. Escreve!

Fez-lhe pegar na penna.--Emenda!--E roxo d'asphyxia, cyanosado,

humilhado, escorrendo suor, o outro emendava. Rogério agarrou no

artigo, leu tudo minuciosamente, e inda apontou um ponto ou outro para

Lindôso corrigir--Agora assigna!

O miserável em soluços, arquejando horrivelmente, assignou.

--Tratante! Eu me vingarei. Ai de ti! Rogério ria freneticamente.

--Amanhã peça nova, ajuntou elle n'um sarcasmo tranquillo. Quatro

actos d'Augier, alguma coisa de fino e superior. Alcina lá vae

enrodilhada n'um papelito quasi de comparsa. O melhor papel

para a Velledo! Ella que até agora só fazia os pezados centros

dramaticos, _Joanna a doida_, a _Mulher que deita cartas_... entra

n'uma phase nova, quer mostrar que conhece a escóla moderna. Eh! Eh!

que diz a isto o scintillante Lindôso? O publico tel-as-ha na mesma

noite, as duas, face a face. Elle é imparcial. Julgará.

E emquanto a raiva branca epileptisava o outro--Amanhã os jornaes

saudarão a eminente actriz, pela penna dos mais festejados

escriptores. E na noite da peça, enchente á cunha, bilhetes a libra,

uma chuva de corôas. Ah, desforra estrondosa! Triumpho como ninguem

viu outro! E alcançado por mim. Não que eu admire a Velledo. O que

escrevem contra ella é verdadeiro. Mas apraz-me esmagar essa tropa de

canalhas vendidos, a começar por ti.

--Sim! Ainda hontem a querias derribada, essa Velledo, já hoje lhe

advogas a victoria. Quanto paga o brasileiro por esse enthusiasmo? És

dos meus. Vendeste o que te restava, entras a viver d'expedientes. Eu

cá fui sempre pobre, ao menos. Seguia o meu caminho bem ou mal, sem

pão muita vez, oito dias n'um quarto alugado, oito n'outro,

expulso quando não tinha com que pagar, desempregado, mal visto,

esbarrando com a antipathia de toda a gente. Queriam no meu porte a

nitidez d'um cavalheiro? Dessem-me de comer. Rogério, inflexivel,

chamou o creado.

--Isto ao jornal.

--O jornal não publicará, disse Lindôso.

--O teu não. Mas o meu... Agora vamos a jantar.

--Obrigado. Acabemos com isto. Abre-me a porta!--Era quasi noite.

--Nao. Dormes cá hoje, tornou Rogério.

--Vou gritar, n'esse caso.

--Hum! Não cahirás em semelhante tolice. Ao primeiro berro,

amordaço-te, e passas a noite n'uma camisa de forças.

--Mas isto é inaudito!

--Creio que sim.

--Hei-de tirar uma desforra.

--É da ordem.

--Mas quando me deixam sahir então?

--Quatro da manhã. Hora em que a tiragem dos jornaes está toda feita.

E coração ao largo, anda jantar. Conversaremos como bons camaradas.

Isto aqui não é agora nenhum carcere; podes circular pela casa toda.

Hein? Não me arreceio das gavetas: vendi as pratas, e não ha

vintem por cima das mesas.

--E promettia-me dez libras, _isto_!...

* * * * *

Quem hasteava a Velledo era um grupo d'escriptores de pulso (como

então se dizia) feito do pae nobre Tiburcio, critico Borbas, festejado

Peres, Rogério, Moreira das magicas e os inimigos d'Alcina. Uma

espécie de cenaculo, que receando a decadencia da scena, se impuzera

alumiar o gosto da turba, com a luz dos seus talentos _conspicuos

quanto experimentados_. Esta tropa de massadores, quasi todos carecas,

decidira pôr dique á sedição de Pirralho e Lindôso, creando o

_Binoculo_, semanário que definiria a missão do theatro, pondo em

relevo as regalias dos auctores, e encarregando-se de catalogar os

comediantes pela ordem e genero dos meritos que patenteassem: quem

havia de ser o primeiro, quem havia de ser o segundo...

A convite de Borbas tinha-se o conclave reunido n'uma botica da

rua do Amparo, com penna e tinta para tracejar das resoluções

adoptadas. E houve logo disputas sobre o titulo da folha.--_O

Binoculo_, dizia festejado Peres.--_Arte de Talma_, opinava pae nobre

Tiburcio.--_Diabo Verde_, era o parecer do Moreira das magicas. Porém

Borbas, um auctoritario que tinha o culto das civilisações antigas,

disse logo: _O Capitolio!_ Cada qual então pediu a palavra afim de

justificar o seu titulo. Engalfinharam-se uns nos outros, á

descompostura. Como estava vivo de vespera o artigo de Pirralho

exaltando Alcina, urgente se tornava fazer sahir resposta bem

official, bem da _mestrança_, que trancasse as doutrinas da escóla

avançada. Suspensa a sessão por vinte e quatro horas, cada um foi

estudar para casa o que havia d'escrever no jornal, com promessa

d'assembleia no laboratorio da botica, ao dia seguinte.

No outro dia, eil-os de volta arrastando as passadas, beiços lividos,

olho morto, tendo perdido a noite sobre os melhores auctores. Varios,

seguidos de gallegos, tinham feito conduzir annos inteiros da _Revista

dos Dois Mundos_. Borbas, em casaca e tira branca, solemne,

convencido, radiando uma vasta auctoridade, appareceu com a sua resma

d'apontamentos. Aberta a sessão, palavra a um, palavra a outro,

combinaram-se notas, organisou-se o plano d'ataque... resultado, duas

columnas de sandices e a ideia do jornal posta de banda. Foi o momento

de Rogério fazer a sua entrada na sala. Inquiriram todos: então?--Era

na manhã sequente á detenção de Lindôso.

--Sanou-se tudo, ganhamos, exclamava o dramaturgo n'um jubilo. Lindôso

nosso. Vem o artigo na _Gazeta do Sport_.

--E viva!

--Quasi todos os jornaes fallam da Velledo em quatro columnas e cinco.

Grandes letras, titulos d'arromba... _Um genio! A primeira tragica da

Europa. Continue progredindo..._

Já vinte mãos cresciam ávidas para os jornaes que elle trazia.

--Venha de lá isso. Venha de lá.

Aves Migradoras · 第 12 / 13 段