Entanto, por uma escadaria de balaustres, tinhamos descido ao jardim,

do seculo XVII, todo em meandros e porticos de buxo, que de resto ha

muitos annos ninguem tosquiava, e canteiros adentro mantinha uma

desordem d'arbustos sem trato, e hervas bravas crescendo á doida, como

nos pouzios da devêza, ao Deus dará.

--E de leitura hespanhola, como vamos? Aventurei varios nomes de

modernos: Pio Baroja, Benavente, Rusiñol, Felippe Trigo, Antonio

Palomero, Anton del Olmet, Lopez Barbadillo, Ciges Aparicio, Isaac

Muñoz, que ella pareceu escutar sem conhecer.

--E Juan Valera? interrogou.

--Conheço.

--Lopez d'Ayala?

--Sim.

--Campoamor, Nuñez d'Arce, Menendez Pelayo...

--Um pouco, um pouco.

--Pereda, Galdós, La Pardo...

--Sim, sim, tudo isso li.

--_Hombre_, exclamou ella com uma acerada ponta ironica. _Es usted un

portugués mui sabionado._

--Que quer! A lingua hespanhola tem para mim um prestigio e uma musica

que me não canço d'ouvir e de gostar. É uma lingua de guerreiros e

d'oradores, para hymnos e para suplicas, compativel com a expressão de

todos os estados emotivos. Ella sorrindo, repetia o proloquio:

--Falla francez ao teu cozinheiro, inglez ao teu cavallo, alemão ao

teu cão, e hespanhol á mulher que mais te agrade...

Tinhamos vindo ao cabo do jardim, e por uma porta de ferro chegamos a

um grande trecho murado de floresta ou bosque, onde a vegetação

deixada ao esbracejar liberrimo de vint'annos, apagava o torcicollo

das ruas, emaranhando para todos os lados, labyrinthos de

folhas e de ramas.

Aquillo lembrava o _Paradou_ da FAUTE de Zola, com a noite glauca dos

macissos, as lucarnas das cópas deixando feixes de luz zebrarem

d'esmeraldas liquidas os fundos. Uma aluvião de melros silvava, uma

guarda de honra de passaros respondia.

Era recolhido, intimo, profundo, e ouvia-se, não sei onde, um tenue

telingar d'agua corrente. E eu lhe disse erguendo a vista áquella

intensa ablução d'asas e folhas:

--Aqui se vive em plena natureza.

E ella tornou:

--Não. Aqui se morre em plena soledade.

A EMINENTE ACTRIZ

Cahiu o panno entre chamadas ovantes, gente de pé nas cadeiras,

debruçada dos camarotes, e em chusma junto ás portinhas de sahida,

acotovelando-se, clamando, _bravo! bravo!_ A geral estava deserta, um

grupo ao meio da sala berrava, _fóra o auctor_.

E quando elle veio de casaca, agradecer com aquelle seu geito modesto,

muito risonho e de rosa amarella na botoeira, a sala aqueceu ainda,

houve bravos, e o Moreira das magicas, enfiando o _pardessus_, disse

para um desenterrado de luneta, com a sua bella emphase de auctor

laureado:

--Vae longe, este camello, sim senhor, vae longe.

--É possivel, opinou seccamente o desenterrado, e a cabecita em

pyramide, com pellos de rato sobre a testa, pendulava-lhe

para um lado e outro, desengonçada sobre o gasnate côr de moka. E

puxando amigo Moreira de parte, olho acceso em iras biliosas, o

_plastron_ descosido, disse alli que a peça não tinha fundo, que o

estylo era rocambolesco, e toda a litteratura devia mirar um intuito

critico, sem o que ficaria um brinquedo de gaiatos. E que se em

Portugal o publico desprezava litteratos, e podia passar sem o que

elles exgregavam nas gazetas, a razão era taes litteratos serem mais

ignorantes, ou menos intelligentes, que a multidão a que se pretendiam

impôr.

--Que damnada lingua me sahiste! dizia Moreira das magicas, com

pancadinhas d'applauso no hombro do desenterrado.--Baixava a voz para

insuflar, que em parte assim era. Todavia exceptuava muita gente. Ahi

está o José Maria, por exemplo. O nosso Mendes Leal, tão conceituado

lá fóra. E este, e aquelle...

--Eu creio bem, argumentava o da luneta, que no meio d'esta sucia, por

engano, ha talento uma ou outra vez. Mas diabo! Não estamos já nos

_soláos_ do Serpa, nem no _Conde Alarcos_ do Cunha. Dêem alguma coisa

mais do que phrases ôcas, meus senhores! A formula litteraria é

apenas vehiculo da ideia, e não pode tornar-se em preoccupação, como

ahi estamos vendo. Mais! Quer-se em toda a obra um ponto de vista

elevado e philosophico que a domine. Eis o que não ha n'essas

mioleiras, meu filho! Veja-me vossê o Pimentel, que esses localistas

parvos andam a proclamar nas gazetas. Idiota! E vou-lhe ás ventas;

vou! E o menino Felix de Macedo, mais o cretino Fernandes! Ocos que

nem uma cabaça, immortaloides de redacção, sem testa, nem estudo, nem

officio. Que tenho eu que vêr com tal romance ou tal drama, com tal

phenomeno scientifico ou tal processo de pintar, se estas coisas me

apparecerem abstractamente, sem uma orientação que as filie e

correlacione n'uma dada corrente--não sei se me faço entender?

Com o largo aceno de quem trunca pela base a tolice humana,

estabelecia--que tudo vinha sob dependencias e condições, facto moral

ou facto physico. Tal livro é effeito do livro anterior, e causa do

posterior, como tal estado politico ou mental, derivam do estado

anterior, e preparam o que depois vier. E desgraçada a geração que por

sua anarchia psychica não sabe fazer progredir um systhema,

assimilar um código de doutrinas, desenvolver e tornar perfeito

qualquer ideal em arte.

Ás vezes, é o povo que por ignorancia repudia a lei nova; cabe aos

escriptores, aos homens politicos, e aos artistas, uma lucta sem

treguas em prol da conversão ao credo ambicionado. Eis o naturalismo

expulsando da arte os romanticos, em meio das repugnancias geraes.

Mas acontece--e o desenterrado levou á parede o Moreira das magicas,

enfiando-lhe um dedito successivamente pelas diversas casas do collete

branco--acontece um bello dia, haver mais illustração na massa que no

grupo dirigente d'artistas e pensadores. Em tal caso, a massa vota

legitimamente ao desprezo aquelles nigromantes. É o que se está dando

entre nós co'a politica e litteratura. A corrupção dos partidos dá de

si...

Moreira escancarava a queixada num bocejo desopilante: quando uma

rebanhada de talentos da geração novissima furou por entre os

conversadores, ao tempo do desenterrado citar Beaumarchais, Ben

Johnson, e aquelle pobre Molière, coitado! No entanto o theatro

esvasiava ao de manso. A ribalta extinguira-se, os da orchestra

enfiavam os instrumentos em saccos de chita e erguiam as golas para

sahir. Aqui e além, nas ultimas ordens, um arrastar de cadeiras soava

ainda, vozes chamando, risos altos, e um deserto fazia-se na sala, sob

a agonia do lustre, e o cynismo do relogio que marcava cinco horas,

havia mais de sete annos.

Fôra a primeira representação dos _Dois Rivaes na Côrte_, quatro actos

de capa e espada escorrendo phrases feitas n'um entrecho infantilmente

pavoroso, onde as personagens se davam o _vós_ comparando-se ao

systema planetario, e reforçando os lances de effeito, com allusões

aos phenomenos atmosphericos e biblicos mais assustadores... o raio em

sua furia indomita, o diluvio, pragas do Egypto, miseria de Job...

havendo um monologo sobre a capa de José, que os _fauteuils_ tinham

mimoseado com surdos bravos d'adhesão. A peça era estreia de Rogério,

Rogério Vasques, primo da Alcina, moço que por tão raro trabalho

tomára definitivamente logar _na phalange dos nossos mais talentosos

escriptores, pelo que felicitamos o nosso amigo_, diziam os jornaes.

Um triumpho completo, os _Rivaes na Côrte_! Critico Borbas, do

_Seculo_, tão exigente em coisas de palco, parado no camarim

da Velledo, recitára com voz lacrimejante, no fim do acto, aquelle

bocado da separação--_parto, o coração me fica suspenso n'estas

paredes, testemunhas de tanto perdido amor! Só vós, ó Conegundes de

minha alma, conhecereis a fundo este báratro d'angustias, que como o

universal diluvio_...

Ah, mas como o Taveira dizia aquillo!

Dias antes, toda a litteratura em evidencia recebera do joven

dramaturgo um amavel convite de ceia na sala grande do _Central_, á

hora de acabar a primeira representação. Tinha sido um regosijo

fremente. Aquelle Vasques, bello moço, que talento maleavel, e tão

instruido! Com que então Champagne fino? Um pouco prejudicado em

preconceitos d'escóla talvez.

Genial Pirralho, todo cheviote amarello, bigodeira mephistophelica e o

grande ar de Paris, tinha mesmo dito--é um temperamento. E o _menu_

passava de bocca em bocca.

* * * * *

Deixando Alcina, Rogério não foi mais o bonifrate de provincia com

preoccupações de Chiado, ares de saude camponia, e ingenuidades

de primeiro amante. Gastára no convivio d'actores, janotas,

litteratos, cocheiros, e femeas avariadas, toda a bruteza sincera e

boa que na educação caseira adquirira. E hypotecando as ultimas

migalhas de herança, dormindo fóra, bebendo e jogando ás noites,

tornava-se pedante, depravado, amarello e pulha.

O theatro d'opereta em que primeiro Alcina estivera escripturada,

tinha sido para ambos a melhor escóla pratica de malandrice e usura.

Alli, cada figurante de scena ou frequentador de camarim, dir-se-hia

passar os dias na cogitação de explorar quem apparecesse á noite com

cara de tolo. Apenas Rogério, tendo a prima por amante, começou de

acompanhal-a ao theatro todas as noites, e a fazer na ausencia d'ella,

a quem chegava, as honras do camarim, viu-se logo rodeado por uma

série de ratos de bastidor e polvos de redacção--gente faminta,

intrigante, educada a comboiar boatos, cartinhas, subscripções,

pequenas calumnias de casa d'um para casa d'outro--que ia girando

n'uma baixeza d'inveja á roda dos charutos fumados, das correntes de

relogio, impingindo bilhetes de beneficio, offerecendo-se para

alcovitar, com pormenores de creada sobre as pernas d'uma,

os amigos d'outra, os seios d'esta e os cabellos d'aquella... todo o

arsenal de canalhice exigido em curso para tão equivoco mister.

Desengalfinhado d'esta tropa á custa de generosidades forçadas,

desprezos, empuxões, até soccos, Rogério teve de rechaçar depois uma

ciganagem d'outro genero, amabilissima, risonha, com emphases altivas,

articulando as palavras musicalmente, pondo luvas frescas todos os

dias, e tendo o nome a ouro nos annaes das lettras e das artes. Eram

os grandes actores da cidade, todos os generos e theatros, paes

nobres, ingenuas, galãs, graciosos--tenores tysicos, barytonos sem

voz, e essa variedade neutra de comediantes cognominados entre nós de

_conscienciosos_ ou _diseurs_, que serve para tudo e goza a estima dos

auctores, em razão do merito reles que exhibe, de jámais _desmanchar o

conjuncto_.

Eram tambem escriptores intermedios, _amanuensando_ das onze ás

quatro, fazendo jornal das quatro ás onze, finorios chouteando na

esteira dos gabinetes corrompidos, em faro de boa posta, louvando aqui

a vaidade dos ministros, além atirando lama ás ventas dos adversarios,

em eternos clamores contra a decadencia dos costumes, mas

rindo por dentro de tudo, tudo ouvindo, sabendo tudo, explorando com

tudo, e exhibindo-se em publico os ares de grandeza impeccavel, que

Vautrin recomendava aos Rastignac e de Marsay que lhe sahiam do

ventre. Rogério amou esta camaradagem nova, que nos seus annos de

provincia tanto admirára atravez das hyperboles dos diários. E por

influencia de contacto, relações, letras assignadas, condescendencias

d'Alcina, jantares, e uma bicharia d'assignaturas para publicações que

falliam ou não chegavam a ver a luz, acordou tambem litterato certa

manhã. Entrado na imprensa fez subir Alcina, que sem voz a esse tempo,

debandava para o drama, já tão magra e lombricoide, que não era

senhora d'engulir uma pilula, sem os jornaes a dizerem gravida de

cinco meses. Esta ligação d'Alcina com o primo durou pouco, vindo a

ser truncada apenas apresentaram Rogério á Velledo. Alcina era

ciumenta e teimosa; um nadinha infiel além d'isso! Não resistindo ás

furias de prazer exigidas pelo seu temperamento frenetico, a sua

franzina e pobre organização murchava e cahia. De manhã estava côr de

morta, seios sorvados, olheiras á bocca, olhos imbecis, e um ar

de prostração assustador, casado com uns reflexos glaucos,

que raiando-lhe das fontes, aos cantos das orbitas, iam terminar n'uma

_griffe_ de ruga.

E vinte e quatro annos apenas!

--Não bebas, muitas vezes lhe dizia Rogério, vendo-a engulir entre

chavenas de café e charutos fortes, uma quantidade de calices de

cognac. Mas ella sempre gostando. Ora adeus! Até punha fortaleza, voz

mais alta, o espirito vivo como um passaro. Depois tão petulante a

beber!... A viveza com que molhava a linguinha rutilante no licôr

esbraseado, revirando aquelles extraordinarios olhos pretos, humidos,

audazes, cheios de ganas secretas, que a salvavam ainda pelo fluido

calido em que ardiam, e de grandes que eram lhe faziam a cara

pequenina!...

--Não é tudo, disse-me Rogério uma occasião no Aterro. Beber é mau,

mas perdoava-lhe, que diabo! Com o cognac porém, vieram os vicios

supplementares, que de resto não aprecio nas mulheres, nem estava para

subsidiar em proveito dos devassos que iam lá por casa. Entende vossê?

Escrevia elle folhetins na _Gazeta do Sport_, chronica da alta-vida

segundo a testada, e bastante mal escripta para se crer que

assim era. Esses folhetins fizeram-no celebre, secretario d'um gremio

d'escriptores, successivamente premiado de Mont-Real e irmão dos

terceiros. Centros de litteratura amena e critica austera, livrarias

com cavaco e sociedades com bilhar, brindaram por elle. Deitou

almanach com bocadinhos democraticos, e um juizo do anno em que era

ameaçado o throno. Lindôso, que era quebrado, e ás bancas do Martinho

maravilhava localistas myopes e uma quantidade d'aspirantes,

abraçava-o em publico com palavras de pompa. E por duzias, os albuns,

os semanarios e jornalecos de districto, reclamavam trechos d'essa

penna hilariante que gottejava sol peninsular, ortographia sonica, e

mesmo asneiras, querendo Nosso Senhor. Discutiam-no. Já lhe davam

escóla e processo de factura. Era um moderado, um joven ecletico, meio

romantico, meio positivista, com predilecções d'assumptos doces e a

ambição das finas coisas mundanas, cheio d'imagens originaes,

chispando mordentes graças, vigoroso e probo, tendo os nervos

irritaveis d'uma mulher. Na frente, como chocas, os jornaes iam

conclamando unisonos:

--O talentoso amigo e brilhante escriptor...

Uma das bellas organizações da Peninsula...

Erguiam-no em rival de Lindôso, que a tantos se afigurava um prodigio

além de toda a espectativa. Festejado Peres nem dizia sim, nem não.

Deixar vêr! E o colossal Pirralho advertia que não era bom thuribular

debutantes, que podiam perder-se de vaidade, imaginando-se deuses.

E n'uma vocalisação emphatica:

--É o defeito dos homens do Meio-Dia, onde os temperamentos são

cálidos, e os modelos a seguir não abundam. Quando encetámos a nossa

publicação critica, era notoria a esterilidade litteraria em

Portugal...

Mas Horacio fazia um passo no grupo, armado dos seus oculos de ferro,

nisa curta, um pigarrinho erudito. E cuspilhando:

--Systematisemos a these, conforme o proceder do meu Comte!

* * * * *

Os convidados por Rogério tinham ordem de reunir no _foyer_, findo o

espectaculo. A peça acabára tarde, duas da noite; e primeiro que

a Velledo apparecesse, tiveram d'esperar boa hora e meia.

Emtanto falava-se da peça. Estava o melhor da litteratura e da arte. E

faziam-se apresentações. Festejado Peres trinta annos de dramas

historicos com applausos freneticos, rapoza velha em coisas scenicas,

conforme corria, apresentou a Rogério o grande Aurelio, uma _gloria da

scena_, interprete das suas creações, de quem Doux dissera n'um

atonismo absorto:

--_C'est un petit prodige, ce marmot là._ E a phrase ficára celebre.

Aquella apresentação penhorára Rogério, que muito commovido, voz mansa

agradecia com ar modesto. Além o pensador Horacio que fazia as

primeiras carambolas na cervejaria e continuava virgem de contacto

impuro, definia a arte segundo Comte ao Moreira das magicas e

sainetes, emquanto Pirralho dizia a vida na _Comédie Française_, o

ceremonial d'entrada no _foyer_, e como Croizette era a musa dramatica

moderna. Bulia em volta a ninhada _d'esperançosos_ côr de cidrão,

ganymedes que se davam ares, corcovando a espinha e rindo alto das

facecias do mestre, com o faro na ceia offerecida. E o mestre

esfogueteava pela sciencia em citações vehementes, fuzilando,

causticando, vibrando a nota heroi-comica, que na sua proza

fazia o delirio dos discipulos e a admiração do publico. Reinava

grande cordealidade. Pae nobre Tiburcio, que desde o desastre da

_Filha Roubada_, não falava ao inflexivel Borbas, veio lacrimoso

abraçal-o pelas costas. E em volta acharam bonito, e houve beijos como

entre damas. Rogério ia radiante por todos os grupos, abraçado,

elogiado, n'uma effusão d'intimidade que lhe punha o coração nas mãos.

Não se ouvia á sua passagem senão palavras quentes, bocados de critica

enthusiastica: a maior vocação, o mais extraordinario dramaturgo entre

os modernos, um dos maiores da Peninsula--e explendidissimo,

scintillantissimo--e como Sardou, e como Dumas filho, e como o velho

Augier... Os famintos tiravam o relogio, chamavam-no de parte,

davam-lhe tu, relembrando que tinham andado no mesmo collegio, muito

amigos sempre, não te lembras? Mas quem diria! Rogério, o 34, tão

enfezadito de cara, cheio de zeros em _portuguez_, e sahir-se agora um

escriptor d'aquella alçada! Elle a todos dava uma boa palavra, pedindo

opiniões em separado sobre a peça; o que esperava era franqueza, visto

não arder nos orgulhos balofos de certas sumidades. Moreira

tinha-lhe achado grande fundo historico, côr local como o diabo--sim

senhor--e que pena terem cortado o sarau do terceiro acto! De resto

afigurava-se-lhe D. Fagundes o seu tanto herético para uma plateia de

damas. No theatro, na escóla e no templo, a religião primeiro que

tudo: já Garrett o escrevera. Bem sabia que o espirito moderno... E

muitos parabens.

Mas festejado Peres, saracoteando a nalga roliça:

--Meu Rogério, disse elle cingindo o dramaturgo, has-de conceder-me,

conceder-me, que tenha a sciencia do drama historico... drama

historico... tão descurada pelos rapazes de hoje, rapazes de hoje...

Já o fiz saber no prologo da minha _Duqueza de Bragança_... de

Bragança. Eu cá, escrupulosissimo no theatro. Será casmurrice, eh! eh!

casmurrice... mania de velho; deixal-o ser!... Hein? deixal-o ser.

Missonier, antes d'algum quadro militar... quadro militar... até

estudava os botões dos fardamentos... eh! eh! dos fardamentos. Eis

onde eu levo o escrupulo tambem... E o publico dá palmas... dá palmas.

Posto isto, e como teu amigo que sou... teu amigo... sempre

direi que commetteste um crime de lesa historia... eh! eh! lesa

historia... pondo compota de pecego no festim de Januario de

Mendanha... compota de pecego.--E de chapéu alto para a nuca, as

orelhas despegadas do craneo, o grande homem recordava um d'esses

burros com mitra, arrancados ás _festas dos doidos_, nas cathedraes da

Edade Média.

--Pelo correr do seculo quatorze... seculo quatorze... proseguiu elle,

não era conhecida no reino aquella doçaria, conhecida no reino... que

só remonta ao ultimo quartel do seculo dezeseis, eh! eh! seculo

dezeseis... Consulta Viterbo, fr. Bernardo de Brito, o abbade Castro,

abbade Castro... Este pormenor não é futil, como parece, futil...

porquanto é da compota de pecego, da compota... que sáe a grande scena

do terceiro acto, a grande scena... aliás magistral, sem favor,

magistral! Linguagem vernacula, linguagem Herculano... lá isso sim,

meu velho, isso sim... Falta talvez o fundo historico, eh! eh! fundo

historico... vacillações na côr local, hein? côr local... Mas és novo,

coisas d'estas só veem na minha edade... na minha edade. E aqui para

nós, hein? para nós. Vão sendo horas de manducar uma bucha,

manducar.

Rogério ardia por ouvir Borbas, e sobre todos o desenterrado, Lindôso

de nome, critico d'altos processos, por muitos calumniado de precoce e

viridente genio das raças modernas, o manitanço! Mas sentiu-se um

_froufrou_ de sedas no escadim doirado do _foyer_, e uma voz argentina

e alta em que dominava o grave, disse duas vezes ou tres,

risonhamente:

--Boas noites, boas noites!

Era a Velledo. E atraz d'ella pelo braço d'actores, maridos ou coisa

parecida, outras actrizes se mostraram, a Laura, a Elisa, a Maria

Freitas... Os trens esperavam á porta do theatro. Falando ao mesmo

tempo, n'uma alegria de boa gente que alarga o coração, essa sociedade

foi abandonando o _foyer_. Havia de todos os generos, modestos,

espirituosos, eruditos, familiares, calemburistas, os de má lingua, os

de má fama, e trambolhos lyricos, gente infeliz ao jogo e fanada de

orgia. Aprumado e grandioso, ia Pirralho no meio dos seus discipulos,

citando descobertas e ramos de sciencia que mais peso causavam no seu

caco de homem celebre, pelo arrevezado das designações,

forçando os contrastes, e querendo achar a nota original das coisas

por um burlesco d'encomenda. No alarde d'erudição e individualidade

que o preocupava, as citações saltavam-lhe aos magotes, desordenadas,

occasionaes, n'um fogo d'artificio a duas côres. Ás vezes calava-se

interdicto, circunvagando as lunetas, na desconfiança de haver sido

vulgar como a outra gente. Mas rodeavam-n'o para algum paradoxo

applaudido, farejavam-n'o os discipulos por todos os lados, inquietos,

com a gargalhada prestes, tendo nos olhos piscos o deslumbramento das

gravatas do grande homem, os seus sapatorros inglezes, e o largo gesto

que parecia ceifar de roda as mediocridades que de longe vinham

recolher palavras da sua bocca de semi-deus.

De seu lado, o desenterrado Lindôso abotoava modestamente o casaco de

botões recomidos e cotovellos surrados, não tendo ainda _coterie_; e

humilde, olho aceso, faulhava d'inveja sobre os que iam de braço com

femeas, sentindo as primeiras seccuras do amor vicioso. Então foi um

movimento alegre de partida, um borborinho de risos e vozes que já não

procuravam entender-se. As senhoras carregavam sobre a fronte os

capuzes das _sorties-de-bal_, rendas de froco, ou simples tules

picados de abelhas de oiro; e pela escada, apanhando os vestidos n'um

desleixo provocante, mostravam meias de seda bordadas de lado, e esses

primeiros lineamentos da perna, que lembram contornos de jarra

etrusca, pela expansão esvasada e alta das curvas. Laura, uma loira

redondinha que findava o primeiro amante, borboleteava pelo braço do

festejado Peres, cujos sessenta mantinham pretensões ainda de

galanteria e elegancia. E a cada passo ella deitava-lhe a cabecinha no

hombro, mostrando os dentes miudos. Maria Freitas era uma grande

morena, esqueletica e muda, a quem davam papeis de velha, para que

sempre tivera vocação. Não tinha amor permanente, e como quartos

d'estalagem, alugava a quem vinha, o seu coração hospitaleiro. Entanto

as collegas toleravam-na, porque apesar de tudo era util, e pelo

contraste fazia as outras virtuosas. Declinando nos quarenta e cinco,

os olhos de Elisa começavam a turbar-se, cercados de pequeninas rugas

nas palpebras, como os dos papagaios moribundos: e apenas lá longe,

nos dias de crise frenetica, se incendiam ante collegiaes frescos,

d'ar timido e riso doce. Era uma gorda pintada de branco, cheia de

signaes, grande talento de comedia, e tendo pelas mulheres o desprezo

d'um homem. E o cortejo ordenava-se, desfilando direito á rua. Rogério

deixára-se ficar, na esperança de dar o braço á Velledo, que tambem

aguardava o quer que fosse. E quando ia offerecer-se, viu-a voltar-se

contra o brasileiro, pôr-lhe no hombro a mãosinha calçada em luva de

canhão molle, a dizer-lhe com a bella voz de scena:

--O meu amigo será bastante bom para me deixar o seu braço?

Aves Migradoras · 第 10 / 13 段