oitenta metros. E atraz de mim não ouço mais que a floresta a
esbravejar, tomando posse da ruina, e os estalidos da cantaria que
rebenta, escarvada pela violencia das raizes que esconjuntam a
architectura a punhaladas de ciume. Agarro um facho, em bramidos,
delirante d'um medo que centuplica as minhas ancias de vida livre, em
meio dos campos: e ao acaso, entre os cyprestes, pelo claustro, os
risos guiam-me: bem depressa descubro uma luz vaga, coando-se por
baixo d'uma porta baixa e carcomida. Dentro ha rumores, leves
_frou-frous_ de sêda que se acamam, tinir de pratos... E no
phrenesi medonho que me agita, deito os hombros á porta--a porta voa,
e uma orgia d'espectros patenteia-se, n'uma luz glauca em que as
figuras mergulham, confundidas, alongando as roupagens pardacentas. A
principio eu não pude destrinçar as lugubres carcassas, uma a uma, mas
já a minha vista insiste sobre as fórmas... ha um festim servido sobre
a mesa, flôres que se desfazem em poeira; e n'um brilho d'enterro as
tochas ardem, mostrando á roda esqueletos de monjas, a devorar co'as
mandibulas descarnadas, e cardeaes, marquezas, gentis-homens, que
entre si permutam toda a casta de motetes dulcerosos.
E mais distante, á luz do fogo que enrubesce na chaminé de pedra
armoriada, o senhor arcebispo tange um violão, meneando a calva
emquanto a abbadessa ergue os seus vestidos veneraveis, para esboçar o
primeiro passo do minuete, acordado nas cordas do instrumento.
--Rompe a manhã! grita o creado aos meus ouvidos.
Esfrego os olhos.
A nevoa esfarrapa chuveiros na montanha. É dia claro. Uma caleça nova
nos aguarda. E o sineiro da abbadia? A gente sempre sonha cada
asneira!
PEQUENO DRAMA NA ALDEIA
Devo dizer-lhes que este Carlinhos era um adoravel petulante de buço
preto e olhos claros, cheio de vivacidades com raparigas, prompto a
rir, delgadito e forte, tendo pelos actos de bravura uma quasi
religião. Compensavam-se n'elle delicadezas de femea, brancuras de
mãos, flexibilidades de cinta, uma doçura candida de feições, toda a
graça ondulosa emfim, dos que adolescem á larga, sem cuidados nem
represalias paternas, com os primeiros esboços d'essa energia physica,
tenaz, inquebrantavel, leviana e generosa, que ainda agora é tradição
em certas raças da provincia, e guarda fama de povoado em povoado. A
escóla fôra-lhe apenas um pretexto de troça, onde esse incorrigivel
tinha posto em debandada a auctoridade classica dos mestres. E como
n'esse periodo as primeiras desordens do sangue, ensaiavam
pelo campo da aventura, mais agora ou mais logo, as suas sortidas, não
havia mesada que chegasse, nem horas para folhear as lições. Demais, a
sua impetuosidade que esplendia côr e frescura de saude, pouco dava á
vida cerebral; portanto, voltou á aldeia sem curso, elançado de
figura, tendo as olheiras symtomaticas do amor esbanjado, lendo
romances, com uma arte especial de surprehender mulheres, e
predilecções decididas por quanto fosse prazer.
--Doido, dizia a gente pobre da aldeia, mas que rapaz!
A fortuna da familia fazia-o no sitio uma especie de menino d'oiro,
sagrado e por todos querido; desculpavam-lhe as audacias, tinha
entrada em todos os lares, e quando nas romagens o seu cavallo piafava
nos adros das ermidas, ou a galope ia cortando a chafranafra das
feiras, as raparigas deslumbradas achavam-n'o bello como um deus, e
muitas fugiam com elle, mandando á fava os namorados. Realmente
ninguem achava extraordinarias estas coisas. O que as velhas
camponezas então faziam, era ter saudades do pae, rico grão-senhor de
herdades e quintas, destemido, brilhante, alegre aventureiro, que
ainda em vesperas de morrer tinha raptado a lavradora das Lages;
aquella russa magnifica de carnação, que tinha o ar d'uma grossa
madona eborense, hão-de estar lembrados, hein? Carlinhos mesmo, era um
filho do amor, vindo não se sabia d'onde, amor d'acaso, d'alguma
arribana de granja, d'algum arredado logarejo entre serras e moinhos.
O certo era que dias após haverem enterrado no velho cemiterio, a
filha que ao rico homem restava da esposa legitima, entrara o marido
em casa com um pequenito pela mão, fôra junto da esposa mortificada de
prantos, e sem palavra tinha-lhe deposto no regaço aquella encantadora
miniatura de Carlinhos pequeno, a mais fresca e divina que era
possivel sonhar. A pobre senhora que se via sem descendencia, já não
estava em idade de ter filhos; resignada ás traições do marido, e
ennobrecida d'esse grande orgulho benevolo e senhoril, que ainda na
provincia revelam as antigas familias, acceitara o _bambino_ sem cousa
alguma perguntar. Além de que, adoptando a creança, assegurava-se
herdeiro á casa, e os filhos do irmão de seu marido não participariam
ceitil na grande fortuna do casal. Ah, mas esse exemplo d'adopção
tinha dado a mulheres sem marido, phrenesis bruscos de contagio, e
certo foi que muitas creanças appareceram dizendo-se irmãs de
Carlinhos. Talvez calumnias forjadas pela outra familia, ainda que
fallando sério, não faltassem a taes pretenções, uns signaes de
verosimilhança. Tanto os da Oriola, que assim era conhecida a familia
do Carlinhos, como os da Torre, que assim nomeavam a casa do tio
adversário--eram fortunas de respeito e gente de poderio. Os primeiros
tinham o maior nucleo da propriedade de redor da Oriola, aldeia
perdida entre carvalhaes e sobreiros; os segundos faziam séde de
governo proximo a S. Mathias, outra aldeia nos valles de Beja. Uns
tinham cabellos pretos, alta estatura fina, nariz direito, olhos
claros, e uma côr fulva de pelle, nuançada em deliciosos _duvets_;
eram da Oriola. Mas outros insculpiam-se herculeos e loiros, nariz
recurvo, dentes carniceiros, barba rara, e os olhos singularmente
obliquos contra um nariz que arfava com destrezas de hispano-arabes;
eram da Torre.
Pois extraordinaria bizarria! Dos trinta annos para baixo, toda a
Oriola copiava o typo do pae de Carlinhos; e acontecia o mesmo em S.
Mathias, a respeito do typo loiro da Torre. Nas terras de
roda, estas coïncidencias faziam riso, ainda que se explicassem com
honra, aqui para nós. Os da Oriola davam pão á sua aldeia, como os da
Torre a S. Mathias. Lá vinha o proverbio--mesmo pão, mesmas feições. E
sendo assim...
Ora cada qual d'estas familias rivaes--e nunca pude saber porque
rivaes, questões de ciumes talvez, uma herança mal repartida, ambições
de riqueza ou voga entre os povoados, eleições renhidas n'algum anno
de mais gastos, emfim qualquer pequenino attrito d'esta natureza ou
d'outra, onde o orgulho dos senhores ruraes, tão vehemente e
meticuloso, faisca determinando incendios e intimas assolações--cada
qual d'estas familias, ia eu contando aos senhores, não passava dia
sem discutir com uma rica metralha de descomposturas, escarneos e
desdens, o viver da outra. Em torno d'estes odios interfamiliares,
tinham-se formado mesmo pequenas côrtes, feitas com figurinhas
insipidas de proprietarios, mulhersitas seccas e beatas, maldizentes
na sua dentuça podre, com poucos meios e grandes deslumbramentos pelas
pratas de casa rica, sabendo as mesmas historias e queixando-se dos
mesmos flatos, levando e trazendo recadinhos, segredinhos,
pequeninos fetidos d'intriga, em preço do chá com doce que pelos
serões lhes serviam, e da quasi familiaridade que em publico, esses
senhores de terreola lhes dispensavam. Na casa da Oriola sabiam-se por
exemplo a horas e a tempo, os vestidos de sêda da prima Dora de S.
Mathias, como ella se vestia em sendo madrinha de baptisado, o que
tocava no piano, e quem estivera a jantar no dia dos seus annos.
--Diz que houve balancé até de manhã.
E noticias da cortiça exportada para Inglaterra, lã que vendiam os da
Torre, e dos rebanhos, carneiros, vaccas, porcos, cavallos, poldras...
--Tão maus, que elevaram o preço dos carneiros, só para prejudicar os
lavradores somenos. E os porcos d'elles não prestam, carne de cão,
mais dura!...
Cada viajata de Dora durante a estação de banhos, cada mez d'opera em
Lisboa, no inverno, as primaveras com o pae pela Andaluzia, no
Algarve, ou em Marrocos e Gibraltar, para espreitar o dolente azul do
Mediterraneo do alto das artilhadas escarpas inglezas, eram motivos de
censuras na Oriola, e surdas prophecias de ruina iminente. As
mulheritas da terra vinham aos serões com seus maridos,
trazer o que sabiam da Torre, inventar quando não havia que trazer, e
a mãe de Carlinhos commentava os casos entre velhas creadas que a
tinham acalentado, velhinhas que davam tu á sua dona, enroscando-se-lhe
aos pés com somnolencia de gatas fugidas ao serviço. Mas, desgraçadas
das visitas que ousavam julgar diante da rica viuva, o proceder da
sobrinha ou do cunhado--que tombadas em graça, nunca mais lhe viam os
dentes e provavam o dôce! Ella só, viuva de Fernando Zarco, podia
discutir os desvarios de seus parentes; o resto contava sem
commentarios o que ouvia por fóra, ou ia escutando o que ella dizia,
sem retrucar mais, aliás...
Na casa da Torre, exasperação identica a respeito da Oriola, não
havendo serão que as estroinices do primo não fossem esmiuçadas,
exageradas e discutidas. Carlinhos não tinha pae, Dora não tinha mãe.
Mas auctoritaria e toda orgulhosa do seu reino domestico, da riqueza e
alta educação que recebera, tambem ella punha em torno de si uma
pequenina côrte dulcerosa e servil. Era mais nova que o primo, e a sua
belleza de loira, magnifica e alta, toda fresca em batas
d'estofo exotico, deliciosa de cabellos e mãos, com uns ares
d'inaccessivel castellã, fazia d'ella a musa do districto, e a paixão
de quantos gordos filhos de casa opulenta, batiam por feiras e
lavouras em grande. Viam-se os dois muitas vezes, Carlinhos e Dora,
casualmente nas festas de Beja, em praias de banhos, e por Lisboa,
onde até acontecia ficarem no mesmo hotel. O pae d'ella, Manuel Zarco,
fingia não dar pelo sobrinho, o _engeitado_, como elle dizia na sua
brutalidade morgadia. Os rapazes, porém, é que se iam mirando ás
furtadellas, sem querer saber das caturrices do velho. Carlinhos, tão
ruidoso e leviano por onde quer que andasse, ficava sério e perturbado
sob esses rapidos encontros com Dora, e os seus olhos claros
esmaltavam profundezas ardentes, e melancolias de quem fica a scismar.
Porque em verdade, mulher alguma podia equiparar-se a Dora, pela
nobreza do seu typo, estudada elegancia de maneiras, vestuario, contos
de fortuna e altivez de familia. Os bem informados n'isto d'interesses
e allianças possiveis ou premeditadas, não viam por essa orla toda do
districto, um casamento á altura de Dora, a menos que a
orgulhosa descesse, o que todos diziam não ser provavel. Apenas um
noivo a merecia bem, Carlinhos.
--Esse, opinavam as terras circumvisinhas, quando as gallinhas tiverem
dentes.
Precisamente esse dia, a aldeia de S. Mathias suspendera os trabalhos
do campo em signal de festa; os das herdades tinham vindo com os seus
cajados e as rudes botas altas de coiro branco, rolavam bailaricos por
todas as casas; e no terreiro da egreja, ás portas das vendas, no
balcão da escola régia, ou mesmo ás embocadas das ruas, por aqui, por
alli, os camponezes em ranchos, fato novo, ruborescencias de vinho no
queimar da face, havia mais de tres horas que aguardavam a boda. Os
campos n'esses meados de junho, tinham primeiros doirados do trigo
maduro, ondulante e farto, que a aura por zonas encama n'uma saudação
graciosa; por um lado e outro, entre gavelas arrepeladas sem ordem,
remoinhos desflorados de messe, como labios de rapariga ardente, ria o
escarlate das papoulas; e como aos sóes da quadra tinham vindo as
cigarras, ruido de cega-rega, trocavam alertas d'arvore em arvore, á
medida que ia avançando o verão. Entanto ainda as noites
eram frias, e o orvalho da manhã perlava nas folhas, secretas lagrimas
d'amor trahido; corria mesmo agua por alvercas e ribeiros, fria,
salobra das terras atravessadas, dando erectos viços aos panascaes
verdejantes, ás junças e mentrastes das ribanceiras. Microscopicamente,
as vinhas iam esboçando cachos, entre pampanos pizados d'amarello e
vermelho ferrugem; começam a vir os perdigotos, as rolas tinham
chegado d'uma aspera migração, e desconfio que os melros, casados de
fresco fazendo musica de opereta entre os murmurios das cannas e dos
silvados, arredondavam já os seus ninhos, á espera da petizada. N'essa
grande paz bucolica, a alma abraçava simples ideaes de ventura, nua
d'ambições desordenadas e volupias lividas, e na doçura de palpitar
entre aromas silvestres, ia voando em cata de amores delicados e
mansos idyllios, pelas veredas onde as condoidas espigas se curvavam,
a depôr nos regaços esmolinhas do primeiro trigo em sazão. Vista de
longe, a aldeia era encantadora d'alegria e brancura. Nas collinas, de
roda, empoleiradas ermidas vigiavam por ella dia e noite; Deus
foragido pela descrença das cidades, andava por alli talvez na
estatura de algum velho mendigo de fallas doces e resignada
humildade; e pela noite, quando os rebanhos vagarosos seguiam para os
curraes, esse cantinho rustico tinha scenas biblicas d'uma graça
innocente, pastores e pastoras ajoelhando ao toque das Trindades para
dizer o _angelus_, risos de ganhões pelas devesas, cantigas que se
apagavam nas corcovas dos caminhos, emfim tudo quanto entretece a
elegia plangente do morrer do sol. Esse dia casava-se o Carlinhos com
a prima Dora, e as duas casas fortes do districto, tantos annos
separadas por odios, iam emfim restaurar-se na bôa cordealidade, por
esse laço dos primogenitos.
* * * * *
Imagine-se o espanto e a curiosidade que um tão inesperado successo
derramou por toda a provincia, conhecidas como eram as desavenças dos
Zarcos, desde tanto apregoadas. Mas assim como tinham ficado na sombra
os motivos de apartamento, assim tambem incognitas ficaram as molas
intimas da nova amizade entre as duas casas. Evidente, que o principal
motivo de ligação era o casamento dos rapazes; isso não bastava
entretanto; outras secretas ponderações deviam ter influido;
e essas, quaes? Porque, emfim, era conhecida a indole orgulhosa e
tenaz da viuva; as suas phrases sobre o cunhado citavam-se em modelo
d'altivez varonil e decidida independencia; e por seu lado o da Torre
não a poupava tambem. Nem uma só vez Dora tinha fallado a sua tia;
creancita ainda, succedera encontral-a não sei que de vezes; os olhos
pretos da viuva detinham-se um momento na figurinha petulante da bébé,
e desviavam-se logo sem rastro d'affecto. Verdade é que o velho Zarco
referindo-se a Carlinhos, punha sempre palavras crueis, marau, vadio,
o filho d'aquella...
Subitamente, eis que os rapazes iam casar! Jámais por aquellas
redondezas se tinha dado coisa parecida. Vamos nós agora a vêr, se a
da Oriola virá dormir á Torre! diziam muito interessadas, das suas
soleiras, as gordas comadres de S. Mathias. A mór parte nem tal
acreditaria, mesmo vendo. E as apostas começaram. A vêr como dorme!
Apostar em como não dorme! A camarilha de Manuel Zarco arengava com
sobranceria, entre os grupos mais impacientes:
--Afinal, quem se humilha são os da Oriola. É bom saber!
E uma de preto, a Fevronia, toda preponderante, meia azul e
sapato rôto, batia palmas n'uma loucura, dizendo por todas as casas:
--Quem viver tem muito que contar, não haja duvida.
Foi n'este marulhar d'opiniões e trocadilhos, que um forte rumor de
sege alborotou a aldeia e emquanto rapazes descalços corriam, cães
ladravam, e cabeças de mulheres vinham ás portas espreitar avidamente,
os trens da Oriola romperam a grande passo pela rua larga, vindo topar
alfim nas escaleiras do adro. Este caso foi muito fallado, e ainda se
pasma da magestade com que se apeou a viuva da sua grande berlinda
estofada a casimira perola, grandes fivelões e lanternas de prata
esculpida. Tinha-se chegado muito povo a vêr, as janellas guarnecidas
de madamas, e o mordomo da senhora viuva, gordalhudo, com uma
expressão presidencial, desenrolou um rico tapete amarello e branco
pelo adro, desde o estribo até aos portaes do templo; os creados da
taboa tinham-se erguido e descoberto; e n'isto Manuel Zarco com um
riso amarello, todo curvado de obsequios, casaca e luva branca, saíra
a receber sua cunhada; e quasi a medo, todos repararam, offerecera-lhe
a mão para saltar. Diz que ella nem o encarou, e foi sósinha
pelo tapete fóra de cabeça alta, um dos braços pendentes, e a cauda do
seu vestido de damasco negro roçagava que parecia mesmo da senhora
rainha. Carlinhos ia atraz, um pouco deslocado na casaca de noivo,
porque em verdade ia-lhe melhor a jaqueta e o chapeu largo. E fechavam
cortejo as velhitas que tinham embalado a viuva, ambas de roxo,
ajoujadas, chapeus muito profusos de violetas, e mitenes de renda onde
as suas velhas mãos boiavam carcomidas. Junto ao altar tinham posto
uma grande poltrona em setim rutilante, flordelisado a ouro velho,
onde a viuva se assentou sem mais cerimonia; e todos em pé serviam-lhe
de côrte, com passadinhas respeitosas e pequenas vénias cheias
d'uncção. Apoiado á espalda da poltrona, velho Zarco mastigava
demoradamente as palavras com o seu modo somnolento, siflando os _ss_
de quando em quando, e ella sem lhe dar attenção, um momo altivo de
labio, entretinha-se a esfolhar com o seu pé de fidalga, rosas brancas
espalhadas pela alcatifa.
Embalde o da Torre lhe fez notar que melhor seria assignarem as
escripturas em casa d'elle, como era natural, até ficava
alli perto, no largo. V. ex.a descançaria um pouco nos quartos de
minha filha...
--Meu cunhado, não me sinto fatigada, assignaremos isso no gabinete do
prior, onde quer que seja, mas sem arredar pé da egreja, que é casa de
todos. E a proposito, disse ella tirando o relogio, é a hora, duas e
meia. Janto ás seis, o caminho é longo.
O da Torre ia a sair, a viuva tinha-se erguido sem reparar na
impressão que estavam fazendo os seus cortantes modos de dizer. Manuel
Zarco deixou-se caminhar ao lado d'ella foi-lhe lembrando com voz
mansa que os velhos rancores deviam acabar com aquelle enlace dos
filhos: tudo afinal se esquece.
--Tudo não! disse ella bruscamente. E proseguiu: pódem casar, pódem
casar. Carlinhos além de tudo, não é meu filho, aliaz tinha-lhe
prohibido esta alliança, meu cunhado!
--V. ex.a é então muito orgulhosa, notou velho Zarco despeitado
d'aquelle tom.
--Crê isso? disse a viuva abrindo o grande leque d'oiro e plumas, que
reluzia n'uma polvilhação de pequeninas pedras.--E de repente, n'um
accesso de voz intimativo: Sabe, meu cunhado, que seu irmão era homem
para o ter morto, se acaso tem vindo a saber... Porque francamente,
disse ella com os dentes cerrados, rigida e faiscante nos seus
damascos negros, francamente, é desprezivel, o senhor! Tenho ainda nos
pulsos signaes das suas unhas. Adoro o Carlinhos, creia--eis porque ás
vezes me aterro da mulher que elle escolheu. Meu Deus, se essa
creaturinha sahir ao pae!
Os dentes do outro rangeram--porque não casou então comigo? disse elle
com frenesis na raiz dos cabellos.
A viuva riu-lhe na cara.
--Eu? Eu? Ora, meu cunhado!
Fez dois passos na alcatifa, quebrando n'uma crispadura electrica e
larga, a enorme cauda applicada de rendas antigas, ao tempo que os
dedos de Zarco rasgavam convulsivamente a luva descalça de rompante.
Ambos trahiam colera nos _zig-zagues_ que faziam marchando. Os olhos
ainda magnificos da viuva procuravam o da Torre, phosphorentes
d'ameaça. E o velho, como quem não acha outro caminho para fugir:
--Emfim, desmancha-se este casamento, se quer.
--Não, já agora, elles desgraçadamente adoram-se, Carlinhos
mostrou-me as cartas, amor de muitos annos, inda eram pequeninos. Deus
sabe se o senhor mesmo approximou...--E subia-lhe a voz em graves
dramaticos, com vibrações de metal.--Mas, meu cunhado, acautele-se,
acautele-se! Sua filha vai comigo, voltal-a-hei contra o senhor.
--Oh, disse elle, experimente.
--Pois veremos.
--Vou buscal-a, resumiu elle transtornado, curvando-se. E muito baixo,
querendo dominal-a: que inimigo horrivel eu tinha, se a senhora fosse
um homem!
--Matava-o, respondeu ella estendendo o punho n'um gesto de Rachel. E
ajuntou a rir: tão certo!...
Carlinhos vinha para elles, já o velho Zarco se afastava. E vendo-o no
seu ar de cavalheiro, estatura correcta, alto, um fulvo esplendido de
pelle, bocca firme nos cantos sob a velludagem do buço, quasi
innocente na graça leal do sorriso, esse rir da viuva, correndo
imperceptiveis _nuances_, foi gradualmente adoçando, enternecendo,
perfumando como um licor que se evola entornado, de modo que era
divino quando Carlinhos, femininamente, lhe deu a beijar a testa. Ella
então sem se importar, attrahiu-o a si n'uma paixão de leôa,
como se nunca mais se vissem, e dizia-lhe coisas entrecortadas, a
chorar, a beijal-o furiosamente, estreitava-o mesmo sobre o coração,
com impetos d'abandonada, que se fica nos occasos da vida, sem mais
ninguem que amar. Fosses tu das minhas entranhas, não te queria mais
que te quero! E essa maldita, hade expulsar-me do teu coração.--Elle
queria contel-a, quasi envergonhado de os estarem olhando á roda,
jurava-lhe, promettia tudo, n'um precipitar de palavras meigas. E á
flôr da abobada nua e branca da egreja, andorinhas corriam chilreando,
filhos e mães que inda não tinham emigrado, e demoravam residencia no
calor dos velhos ninhos patriarchaes.
* * * * *