horta; parecia conhecer aquelles logares, distrahida, como quem
resuscita apagadas memorias. Olhava o muro de buxo talhado em fórmas
architecturaes, circumscrevendo o jardim pela esquerda, até se perder
n'uma folhagem aspera d'alfarrobeiras. Para aquelles lados n'outro
tempo havia um murmurio de fonte: tinha sido uma noite sem estrellas,
o braço de Zarco sustinha-a pela cintura e levava-a, de modo que os
seus pés nem tocavam o chão. E assustada, ficára a ouvir aquele choro
timido d'agua corrente: espera! ouço passos...--É o vento, disséra
elle, e os seus beijos endoideciam-n'a. Lá estava ella ainda a
gottejar na pequena concha musguenta, que um grupo de ephebos
sustinha, cavalgando golfinhos. Fôra em maio, a flôr dos favaes enchia
os campos d'essencias, o marido caçava o javali por Hespanha--n'essa
noite _elle_ tinha querido roubal-a, conduzil-a aos seus
dominios--ella resistira, não! não!... mas o perfume da sua barba tão
loira envolvia-a n'uma fascinação terrivel, e a bocca pequenina,
sincera, humida, talhada a buril, ao mesmo tempo imperiosa e
feminina, tinha-se collado por ella toda: quem poderia recusar cousa
alguma? Ouvia ainda o breack rolando pelas asperidões da estrada, os
cavallos que voavam, elle a guiar; e ao curvar-se para puxar as redeas
ou chicotear os hanoverianos, o clarão das lanternas illuminava-o de
perfil... Oh, as venturas absorventes que se resumem n'um momento de
peccado! Dir-se-hia o perfil antigo d'um Deus hellenico, branco,
herculeo, alado em juventudes divinas.
--Vaes ter frio, minha filha.
--Frio, eu, ao pé de ti!...
E do capuz negro do _bournous_ que ella levava, forrado de pelles
setinosas, os seus olhos ficavam absorvidos n'elle muito tempo, muito,
muito. A noite fazia as arvores terriveis, interminaveis os campos; e
apagando a perspectiva, approximava mais as montanhas, e punha
traições na goela dos precipicios... Vinham-lhe a cada passo
pequeninos medos, as pupilas verdes do remorso que a penetravam de
faúlhas calcinantes--lá está um vulto além, n'aquelle canto da
estrada... Os troncos corriam atraz d'elles com pernas de gigantes,
ennovelando-se, augmentando em numero á medida que o breack
fugia.
--Jesus! dizia ella n'um terror, são talvez espiões de meu marido.
Depois na ponte, um passaro tinha dado um grito, secretos escarneos
foram ciciando pelos labios das folhas; de longe em longe, uivavam as
raposas com fome. A cabecinha d'ella descahia no braço do cunhado,
fazendo uma caricia penetrante. Era espirituosamente tocada, correcta,
d'um modelo audacioso em que havia primores. E como ambos eram pouco
lidos, incapazes de fazer um amor litterario, dialogado por imagens,
cheio de contrascenas, permutavam as suas emoções tocando os corpos,
n'uma descarga de volupias balsamicas. O que ella lhe admirava era a
seriedade do aspecto, a forte enformatura dos encontros, uma força de
gigante cingida em delicadezas de creancinha. Esse rapaz sem
violencias, envergonhado de ser tamanho, uns receios de a molestar a
cada beijo, silencioso, tranquillo, com melancholias brumosas do
norte, subjugava pelo contraste, os impetos e os orgulhos da natureza
d'ella, toda impaciencias, _coquetteries_ e ardores.
Á chegada eram deshoras, cantavam os primeiros gallos em S.
Mathias--ella nunca tinha por alli passado.
--Gente na estrada, estamos perdidos!
Manuel tinha atirado os cavallos por um olival a dentro, apagára as
lanternas, e o _break_ em solavancos lá ia arrastado pelos terrenos
declivosos. Pararam. Um rumor de carros vinha da aldeia, guisos de
mulas, a voz de um homem cantando... Elles, á escuta, ouviam bater os
corações, com medo de alguem os ter pescado. Agarrada ao pescoço de
Zarco, ella batia os dentes, tresvairada n'uma paixão.
--Viram-nos, Jesus.
--Não, escuta, redarguia elle sopeando os cavallos. Em roda, iam e
vinham as sombras, no pavor das coisas sonhadas a arder em febre. Ella
exaltara-se: adoro-te.
--Mas, por Deus, não grites! dizia elle.--Davam beijos de lava, o
amplexo accendia-os, nenhum luctava, foram-se possuindo...
E agora velhos, inuteis na felicidade dos filhos, tendo-lhes dado
tudo, sem amor, nem coragem, cheios de cabellos brancos, odiavam-se
por desgraça!--Era ao fim do laranjal, o muro de buxo apparecia de
novo, nespereiras em flôr abriam parasol por cima d'um portello
baixo--toda a aventura se lhe reconstruia na idéa, nitida, chammejando
horriveis saudades. Sim! os carros de matto abalando á meia noite de
S. Mathias, a voz do homem cantando, esse fluctuante mysterio da
noite, é verdade, um sapatinho de velludo que perdera ao entrar, por
aquelle portello, ao collo d'elle... Oh, a medonha angustia de se não
ter outra vez dezeseis annos! Para além, olival, terrenos declivosos:
o _break_ parára ao pé d'aquella grande oliveira.
--Não sentes pena de deshonrar teu irmão?
--Mas cala-te, dizia Manuel num tom de queixa, emquanto a levava nos
braços docemente, como uma creança adormecida. Ella, supersticiosa,
fallára-lhe do grito que déra o passaro noctambulo, quando o _break_
entrou na ponte. Talvez prenuncio de desgraça!--Ao que elle respondia:
doida! Reparou nas roseiras que por alli floriam agora, como n'um
cemiterio consagrado pela saudade de muitos amores fenecidos. Fôra
alli, junto ao murosinho de buxo, que a respiração d'elle tinha
sifflado n'uma furia de titan semilouco, e o sapato caíra... Quantas
vezes depois o amaldiçoára, sentindo impreteriveis desejos d'ir contar
tudo ao marido, ao mesmo tempo que um suor frio a aljofrava,
só de pensar que Fernando podia vir a ter noticia do adulterio. Sim,
odio, era odio que lhe tinha n'este momento! Mas como seria bom
desabrochar n'outra juventude, radiar a seducção d'uma nova belleza,
ter ainda pudores de vestal, frescuras d'epiderme carminea,
virgindades de noiva, para ir direita áquelle infame, atirar-lhe os
braços ao pescoço, e dizer-lhe: adoro-te, macula-me outra vez!
Outras recordações então, lugubres, implacaveis, acastellavam na sua
mente, espectros de remorsos longinquos e gumes de suspeitas mal
esboçadas. Lembrava-lhe Fernando trazendo Carlinhos pela mão, depois
da morte de Laura, a dizer-lhe com palavras de chumbo, espaçadas
intencionalmente--este é meu, ficará n'esta casa! E como a olhára
dizendo isto, apenas ella n'um movimento de repulsa, erguera a cabeça
para dizer que não. O terror d'esses annos conjugaes tinha sido bem
cruel. Era o marido fital-a--tremia toda como um vime. Quando elle se
exaltava, ou se bebia, ou em os negocios correndo mal, a cada momento
ella receiava, que arrastando-a pelos cabellos, o marido lhe gritasse:
prostituta! Crescera nos povos a sua reputação de santidade; as
esmolas que fazia nem tinham conta, ia de noite vêr os doentes, matar
a fome ás cabanas sem chefe, e o seu nome incubava-o uma lenda de
poeticas virtudes e castidade suavissima. Se viessem a saber, que
vergonha! E ante o marido, o seu orgulho vergára, e fizera-se neutra a
sua violenta personalidade. Nos ultimos annos, Fernando Zarco tinha
caído n'um marasmo desopilante, não saía, não recebia, não fallava. Ás
vezes, ia ella levar-lhe de comer com o riso nos labios, uma palavra
carinhosa para lhe inspirar conforto; e estendendo o braço para
agarrar no talher, lentamente, como tendo alguma coisa grave a indagar,
elle ficava a miral-a com o ardor dos seus olhos encovados; depois ia
baixando a cabeça n'uma confusão, vagarosa, funebremente--sim! sim!--e
viam-se-lhe as narinas arfando nos haustos d'uma raiva subterranea.
Chegou á porta que rasgava no muro, por sob a cupula das nespereiras;
correu-lhe o ferrôlho depressa, empurrou-a com o pé, cheia de
curiosidade de penetrar no olival, até á velha oliveira onde n'aquella
noite, o carro tinha parado. Mas recuou com um gritinho de susto. O
cunhado nas almofadas do _break_, á sombra da arvore, aguardava por
ella como n'outro tempo.
* * * * *
Manuel Zarco não quiz prolongar á viuva, a visão theatral que se
impozera, e desceu do carro para vir ter com ella. Em vez de veredas e
barrancos tortuosos, uma larga estrada cortava agora o olival, entre
eucalyptos colossaes, que sacudiam á briza molhos de folhas em
cutello. Ella nem podia fallar, branca de susto, humilhada de
vergonha, e sentindo o coração grosso de lagrimas. A voz de Zarco era
triste, porque tambem elle não tinha sido feliz.
--Como não quer demorar-se, disse elle, mandei os carros aqui. Partirá
quando quizer, as creadas nao tardam. A carruagem em que veio fil-a
reservar aos noivos, por ser ampla. Póde ir n'este _break_, é velho
mas de boas molas, tenho-o ha vinte e quatro annos...
--Antigamente, tornou ella junto ao portello, vencendo um grande
embaraço, não havia roseiras aqui.
--Não, disse elle galante, nasceram por onde o teu vestido roçou.--A
sua voz tremia.
--Chut! casaram hoje os nossos filhos.
--Mentes. Carlinhos vem d'uma cigana velha, a quem hoje dei
o que ella quiz levar. Teem-m'o dito muita vez! É negra, traz uma
filha, ouço que vivem de roubar por essas feiras.
--É verdade, murmurou ella suspirando; filhos só os tive de
ti.--Chorava a sua mocidade agitada, as terriveis dôres que soffrêra,
os orgulhos feridos de mulher.
--Ouve, disse-lhe então elle com supplica, não me tenhas odio, não
tenhas. Dora é tuna creança, ama-a um pouco, assim como amarias a que
nos morreu. Ellas parecem-se. Sobretudo, não lhe digas mal de mim.
--Ah, bem vejo que amavas tua mulher...
--E tu que amastes meu irmão?
--Mas é falso.
--De que serviria acreditar agora n'isso? Estavamos doidos quando nos
amámos.
--Sim, doidos d'amor. Ai como a gente envelhece depressa!
--Razão para ficarmos amigos, já que tudo morreu. Fernando nunca veio
a saber...
--Prouvera a Deus que assim fosse! Cala-te d'ahi! disse ella
bruscamente. Na hora da morte ia beijal-o, repelliu-me; morreu,
dizendo a horrivel palavra. E por tua causa! Não poderás dizer nunca
que te provoquei. Quando vinhas, fugi-te muitas vezes. Tudo
me abandonava então!...
--Esqueçamos: a vida dos nossos rapazes, exige. Vá, perdôa. Elles
viverão seis mezes comigo, seis mezes comtigo. De mais, ficámos
pobres. Os pobres não devem ter ruins paixões.--Ella cortava rosas, no
rosal que extravasava de roda. As velhas aias tinham chegado entanto a
pequeninos passos, arregaçando muito as suas sedas festivas; em carros
de toldo, jumentos e mulas, a creadagem repleta, cantando, chalaçando,
deixava S. Mathias caminho da aldeia. A viuva relanceou ainda os olhos
por aquelles sitios, lentamente, como a impregnar a memoria d'aquella
idyllica paisagem.
E para que ouvissem todos, fallando alto, pediu desculpa a Manuel
Zarco de não assistir ao _copo d'agua_, mas sentia-se indisposta,
tinha que receber os noivos... Elle abriu a porta do _break_, esperou
curvado que ella subisse.
--Zarco, disse a viuva aconchegando-se a um lado, emquanto as velhas
subiam e se anichavam tambem. Os nossos filhos que não demorem a
partida, vão ter frio pelo caminho. Principiavam córos de grilos na
espessura amarellenta das hervas, o sol cahia por traz das
arvores; á esquerda, nos vagos fumos da tarde, Beja torrejava.
--Adeus, disse a viuva sem colera, estendendo ao velho as duas mãos
descalças. Zarco sem fallar, beijou essas mãos inda pequeninas e
brancas.
Os cocheiros tinham vindo; e sob o pingalim, os cavallos arrancaram o
_break_ d'ao pé da oliveira, em direitura á estrada.
--Adeus, disse a viuva, apertando ao seio as rosas que colhera no
rosal.--Zarco parado, as mãos cahidas, ficára imbecilmente de pé, todo
vasio de reacção.
--Eh, esperem, gritou de repente aos cocheiros.
O _break_ tinha outra vez parado. Com os olhos estourando lagrimas,
elle correu á portinhola com um pequeno embrulho para a viuva, que
conforme disse, esquecera na igreja.
--Obrigada, respondeu ella com a voz um pouco tremula.--E o carro
abalou. Junto da ponte, já longe, a estrada fazia um cotovello para a
esquerda, e bruscamente o olival desapparecia. Então a viuva voltou-se
muito, chorosa, inda viu Zarco immovel no meio da estrada, disse-lhe
adeus com o lenço. Depois tudo se foi com as arvores que se
interpunham, a estrada, o muro da horta, os olivaes, a aldeia. Ficou
a desembrulhar o pacote que elle lhe déra.
--Que chinellinha mais rica! disse uma das velhas bispando o que
continha o embrulho. Ere o sapato de velludo bordado a oiro, que ella,
a tal noite...
--Cabeça a minha! Quiz trazer sapatos largos para o caminho, e afinal
só vem um, que para mais me não serve.
A outra velha acudiu com admiração:
--Nem eu sei de pé, que possa caber n'uma chinellita d'estas.
E a viuva com um rir doloroso:
--Cabiam os meus, no tempo em que eram leves a ponto de atravessarem
jardins sem pousar no chão.
--Ora! isso é o tal conto de fadas, disse a mais pequena das velhas.
--É verdade, um conto de fadas, tornou a viuva. Mas aconteceu!--E os
seus olhos iam na direcção do olival.
A PROVINCIA
Á meia noite, depois de ter abraçado os amigos no Martinho, com uma
ternura de adeuzes que o caracter _blasé_ de quasi todos tornára,
valha a verdade, intempestiva, Jorge Miguel tomou vagarosamente o
caminho habitual da sua casa, scismando em que era esse o seu ultimo
«fóra de horas» de Lisboa. Morava ao Monte havia nove annos, no
pincaro do outeiro mesmo, sobranceiro á cidade, ao pé da ermida--n'uma
casinhola de pobres cujo primeiro andar o novo senhorio repartira
entre elle e um empregadorio velho do Museu.
Alli, com os seus livros, sem creado, varrendo a casa elle mesmo, com
pares de calças por cima de todas as cadeiras e cartapacios n'um
tumulto de rumas pelo chão, Jorge Miguel fazia uma vida concentrada de
alchimista, silenciosa, de porta fechada ás visitas e cerebralidade
muda ás expansões.
A cidade, que o conhecia n'um fumo de lenda um pouco feita através das
suas _blagues_, afizera-se a lhe consentir em publico um eu á parte,
explicando por maluquice a concentração solitaria dos seus giros, e
mesmo por bebedeira as apoplexias de humor que a certas horas
convertiam a sua apathia triste em improvisação epileptica,
archi-estouvada.
Áquella hora a cidade apaziguava os seus tumultos, cahia do gaz um
langoroso bruxuleio; os transeuntes, menos; e todo aquelle socego
entrava na solidão mental do pobre moço, escruciando-lhe a vida de um
nunca mais á vida de solteiro. Porque Jorge Miguel, farto de viver
sósinho, ia casar.
A historia d'esse amor era uma d'estas cousas occasionaes, despertadas
na vida entre duas cogitações mais amargosas, arrastadas longos annos
entre preguiças de affecto e desfallencias de vontade, relegadas
successivamente para os longes do futuro, e que um dia afinal se
impõem como a solução pelo absurdo de um problema economico impossivel
de resolver de outra maneira. A vida litteraria, unica paixão
absorvente que se lhe tinha conhecido, chegada ao cume,
collocára-o na alternativa de, ou ter de rebentar de martyrio n'um
meio hostil a toda a ideia de arte independente, ou de pôr ponto
brusco n'uma producção que mesmo apesar de fulgurante e vigorosa só
conseguia produzir no publico uma surda irritação minaz contra o
escriptor. Entre a miseria odiada e a espectativa de uma madorna
plethorica n'um canto de provincia, Jorge Miguel acabára alfim por se
vencer; e d'esta vez, arrazado, dera no orgulho o golpe mestre,
fazendo as malas para esse desterro onde a bestificação do matrimonio
lhe açaimaria os ultimos piaffões de archanjo revoltado.
Quando chegou a casa estavam quatro malas fechadas na ante-camara, um
_couvre-pieds_ acorreado com guarda-chuvas e bengalas, dois moveis
envoltos em lona que os gallegos não tinham podido levar na ultima
padiola, para a gare--e os aposentos sem trastes, o relogio parado no
muro, o vento ronronando nas arvores do adro, tudo aquillo lhe pareceu
como o responso da sua mocidade já fria e decomposta. A um canto da
pequenina sala de trabalho, um monte de papeis, tombo da sua bohemia,
aguardava o auto-de-fé liquidador. Jorge Miguel despiu o
casaco, trouxe um alguidar da cozinha, e chegando para o pé da
papelada uma das malas, começou á luz da vella o inventario d'esse
archivo de quinze annos rebolados por todas as maluqueiras da vida
sensacional e litteraria. Eram primeiro bilhetes de visita e bilhetes
postaes agradecendo livros, pedindo entrevistas, artigos, palavras de
favor--menus de jantar, convites de exposições e de concertos, ramitos
sêccos, retratos insepultos, carteis com monogrammas, dizendo, em
lingua inverosimil, adorações litterarias com resaibos a estranhos
sentimentos--e Jorge Miguel passeiava os olhos devagar n'aquellas
coisas, evocava um momento as epochas e as respostas, e
phreneticamente, para asphyxiar a saudade, chegava os papeis á vella,
e ia-os atirando incendiados para a concavidade do alguidar. Cartas de
Paris, cartas de Roma, da America, de Coimbra, todos os cantos do
mundo e da provincia, homenagens fervorosas, anonymias de odios
truculentos, discipulados timidos, identificações a distancia n'um
ideal sonhado, em pontos antipodaes de educação e temperamento,
consultas de mysteriosas litterarias, de celibatarias impacientes
pedindo conselho para casos de psychologia individual cheios
de acirrante... e desatavam-se os maços das fitas já ardidas da poeira
das gavetas, as velhas folhas rolavam, talhes de lettra e prosa
succediam-se, e sempre a impassivel vella, com a alma da luz azul,
muito direita, consumia implacavelmente essas chimericas memorias onde
tantos corações tinham batido d'elle ao mesmo tempo. Quando o pobre
alguidar foi cheio de restos, e da mocidade de Jorge Miguel nada
restava a mais do que algumas lagrimas a ferver-lhe na pelle do rosto,
uma vacuidade estranha entrou-lhe n'alma, sendo então que o relogio
parado e o silencio da casa pareceram marcar um fim de mundo.
Abriu a janella um pouco sobre a noite, e com o alguidar ainda quente
despejou á rua a sarabanda das cinzas aggregadas ainda em folhas
inteiriças, que o vento espiralou no ar em borboletas tenebrosas; e as
que tinham vindo de longe, tomaram por caminhos rapidos, ao largo; e
algumas hesitavam, sem se lembrarem já da morada de seus donos;
entraram-lhe pela janella outras, eram as orphãs, como a pedir ao
escriptor que as adoptasse; e algumas finalmente, como suicidas
inertes, baquearam no chão pulverisadas, e o vento d'alba as
varreu pouco a pouco aos quatro cantos do destino.
* * * * *
Accendeu um cigarro, o somno fôra-se, e como aquellas cinzas
fatidicas, a attenção pulverisava-se-lhe, incapaz de reflectir sobre o
problema terrivel que era esse internato de vagabundo illustre na
aldeia, em agricultor, ao lado de uma mulher com quem mal entretivera
fallarios triviaes alguma vez.
Estavam a dar quatro horas da manhã, e silenciosas nevoas vindas do
mar cobriam lentamente o céo de pallidos vapores, toldando a lua
poente, e alongando-se para o interior da terra em farrapanas
obliquas, que incineravam phantasticamente os bairros afastados.
Áquella hora Lisboa offerecia, das alturas do Monte, quasi sem luzes,
uma desolação madornal de cemiterio, planificada na bruma, rebatida
toda em lavouras de sulcos que eram bairros dobrados sobre si.
As cinzas dos papeis, minutos antes queimados, de certo áquella hora
se estariam espalhando pelo inextricavel de todos aquelles bairros
inquietantes, procurando, n'uma afflicção, os signatarios das cartas e
bilhetes n'elles escriptos para lhes fazerem queixa da deserção de
Jorge Miguel. Eil-as no ar, tiritando, as pobres borboletas, a
orientarem-se no dedalo das casas pelos milhões de fios do telegrapho,
receiosas de que o vento as pulverise antes de chegarem, com palavras
legiveis ainda, ao seu destino. Eil-as a adejar de angustia nas
vidraças, entrando nas casas pelo respiradouro das chaminés, indo ás
alcovas, pousando nos travesseiros, indo aos cemiterios, pousando nos
jazigos, e n'uns e n'outros interrompendo os somnos e as doces mortes.
--Não sabem? Jorge Miguel aposthasia de cavalleiro templario do
paradoxo, de arcebispo da leria, de arcabuzeiro da rotina a balas de
loucura...
E o alarme acordado apenas na mágoa d'elle, affigurava-se-lhe
entenebrecer de luto a terra inteira, parecendo-lhe que de cada
bairro, cada café, cada cartaz, cada esquina de rua, cada casa, mentes
dispersas, adorações indefinidas, affectividades anonymas nascidas do
deslumbramento da sua arte estravagante, se erguiam da cama no estado
inconsciente de phantasmas, tomavam pelo caminho dos papeis queimados
vindo de roda, pelo ar, a lhe fazer um côro de implorações.
Lentamente, como amanhecia, por todo aquelle vasto mappa
encinzeirado, luzes de gaz vinham-se apagando em linhas divergentes,
como se esse extinguir gradual de estrellinhas somnambulas fosse a sua
gloria de escriptor morrendo nos esquecimentos da aldeia, quando outro
espirito subisse, mais vivamente moderno, a allumiar a ingratidão das
gerações.
Encostou-se um bocado, mas não podia dormir, os rumores matinaes
sobresaltavam-n'o; dir-se-hia que toda a cidade se levantára mais cedo
para trepar á montanha e lhe invadir a casa de vozidos. Entrementes, o
dia clareava, e quando foram horas de partir, Jorge Miguel, chegando
pela ultima vez á varanda, casualmente viu no parapeito um bocado de
papel carbonisado, onde subsistiam legiveis duas rapidas linhas de
escriptura. Leu o seguinte: «de resto, meu caro, para ser celebre é
necessario viver longe, e não ter tido nunca amigos intimos».
Foi sob esta impressão martyrisante que elle deixou de vez a capital.
* * * * *
O rebentar na provincia foi terrivel; receberam-n'o á chegada da
diligencia com uma musica de pretos, que era a estreia da
phylarmonica: quatro carpinteiros a trombonear canudos de
latão, um barrigudo a zurzir os pratos como fulo, e o do zabumba,
macanjo, dando co'a maçaneta nos garotos. Como os musicos não
soubessem senão a marcha da Ione, ensaiada á pressa para as procissões
da Semana Santa, com esse batuque funebre seguiram, em passo de
enterro, pela rua da grande villa, no meio dos raios te partam do
cocheiro que despregava as pilecas na subida, e de um certo riso de um
padre, de lhe fazer calafrios pela medulla.
Em breves dias fez-se o casamento, para o qual Jorge Miguel, foi sem
curiosidade, decidido a resolver o problema do seu destino por um
criterio de vontade estoica contra o qual piaffavam todas as suas
selvajarias de indomavel vagabundo. Sua mulher não lhe inspirou a
principio mais que uma especie de pretenciosa piedade: franzininha, um
pouco loura, com as orelhas pequenas, a bocca pura na esquadria de um
queixo quasi viril de voluntaria, e toda a graça de viver na
infantilidade dos olhos melancolicos. Não era pela belleza de certo
que essa imponderavel bonequinha viria a exercer no espirito do esposo
qualquer cousa similhante á seducção.
Senão quando, attenuadas um pouco pelo aconchego de uma
casita provincial as saudades litterarias de Lisboa, subitamente, uma
manhã, Jorge Miguel começou a sentir orgulhos vagos de vêr labutar por
elle a companheira.