por todas as ruelas, ia pondo as gentes de sobreaviso; viram-se
rapazes e mulheres correndo ás esquinas que defrontavam com o largo,
janellas que abertas de chofre inchavam de gentio com fatos de gala,
grupos freneticos buscando posição de vêr melhor; e de repente, quando
a orchestra de Beja entrou a choramingar uma symphonia no
côro, ondas de familia romperam na portada sem guardavento, invadindo
as capellas, enchendo a nave, querendo forçar a balaustrada carunchosa
do sanctuario. Jámais S. Mathias tinha visto coisa igual, nem quando
D. Pedro V fôra a Beja--e francamente, de logo perdeu a esperança de
tornar a gosar outra grandeza assim de boda. A casa da Torre era no
largo, grande, pesada, singular, com esquinas de granito negro, onde
os escudos postos ao través esculpiam complicados symbolos de nobreza,
leões com asas, metade de um cavalleiro armado de lança e capacete,
Nossa Senhora dentro d'uma torre, cabeças de moiro n'um molho: e só
aguias eram algumas tres! Sobre os portões de columnellos gastos, com
argolas de bronze para prender as bestas, e portas de carvalho
fortalecidas com magnifica pompa de ferrarias damasquinadas, esses
brazões repetiam-se mutilados; no fundo do pateo aberto, d'um sabor
arabe, e com arcos á volta cobertos de hera via-se a ampla escadaria
de corrimões de bronze, alcatifada de fresco e cheia de vasos
decorativos; um velho cypreste lhe fazia sentinella, hirto á beira
d'um poço octogono, todo em altos relevos de pedra rugosa--em
casotas, acorrentados, inquietos, dois grandes mastins abriam sobre
quem chegava, o duro olhar sanguinolento. Na fachada cá fóra, a
correnteza de janellas senhoriaes, fria de butareus e cimalhas onde os
estorninhos gritavam, deixava pender ricamente sobre as velhas
saccadas, preciosas colchas hereditarias, amarellas com grandes
passaros em lhamas de prata, azul pallido n'uma loucura de mandarins e
pagodes, ou d'altos relevos brancos, verdes, escarlates, sobre foscos
de oiro indiano, onde as grossas franjas luziam. Pois d'essa casa
severa, vomitára subito um cortejo bizarro de noivado--á frente vinham
os figurões de Beja em grande _mise_, ricassos das terras proximas que
tinham chegado nas suas seges, velhos amigos de Zarco, lavradores,
funccionários, ultimos parentes da familia... E rodeavam o da Torre
todo pallido na sua grande barba, que levava a filha pelo braço como
uma grande musa germanica, alta, pudica, esplendidamente branca e
vaporosa n'um véu que lhe cahia aos pés. Fez bulha na aldeia o senhor
coronel do 17 com as suas medalhas ao peito, e um velho general de
metro e vinte e cinco, gesticulando para a direita e para a esquerda,
que mirava as femeas lampeiro como um galo, ao pé do vigario
capitular, um côr de parede, que mui dulceroso e beato, afiára o dente
em tres dias d'abstinencia, sonhando as delicias do _copo d'agua_.
Seguiam damas paramentadas de oiro e plumachos, luvas chinfrins de
dois botões, pulsos eticos chincalhando braceletes, muito estrepitosas
em sêdas de côr terrivel: e disse uma d'ellas para a outra, que seguia
ao lado, mortificada no peso da cuia--quem está mesmo um cangalho é a
Sardinha. Esta coisa causou grande pasmo; estar a Sardinha um
cangalho! Hi!... Muitas agglomerando-se em trouxa, discutiam tão
famoso caso. E gabou-se a morgada das Palmas, uma trigueirona de
cabello corredio, labio gretado, sêcca e presumida, que de chapéo
branco e vestido verde, fazia pensar n'um grande molho de nabos.
Depois as creadas, sinceras raparigas que choravam--isto deu pena em
S. Mathias--e quasi em braços no meio d'ellas, uma velhita em sêda
preta, pequenina como uma creança, levava um ramo de rosas brancas e o
leque da noiva, abanando n'um triste ar resignado, a sua cabeça branca
d'octogeneria. A aldeia estava toda no largo, gralhando a essa hora,
gente das lavoiras de roda, uma chafranafra de mulheres e homens que
se rasgava e bipartia, ao passar o acompanhamento. A cada passo,
pequeninos lances detinham a procissão bruscamente, e viam-se as
raparigas sahir dos ranchos, tostadas, fortes, rindo com soberbas
dentaduras, cabellos de trigo maduro remoinhando em serpente no alto
das cabeças...
--Com sua licença--e deitavam flôres sobre a herdeira, commovidas, um
ar de filhas de burgo medieval. Á porta da igreja, o Carlinhos estava
entre os seus, crescia a turba embatendo-se; e por traz a viuva muito
pallida, tinha os vagos olhos das frias estatuas antigas, inertes,
dilatados d'insomnia, como prescrutando ao longe os tempos em que
ainda não eram de pedra, e uma vida lhes circulava e ria no alvor dos
membros nús. Deu-se então no Zarco e na viuva, ao mesmo tempo, um
calafrio de ciume, quando os noivos se encontraram com a mesma flamma
nos olhos; e os dois perceberam que iam ficar de mais n'esse idyllio
de creanças, absortas uma na outra, que esquecidas de tudo, iam de
mãos dadas pela igreja fóra. N'essas velhas idades d'amor egoista, em
que os filhos são o calor, o orgulho o motivo de viver--o
choque d'ambos, percebendo que lhes tinha acabado o imperio sobre
essas adoradas creaturas, foi tão violento e fulminante, que se
deixaram ficar atraz no meio da turba, com vagares de fundo desalento,
ella direita, sem desmanchar a estatura soberba, derrubado elle,
pacifico, apagado, enorme como um elefante, e sem dar uma palavra para
não desatar alli em soluços, trespassado dos primeiros regelos do
abandono. Cortando então por entre a gente, ouvia por toda a banda
humildes palavras de conforto e piedade; velhas mães que o
encontravam, lacrimejantes, attentando-lhe na face descahida--Vae
ficar só n'aquella casa tamanha, coitadinho do amo Zarco hade-lhe
custar. Isto de filhos!
--E são os da Oriola que levam a nossa menina! Abaixar-se o amo...
Porque todos os subditos sabiam já da capitulação deshonrosa d'esse
velho rei de charnecas e montados; umas poucas de palavras colhidas na
altercação com a viuva, serviram de base a toda a sorte de commentario
e parlenda sobre o casamento; pintava-se e repintava-se de grupo em
grupo, a expressão terrivel da viuva fallando a seu cunhado,
palavras cruas ditas por ella, _acautele-se, acautele-se levo-a
comigo_, e outras muitas; e o amo Zarco todo enfiado, ali a ouvir, a
rezar desculpas, a fazer-lhe vénias. C'os diabos--nem que comesse os
sobejos d'aquella magana!
--Fosse comigo, fazia cada qual em grandes quizilias.
--Ai, argumentavam muitos pachorrentos, é o que se vê hoje em dia.
--Tão má, filhos, que nem as escripturas quiz assignar em casa do
cunhado.
--Inda assim não entalasse o rabo, figurona!
Mas depois de longas conjecturas, recapitulando, toda a gente acabava
por dizer que andava ali o quer que fosse. Olá se andava!
* * * * *
No gabinete do parocho tinham posto uma grande mesa, e em roda bancos
negros da confraria das Almas, para os convidados se assentarem. Era
uma casa verdenta de paredes, com fendas ao través na abobada, pintada
de frescos mais que barbarengos; e por um buraco de cima, passava a
corda da sineta, que desde que se rachára o sino, servia para chamar á
missa a freguezia. Ao fundo, pezava um grande armario de
carvalho negro com espelhos de metal que verdejavam; e paineis de
santos esburacados á navalha, cahiam aqui e além, emmoldurados em
talhas carcomidas. Uma luz de cava vinha de cima, por uma janella sem
portas, onde se cruzavam varões de ferro. Como a casa era estreita,
apenas foram á leitura do contracto, os intimos amigos ou personagens
de pezo. E o tabelião Mathias homemzarrão com uma cabecinha
humoristica de japonico, estimavel e estupido, principiou com a sua
voz em falsete nos fins de cada periodo, a ler artigo por artigo as
escripturas, circumvagando a cada clausula os seus olhitos por cima
d'umas olheiras paposas, onde as bexigas tinham picado covinhas de
sombra.
«...e mais dou a minha filha Dora Victorina Maria de Sousa Alvim Mexia
Zarco da Cunha Menezes... as herdades denominadas da Cova, das
Sesmarias, da Chaminé, e Côrtes tanto Grandes como Pequenas, com seus
montes, gados, arvoredos, dependencias e serventias, a partir do dia
em que desposar o dito seu primo Carlos; e mais lhe faço doação de
todas as minhas lavoiras do Guadiana, que vão entre os moinhos da
Coitada e a minha quinta de Valle de Borrucho, constando de
doze herdades seguidas, partindo d'uma banda com o Guadiana, da outra
com a estrada de Moira, da outra...» E aqui Mathias foi obrigado a
parar, porque um borborinho d'espanto se levantára entre os
convidados.--Que? Dava tudo aquillo á filha? As lavoiras do Guadiana,
o melhor trecho de propriedades do Baixo Alemtejo? Mas endoidecera
esse homem com certeza! Despir-se para enriquecer o genro! Tomé dos
Panascos, que trouxera arrendadas muitas terras da Torre, e passava
pelo melhor avaliador da cercania, punha as mãos na cabeça com uma
face attonita e consternada.--Jesus! Não contente de humilhar-se ante
a viuva, inda em cima lhe cobria o filho de oiro. Mas é que ia ficar
arrasado! Dar á filha mais de seiscentos contos, sem restricções, sem
condições, sem cautellas... E Thomé foi junto do seu velho amigo, e
disfarçadamente puxando-lhe a manga:
--Olha que te arrependes, Manuel. Que é que te fica para viver?
O da Torre encolheu os hombros.
--Desgostos, fez elle muito baixo, e disse ao tabellião para
continuar.
--«E outrosim lhe entrego toda a plantação de vinha e
olival, que possuo livre e isempta, no sitio das Barrocas, freguezia
de S. Pedro de Portel, cerca de quatrocentos milheiros de cepa e tres
mil pés de oliveira...»
--Meu pae, balbuciou Dora, avançando para o velho que estava junto da
banca ennovelando a barba n'um movimento calmo.
--Vá, Mathias, depressa! ordenou elle, emquanto cada vez mais, n'um
phrenesi crescente, os convidados se acotovellavam e comprimiam, não
querendo acreditar no que lhes fôra lido. O tabellião enumerou o que
restava d'uma fortuna rural cedida em dote, moinhos, hortas,
ferragiaes, montados de retalho, ruas inteiras da aldeia; tudo que
Zarco possuia, bom e mau, pequeno e grande, tudo dava a sua filha com
a mais generosa confiança.
--Mathias, disse ainda o velho Zarco, falta a casa da minha
residencia, o quintallão e as abegoarias. Accrescente que a contar de
hoje, lh'os dou tambem.--E voltado para a cunhada, com a sua face
radiante de altivez fidalga, fingia não sentir as murmurações de roda.
Fóra, na igreja, no adro, no largo, por essas casas todas da aldeia,
já se contava que o amo Zarco estava doido, e peor ainda, ia
ficar ás sopas da filha. Dera-lhe tudo, sem acautelar a sua rica
subsistencia, o seu vestuario, o seu sequito. E uma hesitação quebrava
agora em facções a gentana: á piedade succedera nos ganhões o
fatigante receio de serem despedidos da casa pelos amos novos. Zarco
descia--quando um tocante episodio deu nos espiritos a nota mais viva
da emoção. Foi a leitura, do que a pequena velha que levava o ramo de
rosas e o leque, dava á sua menina. Mathias, elle mesmo commovido, ia
dizendo:... Umas contas de oiro com imagem de Nossa Senhora da
Conceição, a sua capoteira de velludo verde, duzentos dobrões em oiro
n'uma bolsa vermelha, a tapada da Vanga...
Dos bellos olhos pudicos de Dora saltaram lagrimas por baixo do véu;
nos proprios olhos de Carlinhos faiscavam pontos humidos; de redor nas
gentes, faziam-se monossyllabos ternos; mas toda radiante de ser o
alvo, correndo a assembléa com a sua cabeça tremula, a velhita
exclamou:
--Esperem lá, esperem...--e para Mathias, muito ruidosa nas sêdas
pretas: leia lá!
--«...com a expressa condição de residir seis mezes do anno em casa de
seu pae, durante nove annos, ou em logar d'ella, algum de
seus filhos, caso seja fecundo o casal.»
--Ouviste bem? redarguiu ella sensibilisada, abraçando-se a Dora, e a
sua cabeça dava pela cintura da noiva. É que nós não queremos ficar
abandonados, nem eu, nem teu pae, e a nossa casa.--O que fez com que o
dos Panascos fosse dizer baixo a Manuel Zarco:
--A velhota teve mais juizo que tu. Emfim lá estou, se um dia... É
como se fosse tua casa, Manuel, bem sabes!--Chegou então a vez de se
saber o que dava ao Carlinhos a senhora viuva. Mathias começou com a
sua voz gordurosa, e para ouvir, inda os convidados se apertavam mais.
Era quasi uma replica da viuva, á arrogancia com que o da Torre
amontoára riquezas aos pés da filha. Foi longa a lista, novas herdades
iam passando, arribanas, laranjaes, vinhedos, joias, louças, palacios,
rebanhos, casebres, trens... D'esta vez quem se espantava era a
Oriola--e por seu turno a viuva ficou nua.
Processionalmente então, e á medida que iam firmando o contracto, como
a cerimonia findava, em reverencias de vassallos ante uma
grande potencia, passavam os convidados diante dos noivos, com
sorrisos de grande gala, alguma graça estudada, dando parabens com
ares cavalheiros, ou demorando-se a affirmar esta ou aquella
intimidade, na adoração dos mil e setecentos contos de dote. As
mulheres sobretudo, cercavam Dora de pequenas ternuras ridiculas,
beijos muito repenicados, segredinhos entre risadas. A morgada das
Palmas fez-lhes prometter que a iriam visitar ao seu monte de
residencia; o general citou alguma coisa no gosto bocagiano; velhos
lavradores que tinham trazido ao collo Carlinhos e Dora, de palpebra
humida davam-lhe conselhos, descançando-lhes no hombro as suas grossas
mãos de trabalho. E n'uma avidez, sempre de longe, a viuva contemplava
a sobrinha, idealisada no meio dos tules, como uma grande figura de
legenda.
Quando viu menos gente no gabinete, Zarco foi apresentar Dora a sua
cunhada; a recepção foi quasi affectuosa, abalada a viuva como estava,
pela grande batalha de generosidade que momentos antes ferira com o da
Torre. Foi quando Dora levantou para beijar a tia pela primeira vez, o
grande véu de noiva em que vinha envolta. Essa belleza senhorial
d'uma soberba esculptura, que a viuva nunca pudera contemplar assim em
plena efflorescencia, pareceu feril-a com o seu esplendor de pureza e
brancura, porque se pôz muito pallida, apenas o véu de Dora se
erguera. E por muito tempo ainda, considerava sem poder fallar, a
sobrinha. Em volta, nas gentes da Oriola, o mesmo fremito de surpreza
fizera correr murmurios de labio em labio. As duas velhas aias tinham
corrido a Dora, e soluçavam. E a viuva de mãos no peito, como
sustendo-lhe o frenetico pulsar, reconhecia por verdadeiro o que por
varias vezes lhe chegára aos ouvidos, vagamente, como uma opinião sem
força--isto é, que Dora era o retrato vivo d'aquella querida filha,
tão meigamente loira e tão formosa, unica creatura que ella amára no
casamento, e pela qual mesmo tinha chegado a aborrecer menos o marido,
Laura emfim, a sua pobre creança, morta com vinte annos, pouco antes
da adopção de Carlinhos.
Evocação da unica memoria que ainda hoje a fazia toda vibrar, esta
resurreição em Dora, da celeste creatura nascida das suas entranhas,
exacerbando angustias passadas, acordaram na viuva de Fernando Zarco,
menos asperos propositos de conducta. E voava-lhe a idéa
pelas lembranças já longinquas dos seus primeiros tempos de esposa,
aos dezasseis annos, quando por cubiça do pae, uma vez acordára no
leito do lavrador da Oriola.
Seis annos de infecundidade tinham assignalado depois melhor essa
frieza d'esposos, que quasi nem se haviam conhecido. Era ao tempo
ainda dos dois irmãos serem amigos, companheiros de caçadas e
aventuras. Manuel com as suas espaduas de hercules, e uma barba de
scandinavo muito frizada nas pontas, quasi branca junto dos labios,
era o typo da prudencia, fallava pouco, e ria com todos os dentes, um
riso ingenuo que antes parecia de rapariga pela doçura do esmalte; e
quando os seus olhos de violeta, atravessados d'um brilho leal e
timido, se erguiam a procural-a, ella experimentava não sei porque,
tamanha melancholia e quebramento, que se ficava ainda com mais pena
de ser mulher de Fernando, um tostado, para mais grosseiro e leviano.
Ah, como isso ia já longe! E Manuel todos os dias achava alguma
pequena lembrança que lhe trazer; ninharias primeiro sem intuito
previsto, depois expendidas a furto, acceites em segredo... O certo é
que ella amou o cunhado, porque o perfume d'esses beijos a
embriagava, no carmim dos seus labios d'adolescente. Fernando, que era
soberbo, aspero, intractavel, brutal, _coração ao pé da bocca_,
desconfiou mas sem medir a profundeza da culpa. Ella vivia n'esse
tempo inteiramente só, sem amigos, nem protecções do marido, muito
nova, tão cheia d'impetos! E das profundezas do seu corpo exhuberante,
cheio de fecundas desordens e d'amores indomaveis, vendo-se alli
abandonada, vinham-lhe furias de peccar. Um domingo, os irmãos tinham
ficado mal; nascera aquella filha, de quem Dora copiava a belleza--e
tal documento da sua culpa, trouxe-lhe a secreta vergonha que agora
gotejava odio sobre o irmão de seu marido.
* * * * *
Depois da benção, o sr. vigario geral pronunciou uma allocução toda
faustosa e erudita, em que se comparava a vida a uma nau vogando no
mar procelloso das paixões, entre escolhos de vicios e malquerenças; e
alli sua rev.ma descompôz mais uma vez os seus adversarios politicos,
attribuindo-lhes a ultima estiagem e a decadencia dos costumes;
e com philaucia denunciou que os maridos não tratando senão
d'eleições abandonam as esposas á phantasia das suas pobres cabecitas,
do que se aproveitava o demonio para ir centuplicando os adulterios.
Isto levou tamanho donáto a philosophar sobre a familia, e desfilaram
as qualidades dos Zarcos, o seu amor ao progresso e á liberdade, e do
que os povos de roda lhes deviam, pois ainda no inverno passado, os
fidalgos tinham dado córte gratuito nas herdades perto, afim da pobre
gente ter lume nas asperas noitadas.
Saltou d'aqui naturalmente nas inimizades que por tantos annos tinham
separado as duas familias (inimizade não, emendou logo com um meneio
unctuoso; diremos antes melindre, susceptibilidade ferida, pequena
divergencia de familia--era de mui bonitos termos s. rev.ma! Inda
que...) Mas, proseguia o orador, o distrito todo exultava de vêr
unidas de novo as duas casas, todos davam graças.--E batendo no
pulpito, com gestos de quem chama a si o melhor da christandade, uma
imponencia no carão, fechou trecho com um latinorio dos santos padres,
faustoso e seraphico, que por sinal mereceu uma palavra irreverente ao
lavrador dos Panascos.
Quando a cerimonia acabou, foguetaria e vivorio estrondeavam
por essa aldeia toda, repercutindo os entônos e ritornellos de fraga
em fraga--enternecia a tarde nos campos com a descida do sol, uma
poeira de oiro tamisava os fundos, aqui, além, immovel sobre o ar, e
dando á paisagem velhos tons de pintura fanada. E o cortejo sahiu da
igreja como viera, mas bem numeroso e mais rico, pois lhe estava
adiccionada toda a Oriola, ganhões, creados, convivas, amigos, as duas
velhas aias, e coisa pasmosa! a propria senhora viuva.--Anda, sempre
te abaixaste, bem feito! dizia-se _á da_ Fevronia, na passagem do
cortejo. O coronel dera o braço á viuva que descera meio véu; o
generalito, gazil como um rato sabio, levava a morgada das Palmas,
muito birrenta de lhe terem descosido a cauda verde nabiça; e Dora
pelo braço de Carlinhos, vermelha, comovida, grandes olhos de saphira
humida, radiava a frenetica belleza d'uma virgem que se abala e
palpita, ao primeiro contacto d'um homem.
O cortejo é que não ia directamente ao portão d'entrada da Torre, mas
enfiou pelo enorme pateo de lavoira ao lado, a pretexto de vêr a
_funcção_ que se preparava aos servos e trabalhadores. N'um
banquete monstro, S. Mathias e a Oriola congraçavam, comendo ao lado
uma da outra, na melhor harmonia e folgança; e só no intuito de sagrar
esta confraternagem, a viuva accedera vir a casa de seu cunhado, sem
quebrar as juras que fizera, pois não passaria o terreno neutro do
pateo. Desconforme como um dominio, era esse pateo de muralhas rudes e
portadas soberbas, onde os varões de bronze raiavam, e pendiam das
portas formidandas, como corações de molochs, os grandes cadeados de
ferro. Descia-se das cozinhas por um balcão de pedra com escadarias
lateraes e mutiladas estatuas, em cujos velhos pilares se vinha
tanchar a dentuça dos corrimões estruidos. Diante do balcão, ia ao fim
do pateo uma alameda de castanheiros gigantescos, murmuros sob a
verdura das suas folhas acres, d'onde um frescor gottejava no esmaiar
da tarde. Um grande portão aberto ao fundo dava sobre os laranjaes da
horta, sombrios áquella hora n'um verde metallico condensado, redondos
até ao chão relvoso pelas imbibições da rega, humidos, picados de
fructa, e filtrados d'uma aura toda enervante em nupciaes essencias.
N'essa alameda de castanheiros amigos, tantas vezes percorrido
do pae e da filha, onde pela manhã palafreneiros passeavam á
redea os cavallos de sella, ou vinham limpar o pequeno coupé de
serviço, onde tinham logar as tosquias, as ferras e as matanças nas
epocas da praxe; n'essa alameda tinham construido uma mesa sem fim
para quem chegasse, homem, mulher ou creança, fosse d'onde fosse e
viesse de onde viesse. Aos lados alargava-se o pateo até ás
abegoarias, cavallariças e estabulos. E um tom de boda reinava por
toda a parte; nas carretas de trabalho postas em bateria, mais os seus
tropheus de forquilhas, ensinhos e pás, radiando das joeiras, arneiros
e mulins, como panoplias em sala d'armas; nas paredes cobertas de
murta e gilbarbeira, onde as corôas d'espigas maduras faziam rodopiar
serpentes de oiro pallido; nas largas manjadouras que as bestas
esfocinham rilhando os fenos perfumosos; em arcos de flôres de arvore
em arvore, risos e saudações levadas a um delirio realmente
captivante. Em quatro dias tinha-se abatido um rebanho de carneiros e
bodes, o arroz viera n'uma quantidade de carretas, não sei quantos
moios de lobeiro em farinha para a amassadura, o poder do mundo em
couves, para mais de vinte pipas de vinho... E a Fevronia
punha as mãos do _error_ de moedas que ia custar a frescata ao
fidalgo--mas coitada! era uma pobre, sempre foi atando ao cós das
saias a mais funda taleiga de quadrados, e sumindo-se debaixo do chále
a mais disforme escudella da sua pilheira, para arrepanhar as
sobrasinhas. Ora, deixal-o custar caro! Em compensação, que grande
kermesse em plena tarde, sob a viva e sagrada cupula das arvores, onde
trigueiros e loiros dos dois burgos rivaes, se abraçavam cantando e
rindo nos seus luxos domingueiros, cinta escarlate, chapéus de borla,
jaleca ao hombro, e a camisa crua de grandes collarinhos molles,
acolchetada pelo nó da goela. Com a largueza do terreiro, a malta
farandolava em quantos recreios havia: por aqui atiravam a barra os
valentões arregaçados até aos hombros, estriando as musculaturas
bovinas nos rompantes d'uma destreza infrene aos berros de cada vez
que alguem passava a baliza, ou não chegava a ella; por além
bailava-se de roda das arvores, deitando as vagarosas cantigas do
trabalho rustico; em tal sitio havia saltos, n'outro luctas,
_desgarradas_ n'outro; e tudo isto n'um borborinho infernal que
ensurdecia a gente. Vinham chegando as raparigas de claros
cabellos lisos nas fontes, com flôres no remoinho das tranças. E a
Oriola abrasava de as vêr tão brancas, boas carnações flamengas, saude
affiançada, perna dura, seio fecundo, dentes finos, e essa maravilhosa
doçura d'olhos violeta, tão peculiar como era sabido, aos bastardos do
amo Zarco da Torre. Ellas iam apparecendo a pequenos ranchos,
envergonhadas dos _de fóra_, lenços em cruz sobre os seios inviolados,
de mãos dadas e braços bamboleantes, como os recrutas em passeio.
Os negros da Oriola diziam-lhes então gracinhas, botavam-lhe rima na
passagem; e era vel-as a rir escondendo os olhos c'os braços, abalando
côr de romã umas atraz das outras, para dizerem de longe aos
mariolas--que não se fizessem destemidos nem confiados, e fossem lá
ter chalaças com as pretas da sua terra, perceberam? Mas a outra
porção da Oriola por seu lado, gente madura e reflectida, ainda
desconfiada da senhoril hospedagem na Torre, sempre tinha querido
inspeccionar, vêr com os seus olhos, apalpar com os seus dedos, todo o
maravilhoso arsenal agricola, instrumentos, machinas, animaes, bombas,
poços, bebedoiros e hortejos--e por essa aldeia que viera,
subia um respeito de gente cavadora e mandada, que mal disposta para o
da Torre, agora se dobrava, reconhecendo n'elle o genio de um lavrador
modelo. Ah! o que se chama grandeza, ordem, elegancia e precisão! Que
gados, que acommodações, as cathedralescas médas d'azinho, pombaes,
palheiros, ferramentas de trabalho!
Colossal tudo aquillo--e os tostados da Oriola baixavam os seus olhos
arabes e premiam os seus beiços de negros, ante a victoriosa grandeza
dos loiros de S. Mathias. Quem havia de esperar, compadre, uma coisa
assim?--N'isto, um velhote grosso e vagaroso, que do balcão andava
mirando tudo, apenas o cortejo apontou para o lado das abegoarias,
poz-se a repicar do alto uma sineta: era o jantar. E duas
philarmonicas romperam latindo musicatas gentias, emquanto as palmas,
os gritos, os vivas e os saltos, centuplicavam de toda a banda.
E a viuva deixava-se ir entre as aldeias congraçadas, que no abandono
animal da vida rustica, riam alto com dentes famintos, e na passagem
dos amos, tirando os gorros, acenando de longe com os chapéus, erguiam
meio corpo da mesa, para lhes dar bôas tardes familiares.
Alguns mais ratões da Oriola--e sempre a Oriola teve fama de moços
reinadios--botando cantiga ás raparigas, que chegadas tarde ficavam
sem logar nas mesas, offereciam-lhes por cadeira os joelhos e por
encosto o coração. Ellas riam largo, já menos esquivas; muitas,
sollicitadas, davam-se por noivas d'aquelle e mais d'este; e á ordem
do homensinho da sineta, chegava a creadagem com o arroz dos fornos,
aloirado entre ramos de salsa, empilhando-se em alguidares
desconformes, d'onde rompiam fumando, tenras, succulentas, as pernas
dos perús e dos patos. Então foi uma loucura de vivas, saltos, gritos
e cantares. Passava o vinho em picheis de barro, as saudes choviam nos
estimulos da sede, o tenir dos pratos era inquietador. Nunca Carlinhos
fôra mais querido que n'essa tarde placida de noivado, onde tudo ria á
sua mocidade leviana; a Dora que elle levava pelo braço e readquiria
vivezas de pomba; os pavões, que sob os telhados das abegoarias,
inquietos, gritando d'entorno ás femeas, abriam enormes leques
mosqueados d'ouro verde; nuvens de pombos que o ruido assombrava
forçando-os a revoar de cimalha em cimalha; e ao largo a paisagem
caindo n'uma paz luminosa, muito irisada em tintas subtis.