Ella foi-se isolando, isolando do ruido, até ao portão que dava para a

horta; parecia conhecer aquelles logares, distrahida, como quem

resuscita apagadas memorias. Olhava o muro de buxo talhado em fórmas

architecturaes, circumscrevendo o jardim pela esquerda, até se perder

n'uma folhagem aspera d'alfarrobeiras. Para aquelles lados n'outro

tempo havia um murmurio de fonte: tinha sido uma noite sem estrellas,

o braço de Zarco sustinha-a pela cintura e levava-a, de modo que os

seus pés nem tocavam o chão. E assustada, ficára a ouvir aquele choro

timido d'agua corrente: espera! ouço passos...--É o vento, disséra

elle, e os seus beijos endoideciam-n'a. Lá estava ella ainda a

gottejar na pequena concha musguenta, que um grupo de ephebos

sustinha, cavalgando golfinhos. Fôra em maio, a flôr dos favaes enchia

os campos d'essencias, o marido caçava o javali por Hespanha--n'essa

noite _elle_ tinha querido roubal-a, conduzil-a aos seus

dominios--ella resistira, não! não!... mas o perfume da sua barba tão

loira envolvia-a n'uma fascinação terrivel, e a bocca pequenina,

sincera, humida, talhada a buril, ao mesmo tempo imperiosa e

feminina, tinha-se collado por ella toda: quem poderia recusar cousa

alguma? Ouvia ainda o breack rolando pelas asperidões da estrada, os

cavallos que voavam, elle a guiar; e ao curvar-se para puxar as redeas

ou chicotear os hanoverianos, o clarão das lanternas illuminava-o de

perfil... Oh, as venturas absorventes que se resumem n'um momento de

peccado! Dir-se-hia o perfil antigo d'um Deus hellenico, branco,

herculeo, alado em juventudes divinas.

--Vaes ter frio, minha filha.

--Frio, eu, ao pé de ti!...

E do capuz negro do _bournous_ que ella levava, forrado de pelles

setinosas, os seus olhos ficavam absorvidos n'elle muito tempo, muito,

muito. A noite fazia as arvores terriveis, interminaveis os campos; e

apagando a perspectiva, approximava mais as montanhas, e punha

traições na goela dos precipicios... Vinham-lhe a cada passo

pequeninos medos, as pupilas verdes do remorso que a penetravam de

faúlhas calcinantes--lá está um vulto além, n'aquelle canto da

estrada... Os troncos corriam atraz d'elles com pernas de gigantes,

ennovelando-se, augmentando em numero á medida que o breack

fugia.

--Jesus! dizia ella n'um terror, são talvez espiões de meu marido.

Depois na ponte, um passaro tinha dado um grito, secretos escarneos

foram ciciando pelos labios das folhas; de longe em longe, uivavam as

raposas com fome. A cabecinha d'ella descahia no braço do cunhado,

fazendo uma caricia penetrante. Era espirituosamente tocada, correcta,

d'um modelo audacioso em que havia primores. E como ambos eram pouco

lidos, incapazes de fazer um amor litterario, dialogado por imagens,

cheio de contrascenas, permutavam as suas emoções tocando os corpos,

n'uma descarga de volupias balsamicas. O que ella lhe admirava era a

seriedade do aspecto, a forte enformatura dos encontros, uma força de

gigante cingida em delicadezas de creancinha. Esse rapaz sem

violencias, envergonhado de ser tamanho, uns receios de a molestar a

cada beijo, silencioso, tranquillo, com melancholias brumosas do

norte, subjugava pelo contraste, os impetos e os orgulhos da natureza

d'ella, toda impaciencias, _coquetteries_ e ardores.

Á chegada eram deshoras, cantavam os primeiros gallos em S.

Mathias--ella nunca tinha por alli passado.

--Gente na estrada, estamos perdidos!

Manuel tinha atirado os cavallos por um olival a dentro, apagára as

lanternas, e o _break_ em solavancos lá ia arrastado pelos terrenos

declivosos. Pararam. Um rumor de carros vinha da aldeia, guisos de

mulas, a voz de um homem cantando... Elles, á escuta, ouviam bater os

corações, com medo de alguem os ter pescado. Agarrada ao pescoço de

Zarco, ella batia os dentes, tresvairada n'uma paixão.

--Viram-nos, Jesus.

--Não, escuta, redarguia elle sopeando os cavallos. Em roda, iam e

vinham as sombras, no pavor das coisas sonhadas a arder em febre. Ella

exaltara-se: adoro-te.

--Mas, por Deus, não grites! dizia elle.--Davam beijos de lava, o

amplexo accendia-os, nenhum luctava, foram-se possuindo...

E agora velhos, inuteis na felicidade dos filhos, tendo-lhes dado

tudo, sem amor, nem coragem, cheios de cabellos brancos, odiavam-se

por desgraça!--Era ao fim do laranjal, o muro de buxo apparecia de

novo, nespereiras em flôr abriam parasol por cima d'um portello

baixo--toda a aventura se lhe reconstruia na idéa, nitida, chammejando

horriveis saudades. Sim! os carros de matto abalando á meia noite de

S. Mathias, a voz do homem cantando, esse fluctuante mysterio da

noite, é verdade, um sapatinho de velludo que perdera ao entrar, por

aquelle portello, ao collo d'elle... Oh, a medonha angustia de se não

ter outra vez dezeseis annos! Para além, olival, terrenos declivosos:

o _break_ parára ao pé d'aquella grande oliveira.

--Não sentes pena de deshonrar teu irmão?

--Mas cala-te, dizia Manuel num tom de queixa, emquanto a levava nos

braços docemente, como uma creança adormecida. Ella, supersticiosa,

fallára-lhe do grito que déra o passaro noctambulo, quando o _break_

entrou na ponte. Talvez prenuncio de desgraça!--Ao que elle respondia:

doida! Reparou nas roseiras que por alli floriam agora, como n'um

cemiterio consagrado pela saudade de muitos amores fenecidos. Fôra

alli, junto ao murosinho de buxo, que a respiração d'elle tinha

sifflado n'uma furia de titan semilouco, e o sapato caíra... Quantas

vezes depois o amaldiçoára, sentindo impreteriveis desejos d'ir contar

tudo ao marido, ao mesmo tempo que um suor frio a aljofrava,

só de pensar que Fernando podia vir a ter noticia do adulterio. Sim,

odio, era odio que lhe tinha n'este momento! Mas como seria bom

desabrochar n'outra juventude, radiar a seducção d'uma nova belleza,

ter ainda pudores de vestal, frescuras d'epiderme carminea,

virgindades de noiva, para ir direita áquelle infame, atirar-lhe os

braços ao pescoço, e dizer-lhe: adoro-te, macula-me outra vez!

Outras recordações então, lugubres, implacaveis, acastellavam na sua

mente, espectros de remorsos longinquos e gumes de suspeitas mal

esboçadas. Lembrava-lhe Fernando trazendo Carlinhos pela mão, depois

da morte de Laura, a dizer-lhe com palavras de chumbo, espaçadas

intencionalmente--este é meu, ficará n'esta casa! E como a olhára

dizendo isto, apenas ella n'um movimento de repulsa, erguera a cabeça

para dizer que não. O terror d'esses annos conjugaes tinha sido bem

cruel. Era o marido fital-a--tremia toda como um vime. Quando elle se

exaltava, ou se bebia, ou em os negocios correndo mal, a cada momento

ella receiava, que arrastando-a pelos cabellos, o marido lhe gritasse:

prostituta! Crescera nos povos a sua reputação de santidade; as

esmolas que fazia nem tinham conta, ia de noite vêr os doentes, matar

a fome ás cabanas sem chefe, e o seu nome incubava-o uma lenda de

poeticas virtudes e castidade suavissima. Se viessem a saber, que

vergonha! E ante o marido, o seu orgulho vergára, e fizera-se neutra a

sua violenta personalidade. Nos ultimos annos, Fernando Zarco tinha

caído n'um marasmo desopilante, não saía, não recebia, não fallava. Ás

vezes, ia ella levar-lhe de comer com o riso nos labios, uma palavra

carinhosa para lhe inspirar conforto; e estendendo o braço para

agarrar no talher, lentamente, como tendo alguma coisa grave a indagar,

elle ficava a miral-a com o ardor dos seus olhos encovados; depois ia

baixando a cabeça n'uma confusão, vagarosa, funebremente--sim! sim!--e

viam-se-lhe as narinas arfando nos haustos d'uma raiva subterranea.

Chegou á porta que rasgava no muro, por sob a cupula das nespereiras;

correu-lhe o ferrôlho depressa, empurrou-a com o pé, cheia de

curiosidade de penetrar no olival, até á velha oliveira onde n'aquella

noite, o carro tinha parado. Mas recuou com um gritinho de susto. O

cunhado nas almofadas do _break_, á sombra da arvore, aguardava por

ella como n'outro tempo.

* * * * *

Manuel Zarco não quiz prolongar á viuva, a visão theatral que se

impozera, e desceu do carro para vir ter com ella. Em vez de veredas e

barrancos tortuosos, uma larga estrada cortava agora o olival, entre

eucalyptos colossaes, que sacudiam á briza molhos de folhas em

cutello. Ella nem podia fallar, branca de susto, humilhada de

vergonha, e sentindo o coração grosso de lagrimas. A voz de Zarco era

triste, porque tambem elle não tinha sido feliz.

--Como não quer demorar-se, disse elle, mandei os carros aqui. Partirá

quando quizer, as creadas nao tardam. A carruagem em que veio fil-a

reservar aos noivos, por ser ampla. Póde ir n'este _break_, é velho

mas de boas molas, tenho-o ha vinte e quatro annos...

--Antigamente, tornou ella junto ao portello, vencendo um grande

embaraço, não havia roseiras aqui.

--Não, disse elle galante, nasceram por onde o teu vestido roçou.--A

sua voz tremia.

--Chut! casaram hoje os nossos filhos.

--Mentes. Carlinhos vem d'uma cigana velha, a quem hoje dei

o que ella quiz levar. Teem-m'o dito muita vez! É negra, traz uma

filha, ouço que vivem de roubar por essas feiras.

--É verdade, murmurou ella suspirando; filhos só os tive de

ti.--Chorava a sua mocidade agitada, as terriveis dôres que soffrêra,

os orgulhos feridos de mulher.

--Ouve, disse-lhe então elle com supplica, não me tenhas odio, não

tenhas. Dora é tuna creança, ama-a um pouco, assim como amarias a que

nos morreu. Ellas parecem-se. Sobretudo, não lhe digas mal de mim.

--Ah, bem vejo que amavas tua mulher...

--E tu que amastes meu irmão?

--Mas é falso.

--De que serviria acreditar agora n'isso? Estavamos doidos quando nos

amámos.

--Sim, doidos d'amor. Ai como a gente envelhece depressa!

--Razão para ficarmos amigos, já que tudo morreu. Fernando nunca veio

a saber...

--Prouvera a Deus que assim fosse! Cala-te d'ahi! disse ella

bruscamente. Na hora da morte ia beijal-o, repelliu-me; morreu,

dizendo a horrivel palavra. E por tua causa! Não poderás dizer nunca

que te provoquei. Quando vinhas, fugi-te muitas vezes. Tudo

me abandonava então!...

--Esqueçamos: a vida dos nossos rapazes, exige. Vá, perdôa. Elles

viverão seis mezes comigo, seis mezes comtigo. De mais, ficámos

pobres. Os pobres não devem ter ruins paixões.--Ella cortava rosas, no

rosal que extravasava de roda. As velhas aias tinham chegado entanto a

pequeninos passos, arregaçando muito as suas sedas festivas; em carros

de toldo, jumentos e mulas, a creadagem repleta, cantando, chalaçando,

deixava S. Mathias caminho da aldeia. A viuva relanceou ainda os olhos

por aquelles sitios, lentamente, como a impregnar a memoria d'aquella

idyllica paisagem.

E para que ouvissem todos, fallando alto, pediu desculpa a Manuel

Zarco de não assistir ao _copo d'agua_, mas sentia-se indisposta,

tinha que receber os noivos... Elle abriu a porta do _break_, esperou

curvado que ella subisse.

--Zarco, disse a viuva aconchegando-se a um lado, emquanto as velhas

subiam e se anichavam tambem. Os nossos filhos que não demorem a

partida, vão ter frio pelo caminho. Principiavam córos de grilos na

espessura amarellenta das hervas, o sol cahia por traz das

arvores; á esquerda, nos vagos fumos da tarde, Beja torrejava.

--Adeus, disse a viuva sem colera, estendendo ao velho as duas mãos

descalças. Zarco sem fallar, beijou essas mãos inda pequeninas e

brancas.

Os cocheiros tinham vindo; e sob o pingalim, os cavallos arrancaram o

_break_ d'ao pé da oliveira, em direitura á estrada.

--Adeus, disse a viuva, apertando ao seio as rosas que colhera no

rosal.--Zarco parado, as mãos cahidas, ficára imbecilmente de pé, todo

vasio de reacção.

--Eh, esperem, gritou de repente aos cocheiros.

O _break_ tinha outra vez parado. Com os olhos estourando lagrimas,

elle correu á portinhola com um pequeno embrulho para a viuva, que

conforme disse, esquecera na igreja.

--Obrigada, respondeu ella com a voz um pouco tremula.--E o carro

abalou. Junto da ponte, já longe, a estrada fazia um cotovello para a

esquerda, e bruscamente o olival desapparecia. Então a viuva voltou-se

muito, chorosa, inda viu Zarco immovel no meio da estrada, disse-lhe

adeus com o lenço. Depois tudo se foi com as arvores que se

interpunham, a estrada, o muro da horta, os olivaes, a aldeia. Ficou

a desembrulhar o pacote que elle lhe déra.

--Que chinellinha mais rica! disse uma das velhas bispando o que

continha o embrulho. Ere o sapato de velludo bordado a oiro, que ella,

a tal noite...

--Cabeça a minha! Quiz trazer sapatos largos para o caminho, e afinal

só vem um, que para mais me não serve.

A outra velha acudiu com admiração:

--Nem eu sei de pé, que possa caber n'uma chinellita d'estas.

E a viuva com um rir doloroso:

--Cabiam os meus, no tempo em que eram leves a ponto de atravessarem

jardins sem pousar no chão.

--Ora! isso é o tal conto de fadas, disse a mais pequena das velhas.

--É verdade, um conto de fadas, tornou a viuva. Mas aconteceu!--E os

seus olhos iam na direcção do olival.

A PROVINCIA

Á meia noite, depois de ter abraçado os amigos no Martinho, com uma

ternura de adeuzes que o caracter _blasé_ de quasi todos tornára,

valha a verdade, intempestiva, Jorge Miguel tomou vagarosamente o

caminho habitual da sua casa, scismando em que era esse o seu ultimo

«fóra de horas» de Lisboa. Morava ao Monte havia nove annos, no

pincaro do outeiro mesmo, sobranceiro á cidade, ao pé da ermida--n'uma

casinhola de pobres cujo primeiro andar o novo senhorio repartira

entre elle e um empregadorio velho do Museu.

Alli, com os seus livros, sem creado, varrendo a casa elle mesmo, com

pares de calças por cima de todas as cadeiras e cartapacios n'um

tumulto de rumas pelo chão, Jorge Miguel fazia uma vida concentrada de

alchimista, silenciosa, de porta fechada ás visitas e cerebralidade

muda ás expansões.

A cidade, que o conhecia n'um fumo de lenda um pouco feita através das

suas _blagues_, afizera-se a lhe consentir em publico um eu á parte,

explicando por maluquice a concentração solitaria dos seus giros, e

mesmo por bebedeira as apoplexias de humor que a certas horas

convertiam a sua apathia triste em improvisação epileptica,

archi-estouvada.

Áquella hora a cidade apaziguava os seus tumultos, cahia do gaz um

langoroso bruxuleio; os transeuntes, menos; e todo aquelle socego

entrava na solidão mental do pobre moço, escruciando-lhe a vida de um

nunca mais á vida de solteiro. Porque Jorge Miguel, farto de viver

sósinho, ia casar.

A historia d'esse amor era uma d'estas cousas occasionaes, despertadas

na vida entre duas cogitações mais amargosas, arrastadas longos annos

entre preguiças de affecto e desfallencias de vontade, relegadas

successivamente para os longes do futuro, e que um dia afinal se

impõem como a solução pelo absurdo de um problema economico impossivel

de resolver de outra maneira. A vida litteraria, unica paixão

absorvente que se lhe tinha conhecido, chegada ao cume,

collocára-o na alternativa de, ou ter de rebentar de martyrio n'um

meio hostil a toda a ideia de arte independente, ou de pôr ponto

brusco n'uma producção que mesmo apesar de fulgurante e vigorosa só

conseguia produzir no publico uma surda irritação minaz contra o

escriptor. Entre a miseria odiada e a espectativa de uma madorna

plethorica n'um canto de provincia, Jorge Miguel acabára alfim por se

vencer; e d'esta vez, arrazado, dera no orgulho o golpe mestre,

fazendo as malas para esse desterro onde a bestificação do matrimonio

lhe açaimaria os ultimos piaffões de archanjo revoltado.

Quando chegou a casa estavam quatro malas fechadas na ante-camara, um

_couvre-pieds_ acorreado com guarda-chuvas e bengalas, dois moveis

envoltos em lona que os gallegos não tinham podido levar na ultima

padiola, para a gare--e os aposentos sem trastes, o relogio parado no

muro, o vento ronronando nas arvores do adro, tudo aquillo lhe pareceu

como o responso da sua mocidade já fria e decomposta. A um canto da

pequenina sala de trabalho, um monte de papeis, tombo da sua bohemia,

aguardava o auto-de-fé liquidador. Jorge Miguel despiu o

casaco, trouxe um alguidar da cozinha, e chegando para o pé da

papelada uma das malas, começou á luz da vella o inventario d'esse

archivo de quinze annos rebolados por todas as maluqueiras da vida

sensacional e litteraria. Eram primeiro bilhetes de visita e bilhetes

postaes agradecendo livros, pedindo entrevistas, artigos, palavras de

favor--menus de jantar, convites de exposições e de concertos, ramitos

sêccos, retratos insepultos, carteis com monogrammas, dizendo, em

lingua inverosimil, adorações litterarias com resaibos a estranhos

sentimentos--e Jorge Miguel passeiava os olhos devagar n'aquellas

coisas, evocava um momento as epochas e as respostas, e

phreneticamente, para asphyxiar a saudade, chegava os papeis á vella,

e ia-os atirando incendiados para a concavidade do alguidar. Cartas de

Paris, cartas de Roma, da America, de Coimbra, todos os cantos do

mundo e da provincia, homenagens fervorosas, anonymias de odios

truculentos, discipulados timidos, identificações a distancia n'um

ideal sonhado, em pontos antipodaes de educação e temperamento,

consultas de mysteriosas litterarias, de celibatarias impacientes

pedindo conselho para casos de psychologia individual cheios

de acirrante... e desatavam-se os maços das fitas já ardidas da poeira

das gavetas, as velhas folhas rolavam, talhes de lettra e prosa

succediam-se, e sempre a impassivel vella, com a alma da luz azul,

muito direita, consumia implacavelmente essas chimericas memorias onde

tantos corações tinham batido d'elle ao mesmo tempo. Quando o pobre

alguidar foi cheio de restos, e da mocidade de Jorge Miguel nada

restava a mais do que algumas lagrimas a ferver-lhe na pelle do rosto,

uma vacuidade estranha entrou-lhe n'alma, sendo então que o relogio

parado e o silencio da casa pareceram marcar um fim de mundo.

Abriu a janella um pouco sobre a noite, e com o alguidar ainda quente

despejou á rua a sarabanda das cinzas aggregadas ainda em folhas

inteiriças, que o vento espiralou no ar em borboletas tenebrosas; e as

que tinham vindo de longe, tomaram por caminhos rapidos, ao largo; e

algumas hesitavam, sem se lembrarem já da morada de seus donos;

entraram-lhe pela janella outras, eram as orphãs, como a pedir ao

escriptor que as adoptasse; e algumas finalmente, como suicidas

inertes, baquearam no chão pulverisadas, e o vento d'alba as

varreu pouco a pouco aos quatro cantos do destino.

* * * * *

Accendeu um cigarro, o somno fôra-se, e como aquellas cinzas

fatidicas, a attenção pulverisava-se-lhe, incapaz de reflectir sobre o

problema terrivel que era esse internato de vagabundo illustre na

aldeia, em agricultor, ao lado de uma mulher com quem mal entretivera

fallarios triviaes alguma vez.

Estavam a dar quatro horas da manhã, e silenciosas nevoas vindas do

mar cobriam lentamente o céo de pallidos vapores, toldando a lua

poente, e alongando-se para o interior da terra em farrapanas

obliquas, que incineravam phantasticamente os bairros afastados.

Áquella hora Lisboa offerecia, das alturas do Monte, quasi sem luzes,

uma desolação madornal de cemiterio, planificada na bruma, rebatida

toda em lavouras de sulcos que eram bairros dobrados sobre si.

As cinzas dos papeis, minutos antes queimados, de certo áquella hora

se estariam espalhando pelo inextricavel de todos aquelles bairros

inquietantes, procurando, n'uma afflicção, os signatarios das cartas e

bilhetes n'elles escriptos para lhes fazerem queixa da deserção de

Jorge Miguel. Eil-as no ar, tiritando, as pobres borboletas, a

orientarem-se no dedalo das casas pelos milhões de fios do telegrapho,

receiosas de que o vento as pulverise antes de chegarem, com palavras

legiveis ainda, ao seu destino. Eil-as a adejar de angustia nas

vidraças, entrando nas casas pelo respiradouro das chaminés, indo ás

alcovas, pousando nos travesseiros, indo aos cemiterios, pousando nos

jazigos, e n'uns e n'outros interrompendo os somnos e as doces mortes.

--Não sabem? Jorge Miguel aposthasia de cavalleiro templario do

paradoxo, de arcebispo da leria, de arcabuzeiro da rotina a balas de

loucura...

E o alarme acordado apenas na mágoa d'elle, affigurava-se-lhe

entenebrecer de luto a terra inteira, parecendo-lhe que de cada

bairro, cada café, cada cartaz, cada esquina de rua, cada casa, mentes

dispersas, adorações indefinidas, affectividades anonymas nascidas do

deslumbramento da sua arte estravagante, se erguiam da cama no estado

inconsciente de phantasmas, tomavam pelo caminho dos papeis queimados

vindo de roda, pelo ar, a lhe fazer um côro de implorações.

Lentamente, como amanhecia, por todo aquelle vasto mappa

encinzeirado, luzes de gaz vinham-se apagando em linhas divergentes,

como se esse extinguir gradual de estrellinhas somnambulas fosse a sua

gloria de escriptor morrendo nos esquecimentos da aldeia, quando outro

espirito subisse, mais vivamente moderno, a allumiar a ingratidão das

gerações.

Encostou-se um bocado, mas não podia dormir, os rumores matinaes

sobresaltavam-n'o; dir-se-hia que toda a cidade se levantára mais cedo

para trepar á montanha e lhe invadir a casa de vozidos. Entrementes, o

dia clareava, e quando foram horas de partir, Jorge Miguel, chegando

pela ultima vez á varanda, casualmente viu no parapeito um bocado de

papel carbonisado, onde subsistiam legiveis duas rapidas linhas de

escriptura. Leu o seguinte: «de resto, meu caro, para ser celebre é

necessario viver longe, e não ter tido nunca amigos intimos».

Foi sob esta impressão martyrisante que elle deixou de vez a capital.

* * * * *

O rebentar na provincia foi terrivel; receberam-n'o á chegada da

diligencia com uma musica de pretos, que era a estreia da

phylarmonica: quatro carpinteiros a trombonear canudos de

latão, um barrigudo a zurzir os pratos como fulo, e o do zabumba,

macanjo, dando co'a maçaneta nos garotos. Como os musicos não

soubessem senão a marcha da Ione, ensaiada á pressa para as procissões

da Semana Santa, com esse batuque funebre seguiram, em passo de

enterro, pela rua da grande villa, no meio dos raios te partam do

cocheiro que despregava as pilecas na subida, e de um certo riso de um

padre, de lhe fazer calafrios pela medulla.

Em breves dias fez-se o casamento, para o qual Jorge Miguel, foi sem

curiosidade, decidido a resolver o problema do seu destino por um

criterio de vontade estoica contra o qual piaffavam todas as suas

selvajarias de indomavel vagabundo. Sua mulher não lhe inspirou a

principio mais que uma especie de pretenciosa piedade: franzininha, um

pouco loura, com as orelhas pequenas, a bocca pura na esquadria de um

queixo quasi viril de voluntaria, e toda a graça de viver na

infantilidade dos olhos melancolicos. Não era pela belleza de certo

que essa imponderavel bonequinha viria a exercer no espirito do esposo

qualquer cousa similhante á seducção.

Senão quando, attenuadas um pouco pelo aconchego de uma

casita provincial as saudades litterarias de Lisboa, subitamente, uma

manhã, Jorge Miguel começou a sentir orgulhos vagos de vêr labutar por

elle a companheira.

Aves Migradoras · 第 7 / 13 段