Ficou attonito a semelhante desfeita! Quanto por ella tinha feito era

sem preço--a ceia, o drama, as _toilettes_ d'apparato... E enxotado!

Mas jurou alli mesmo uma desforra estrondosa. Quando chegou á rua, já

toda a sociedade se estava armazenando nos trens. Elisa abandonára os

velhotes que a tinham comboiado escada abaixo, para n'uma velha tipoia

se enroscar entre os seus ricos frangãos da geração moderna, aos

empurrões em pae Tiburcio, e mandando á fava a historia brejeira que

elle insistia em contar-lhe. Maria Freitas installou-se nos joelhos de

Moreira, n'um pequeno _coupé_ d'aluguer, á direita do festejado

Peres, e á esquerda d'um revolucionario côr de melão, que

insubordinava Alcantara com discursos socialistas. No meio da rua,

mordendo o bigode com melancholias de birrento, Rogério procurava

companhia de mulher, olhando quem se ajoujava nos trens. Viu Borbas

estender os braços de dentro d'um carro, e puxar Laura, a quem genial

Pirralho, dizendo-se Hamlet, chamava a sua pallida Ophelia. De duas

carruagens ou tres, vozes chamavam brejeiramente a rapariga; e como

doida, ella ria de cabeça para traz entre os desavergonhados,

debatendo-se na furia dos abraços. Hirto como um lacaio, o brasileiro

escancarava a portinhola d'um bello carro de noite, servido por

cavallos claros, e moços de taboa aguardando de pé que ella entrasse.

A eminente actriz circunvagava a vista em procura d'alguem. Como

Rogério se tinha approximado um pouco, á semelhança d'estes cães

batidos que veem de rastos para o dono, ella, n'um rir cascalhado,

disse-lhe assim:

--Ouvi que não tinha gostado do meu desempenho no segundo acto. Um

homem difficil, o senhor. O monologo então, detestavel! Mas

podia ter-m'o ensaiado, com o seu ponto de vista.

--Mas, atalhou o pobre auctor balbuciante, eu não disse...

--Se a peça tem musica, foi ella dizendo com volubilidade, quem fazia

uma creação unica, por certo, era a prodigiosa Alcina. Sua prima! E a

proposito. Que faz _isso_ agora?

--É cruel o que está a dizer.

--Justiça ao merito e mais nada. Assim, prejudiquei-lhe o debute...

Que infeliz eu tenho sido com os genios d'incubação demorada! Talvez

inda arranje um remorsosinho por tanta incapacidade.

--Lá se lhe é agradavel fazer-me soffrer...

--Diga á Laura que tem logar aqui. Ella só--e como elle aventurava

desculpas n'um tom de collegial submisso:--mau! perdemos tempo.

Rogério foi chamar a ingenua, que parou logo de rir, e sem dar boas

noites aos que pensavam detel-a, veio lesta anichar-se no carro da

Velledo; e foi em surdina uma altercação entre as duas. O brasileiro

atirou a portinhola, e rodaram sem fazer caso de Rogério. Quando um

pobresinho gemeu ao pé do dramaturgo:

--E eu?--Era o pensador Horacio tiritando sob a nisa rapada,

com olhos de fome e gestos vasios de mãos.

--Que é? perdeu o capote? disse Rogério distrahidamente.

--Não acho logar, meu bom amigo.

--Pois enfie por ahi, grande massador.

--Ponhamos a questão nos devidos termos, ia começando o desgraçado.

Enfiar seria...--mas Rogério agarrou-o pelos fundilhos, ergueu-o do

chão vigorosamente, e arrumou com elle para a almofada d'um cocheiro.

--Nós cá, pronunciou Lindôso dando o braço ao dramaturgo, iremos a pé,

ha tempo de sobra. E venha de lá um charuto ao seu amigo, venham de lá

dois!

* * * * *

--Não me dirás, começou elle, porque razão pouzam com tamanha filaucia

estas sirigaitas d'actrizitas, que segundo parece, fazem a honra de

ter por mim o mais tocante desprezo? Que diabo! Antinoüs não era

positivamente meu pae. Mas sinto-me bastante feio para ser sympathico

a uma mulher; e a lingua em que solicito d'ellas algum favor

pequenino, pequenino, é um portuguez todo metaphoras côr de

ceu, e com o agridoce das ginjas garrafaes. Já digo, é-me odiosa a

meia mascara. Mulher completamente honesta, ou então mulher

completamente perdida. Nada de meios termos! Contempla agora tu o

monstrosinho defecante que se chama a femea dos nossos palcos, especie

de tatu dessorado e desgeitoso, que nem arte põe no prazer, nem teve a

coragem de se conservar intacta de culpa. Borbas garante, que nunca

alguem primiu polpa de actriz luzitana, donde não sahisse logo

algodão, palha de centeio ou cautchu. Olha que ha-de ser do clima.--E

depois de um silencio--Dize cá. De que ceu artistico choveu esta

Velledo, a quem dizem tanta coisa em superlativo? Mas tem o ar d'uma

maritornes, essa dona, meu filho! Hombros, talvez, não discuto... Mas

como artista, é uma tragica de feira. Mulher boa para sophá d'um

pernambucano. E concedamos-lhe que encha Alpalhão d'assombro. Mas

d'ahi ao talento, que insondavel abysmo vae!...

--Eis o que eu digo tambem, notou Rogério, picado.

--Pois meu filho, o asteroide dispõe do mais quantioso orgulho, que

tenho visto fazer teia em cabeça oca de mulher. O modo de

receber então. Lembra a rainha Dobrada, esposa de S. M. Termo tinto,

dando beijamão aos aguadeiros. Eu vivo retirado, e não tinha ainda

podido escutar tamanho obelisco dramatico. A tua peça arrastou-me, não

admira, arrastou-me. Pois querido, agradece-lhe, estragou-te a obra,

comprometteu-te, achatou-te. Cuidas que és ainda o Vasques? Mas não!

Estás feito n'um pataco macanjo.

E como o outro ria, o desenterrado proseguiu:

--O segundo acto então, fez-t'o ella em frangalhos. Que falta

d'intenção, que _gaucherie_ de piso scenico, que berros e que

tregeitos de maritornes! Castello Picão e Rua das Trinas _jouant la

duchesse_. E todavia ha n'esse acto um monologo, artificial como

reconstituição historica, porém habilmente instrumentado como

crescendo d'estylo.

--Ah, reparaste? disse o outro animando-se. Estragou-m'o ella. Imagina

que acaba de me passar uma sarabanda em fórma, só de me vêr frio no

fim do segundo acto. Sabe que me faz doido de desejos, abusa d'esta

fraqueza, e dia por dia, hora por hora, me tortura. Se lhe

vou dizer qualquer coisa, é capaz de não representar mais a peça.

--Eu a arranjo, deixa tu estar.

--Diabo! não lhe vás para ahi dizer...

--Homem, não ponhas a tua cubiça pela femea acima do teu amor pela

arte. Ou se é artista ao sacrificio, ou se muda de rumo. Zurzamos esta

corja, que ha tudo a ganhar com a campanha. Porque emfim! Dirigimos

nós ou não dirigimos a opinião? Sendo assim, não te parece crime sem

fiança estarmos tolerando a desmoralisação que ahi se vê por todos os

ramos litterarios? Mas onde vai isto parar? A nossa lingua acanalhada

d'estrangeirismos parvos e inuteis. O bello ideal de Garret, colhido

no elemento tradiccional, posto de banda. Um tropel de cavalgaduras

colligadas pelo rèclamo, tolhendo o passo aos talentos validos.

Litteratura ingloria, atravessadiça e somnambula. Litteratura filha de

paes incognitos. Peste! insistia, cuspindo, o desenterrado--e

animando-se:

--O quadro é flagrante, e não necessita de Taines nem Paulos Bourgets

para o tracejar. Basta vêr o que se passa. Por toda a parte jovens

espinafres nos declaram em sonetos e odes, como acabam de dissecar as

amantes, e deitar por terra as religiões e as sociedades. Na

mascarada dos poetas originaes (supponhamos) vão uns com dominó de

Byron, outros de Musset, Baudelaire, Heine ou Coppée. Sahem do

collegio já desesperados, blasphemantes, com o _fatal amor_, as

ambições e os cynismos dos caracteres opprimidos pelas ferocidades da

vida social, que á nascença lhes houvesse esmigalhado os rompantes.

Alguns deitam-se a interrogar a historia, philosophias, podridões de

sepulchros...

Pensadores que não pensam nada: archeologos capazes de reconhecer

etruscos nos cacos que os barris do lixo patenteiam á porta das

escadas--e apenas um ou outro nome clareia na bancada onde esphacelam

uns de cachexia, e idiotisam outros na adoração da propria _chateza_.

Necessario pôr em armas um forte cordão de tropas, que preserve d'um

tal contagio o resto da gente limpa. Por mim, insurjo-me ámanhã: os

valentes que me sigam! O theatro sobretudo, ergamol-o da bestificação

em que jaz. Se não ha quem produza bom, resuscitemos os velhos, como

em França. A _Comédie_ dá Molière, Racine e Corneille duas vezes por

semana. O mesmo nas _matinées_ do Odéon. Não prestam os artistas? É

derribal-os, reconstruil-os, ou educar artistas novos. Forçados a

dezenas de papeis differentes no espaço d'uma _season_, os actores não

profundam papel nenhum. Os nossos escriptores de theatro, por outro

lado, entretidos a esquissar palhaçadas sem graça nem coherencia,

estão inaptos para traçar um typo de fortes linhas e energia

contornadora, que o comediante revista e agite co'a sua personalidade.

E chegamos a isto--Borbas empunhando o sceptro da critica dramatica, e

o borrachão do Peres arvorado em, galvanisador da historia no palco

portuguez. A culpa teem-na vossês--distinguindo actores que nem sabem

virgular o papel, formando _traine_ nos camarins das estrellas faceis,

indo de rastos para os comicos lhe representarem as peças: tolerando

n'uma palavra, o jugo dos idiotas coifados de pontifices. Inda mais. O

espirito das plateias está grosseiro: pouca vibratilidade, nenhum

prazer ante as finuras do dialogo, emoção n'uma só corda... D'onde

resulta que a _ficelle_ mais decrépita, um berro d'imprecação, um

esgare terrifico no fascias, qualquer mutação vocal ou passo enfatico

contra o tyranno, alarmam a turba e tocam a rebate no sino grande da

ovação. Tudo que fôr delicado, nervoso, reconditamento ironico,

escapa a essa frandulagem _d'arrière-boutique_. Eis o resultado de

trinta ou quarenta annos d'arte roubada aos dramalhões da

_Porte-Saint-Martin_, mal traduzida, mal representada, mal criticada;

elaboração sezonatica d'escrevinhadores que não souberam comprehender

a obra inicial de Garrett, e continual-a, muito menos. Em França, o

theatro romantico, brilhante e fecundo, inda agora impera, e está

truncando a via ao naturalismo no palco, attenta a persistencia do

gôsto publico pelas violencias dramaticas, pelo talho geometrico dos

actos, e essa rara habilidade no _savoir faire_ que caracterisou

sempre a escóla, desde Casimiro Delavigne a Feuillet e Dumas pae. Não

dá a impressão d'um trabalho de genio, esse theatro, mas é cheio

d'arte e vigor, e comprehende-se a febre que o incende, e lateja-se na

incoherencia e na furia que o convulsionam. Sardou e Dumas filho

representam a transição, inda dubia e pallida, para o naturalismo

continuador de Molière e Ben Johnson, d'onde brotará talvez o jacto

arterial que avivente a scena, decadente em nossos dias.

--Mas os novos... tornou Rogério afagando na mente o drama que fizera.

--Entre nós levaria a palma quem soubesse continuar Garrett.

Somos um povo sem drama intimo no presente, um povo cuja vida não tem

caracteristicos, e onde os temperamentos fallecem d'originalidade.

Quadro de natureza morta. Por conseguinte, o nosso theatro terá de

viver do passado. E que passado! Artista que o assimile e insculpa

sobre a scena, precisa ser ao mesmo tempo colosso e homem de genio,

pois tem de crear figuras mais altas que a flexa de Strasburgo. Queres

a verdade? Palpei hombros de titan no teu talento, esta noite. Só tu

poderás resuscitar o nosso palco.

Rogério tinha-lhe logo cahido nos braços, lacrimoso, dizendo coisas

commovidas.

--Mas que trabalho de cem sabios e vinte artistas, se quizeres levar a

cabo essa incontestavel vocação! Terás de estudar a historia pedra a

pedra, ruina a ruina, figura a figura, pergaminho a pergaminho;

critical-a, sentir-lhe o lado artistico á luz d'uma philosophia

profunda; insuflar-lhe a alma, calor, pulsação; e ir pelas ruas

depois, em busca de comediantes, a arrancal-os d'onde elles estiverem,

pelas officinas, pelas prisões, cavando batatas na courella d'um

padre, ou vendendo agulhas com o pregão d'um belfurinheiro.

E educal-os por tua conta, á tua vontade, sob o teu ponto de vista e o

cyclone da tua inspiração. Para que ao vermos em scena as tuas

figuras, rei, conspirador, frade, princeza e pagem, não tenhamos de

berrar--bem vos conheço, heroes de tal seculo! Esse ahi é o Miranda,

que tem varizes nas pernas e bebe aguardente na tasca do _Ferra

Moscas_; essa altiva rainha esmagando o cofre de perolas d'el-rei de

Castella, é nada menos que a Joaquina, que leva pancadas do amigo, e

ata as meias com uma guita, a meio da barriga das pernas. Passa fóra,

ó reinadios! Mas sem lisonja, sem a menor lisonja, a tua peça respira

enormissimo ta... pois esqueci-me de pagar os juros na _Exactidão_

esta tarde, disse o desenterrado subitamente, quando iam a voltar para

o Alecrim. Leilão amanhã.

Perco tudo, nao tem que vêr.--Era a roupa branca da mulher, o seu

vestidito de sahir, coitada!... e chailes, um prussiano acabado de

fazer... Tudo para pagar remedios de botica. Terrivel coisa a miseria!

Dias de jantarem café. Se emprestasses quatro libras até amanhã...

A assaltada fôra um tanto brusca, pois Rogério parecia lento em

esportular a quantia implorada. Então começou o desenterrado

uma cantilena gosmada entre o cuspilhar do charuto, que ora se perdia,

em divagações lyricas, ora habilmente voltava a frizar certos detalhes

de intuito prático. E disse as duras precisões do seu lar, essas

grandes batalhas tenebrosas da miseria que não pede esmola, e os

frenéticos sacrificios do talento amordaçado pelas conspirações do

silencio. Rogério inda duas vezes fez--homem, é que... homem, é

que...--mas engasgava-se, achou-se somitego, considerar-se-hia odioso

se recusasse aquella miseria a um amigo; e ao fim de dez minutos tirou

a bolsa.

--Quatro é que tu dizes, não?

--Ou cinco... ou seis... ou sete... ia dizendo Lindôso, e Rogério

deixava cahir cada moeda por sua vez--talento, muito talento expendido

a mãos plenas pela tua peça. Lá isso! Selvageria, furias

shakesperianas, sim! A vertigem da execução prejudica sempre a lucidez

do problema. Cinco... seis... É o sonho tenebroso e dantesco, com

sobresaltos e recahidas, que sacode pelos hombros os personagens do

Hugo. Um positivista, juntava elle n'um riso pallido de caloteiro,

deve proceder com mais sangue frio. Sete... obrigado, salvaste-me.

--Vê se queres mais, menino...

--Não. Outra vez. De todo me tinha esquecido pagar esta

insignificancia. Deita mais esses meudos. Os pequenos precisados de

botas... Diz que querem vêr a tua peça. Oh a infancia! E fechou a mão

que estendera ao dinheiro.

--Verás o meu artigo. Comparo-te aos mestres, não has-de ter razão de

queixa. E subiu á casa de prego, que era na sobreloja, á esquina, com

a sua lanterna de tres gumes, dizendo: _Exactidão, penhores, juro

modico_, emquanto Rogério esperava mordicando o charuto.

* * * * *

Dias e mezes correram, sem que realmente as relações de Rogério com a

artista adeantassem muito. O pobre auctor sentia-se exhausto de

ceremonial, perdia tempo em declarações, não largava o camarim com

presentes de flôres e versos da melhor fabrica; mas fitando a grande

Velledo nas pupillas, não via n'ellas fuzilar essa scentelha brusca

com que a mulher reclama a intimidade de um homem. E dia a dia, como

ella lhe escorregava dos braços, como uma cobra, cada vez mais

astuciosa, o desejo d'elle parecia congestionar-se d'infrenes

ardores, a cada repulsa soffrida. Ia sendo tempo de se pôr á vontade

com ella, de se conhecerem de perto--Rogério tinha pouco geito para

lunatico. O amor platonico era irrisorio á sua alma de provincia,

positiva em negocios, e acostumada a satisfazer de prompto os apetites

que lhe vinham. Por mais porém que fizesse, para aos frequentadores do

camarim parecer na intimidade da artista, não ouvia rosnar em volta,

da supposta ligação. Ella via-o chegar como aos outros, apertava-lhe a

mão com um pequeno riso, fazendo telintar os braceletes.

--Bem, meu caro?

E continuava a palestra interrompida. Depois a correcção exigida ao

penetrar n'aquelle camarim. Vinha-se de cabeça descoberta, cortejal-a

com grandes reverencias. Os homens não fumavam. Uma palavra familiar,

uma graça mais núa, transmutavam na côr as iris da divindade. E

nenhuma familiaridade antes de se ter sido apresentado com as formulas

mais puras do estylo. Porque era de saber que se tratava com uma

mulher superior, a primeira actriz portugueza, astro, deuza, musa do

drama, Rachel, Sarah, M.lle Mars, e as mais chapas consagradas n'este

genero d'apotheoses. Depois, mulher do mundo, espirito de duqueza á

Balzac, leituras finas, e seriedade de porte, dizia-se, não vulgar

entre lonas pintadas. Era d'estas mulheres de scena afinal,

corrompidas d'espirito e gastas de sensibilidade, pelo habito de

fingir, representar ao vivo, e pintar tudo, labios, cabellos,

sentimentos. O abuso de cosmeticos, estragando-lhe a epiderme da face,

prohibira-lhe as transparencias do rubor, que na mulher mesmo velha,

são a juventude eterna da alma--ao tempo que os papeis violentos,

embotando a sua vibratilidade, lhe não deixavam já sentir as coisas

originalmente e por si proprias, como se cada sensação sendo um

dedilhar de corda eolea, ficasse impossivel, estando esta corda

partida. Como todo o artista fatigado, a Velledo só obedecia agora aos

moveis extremos, o interesse, o orgulho, um vicio, um desejo, sentindo

desprezos pelo mais. Tudo era n'ella preparado scientificamente,

ensaiado, solemne, feito de cór--um papel, um sorriso, uma

generosidade, um cumprimento. Aos trinta annos percorrera já tudo na

vida, os cimos e baixos fundos torvos, onde as podridões são

pictorescas; bambochas de fabrica; mancebias d'acaso, em aguas

furtadas, com estudantes e carpinteiros; fomes de palmo, pantomimas de

feira, noites sem leito... todas as escoriações do vicio caloteado e

baixo. Teve um filho aos quinze, de que já não sabia aos dezoito. E

pancadas, figurou no livro das prisões, foi bailarina e creada de

hospedaria. Agarrada para povo n'um dramalhão de apparato, uma noite

em que vagueava á busca de homem, entrára a crescer. O ponto levou-a

para casa, o ensaiador achou-lhe geito; dois ou tres noticiaristas

entraram com referencias á _novel artista_. E engrossou, encheu de

hombros, fez-se mulher; e este viver a fôra curtindo, ficando-lhe o

frio olhar calculista, que farto de se vêr explorado e cuspido, tudo

agora revertia em proveito proprio. A sua belleza, embryonaria aos

quinze, eflloresceu após o primeiro filho em exhuberancias mimosas e

brancas, e delicados tons de face. Aos trinta annos, levando uma

existencia tranquilla, boa meza, dois cavallos, o palacete da Graça, e

brasileiro para _argent de poche_, Velledo era uma mulher alta,

branca, sólida, admiravelmente moldada. Isto dava aos seus grandes

gestos de drama, pomposos á força de convencionaes, uma soberania e

relevo que eram o furor do corpo commercial, brasileiros de volta,

provincias e ilhas, todo o paiz inda rançado em banhas lyricas e

sentimentaes tradicções. Nenhuma d'esse tempo possuia olhos, hombros e

braços como a Velledo. Gentes decahidas por edade ou excessos, iam

ouvil-a de rainha, princeza d'isto ou d'aquillo, Fernanda, Magdalena

de Vilhena ou Morgadinha, a galvanisarem-se e readquirir tom, pela

excitação ou deslumbramento da sua voz dizendo tiradas pomposas, ou

d'essa extraordinaria carne extravasando em maravilhas plasticas.

N'uma cidade como a nossa, onde as mulheres filiformes e glaucas

lembram bichos de seda na muda, aquella magnifica e authentica mulher

fazia imperio e dava cubiça, mesmo assim fria de mascara, e parecendo

viver fóra de scena a eterna insomnia das estatuas. Não era muito

talento, mas os gestos salvavam-n'a, depois de se haverem salvo pelos

braços. Os amantes tinham-n'a feito distincta, linha de princeza, uma

graça real a receber os que promettiam, nenhum, titubiamento em

_tête-à-tête_, e esse vestuario esmanchado, cheio d'exquisitice, um

pouco doido e pictoresco, que as aborrecidas inventam para se

distrahir.

Succedia andar ás aranhas n'uma peça, não tendo percebido

palavra do papel, gaguejando se o lance queria vehemencia, rindo se

exigia dolorosa gravidade, avançando em vez de recuar, partindo as

tiradas, surripiando phrases ás outras personagens, e compromettendo

os collegas, na espectativa de fazer quebrar a empreza.

Apesar do fanatismo pela diva, o publico esfriava, torcia-se na

plateia com bocejos somnolentos, errando a vista pelos camarotes, com

tossinhas de gato, errantes, communicativas, e esse leve rojar de pés,

que perturba de morte os actores, e tem feito o _de-profundis_ de

muito drama e comedia. Contra inanição semelhante, era conhecido no

palco o efficaz revulsivo. Dos bastidores, o emprezario mandava á dona

Eulalia trouxesse o corpete depressa. A costureira vinha a correr com

elle, emquanto o emprezario, baixinho, para dentro de scena:--_sss_...

giralda!--Signal para a Velledo desertar de scena, mesmo cortando a

situação, e fazendo falhar o pathetico do lance. E mesmo alli a grande

artista mudava de trajo, envergando o famoso corpete azul, uma nudez

como qualquer outra. Reduzia-se n'um cinto applicado a Bruxellas

finas, e servindo nas occasiões desesperadas, desde que

estava eminente o fiasco. Applicava-se no publico como um sedenho ou

um caustico, no intuito de suppurar ovações. Apertada n'elle, a grande

Velledo ficava pouco menos de núa, contando bem da cinta para cima.

Corpete de fatal origem e luctuosa historia! Tinha-o inventado o

octogenario marquez das Berlengas, um galante da _sociedade do

delirio_, que pelos modos se enfeitava, quando certa madrugada nos

braços d'ella se sentiu esfriar como burro morto. E indo a

vestir-lh'o, mais animado e banzeiro, cahiu com o aneurisma rôto, em

fralda de camisa, como estava, o _desdichado_!

Esse collete, justo atraz por um cordão de seda lasso e cruzado,

recordava uma _corbeille_ d'onde espumasse a radiosa floração da sua

carne, musical e superabundante--e seios turgentes gottejando rubis

das mamellas; braços torneados, á Clodion, desde o punho até aos

hombros; garganta e espaduas resplendendo essa polida brancura que o

frio marmore nunca dá, e vem talvez da circulação juvenil e do azul

aponevrotico, coados por uma epiderme vibratil e sã.

E apenas ella entrava assim eloquente e vil, um rumor corria por toda

a banda, e em ondas, sentia-se ir aquecendo a sala. Já das varandas

vinham estalos de lingua, e a velhada ia esfregando uns contra os

outros, febrilmente, os seus joelhos carcomidos. Gradual, a tempestade

de bravos ia-se encapellando, agglomerando, contundindo. Havia no

ambiente podre revoadas de _sss_... E a excitação, como uma cheia,

afogava tudo, derrancando pela raiz os impulsos da bestialidade

humana, e pondo á mostra a torpeza physica dos mais graves

funccionários. Era então que se viam velhitos da mais austera

prudencia, curvando em gestos macabros sobre os vizinhos--juizes,

antigos ministros, conspicuos directores de banco, e chefes de

secretaria--furiosos d'amor canino, e dando a sua opinião d'olho

esgazeado. Ella, na scena, parecia uma bella estatua reanimada, tão

nobres as linhas da sua anatomia esplendente. E quasi núa, corria-lhe

na carne um arfar d'emoção radiosa. O pescoço era maravilhoso de

finura; ria-lhe uma sensualidade no modelado do queixo; emquanto a

narina n'um frémito, dir-se-hia seguir o rolar d'olhos reaes que ella

pela sala deitava. Erguia o braço n'um movimento afadigado; e viam-se

cabellitos na axilla, muito pretos. O arco das duas sobrancelhas,

quebrado em accento circumflexo, exprimia maravilhosamente o desdem. E

suspensa, a sala aguardava que ella fallasse.

--_Senhor! Ousa insultar uma mulher que se não defende? Perigoso me

tinham dito que era; cobarde nunca!..._--e ao meio da scena, n'uma

colera de deuza, a cauda em serpente, um dos seios espreitando a

tourada de focinho sobre a orla do corpete, bramia a terrivel

sacerdotisa:

--_Saia!_

Sublime! Sublime! era a palavra de toda a gente.

* * * * *

Precisamente n'este remoinho de celebridade e de gloria, depois da

grande scena do terceiro acto, uma noite, Rogério declarou-se a

Velledo, n'um portuguez que a actriz não usava escutar lá muitas

vezes. Fôra n'um escaninho do palco, durante a mutação de scenario.

--Palavra, adora-me, o senhor? disse-lhe ella escarnecendo.--Elle

compunha uma attitude fatal, como se quizesse magnetisal-a de paixão.

E despiam-n'a, os seus olhos faiscantes de vicio.

--Dizer-m'o não basta, tornou a eminente actriz. É necessario

que m'o prove.

--Mas como? disse elle surdamente.

--Isso não é commigo.

E depois d'uma pausa:

--Ha talvez um meio de principiar. Porque não começa a ter talento?

Rogério não respondeu, mas os seus olhos, como brasas, na pelle branca

do colo d'ella, redondo e nú, chamuscavam-n'a, mordiam-n'a,

apalpavam-n'a, servindo-a como um goso arrancado á força. E n'um

desvairamento, agarrou-a pelos dois braços sifflando, engasgado de

furia.

Aves Migradoras · 第 11 / 13 段