Seria illusão dos meus sentidos?... effeitos da minha sensibilidade
doentia, que perdendo o caracter proprio, se mutilára, exaltára, para
rolar depois nas phantasmagorias verdes da loucura? Mas
affigurava-se-me que uma especie de vida magnetica ia atravessando as
ruinas, como se a falla dos sinos houvesse resuscitado no edificio o
genio hostil que alli reinava, e este agora reagisse, contra o germen
christão que os nocturnos visitantes todos os annos insistiam em
replantar no sanctuario.
Aquillo era evidente, pulsava na pedra, rumorejava na esfusiada dos
ventos, cahia em gottas das arestas e das folhagens parasitas.
A principio disse commigo--é uma vertigem do meu espirito exasperado
pelas extravagancias da viagem, uma perturbação do alcool que eu
ingeri em dóses abusivas... O velho fizera-me frenetico... Os meus
nervos estavam carregados de fluido... Porém já na egreja me ferira
esta percepção de movimentos disfarçados, esta matinada occulta da
sombra contra a luz, esta suspeita de bruxaria latente.
Tinha-me rido d'aquilo--Ora adeus! Estou sonhando. E agora, Jesus! não
era engano. A sarabanda macabra rompia.
Muros e escaninhos começavam a debater-se n'uma lucta mysteriosa de
encantamentos.
Em cada molecula, em cada penumbra, em cada vôo, a energia
decompunha-se em fluidos antagonicos; um que tinha saudades do velho
culto, e era mesquinho em quantidade; outro que assoberbava o
primeiro, e se declarára no campo adversario. Mesmo, esta sombria
batalha toldava-me a cabeça, estava patente á minha alma,
obscurecia-me a razão; e o meu proprio corpo vibrava d'ella, e eu
sentia em mim os dois guerreiros buscando derribar-se a golpes
d'espadão. Não, não era engano! Andava tudo, falava tudo, mexia tudo,
e tudo parecia sentir, deliberar e ter vontade. Dos baixos relêvos
brotavam gestos, mimicas, summulas de dialogos...
Iam falar as boccas das estatuas. Os velhos doutores resuscitando os
velhos schismas. Velhos demonios trucidando as ingenuidades da fé no
carnaval das velhas ironias. Muitos santos pretendiam mesmo disputar
com os demonios.
N'um baixo relêvo da _Ceia_, a figura do Christo ergueu-se e bateu com
força na meza, colerico por um apostolo se rir, quando elle, sagrando
o calix, disse do vinho--_este é o meu sangue_!
Debaixo dos pés da Madona, renasciam as cabeças da serpente,
á medida que ella as esmagava.
E uma circulação impetuosa girava nas arterias da pedra, insufflando
vida ás columnatas, fazendo palpitar as rendas das ogivas, e dando
apoplexia ás faces das cariatides.
--Velho! Velho! exclamei eu fóra de mim, deitando-lhe as mãos ás
goelas. Quem és tu? Fala! D'onde vens? Que queres de mim?
Já a raiva me escumava nos cantos da bocca. A minha gana seria
esmagar-lhe a cabeça d'encontro ás pedras da muralha. Porque eu via
n'elle o médium da farandola macabra que ia na egreja. Eram obra sua
os tregeitos dos monstros esculpidos nas columnatas, o riso mau dos
demonios-morcegos nos frisos manuelinos do côro; emfim, o exaspero do
Christo, no baixo relêvo da _Ceia_--e todos os fremitos, todos os
sôpros, todas as oppressões, todas as desconfianças, todas as risadas,
que eu ouvia, que eu sentia, e passavam por mim o visco do seu
contacto asqueroso.
Á sua voz obedeciam aquelles milhões e milhões de forças occultas e
satanicas: e elle tinha o dom d'arrastar na espira lôbrega dos seus
maleficios, o desgraçado que se lhe approximasse.
Oh, não era ausencia d'energia physica que me impedia de o
acabar--elle era magro, ossoso, quasi decrepito... Mas a sua vista
dava-me um embaraço! Com o mais ligeiro impulso eu poderia derribal-o.
Mas um assombro terrivel, um pavor inexplicavel, uma fascinação que eu
não sabia definir, amordaçavam-me, faziam de mim um destroço de
captivo em poz d'aquelle tenebroso e phantastico vencedor.
A essa hora, na egreja, tudo estava a postos. Pela abobada cahida, eu
pudéra vêr, a nossos pés, o côro profundo, sobre uma massa amarellenta
de pilastras fasciadas de relêvos. D'alli surgiam á luz dos brandões,
as primeiras bancadas de carvalho, com logares separados, onde cada
figura de monja apparecia dobrada sobre a estante do livro de rezas.
Na grande cadeira gothica da abbadessa, a meio do côro, duas vellas
faziam brilhar o baculo de oiro, uma mitra mexia ás vezes sobre uma
cabecinha pellada de centenaria--e para traz a sombra invadia tudo, e
via-se na parede uma rosacea sem vidros, por onde entrava, poeirenta e
diaphana, uma grande cheia de luar. Depois a egreja enorme, com as
esculpturas mutiladas, as rendas em bocados pelo chão, os
nichos, muitos, desertos, e os jogos e caprichos da luz e da sombra,
forjando effeitos de scenographia formidavel, de cujo tumulto, ao
fundo, o altar mór destacava n'uma apotheose de magnificencias, entre
a fumarada do incenso, e os vôos dos pombos espavoridos.
O velho reaccendeu a lanterna. Havia ao centro da casa uma especie de
grande cravo de castanho, com teclas de cobre oxidado, aonde vinham
ter as cordagens de toda aquella sinalhada. Com gesto placido elle
conduziu-me ao teclado, sobre cuja arca depuzera a lanterna
escancarada. E desenrolando um grosso manuscripto de musica, pol-o na
estante, e fez-me signal a que me assentasse n'um monte de cordas que
estava perto.
A musica era torturadamente escripta, coberta de emendas, intercalada
de referencias á margem.
É obra sua? perguntei eu. Elle fez que sim com a cabeça. E começou; já
o arcebispo ao altar dizia o _orate_, e soava nos mosaicos da basilica
o rumor dos que ajoelhavam.
* * * * *
Ahi começa o velho a fazer soar o carrilhão, e eu já sinto outra vez
os meus pavores tomarem fórma, e as minhas angustias irem
cavalgando extravagantes bruxarias. Cada vez mais á roda dos meus
sentidos, fosforeja e zumbe esta encarniçada lucta dos dois fluidos
antagonicos, que a pouco e pouco se depuram, quando a minha percepção
lhe consegue fixar a transcendencia.
Um revindica o culto das florestas, das aguas e dos rochedos. É a
grande alma pagã da natureza, que impulsiona os mundos d'uma vida
extraordinaria, e tem voz, no bramido das vagas, e faz as flôres e os
archipelagos, e chispa das rochas que o ferro morde, e chora lagrimas
de leite nas folhas arrancadas da figueira. É o mais antigo, é o mais
forte: e a todo o transe elle tenta reconquistar o solo, com a audacia
heroica d'um régulo expulso de dominios seus. Tem a symbolica dos
antigos mystérios, o outro. E bisonho e tenebroso, desceu do outeiro
onde uma noite uns soldados estavam crucificando um vagabundo.
Prégando jejuns e penitencias, emquanto ia fazendo da cobardia uma
virtude, e não sei que refrigerio da morte, gritava ao mundo--venho
destruir a obra da Mulher. E por entre o unisono das harpas, na choral
dos serafins, ouve-se o alarido dos que na fogueira escruciam, e os
latins do inquisidor que os manda morrer em nome da misericórdia
celeste.
--Velho!
Repara bem, como até na gralhada dos sinos parece evidenciar-se a
batalha das duas legiões. Aquelles sinos além são pela egreja; mas
aquell'outros aposthasiaram e insurgiram-se.
As mesmas tuas mãos de maestro ferindo o teclado, parecem obedecer a
dois musicos diversos, degladiando-se sem quebrança de rythmo, n'uma
especie de sabbat artistico, alternativamente piedoso e diabolico. Por
momentos, tudo isto se me afigura symptoma d'alguma psychopathia
bizarra, evolucionada no exaspero mental que esta noite em mim
produziu.
Faço esforços de rehaver a minha antiga serenidade, ponho-me a vêr se
coordeno as minhas faculdades d'analyse e de critica, e se restabeleço
a limpidez do meu juizo, a sangue frio.
--Eu é que _sou talvez duplo_, e não a maneira de ser das fórmas que
me circundam.
As minhas operações mentaes é que estão fraccionadas e
desparallelas, como se a fouce do cerebro me não dividisse o esferoide
em dois ovulos estrictamente iguaes, senão o houvesse desigualmente
bipartido, lobulo maior, lobulo mais pequeno... e cada um derivando em
modos de ser incompativeis.
Porém esta hypothese eriça-me os cabellos. Adeus harmonia de
funccionalismo mental! Falta d'obediencia a uma mesma força
coordenadora e dirigente! Para cada metade do meu corpo, uma contenção
vital diversa da outra, energia differente, outro caracter, outra
impulsão...
Actividades parciaes, cerebrações avulsas, acordariam n'esses varios
districtos do meu encephalo sem rei, nem roque, chocando as suas
indoles sobranceiras, como pequenos despotas em gran-ducados rivaes. A
dualidade surgiria por fim d'esse chaos encephalico, como uma terrivel
dupla vergontea de loucura: venho a dizer, dois individuos n'um corpo,
discutindo, acotovellando-se, perseguindo-se, um contrariando a
vontade ao outro, annulando este os esforços d'aquelle: e nenhum
deixando dormir nem descançar o companheiro. Mas é isto. Positivamente
é isto--estes dois maus irmãos que juraram anniquilar-se
d'um golpe: fratricidas que a mesma impulsão vae arrastando de roda um
do outro, á espera do instante em que possam beber-se o sangue. Um
d'elles fraco, cheio de mysticismos poeticos e visualidades
atravessadas de inquietações. Timido, nasceu comigo, é filho de minha
mãe, uma devota. Mas o outro foi crescendo nos livros, o estudo
inoculou-lhe audacia, a arte agigantou-lhe as dimensões, n'este
momento elles barafustam, e eu cuido que estremece pela basilica toda,
este tragico drama que apenas se me debate nos nervos, e ensanguenta
os musculos da cabouqueira que eu trago sobre os hombros.
* * * * *
Por consequencia estou doido. Um pavor gelado invade-me o peito.
Estendo para o altar os braços supplicantes. E o velho continúa a sua
musica grandiosa, indifferente a tudo o mais, emquanto no altar
celebra missa o arcebispo.
A execução d'essa musica parece absorvel-o e mirral-o como um galope
d'annos desgraçados.
A primeira investida é confusa, o velho treme de medo, correm-lhe
lágrimas na cara, quatro e quatro, e murmura não sei que
palavras cabalisticas. Eil-o se endireita e recomeça.
E pouco a pouco a minha alma abre as asas e suspende-se n'um paiz
lilaz de supremos extasis acusticos.
Já a riqueza dos timbres e a gracilidade dos motivos me fazem esquecer
que seja um carrilhão de sinos que eu escuto. Alguma coisa da potencia
orchestral do orgão, profunda, gothica, lithurgica, mas mais unida,
mais colossal, mais grandiosa, se evola d'essas campanulas de bronze
que faz soar no meio das serras o mais prodigioso maestro do mundo. O
carrilhão faz-se voz da architectura de repente, e o desdobramento na
musica dos caprichos floreteados na pedra pelo cinzel--tanto os meios
d'expressão se centuplicam e vão fasciando de originaes melodias,
arrancos trágicos e indomáveis rouquejos de paixão.
A voz de cada sino presta uma inflexão, uma emoção á voz da cathedral
que desperta e vive como um ser perplexo e gigantesco: e d'aquellas
resonancias que a mão do artista humanisára, como interpretando um
estado d'alma doloroso, a angustia d'uma raça, cahiam tristezas,
desprendiam-se adeuses, voavam recordações... recordações de
vozes ouvidas n'outro tempo, na bocca d'alguem que eu, valha a
verdade, já não sabia dizer quem fosse.
Vamos ao _Credo_. O carrilhão centuplica o enxame instrumental de
grupos harmonicos, e é o momento em que o universo une a bocca á
poeira, para afirmar essa fé que elle tanta vez terá sentido esmorecer
no coração. Oh, a musica do velho era uma grande opera de effeitos
supremos, onde a alma se banhava aspirando ao mysterio d'um ideal
celeste e inaccessivel. Vinha d'ella uma intensidade de dôr heroica
que dava soluços á melodia unanime dos motivos symphonicos;
desencadeando-se em rajadas no badalar dos grandes sinos. A principio
era uma coisa lenta, que se apagava como um rythmo de reza, de nave em
nave.
Era uma grande litania de humildes, cortada por algum soluço
afflictivo, e em cuja penumbra se apercebiam circulos d'almas cada vez
mais vastos, n'uma paisagem de ballada, livida e nocturna.
Outros soluços vão repercutindo o dobre d'aquella angustia suprema,
n'um côro trágico de sessenta seculos de soffrimentos.
Já o effeito cresce, desencadeia-se, rebenta. Ha gritos
funebres, insurreições apenas suffocadas, roucas ladainhas que chegam
de longe pedindo socorro...
Ai! n'essa apotheose de crença espiritual, por vezes a estridencia dos
brados faz suspeitar o terror em vez da luminosa confiança que deita a
cabeça no regaço da fé, e a imposição feroz d'um credo absurdo, em vez
de simples doutrina conciliante ao caracter, e inteiramente suave ao
coração. E o offertorio passa, a campainha do acolyto annuncia o
_Sanctus_, e o sacrificio da missa principia.
Emtanto que no meio d'aquellas instrumentações picturaes do carrilhão,
d'onde o mysterio da missa se ennubla e desenvolve, sempre o
pensamento musical podia seguir-se, com a pureza d'um psalmo; tão
limpido, que eu cerrava os beiços de medo que o meu halito embaciar
pudesse, a crystallinidade d'aquelle adoravel motivo.
Mas da bocca dos sinos, como d'uma cornucopia emborcada, vão golfando
inumeraveis turbilhões d'espiritos fatuos, sylphos de carrilhão,
vibrações tornadas fórma que vão e vem, sobem e descem, cabriolam,
zigzagueam, rolando, partindo, tornando a ir, e diffundindo-se
nos longes em grandes circulos concentricos, onde as figuras
se perdem emfim, n'uma bruma côr de cinza. Todos são excessivamente
pequenos, com uma multidão de caras differentes, pequeninos braços,
pequeninas pernas, que se agitam n'uma quantidade de mimicas
pittorescas. Apenas escapados dos sinos, eil-os correm uns ao encontro
dos outros, larvas do medonho, embryões do pesadello, conforme a
imanação sonora d'onde procedem: e agarrando-se pelos hombros,
continuam nos ares a fantastica batalha que eu assignalára já para
cada atomo das ruinas. Cada vez mais, cada vez mais, esses milhares de
anões parecem recrudescer das sinistras gargantas do bronze, e bem
depressa elles foram tantos, que faziam uma espécie de exhalação
fumosa interposta aos meus olhos e os objectos, que se alongava depois
n'uma grande lingua, rapida e turbilhonante, ascendendo na flecha
audaz do campanario.
Já a torre estava cheia d'aquellas larvas cúpidas do som, sedentas de
lucta, phreneticas de movimento, em cuja carcassa podiam vêr-se todas
as espécies de caras, idades, sexos e configurações. Tinham umas a côr
verde das folhagens; eram as mais numerosas e as que mais
robustamente cabriolavam. Mas outras eram pardas, alongadas,
noctiluzentes, com a vibratilidade dos vermes e a cabeçorra disforme
dos peixes-sapos. Havia-as corcundas, havia-as tortas, havia-as
barbudas. Encarquilhadas, hydropicas, leprosas.
Em figura de rato, em figura de sapo, em figura de morcego... e mesmo
certas pareciam esqueletos d'aves antediluvianas, marchando aos
pinchos, com um grande bico maior que o corpo, direito, espesso, que
não podiam erguer da melancholica postura em que o levavam pendurado.
Tinham asas quasi todas; algumas eram armadas de espinhos, outras
traziam capuzes sobre os olhos, o breviario na manga e camandulas á
cintura: e até muitas, brandindo fachos, corriam através da batalha,
pondo um clarão de sangue em todo esse pavoroso arraial de maleficios.
E as que nasciam iam empurrando as que já eram adultas.
Crescia a chusma atropellando-se, comprimindo-se: até que não cabendo
na torre, cahiam pelos varandins, aos milhares, ou esmagadas contra a
parede ahi seccavam e por fim desappareciam. Na debandada, um panico
lhes convulsionava ainda mais os pequeninos membros, e de
rustilhão precipitavam-se, agarradas umas ás outras, e dispersando-se
em circulos, quando já as suas figuras pareciam ganhar d'aptidão o que
iam perdendo em nitidez de contornos. Pelo céo, aquelles circuitos
simulavam fortes migrações de passaros cinzentos, cerrando os seus
exercitos até aos confins do horizonte.
E mal os sinos paravam, havia um claro turbilhão de mostrengos... só
um ou outro mirrava, n'uma asfixia de silencio, lentamente, pingando
ás gottas no chão que o consumia, ou ficava cabriolando nas cordas em
piruetas de acrobata, ou pouzado n'um ferro, arésta, teia d'aranha,
entrava a balouçar-se monotonamente, até agonizar de todo e
desfazer-se.
--Oh Deus! Deus grande, Deus omnipotente e misericordioso! ampara, por
quem és, a minha fé, e não deixes apagar na loucura a bruxuleante luz
da minha razão.
Quando o arcebispo ergue a hostia, e sôa em concavo pela igreja, o
bater das mãos contricto sobre os peitos, porque é que este musico
soluça, errando a vista pelos angulos da torre, á procura d'alguem que
alli não está? E a sua figurinha de satyro arrepela-se,
lugubre e grotesca, como a d'um macaco que tivesse por dentro a alma
contricta d'um christão. Já as pombas volitam de novo sob a cupula,
brancas, purissimas, adejando outra vez pacificadas, quando os ultimos
turbilhões de mostrengos se despregam dos sinos mudos, esfusiando
pelas ogivas, sob os lategos da uncção celeste que se irradia da
hostia, feita carne, e do vinho do calix, feito sangue.
No momento, o _benedictus_ segue, e o carrilhão murmura de mansinho,
como n'um unisono de violinos e harpas, a mais suave _preghiera_ que o
perdão do Senhor haja inspirado a um penitente. Manso e manso, os
seraphins de pedra unem as mãos, batendo as asas de jubilo, com os
seus typos frustes de creanças, em cujas cabelleiras se accende um
oiro fosco d'aureolas; e das partidas lyras arrancam, com os seus
dedos, vagos preludios de um mysticismo fluido, vaporoso, que embriaga
d'extase, e em equivalencia approximarieis dos mais recatados perfumes
de jasmim e de nardo, violeta e rosa branca, vaporizando-se de
corollas abertas no claro-escuro d'um claustro, e que á noite
espargissem suggestões de bemaventurança, na cella virginal d'uma
noviça.
Sim! n'esse preludio do velho, chora talvez a imploração d'um
crime antigo, expiado em annos de supplicas nunca ouvidas, e
centuplicando d'eloquencia, através do tempo, té que afinal a tortura
do musico excede os limites d'expressão concedida ao homem, e iguala e
imita a eloquencia de Deus, para, confundida n'ella, coagir o Monarcha
dos céos a perdoar. Tudo n'este supremo instante a solicita, os fieis
que voltam a face para o carrilhão que os arrebata, as esculpturas, as
pombas, e o arcebispo emfim que ao dar a benção, estende para a torre
o braço tremulo, e absolve d'um gesto o extranho musico.
Limpo de nevoas todo o céo de dezembro esmaecia, d'uma pureza elysea
incomparavel--e argentea a lua rola, espalhando ao redor madeixas
claras, como uma cabeça morta de _baby_, á procura do tronco, pelos
valles, antes que o gallo da missa solte o seu primeiro apello, para o
baptismo de Jesus feito creança.
Na poeira do luar, pelos rasgões da rosacea, um turbilhão de seraphins
rompe na igreja, brancos de marmore, nascendo da nuvem como uma
geração espontanea de caritas bochechudas, boccas em flexa, olhos
de saphira, e o tom chlorotico, translucido, que participa
do paraiso e da tumba, e no qual poderá lêr-se, mau grado a
espiritualização da eterna estancia, essa infinita nostalgia dos
pequeninos seres arrancados ao calor dos seios maternaes.
Por um instante, palpita sobre o côro alada tromba, como uma emigração
de passaros radiosos, pyrilampos, borboletas, que oscilla e se desloca
na fumarada argentea do astro, turbilhonando em rodopios d'apotheose:
depois do que converge á torre, e pelos varandins enfia, n'uma espiral
de sonho alvinitente. Mas é um exercito que lentamente baixa o vôo,
silencioso, rufado apenas, no _frou-frou_ das asitas quasi
imperceptiveis. A alguns mal se lhes lobriga a cabeça, envoltos como
voam, nas suas camisotas de nuvem; outros inquietos, não podem estar
poizados muito tempo em qualquer ponto, e n'um phrenesi de movimento,
mexem, debicam, bolem no teclado dos sinos, nas esculpturas,
chamando-se, vindo em chusma rir de um monstro ou cariatide,
arrepellando-se os cabellos uns aos outros, jogando as escondidas por
traz das heras que abraçam a muralha, de roda dos varandins, pelas
cordagens--e até um que escorregou nas lageas, ficou de
bruços, choramingando, com birra, á espera de que alguem o fosse
levantar.
Os mais robustos então descolam do pavimento uma das lageas, a um
canto, e acocorados na terra, escavam com as unhas uma toca.
Pela segunda vez, o gallo da missa gritou da cupula, e elles, que o
escutam, precipitam com furia o seu trabalho, a fim de que a tarefa
esteja prompta antes que a ave solte o seu terceiro grito de alarme.
Bem depressa ha um buraco fundo no chão da grande sala, e--oh
surpresa!--aparece um pé, um microscopico pésito de creança roxo de
frio, inteiriçado: e logo depois do pé uma pernita, o tronco, uma
cabeça... Já a curiosidade impertiga a pequenada, que se achega e
acocora, em circuito cingindo-se pelos pescoços, n'uma profusão de
momos espantados.
O pequenino cadaver está descoberto, e cada qual n'elle procura
insuflar o ligeiro filete vital que em si conduz. Uns lhe aquecem as
mãos com seus beijitos leves como abelhas, outros lhe sopram das
palpebras a vilissima terra que lh'as come, emquanto muitos
lhe fabricam uma samarra, com os pedaços que arrancam ás suas proprias
vestimentas.
Emfim, a creancita ressurge, esfrega os olhos--dois ou tres calafrios
passam de manso á flôr da sua epiderme opaca e ecchymosada--e a vida
nasce, ha movimentos, pequenos haustos, suspiros... mas sempre á roda
do pescoço um vergão negro estrangula-a, estygma de infamia paterna,
que o velho encara estralejando os dentes, n'um terror confuso de
assassino. Pela terceira vez o gallo canta, e triumphante, o turbilhão
de seraphins levanta vôo, ascendendo pelo céo, n'uma espiral de nevoas
côr de rosa.
Porém de repente, o pequenito recorda-se, volta a cabeça, estende os
braços para o musico que de rastos avança, desesperado, por não lhe
poder tomar as mãositas protectoras. Oh, era tempo! Ha já cem annos
que elle assim vagabundea nas ruinas, sem repouso esse sineiro que
amara uma abbadessa; e annos e annos desfilam, e sempre a terra a
recusar sepultura ao amante, e sempre a colera de Deus a expungir da
sua gloria, o monstro que assassinára o filho, no proprio dia em que
elle foi nascido. Annos e annos o miseravel tentara apaziguar a
colera do Eterno, vindo á missa do gallo da abbadia, interpretar pela
musica do carrilhão fantastico as escruciadoras angustias da sua alma
lassa, atormentada, mas ainda no fim d'estes esforços o céo que
redimia a creança, como se não julgasse bastante a expiação do pae,
abandonava-o!
Surdo, maldito, o desespero começa a babar-lhe da bocca, imprecações
incoherentes. De novo o carrilhão blasphemo, vomita das campanulas de
bronze, a sua bruxaria macabra de mostrengos. Os ultimos fieis
arrastam as sapatas no adro, e pela montanha as luzitas descem
ondulosas, hesitantes, como um bailado de pyrilampos.
Agora um, outro ao depois, os lampadarios se extinguem diante das
capelas: o altar-mór não phosphoreja mais as suas rutilancias d'estofo
e pedrarias: o arcebispo foi-se, as monjas voltaram talvez aos seus
sepulchros, porque as procuro em balde nos cadeirões do côro, pela
egreja e nos claustros, á chamma dos ultimos archotes que lambem de
sangue os gestos das estatuas, as arcarias confusas, os baixos relêvos
e os nichos.
Deito os meus olhos de roda, espavoridos, e ha risadinhas, voejos, as
heras trepam em grossas lianas, que se abraçam nos columnellos da
torre, e prolongadas, tenazes, n'uma luxuria contorcida de serpentes,
alastram as suas pernadas entre as pedras, como uma avançada de
exercito que em nome da natureza, toma posse do terreno que lhe havia
sido usurpado. O terror dá-me epilepsias de fuga, d'uma vertigem,
d'uma raiva! e precipito-me na escada, ás escuras, sem mais ouvir os
queixumes do musico, que as vegetações vão sugando, assimilando em si,
absorvendo, n'uma troncagem monstruosa de figueira.