O judeu deixou-me logo, alegre por ser lembrado, e foi abrir o estojo
do instrumento.
--Que ridiculos são estes sentimentos! pensava eu. Apertam-lhes as
mãos n'uma estufa e a sós, muito e muito, e desatam a chorar.
Grandissimo tolo! Não o pode amar? Fez ella muito bem. Amar um homem
que em logar de cobrir de beijos uma mulher lindissima que se rende,
fica a tremer, seria uma vergonha: apre! Fui ter com a condessa,
enfastiado e murmurando:
--Fosse a cousa commigo...
No dia seguinte, tinha eu acabado a consulta quando chegou Kebler.
--Vem acabar-me a historia de hontem?
--Venho sollicitar a sua presteza de atirador.
--Chegou o theologo? desafiou então um ministro do altar? Barbaro!
Cruel! Desalmado!
--Qual! Tenho um projecto.
--Acceite este charuto, aqui tem lumes, sente-se e conte-me o
projecto.
--O alvo do irmão de Esther fica perto da estufa; pois não fica?
--Creio que sim.
--O senhor vae alli exercitar-se muitas vezes, segundo me disse o
Alvaro.
--Vou.
--Ouça. Eu levanto um caixilho da estufa...
--Mas é preciso a chave que abre todos esses caixilhos. Talvez não
pensasse em tal?
--Tenho-a aqui; roubei-a agora mesmo. Posso guardá-la por estes dias.
O tempo está chuvoso e frio, de modo que não ventilarão a estufa por
agora.
--Então?
--Aberto o caixilho, o senhor fingindo apontar ao alvo,
aponta ao vaso da China e...
--O senhor ganha o premio, e eu fico a chuchar o dedo.
--Que? Ama a condessinha?
--Eu amo toda a gente; que diabo!...
--Estou esperando a sua resposta.
--Que eu parta aquelle vaso da China porque daria tudo? Está louco!
--Olhe para mim. Se o não fizer...
--Dá um tiro no craneo; dá?
--Qual! fico solteiro toda a vida.
--Bem, essa simplicidade enternece-me. Esteja amanhã aberto o
caixilho, e a bala esmigalhará o vaso. Mas como entra o senhor no
jardim?
--Saltando o muro que o separa da casa em que habito.
--O senhor é o diabo.
--Se a adoro!
Na noite seguinte, havia reunião em casa da condessa. Os grupos das
mais noites. Ao fundo do salão, a banca de _whist_, onde o cultor da
pre-historia se notava de lunetas altas, sob que as pupillas
fuzilavam. No divan amarello, a condessa queixando-se-me da falta de
apetite e de tosse sêcca. Esther radiosa, no meio das suas
amigas. Zebedeu Kebler muito pallido e muitissimo preoccupado, ferindo
de um modo inteiramente magistral as cordas da rabeca.
--Meus senhores, disse a condessa em voz alta, erguendo-se. Tenho a
honra de lhes annunciar o casamento de minha filha Esther com o senhor
Zebedeu Kebler.
Ouviu-se o estalido de uma corda de rabeca, subitamente quebrada. O
conde das lunetas erguera-se, aprumando a alta estatura. Esther
confessava ruborisada que... _Deus o queria._ Tinha apparecido em
pedaços o vaso da China, sem que lhe tocassem. E de mais amava aquelle
rapaz, tão elegante e tão distincto, de cujo braço seria um encanto
pender coroada de flôres de larangeira.
--És meu padrinho! disse-me com um abraço de reconhecimento, o judeu.
--Já agora... respondi.
O meu presente nupcial, foi um vaso chinez inteiramente igual ao que
apparecera esmigalhado. Crescia n'elle um _hibiscus_ do Japão,
trepadeira da mais rendilhada contextura, folhas exoticas e flôres em
grinaldas.
--Eis porque eu daria tudo pelo vaso quebrado, disse a Kebler, com uma
vaga saudade de amador. Se o conseguisse adquirir, completaria o mais
bello par europeu. Guardem esse vaso no logar do pobre esmigalhado, e
que elle seja o talisman de um amôr, fecundo em _bébés_ de olhos
azues, menos romanesco que o amôr do primo, e mais durador por isso
mesmo.
Um frou-frou de saias fez-me voltar a cabeça; á porta, a cabecinha de
Esther assomára curiosa, e os seus dentinhos brancos de gata contente
brilhavam, sorrindo de um modo encantador.
Nunca fui piegas, palavra de honra--mas inda hoje tenho calafrios
pensando nos dentes d'aquella mulher.
CORONADO
Ha sete ou oito annos vinha eu do Poço do Bispo no electrico, quando
nas alturas da Mitra entrou um meu velho amigo e camarada, Dr. P.,
clinico da localidade, com quem vim conversando até á Baixa.
Trazia na mão um numero de revista litteraria, e abrindo-o no sitio
d'uma peça poetica, impressa, perguntou-me se eu ouvira alguma vez
fallar da Coronado. Fiz com a cabeça que não, e elle, explicando que
era o médico da casa, em duas palavras fez o elogio sumário da sua
cliente. Mez e meio havia que esta senhora, já então de oitenta a
oitenta e dois annos d'edade, mas completamente em plena validez
mental e muscular, se fôra por uma escada de pedra, quebrando um braço
pelo terço inferior do cubito e do rádio.
Poucas esperanças tinha o clinico, dada a edade provécta da
paciente, de se virem a soldar os topos da fractura; senão quando, ao
lhe ser tirado o aparelho, se viu como os ossos quebrados tinham
adherido, e a cura se fizera completa e ás maravilhas!
Emquanto imovel no leito, a doente, cuja nervosidade frenetica
espantosamente sofria de estar preza, para enganar o tempo e distrahir
o espirito volitante, ideára e compuzera em quadras endecasylabas, uma
poesia festiva ás suas mãos.
E aqui o médico estendeu-me a revista para eu lêr.
Uma das mãos da Coronado estivéra mez e meio entrapada nas ligaduras
do aparelho de fractura, sem vêr a outra, e a poetiza figurava-as como
duas amigas ou irmãs gémeas afeitas a comunicarem no seu dia a dia
impressionista, a imitarem-se os gestos, a procederem por sentimentos
e instinctos identicos, e que uma tão longa separação lançára no
desespero e na saudade.
A alegria do novo encontro fazia-as exultar em caudaes de ternura e
hossanas de prazer. Os versos eram ricos, nem farfalhudos, nem ôcos,
com significados precisos, frases de bronze sonoro, imagens
faiscantes, claras, simples, dando uma ideia de riqueza sóbria, e
mostrando uma artista experiente e um pulso de homem. Não havia
hesitação nem cançaço, nem essa pulverisante banalidade dos velhos que
vivem de restos e, perdido o séstro construtivo e inventivo, fazem
litteratura de toadas e sandezes. Qualquer Fernandez Shaw ou Eduardo
Marquina, Santos Chocano ou Manoel Machado, Ruben Dario ou Francisco
Vilaespesa, poderiam ter assignado esse texto de bravura, doce e
intenso, vivido e sentido, verdadeiro cantico d'uma alma unindo a
transcendencia lyrica á precisão. No tempo da Coronado os poetas ainda
eram só romanticos ou classicos...
O individualismo hysteropatha não tinha creado os grupos de _cabaret_
e as patrulhas maniacas de symbolistas, instrumentistas, decadistas,
ideologos, esthetas, neo-mysticos e magnificos, que depois inçaram a
poesia de brochuras pathologicas, dando a impressão d'uma casa
d'orates com mais exhibicionismo que estro, e menos inspiração que
maluqueira.
A poetiza desde 1874 ficára isolada, pela tristura claustral da sua
vida, das correntes poeticas que agitavam o mundo, vindas dos
altos de Montmartre, té aos centros d'insurreição de Madrid
e de Lisboa. Poetava á antiga, com um gesto nobre e a palavra fluida
da velha escola hespanhola, que tinha em Espronceda, seu conterraneo
tambem d'Almendralejo, um dos mais altos e orgulhosos paladinos.
Despertou-se-me então o desejo de, senão conhecer de perto, pelo menos
entrevêr uma vez sequer a singular creatura que aos oitenta e dois
annos rimava com uma pujança feraz tão bellas coizas. O visconde de
Castilho e o dr. Souza Viterbo a quem algumas vezes fallei na
Coronado, depois d'elogios enlevados ao talento e viveza de
conversação da illustre enclaustrada, evitavam pormenorisar detalhes
que me ajudassem á creação d'um retrato physico ou moral, justaponivel
ao indeciso perfil que a leitura dos versos me acordara.
Pouco a pouco porém outros informadores foram surgindo, ao acaso das
apresentações e das palestras, e agora um, outro ao depois, pequenos
traços de luz vieram vindo, á força d'indiscrição, devo dizer, que
talvez pareça violar o recato da vida intima, mas que pelo significado
ultimo d'exaltação admirativa, estou que m'o perdoarão aquelles que
como eu não pódem examinar uma obra d'arte, senão tocando-a
e palpando-a, primeiro que se enthusiasmem da sua rareza e possam
comungar da sua singularidade e formosura.
* * * * *
Com os informes de todos esses confidentes anonymos, pela mór parte
amigos e para assim dizer vassallos graciosos, pude alfim reconstituir
da gran senhora a estatua arcaica, entrevêl-a como atravéz dos veus
d'um santuario, e do lado esquerdo do peito acender-lhe uma luz, que
póde ser não seja alma, mas que servirá para marcar o sitio onde bateu
um coração.
Morto o marido em 1891, Carolina Coronado não consentiu, por mais que
a lei portugueza insistisse, em separar-se do cadaver. Veio a policia,
vieram os magistrados, veio o ministro de Hespanha, veio o ministro da
America, e deante de todos estes symbolos de força irrevogavel, a
varonil mulher opôz a razão absurda da sua paixão esponsalicia, a
aflição das suas saudades, e a ofegancia romantica dos seus zelos
mortuarios. Não queria que a terra do cemitério provasse o corpo
amado, e os adorados restos deixassem um momento d'estar sob
a impressão dos seus cármes dolorosos, ouvindo-lhe todos os dias a
voz, como se sob o encanto d'ella o drama da podridão custasse menos
ao morto, e, sucessivamente exaladas do seu féretro, _odes_[1] vitaes
pudessem vir impressionar e envolver de sugestão passional, o espirito
amoroso, supersticioso, solitario e monjil da abandonada.
[Footnote 1: Fluidos telepaticos, animicos, que se desagregam dos
_mediuns_ em somno hypnotico, chegando a tomar formas fotografaveis.]
Como Joanna _a doida_ ella acompanha, da casa de Paço d'Arcos para o
palacio da Mitra, o cadaver de Justus Perry, e á força de teimosia
imperiosa, de soluços, de suplicas, consegue alfim que as autoridades
fechem os olhos, movidas talvez pelas imposições dos diplomaticos;
quem sabe mesmo se pela feitiçaria dramatica do feito, deixando vêr
n'essa estremenha uma alma do _Romancero_, de grandiosa esculptura e
anormal poder de sugestão!
Desenove annos, n'um simples caixão de chumbo, envolto em madeiras de
cedro ou d'ebano, o corpo de Justus Perry permaneceu na
capella da Mitra, sob o fulgor perpetuo da lampada alumiando as
estatuas dos nichos e os icones dos altares: até ha poucos dias irem
os dois, marido e mulher, caminho do pantheon de familia, em Badajoz,
onde como na vida as suas nupcias seguirão, na paz do nada.
* * * * *
Esta casa da Mitra foi não só mausuléo de Justus Perry, como tambem da
Coronado, pois, salvo uma ou duas vezes que teve d'ir a Hespanha por
motivos de familia ou d'interesses, nunca mais a illustre mulher
deixou aquella estancia melancholica, que foi realmente o seu claustro
e o seu mosteiro.
Quem passava na estrada d'aquelle laborioso e popular Poço do Bispo,
em plena turbulencia dos carros de carga, dos silvantes comboios, do
martelar das oficinas, do fumegar das altas chaminés, dos grupos de
gente tisnada e arremangada, certo não poderia supôr que por traz
d'aquellas cantarias altas e d'aquellas podridas janellas, uma
creatura rara sofria e meditava--uma creatura d'alma heroica, da raça
das Virgens d'Avila e das Donas Marias de Molina, e que aos oitenta e
dois annos deslumbrava os amigos com a sua lucidez desconcertante, a
sua verve picaresca, a sua eloquencia de homem, a sua belleza de
rainha, e tal poder de ressurreição e recordação, que todos os
fantasmas da sua mocidade viviam e existiam _reaes_, a cada simples
apêlo dos seus dedos e estranha palavra dos seus labios, como as
ressurgiria o _medium_ Egglinton, ou Eusápia Palladini, n'alguma
sessão de hermetica e telepatica.
Fechada completamente para as menores sugestões e aparições
contemporaneas, não recebendo senão dois ou tres velhos amigos que lhe
fallavam do passado, não chegando sequer á janella, por uma especie de
horror aos inventos modernos e aos aspectos da multidão grosseira e
circulante, Carolina Coronado vivia como se ha trinta annos a tivessem
fechado n'uma caixa, tapando-lhe os ouvidos e os olhos para não sentir
as evoluções e reviravoltas do mundo alheio e exterior.
D'aqui resultaria o que geralmente sucede aos cegos e a certos
surdos-mudos perspicazes, que á mingua de sentidos proprios que lhes
desdobrem a attenção sobre o de fóra, vêem para dentro, _com
força décupla_; d'onde uma hyperacuidade d'imaginações, visões, uma
vida febril de sonhos e quiméras, uma sagacidade felina para induzir
de pequenas causas, efeitos mysteriosos e longinquos, que explica em
muitos, por exemplo, suas faculdades de poetas e de musicos, de
calculistas e filosofos, e na Coronado esse fulgurante poder de, em
meia hora de palestra, nos abrir perspectivas profundas, de
historiador e psychologo, sobre os meios sociaes e a gente illustre,
ou simplesmente anedótica, que ella conhecera e tratara em tempos
idos.
Graças a essas faculdades cydoramicas, a esse instincto artista da
escolha de traços com que rhembrantizar e exprimir o mais intenso das
personalidades e das almas, Carolina Coronado fazia-nos viver com
emoção profunda quadros das tormentosas ou desvairadas epochas do
reinado d'Izabel II, entre 1836 e 66.
Era o corregedor Pontejos, uma especie de intendente Manique, que
elegantisou e saneou Madrid com requisitos de benemerencia e energia
eguaes aos d'este, mas sem o sobrecenho despotico que a historia lhe
atribue.
A aristocracia e a elegancia representando-se pelas casas
ducaes d'Ossuna, de Liria, de Vistahermosa, de Gor, de Rivas, de
Fernan-Nunez, d'Alba, de Medinacelli, de Dénia, d'Abrantes, de Frias;
pelos marquezados de Miraflores, do Socorro, de Casa Riera, de Santa
Cruz e de Pover; pelas casas condaes de Oñate, de S. Bernardo, de
Guaqui, d'Altamira, Torre Muzquiz, etc., cujos paços disseminados pela
cidade velha, verdadeiros museus d'artes sumptuarias e riquezas, se
abriam d'inverno para sucessivas festas e saraus, e cujas mulheres
faziam ás tardes, nos desfiles do Prado e da Castelhana, nas soirées
do Theatro Real, ou nas recepções do Palacio do Oriente, revoadas
esplendidas de bellezas que as memorias do tempo deixaram celebradas.
Era o tempo das primeiras emprezas d'irrigação, navegação e
ferro-carris, que acordavam em todos os paizes, na ancia de renovação
trazida pelo constitucionalismo, como um reverdecer de novas estações;
o tempo dos grandes emprestimos para expedições coloniaes e guerras
politicas, quando argentarios como Caballero, Salamanca, Ceriola,
Perez-Sevane, Calderon, Benisa y Lafont, floresciam na finança
hespanhola, como nas cathedraes os _monagillos_ encarrégues,
d'entreter o oleo das lampadas, para que a fé se não extinga, e os
deuses se não vejam abandonados.
Politicos e estadistas como Arguelles, Mendizabal, Martinez de la
Rosa, Calatrava, Olozaga, Herros, Narvaez, O' Donell, Espartero,
Serrano, Prim.
Homens de letras como Lista, Gallego Breton, Gil e Zarata, Lopez
d'Ayala, o poeta Quintana, o poeta Zorrilla, Mariano Larra (_El
pobrecito hablador_), Vega e Hartzennbuch, Mezoner Romanos, Pedro
d'Alarcon, Fernandez de los Rios, Cambronero, Juan Valera... Artistas
como Ventura d'Aguilera, os esculptores Llaneces e Solá, Marinas (o
autor da estatua de Velasquez), e nos seus doces _recuerdos_ de
Sevilha, os dois Becquer, mortos de fome; Valeriano o pintor, e
Gustavo Adolfo, poeta d'estirpe grega, d'essencia olympica com a
delicadeza e a graça d'um Hegesipe Moreau, na fantasia lunar d'um
Nathaniel Hawtorne ou d'um Bret Hart.
Ouvil-a descrever, comentar, caricaturar toda esta gente, desenhando-a
em dois riscos, caracterisando-a com duas anecdotas d'escolha,
relampejantes sempre, e sempre finas, lançando-a na _melée_ social,
depois de que esquissava sumariamente as essencias directrizes e as
paixões tendenciosas, era um d'estes cursos de historia fallada, uma
d'estas delicias cerebraes que davam da narradora a impressão mais
assombrosa, e induziam o ouvinte a ficar alli a escutal-a eternamente.
* * * * *
Ha quatro ou cinco annos que sob pretexto de notas para uns artigos
sobre azulejaria artistica, consegui da residente illustre da Mitra
licença para percorrer rapidamente a escada e alguns salões. De
combinação, alli me esperava um amigo da dona da casa, e meu, o qual,
fingindo surpreza no encontro, me apresentaria á Egéria, ao tempo
sósinha em palacio, pois sua filha estava em Badajoz. Das riquezas
patrimoniaes da Coronado, e das acumuladas pelo marido durante as
vastas emprezas comerciaes e industriaes em que fallei, grande parte
devia ter cahido em sorvedoiro, pois tudo na residencia denotava,
senão estreiteza de meios, pelo menos um estado de finanças bordejando
de perto a derrocada.
Em 1891 a casa e quinta da Mitra tinham já sido vendidas por
54 contos a certo advogado artista de Lisboa, cujas consultas então se
pezaram a oiro, e que a Coronado trouxera ao seu serviço em não sei
que trapalhadas juridicas, demandas, pleitos, que levariam parte dos
caudaes. A escriptura de venda estabelecia a clausula de residir na
Mitra a vendedora, até final de vida, e certamente o preço da
propriedade fôra para liquidar os honorarios do causidico, e
provavelmente cobrir compromissos ou dividas que tirariam o somno á
escriptora. Ella não podia fugir á lei fatal que põe os cerebraes do
ramo artista na contingencia d'ignorarem, pela mór parte, o valor do
dinheiro, e a arte judenga de o fazer frutificar em especulações e
trafegos rendosos.
A morte de Perry, pondo ponto na tutela sensata e escrupulosa gerencia
dos fundos do casal, não teria precavido a viuva, par e passo, contra
os futuros perigos de gastar sem contar, mórmente ficando as contas
entregues ao zelo incerto e enganosa honradez d'administradores e
feitores, que são bons ou máus conforme a fiscalisação a que os
sujeitam.
Está-se a vêr o mecanismo porque, morto o marido, a Coronado
transita da fartura cómoda para a escassez molesta e tragica.
É sempre o mesmo, n'estes navios onde o piloto falta, e onde a
tripulação perde o respeito. Corro pois uma gaze sobre este lance da
historia, que de resto só entristeceria o leitor contra as injustiças
da vida, e passo a dizer que a minha apresentação foi captivante, e a
illustre escriptora, em quatro palavras d'aquella cordealidade
hespanhola que em cortezia familiar nenhuma eguala, pôz a minha alma
rendida deante do gesto infinitamente nobre da sua mão d'abadessa e
imperatriz viuva, que pude alfim beijar, mui reverente.
Com um vestido de velludo preto, de cauda, branca de neve, os imensos
olhos de velludo molhado, que o fulgor do genio rejuvenescia no leve
engêlho das póchas orbitarias, Carolina Coronado aos 82 annos era uma
mulher alta e direita, de talhe esbelto, por ter ficado magra, e com
dois bandós nas fontes, frizados e nevados, como esses que os retratos
dão á rainha Izabel II nos seus ultimos annos de Paris.
Fallava um hespanhol claro e castiço, florido de modismos
que pela graça rebuscada tinham um oloroso sabor de lingua velha;
hespanhol de provincia classica e de convento, que seria o fallado
entre a gente bem educada de ha meio seculo.
Ás minhas palavras de saudação, ella, certo para atalhar o discurso, e
evitar talvez que eu me estendesse, perguntou-me se era de Lisboa; e
conhecida a minha origem transtagana e a terra de charnéca onde eu
nascera, acrescentou que então eramos quasi vizinhos, pois Villa de
Frades distaria talvez uma duzia de legoas d'Almendralejo e La Serena,
a patria da sua familia, em cujas parochias tinham banco fechado os
Romeros Tejadas e os Coronados Cortez d'aquellas terras. Envaidecia-a,
de resto a sua origem estremenha sem mistura. Ha dois sitios de
Hespanha que imprimem caracter proprio aos naturaes: Estremadura e
Aragão. D'alli teem sahido artistas, guerreiros e politicos
d'excepcional fragor e intensidade.
--Se eu tinha viajado em Hespanha?
Todo o hespanhol é sedentario e bairrista, porém o portuguez quasi que
o excede... De resto, para um portuguez viajar em Hespanha, é
percorrer um pouco a sua terra. «Hespanhoes, resumiu ella,
somos todos nós, os peninsulares».
E de repente, voltando-se para mim--Se eu era iberico?
Cuido ter feito um gesto que, imperceptivel embora, contudo a minha
interpelante colheu, _al primer vuelo_, medindo n'elle a patriotice
chocada em leituras da _Filippa de Vilhena_ e outros canastrões
theatraes archisandeus.
--_No se moleste usted. No es mas que hablar_, contraveio logo com o
mais gracioso gesto d'acalmia. E foi dizendo:
--Tinha sido o erro de Filippe II, tão grande politico, não transferir
logo para Lisboa a capital do reino unido. Se assim tem feito,
Portugal e Hespanha estariam hoje abraçados n'uma nacionalidade unica
e pujante, o que evitaria a ambos a decadencia funesta que durando vem
té ao presente. De mais que, segundo as datas da historia fidedigna, a
perda da independencia não foi tão dolorosa a Portugal como se diz nos
manuaes para as escolas. Em toda a parte os povos mechem-se
principalmente por interesses, e os primeiros passos da dominação
hespanhola em Lisboa foram até sympathicos á população,
sobre quem Filippe II exerceu uma atracção benevola e singular...
Um erro deploravel! Os nossos dois paizes reunidos ficariam na carta
com uma massa de territorio maior que a França, e as suas colonias
somadas dariam um dominio colonial superior ao da Inglaterra.
Tinhamos tomado assento na ultima de tres salas que formam a parada de
recepção da residencia, e que com quatro janellas de varanda sobre a
rua, e duas janellas-portas ao terraço, tinham luz deslumbrante, em
grandes resteas de sol primaveral.
Tudo no mobiliario velho e desbotados tons das braçadeiras, cortinas e
alcatifas, chorava a tristeza pudica das coisas de luxo que a penuria
assedia, e teem de morrer em serviço, como os cavallos velhos nas
carroças. Cadeiras modernas de Vienna alternavam com esplendidas
poltronas e sofás, cuja seda o sol e o roçar das cabeças fanára e
mesmo tinha esgarçado em certos pontos. Nas _carpets_ de preço, gusano
e pés tinham já consumido a lã das flores e dos desenhos apparecendo a
trama em séries de cordas varicósas.
A alguns moveis artisticos faltavam-lhes ferragens, precisavam ser
refrescados e envernizados; jarras da India, sobre columnas,
voltavam para a parede os buracos e as rachas dos desastres; casaes de
pombos, livres pela casa, tinham feito ninho sob um bufete, borrando
tudo; e até, n'uma estante lindissima, os proprios livros amigos,
confidentes de dores e desalentos, até esses tinham um ar d'exilados,
e o geito de nos dizer que o seu tempo passára, e lhes doía a velhice
e as suas imensas saüdades de Madrid...
De pé, na sala, a illustre senhora mostrava pela janella aberta
aquella enseada morta de tres leguas que o lisboeta chama _mar da
palha_. A outra margem silhuetava no azul sua paysagem terna e
esfumadiça.
--Diga-me se isto não é a rada d'uma cidade de dois ou tres milhões de
habitantes, chave do comercio atlantico, e capital soberana da Iberia
una e congraçada.
Eu por mim não queria saber da tal Iberia una, reconhecendo entretanto
que o erro de Filippe II impedira talvez a realisação d'um bello sonho
de nacionalidade formidavel, enquanto na hora presente, com dois
paizes egualmente preguiçosos e incapazes, loucura fosse ajuntar
misérias que já dolorosas eram, separadas.
A enseada do Tejo é que verdadeiramente prendia os meus
olhares, vasta, amorosa, em azul pallido, listrada de correntes, e com
placas espelhadas d'agua morta. Algum vaporeto passava para
Aldegallega ou Barreiro, fumando distrahidamente o seu charuto; alguma
falúa ou barco de pesca desfraldava a véla de guião, quadrada,
vermelha com a latina á pôpa, e aquelle gesto airoso, ideal, gaivotal,
de fender a agua, patinando. Aquillo lembrava em Veneza as travessias
para o Lido, sob os esverdeados céus do Adriatico, por uma tarde assim
primaveral.