suas breves palavras resabiam a qualquer coisa de penetrante, como se
derivassem de uma vontade séria de enfermeira. Os seus vestidos
escuros, mal roçando nos moveis, como levados n'um vôo de borboleta,
as suas lentas mãos guiadas á descoberta de fazerem o lar confortavel
sem parecerem tocar nos objectos, uma percepção sagaz de concentrarem
cuidados no gabinete dos livros, na ordem dos papeis, na tamisação da
luz, nas flôres da secretária, tudo isto que dir-se-hia casual, por
vezes como que se lhe affigurava nascido de uma ardilosa malicia de o
prenderem pelo reconhecimento a essa vida a dous que em principio
tamanhos sustos lhe trouxera. Esta fascinação que derivára primeiro do
egoismo envaidecido de sentir em tôrno a vida sem attrictos, com as
comidas a horas e bem feitas, a casinha tépida, macios os _fauteuils_,
a atmosphera perfumada e a plethora de bem-estar constante
de riqueza, defendida ás linguarices dos estranhos, pouco a pouco
começou a lhe subir do estomago á intelligencia, e a figurita d'ella,
severa, apagando-se na meia luz de um recato freiratico, pallida e
diaphana como uma sombra do paraizo, passava ás horas calmas de estudo
pela cabeça d'elle com uma ponta de desejo que lhe tornaria a nupcia
fecunda, se não fôra a fatalidade dos homens de genio não poderem
propagar-se sem degenerações na descendencia. Começou a presentir
então a companheira por toda a parte, nas suas ideias e nas suas
leituras, no leito, a seu lado, com os olhos fechados e acordada a
espreitar se elle dormia, nos seus passeios longinquos pelo campo, nos
bicos da sua penna, nos calculos dos seus negocios, a um tempo causa e
fim, phantasia e realidade, e com tal poder de avassallação e
absorpção que o pobre bohemio acabou um dia por confessar a si proprio
essa incondicional escravatura, deliciado, abjurando as antigas
brutalidades de publicista solitario, a arte mascula da analyse
violentando as psychologias verde-podres do moderno, os excessivos de
lingua, as irreverencias sardonicas da _boutade_,--todas as qualidades
crueis que haviam feito d'elle em solteiro o bacteriologista
maximo das degenerações sociaes do seu paiz.
Longe de parecer reparar n'este rebaixamento de plano psychico do
esposo, ella como que só pensava em lhe encadear as attenções no
sentido dos antigos trabalhos litterarios, afastando-o das
convivencias massadoras da aldeia, pondo ao alcance da sua mão livros
de estudo, interessando-se pelo seu passado jornalistico sem ciumes e
até repassando ella mesma, através dos seus conselhos, os assumptos
que mais pudessem oriental-o na directriz do seu antigo frondismo de
escriptor. Em alguns mezes o predominio foi tal que o espirito d'ella
transfilhára-se inteiramente ao corpo d'elle.
* * * * *
Uma noite de novembro, já depois das colheitas da uva e da azeitona,
aconteceu que examinando os dous detidamente as contas da lavoura,
ella de repente observasse que era tempo de sahirem da modestia
financeira em que viviam.
Como a situação de fortuna do casal nunca fora nem melhor nem peior do
que ora estava, aquillo surprehendeu Jorge Miguel, como se
nas palavras da esposa houvesse reprimenda á sua inercia.
Ella, sem se perturbar, tomou ao acaso um papel da secretária, agarrou
n'uma penna, e ao cabo de alguns pequenos calculos feitos n'uma
calligraphia tortuosa, começou a dizer, com a sua voz de pauzas doces,
que as vinhas estavam velhas, o phylloxera á porta, os terrenos
estanques da produção sem adubo, o vinho sem mercado, da qualidade
horrivel do fabrico; e quanto ás terras de cereal, parte não dava, por
desleixo do preparo, o que devia, e a outra parte em pousio, coberta
de abrolhos e de estevas, apenas nos começos do outomno era pascigo
para as cabras dos pastores furtivos da visinhança. O remedio era uma
remodelação completa do regimen agricola, em quatro annos: nas terras
de pousio lançar plantações americanas, reengorgitar os almargios da
ceara com os elementos chimicos necessarios á cultura intensiva,
ampliar a extensão aravel das terras, plantar arvoredo, regenerando ao
mesmo tempo a industria da vinha, cujo grosseiro preparo estava ainda
na fermentação do mosto em barros pesgados, e seu esforço alcoolico
com aguardentes de balsa ao esturro e á porcaria do alambique.
Demandava a nova empreza capitaes de alguma fórma custosos
para a relativa modestia dos seus teres; mas poderiam começar aos
poucochinhos, e para isso as economias de tres annos de vida
provincial talvez bastassem, e a actividade e a vigilancia d'elle
fariam o resto. Ficou decidido que encetariam os trabalhos logo esse
anno, e que os habitos indolentes de Jorge Miguel cessariam, por a
vida de lavrador exigir assiduidades constantes na faina, e uma
vigilancia quanto possivel methodica e regulada.
--Resta vêr agora, objectára-lhe a esposa sorrindo, se cumprirá
escrupulosamente o que promettes. Esta vida contemplativa estava-te a
inutilisar todos os dias, e chamado á acção não terás tempo de te
aborrecer a pensar futilidades. De mais o caminho é extenso, e estou a
vêr que quando te habituares a fazer co'a terra, dinheiro, serás
naturalmente conduzido a tambem aproveitar como bens de fortuna essa
notoriedade de escriptor de que não tens querido tirar senão vaidades
espirituaes, ephemeras e... irritantes.
--Tu não me aconselhas de certo que eu entre a escrever sobre a
politica do districto...
--Em que estaria o mal? Não ha assumptos chalros. Um talento
nobre transfigura todas as cousas porque passa. Ouço-te flagelar a
estupidez e a má fé dos que açambarcam despoticamente, e para fins
deshonestos, a politica da nossa região; porque te não decidirás,
pois, a intervir n'ella com os recursos superiores que Deus te deu, e
os teus estudos teem desenvolvido? Maldizer é facil. Quem se não
mostra, esquece, e eis-te chegado á idade de reappareceres homem de
acção.
--Tens-me então estado a sonhar governador civil ou deputado...
--Não pelo desforço platonico de assumires sob essa forma a
authoridade, mas principalmente porque estaria n'isso o começo de uma
fortuna decisiva.
--Em dinheiro talvez?
--Que a final é tudo n'este mundo. Se Jesus Christo voltasse a fazer
na terra os doze apostolos, precisaria de pelo menos ter doze milhões.
Olha á roda de ti o que se passa. Não ha mediocre que te não tenha
suplantado; tu desesperas-te, fingindo desprezal-os, mas no fundo da
tua consciencia o sentimento dominante é o ciume porque esses que tu
declaras cerebralmente inferiores desenvolveram na vida
qualidades de lucta que te faltam.
--Suppões então que eu não segui o caminho d'elles por impotencia...
--A que chamavas altivez, e afinal não foi mais que cobardia.
--Entristeces-me com esse juizo estreito que me fazes.
--Mas prova-me o contrario. Era tão facil! Ha na cidade um jornal sem
redactor; offerecem-t'o e tu não respondes; ora se desenvolvesses n'um
sentido sagaz as tuas qualidades de foliculario, em pouco tempe esse
jornal seria a tua arma envenenada, e verias realisadas todas as tuas
antigas ambições.
--Mas se eu não tenho nenhumas, minha filha!
--Ambições precisas não tens, porque a multidão assusta-te, mas
quererás tu persuadir-me de que a tua obra critica de solteiro apenas
fosse uma galopada de humorista? É lêr os teus pamphletos. Se se trata
de litteratura, achas a obra dos outros má, e tens o cuidado de fixar
um sonho de obra que não é mais do que a tua, idealisada. Se se trata
de costumes, flagellas os vicios de que não gostas, e calas-te ou
defendes aquelles para que tens uma certa vocação. Em politica achas
todos os ministros imbecis, dizes que as nomeações não visam nunca
individuos de valor, e que os dinheiros do paiz andam a rodo pelos
regabofes dos seus administradores. Dir-me-has o que é tudo isto senão
um processo ingenuo de, desbastando nos outros, ficares sendo primeiro
e unico de pé?
--Mas afinal tu és uma creatura incongruente. Essa obra desenvolta de
mocidade nunca te inspirou senão o enfado de uma cousa grosseira, mau
grado os teus disfarces, e tanto fizeste que acabei por me envergonhar
de a ter escripto. Passam seis annos, está mumifeita, esquecida, e és
tu mesma que m'a vens galvanisar agora n'uma phase de empregomania que
eu detesto!
--O caso é simples. Todo o homem que esgrime sem alvo, é caricato ou
doido. Os teus proprios discipulos perguntavam: mas que quer elle?
porque ninguem comprehende que se gaste energia sem proveito. Dez
annos d'essa campanha asperrima, n'uma agua-furtada, sem roupa nem
confortos, coberto de calumnias e de dividas, desprezado, odiado, o
que te deram? A gloria de seres conhecido entre os estudantes como um
canalha sarcastico, e quarenta adeptos que apenas servidos
desertaram de ti como da peste.
A logica d'estas combinações chocava fundo os quarenta annos já frios
do antigo pamphletario, que hesitava, no entanto obsecado da tradição
dos genios famintos. Embuido das doutrinas utilitarias da esposa, via
effectivamente o dinheiro como uma causa geral de toda a culminencia,
e as suas antigas ambições gososas de grande homem despertando da
indefinida madorna em que o estagnára a vida provincial. Via-se
reapparecer de novo em plena vida, com outros ideaes mais largos e
mais firmes, senhor da sua razão e da sua força, já sem os platonismos
de artista e as nebulosas philosophias de pamphletario demolidor
joeirado das antigas relações compromettedoras de café, homem de
acção, batido no desprezo, monosyllabico, hypocrita, insolente,
fazendo a sua entrada sem ruido, sondando os typos, avaliando a frio
os consagrados, e n'uma reviravolta leonina, de repente, apoderando-se
dos cimos, e fazendo-se sagrar chefe de _clan_. Tudo estaria em fazer
do seu talento o molosso incorruptivel de uma ideia fixa. Essa
marmorisação de vontade, porém, onde formal-a, com o seu caracter
feminino e dominavel, acobardando-se diante dos obstaculos,
e que a primeira mão resoluta guiaria a sabor dos seus caprichos?
Então, lançando a vista de roda, apercebeu como sempre os olhos claros
da mulher, interrogando-o com uma tristeza escarninha sobre a sua
falta de coragem. A pretexto de inspecção ás escólas primarias, o
governador civil percorria n'esse momento o districto, a sondar o
espirito das terras sobre o exito das proximas eleições. Era um antigo
companheiro de Jorge Miguel, sucio pomposo, que começára por
gazetilhas obscenas no _Pimpão_, subindo d'ahi a amanuense da Junta, e
redactor politico da _Nova_, jornal do presidente do conselho, que o
despachou depois aos bejenses com subscriptos de funccionario de
confiança.
Jorge Miguel inspirára-lhe sempre mesmo nos dias de convivencia
litterária no Martinho, uma especie de rancor desconfiado, com orlas
de desprezo, e póde-se imaginar a surpreza do conselheiro, quando,
avistados na aldeia os dois bohemios, Jorge Miguel lhe communicou as
suas tenções de comprar o jornal e entrar de vez na politica
militante. Sentindo-se de cima o governador civil prometteu com uma
sublime benevolencia, apoiar-lhe as pretensões, combinando-se depois
de tres dias de hospedagem e de jantares pantagruelicos, que adquirida
a gazeta, com typografia e pessoal conveniente, Jorge Miguel fosse a
Lisboa munido de cartas prestar ao ministério vassallagem, e receber
dos magnates do partido a sua iniciativa de cavalleiro. Quinze dias
depois ia na casa do nosso pacifico contemplador uma barafunda dos
demonios.
Pelo caminho de ferro chegaram de Lisboa umas poucas de charruas,
caixotes de adubos e sementes, milheiros e milheiros de bacellos
americanos. A adega foi quasi toda guarnecida de toneis; lagariças
novas no pateo, com toda a sorte de machinas modernas. Os pousios das
herdades eram começados a revolver a talho fundo, para o que foi
necessario alugar juntas de bois a todo o preço; de fóra viera um
regente agricola, de monoculo, que se levantava ao meio dia, e achava
mau passadio um jantar de cinco pratos; e finalmente, negociado por
quinhentos mil reis, typographia e tudo, o jornal apparecera depois
onerado por uma hypotheca de dois contos, e com o typo delido, os
prélos n'um cangalho, tendo Jorge Miguel de dispender, por
conselho do governador civil, proprietario secreto da folha, mais de
novecentos mil réis para acquisição de material. Na aldeia, quando
estas coisas correram, foi o alvoroço que se tem por um individuo que
emaluquece, de rodilhão, e todos punham as mãos na cabeça, antegozando
com lastimas hypocritas a hora opipara em que rebentaria a casa do
«escriptor». A audacia d'esta renovação agricola pelos risiveis
processos scientificos, que nenhum rico ousára, e de que ria o povinho
como uma brincadeira de creanças, além de não parecer condizente á
remediada fortuna do litterato, tão pouco pelo estapafurdio do regente
agricola, e resultado incerto das colheitas parecia estribar-se lá
muito na económica prudencia que deve sempre guiar um lavrador.
Viticultura americana? dinheiro perdido, bufavam todos. O phylloxera
immobilisando-se no Douro perdera a força para chegar aos valles do
Tejo. Reengorgitação das terras pelo adubo? mas onde ia isso parar de
dispendioso, e para que necessario? se a vinha nunca se estrumára no
Alemtejo, e quanto ao cereal, a bósta dos animaes abundou sempre, para
fazer de alqueires, moios.
A reapparição do _Clamor de Beja_, jornal independente, um
typo novo, e uma factura litteraria elegantissima, foi verdadeiramente
um caso nos annaes da sornice alemtejana, e claro se viu o influxo que
essa incisiva folha fumegante de vida e tocando os assumptos locaes
com lúcida ironia, certo viria a ter na politica do sul da grande
provincia.
Jorge Miguel recebia em casa os jornaes da redacção, preparava o seu
artigo, fazia o noticiario e a correspondencia de Lisboa, e o resto
era arranjado em Beja por um alferes do 17, seu antigo commensal n'uma
republica de estudantes. Em pouco tempo o successo attingiu pela
provincia as proporções de uma victoria; choviam as assignaturas, os
annuncios pagos succediam-se, e em todas as questões locaes e
partidarias começou o jornal a fazer authoridade, o que o lembrou em
Lisboa, levando as attenções dos malignos para a espécie de furor com
que Jorge Miguel, jacobino medonho, ainda na vespera, defendia os
actos do governo. Eleições á porta: era o momento de ir a Lisboa,
jurar fidelidade ao gabinete. Atochado de missivas bejenses para os
magnates graúdos do partido, sahiu Jorge Miguel de casa uma manhã, com
o seu chapéo alto e o seu bahú de roupa, disposto a levar de
vencida as agruras da jornada graças a certa gallinha de recheio, mais
meio presunto que a mulher lhe embrulhou, para farnel, na folha de um
dos seus antigos pamphletos anarchistas. A viagem foi cabeceada de
somno n'uma segunda classe onde voltavam de férias tres alarves de
tres seminaristas, e só no Barreiro, quando a cidade começou a surgir
vaporisada nos azues violetas do horizonte, é que Jorge Miguel sentiu
tomal-o uma infinita e estranha nostalgia. Indo no barco atirou ao rio
os restos do presunto, para evitar o cheravisco aduaneiro, e com o
gallego do bahú veio a dar fundo nas _Duas Nações_, ante uma canja que
tinha todo o ar de um soluto de caspa em agua de lavagens. Sopeteou
como poude as vitellas flacidas com cenouras, um _roast-beef_ de
folha, e varios outros acepipes corneos d'aquella conceituada casa
alimenticia, e barbeado, de sobrecasaca fina, cheirando a agua de
Colonia, eil-o baixa do hotel á cóca de tipoia que o solavanque a S.
Vicente. Chegado á rua, os luzeiros da Baixa estontearam-n'o: via,
extasiado, uma multidão febril, pelos passeios, os carros cheios de
gente, e o indefinido rumor repercutíndo-se a distancia, entre pregões
de jornaes e silvos de comboyos. Mentalmente, com esforços
de memoria dolorosos, desemburrando-se da bisonheria de seis annos de
vida marital, tomava outra vez posse da cidade, buscando
familiarisar-se no dedalo das ruas, achar no asphalto outra vez o seu
_rail_ de _flaneur_ nocturno; e mulheres que surgiam de chapa nos
reverberos das lojas pintadas de branco, olhando os homens de lado,
como as gansas, tinham para elle o ar de apparições; nos americanos
pareceu-lhe tudo duques e duquezas, um deslumbramento as lojas, os
caixeiros uns personagens ideais; e a sua emoção subia n'um galopar de
antigas reminiscencias, á mercê das surprezas esgarçadas por qualquer
cousa, na volta de uma esquina, ante o estylo de um predio novo, um
novo monumento--emoção de provinciano fóra da moda, cego do gaz,
picado de ciumes, desesperado de já ninguem o conhecer, e que ao
apear-se em Santa Clara, á porta do «nosso glorioso chefe» levava já
tres ridiculos de aldeia a chateal-o: a fadiga dos calos, o remorso do
casamento, e pairando a tudo, um desejo frascario, exhaustinado, d'ir
rebentar a noitada ao baile de mascaras do Trindade. Seis annos de
provincia tinham liquidado n'isto o grande homem...
O JURAMENTO DA CONDESSA ESTHER
--Tenho consultado tudo, tudo! A homeopathia, o systhema Brugrave, o
Raspail, tudo! Mas os alivios poucos, nenhuns mesmo. É esta dôrzinha
vaga no peito, esta tosse secca, pouca vontade de comer, ventre
preso... Quando se chega á minha edade, é esperar pela morte, bem o
sei.
--Qual!
--Ah! eu não a receio, meu bom amigo. Somente me affligiria a saudade
dos que amo, e o amor da minha filha...--Baixava a voz para
dizer-me--Tem-me perseguido a ideia de consultar um enfermeiro. Ouço
que entendem muito de doenças... Morrer, deixar Esther, seria o ultimo
castigo.
Em resposta, eu ria. A condessa ia começar a narrativa de uma cura
estrondosa, feita n'uma senhora das suas relações, por um
dos taes.
--E está hoje gorda e alegre, que não faz ideia.
--Faço, faço.
--Depois, os remedios que me receitam os medicos, repugnam-me. Tenho
horror á magnesia, horror ao cheiro da camphora, horror ás pilulas,
que bem podem ser manipuladas por sugeitos pouco limpos. Alguns dos
medicamentos nem os tomo.
--Eis porque se não cura, condessa. As aguas de Loeches são suaves...
--Horriveis! E tão prosaicas...
--De certo, de certo. Tanto mais que V. Ex.a tira effeitos poeticos da
doença que diz soffrer, confesse.
--Ahi vem a sua má lingua, doutor. Na minha edade a poesia é o amor
dos filhos. Eu sofro muito, sofro, palavra d'honra. E se fosse um
aneurisma, meu Deus!...
--Ahi, está V. Ex.a poetando com hypotheses de martyrio, simples
achaques a que todos estamos sugeitos. Que diria então eu, que V. Ex.a
vê na flôr da vida e na apparencia da mais radiosa saude? O meu
estomago!
--E o meu, doutor, o meu?
--A condessinha Esther tem a paixão das begonias; a sr.a
duqueza de Serpa adora os cães d'agua; a sr.a marqueza de Valle de
Perdizes esculpe; a esposa do negociante Domingues trabalha em créches
e premios de escolas. E cada uma faz d'estas predilecções a sua
aureola de poesia, de que se circunda no mundo. V. Ex.a tem os seus
soffrimentos. É uma compensação.
--Já vejo que está hoje peor, Conde! gritou ella para a meza do jogo
onde quatro homens faziam _whist_, á luz d'uma serpentina. Um velho
calvo e magro severamente abotoado e de bigodes altivos, ergueu-se
respeitosamente e veiu junto de nós.
Por detraz dos oculos, luziam-lhe aguçadas as pupillas de miope:
andava com ares magestosos de ministro, gesticulando sobriamente.
--Que é? disse elle firmando as mãos nos gomos do divan da condessa
mãe.
--Pode fallar-me da sua pre-historia, porque o meu amigo doutor teima
em satyrisar os meus padecimentos. Vamos, sente-se aqui.
--Mas a partida...
--O doutor vae substitui-lo, sim?
--E a condessa assim me desterra tão cruelmente!--Ella
estendeu-me a mão dizendo:
--Será por pouco tempo.--Fui. Esther não viera ainda. As senhoras
começavam a chegar em pequena gala, com _bournous_ de casimira branca
forrados a setim e pelles. Eram os convivas certos d'aquellas
pequeninas _soirées_, tão intimas, tão aconchegadas e tão doces, que
os ditos e excentricidades da condessinha animavam, e a rabeca de
Zebedeu Kebler, israelita loiro como Jesus e tão casto como elle,
enchia de fremitos extranhos e infinitas harmonias. Kebler adorava a
condessinha com uma paixão supersticiosa e ardente. Estava sempre onde
ella estava; em São Carlos, a sua cadeira era defronte da friza
d'ella; apparecia nos bailes a que ella ia, melancholico e pallido,
uma elegancia fina de _gentleman_; e nas conversações mais frivolas,
em podendo, mettia, sem quasi dar por isso, o nome d'ella. Esther era
trigueira e alta, de uma distincção unica e de uma elegancia sem
rival. O esmalte dos seus dentes destacava fresquissimo no vermelho
das gengivas, como um adereço rico num estojo de velludo cereja. Nada
mais explendido que a linha do seu busto nervoso e cinzelado, e a
redondeza das suas espaduas reaes, surgindo de espumas de
renda na fervilhação opulenta dos bailes. Fui ter com o judeu. De pé,
junto da banca de jogo, elle olhava sem vêr cousa alguma. Tomei-lhe o
braço e fomos para o vão d' uma janella. E antes que eu fallasse, elle
disse:
--Já penetrei no mysterio.
--Qual?
--O da condessinha.
--Vamos a vêr como.
--Ella é muito supersticiosa. Não admira, sangue judeu...
--Sangue judeu! Ella?--Kebler baixou a voz e contou-me:
--Que certo vendedor de tamaras, freguez assiduo de uma hortaliceira,
chegára a amar esta. Do amor dos dois, fermentou um garoto que se
metteu cambista, d'onde mais tarde surgiu uma obesidade millionaria
que um governo individado fez barão e par.
--Que perspicacia audaz empregou o meu amigo para saber tanto?
Caramba!
--Ouça: implantada por esta fórma, a nobreza foi subindo de um grau de
filho para filho. Até que um dia, o pae de Esther appareceu conde.
--A esposa era muito formosa então, para poder alcançar
tudo. Seria duqueza até, se o houvesse querido, disse eu sorrindo.
--Lingua damnada!
--Adeante. É então supersticiosa, hein?
--Não imagina.
--Eis o meio de sustar-lhe a golfada de sarcasmos de que ás vezes nos
cobre. Em ella me ferindo, quebro um espelho da sala, verá. Mas vamos
ao mysterio. Creio que foi _mysterio_, que disse.
--Foi. Esther teve uma grande paixão!
--Como a da hortaliceira gollegã, sua avó, pelo vendedor de tamara e
sabonetes. _Fermentou_ alguma cousa de?...
--Olhe que me zango sériamente, e fica sem saber nada.
--Está bem; estou já calado.
--Uma paixão fatal! Amou...
--Essa reticencia traz um padre ou um trintanario.
--Infelizmente. Amou um primo, doutor em theologia, que já dissera
missa.
--Bem dizia eu!
--Dizem que bella figura.
--Não me custa a crêr, pois que o affirma. E o primo amou a prima?
Sacrilegio no ultimo acto, suicidio ao cahir do panno. Adivinhei?
--Quasi. O primo era um homem digno; além disso não chegou a
saber toda a verdade da bocca d'ella. Desconfiou apenas que era amado
e fugiu para as missões do ultramar.
--Oh incomparavel levita! Eu não fugia para tão longe. E ella?
--Ella jurou que não amaria mais ninguem na vida.
--E como não lhe fosse permittido professar...
--Não seja leviano. Esther adora as begonias, como sabe.
--Paixão que acarreta ao meu amigo uma despesa séria. Cada dia lhe
traz uma especie nova, numa _corbeille_ admiravel.
--Essa adoração tem a seguinte historia. Á hora da partida o
missionario mandou á condessinha num vaso da China, uma explendida
begonia _rex-isis_, especie do mais bello effeito decorativo. É um
vaso amplo, de figurinhas em relevo e pequenas azas de oiro,
representando dragões engalfinhados.
--Conheço bem essa preciosidade! Vale a olhos fechados cem libras. E
depois?
--A begonia durou pouco. A estufa para onde a transportaram, e a
convivencia das mais plantas abreviaram-lhe os dias. Já
entrou na estufa da condessinha?
--Muitas vezes. O vaso está ao centro, sobre um pequeno pedestal de
marmore branco e debaixo de uma redoma de crystal em gomos.
--É isso, com a begonia sêcca.
--Tal qual! Muitas vezes perguntei á condessinha a historia d'aquelle
esqueleto de planta. E agora me lembro--ella ficava triste e
suspirava. Era a theologia do primo adorado.
--Hontem vim visitá-las de manhã. Trazia-lhes um euforbio raro do
Mexico, que os francezes chamavam _Poinsettie_, exemplar soberbo.
Conhece?
--Dos livros. A minha clinica modesta não me permitte dispender sem
proveito o que elle custa. Folhas oblongas bordadas de verde,
envernisado e vivo. Centro canario raiado de verduras sanguineas.
Envolvendo as flôres, uma corôa de grandes bracteas ovaes, do tamanho
de folhas, e do mais bello escarlate, dando o effeito duma grande
flôr. Uma opulencia, em resumo.
--Pois bem. Eu mesmo fui collocá-lo na estufa, permissão graciosa da
condessinha.
--Os perfumes aphrodisiacos perturbaram os sentidos de ambos
e... amor do judeu das tamaras com a...
--Mau!
--Está bom: curvo a cabeça. Venha o resto.
--Quando nos achámos na estufa e em meio das folhas de mil desenhos
que alli ha, ella tomando-me as mãos, disse-me commovida:
--Como hei-de eu agradecer a sua sollicitude, Zebedeu?
--Ella disse: _Zebedeu?_
--Disse.
--Meio caminho andado, então. Mais dois minutos, e tinha-a pendurada
no pescoço. Que gata, essa trigueira tentadora!...
--Eu nem podia fallar!
--Oh castidade loira de vinte annos!
--E apertava-me tanto as mãos...
--Sim? Depois, um beijo... ou dois... ou tres...
--Falle com franqueza, disse-me ella. O senhor ama-me.--Eu estava a
tremer como um poltrão.--Ouça, tornou Esther; fiz um juramento.
--Qual? perguntei em voz baixa.
--Que não amaria ninguem mais. A não ser...
--A não ser?...
--Que aquelle vaso de pedestal apparecesse em pedaços um dia, sem
ninguem lhe tocar.
--Mas isso é impossivel.
--Então veja se posso amá-lo. Ella estava tão triste!... Talvez não
creia: chorei!--Callamo-nos, porque n'aquelle instante, uma voz fresca
deu uma risadinha á porta, e as senhoras correram para uma rapariga de
branco, que vinha entrando. Era Esther.
--Zebedeu Kebler, meu incomparavel artista, um pouco da sua rabeca,
disse ella em voz alta, antes de beijar ninguem.