Asperas montanhas pareciam vir a despenhar-se sobre as

gargantas estreitas da passagem. E nem a mais dubia fogueira de

pastores, casinholo de coutada, voz ou campanario, revelando a

proximidade de creatura humana! A muito custo podemos remover do

caminho as bagagens e destroços da pesada traquitana, eu, o cocheiro e

mais um velho creado que me seguia a cavallo.

Com fortes brados, aos quatro ventos do campo, fomos chamando alguem

que alli vivesse; mas nem sequer latidos de cão logramos saccar das

goelas carbonosas da noite. Sempre aquelle ruido prostrado, regular,

desesperante, da chuva nas urzes e pinheiros anões, que o vento trazia

e levava no mesmo agreste rythmo, como o jogo uniforme de uma joeira

que joeirasse d'alto, bagos d'agua frigidos, e crueis.

Por infelicidade, o cocheiro não era do sitio, e mal sabia dizer

d'aquelles caminhos incertos. Beja inda talvez ficasse a nove leguas

d'ali. Os cavallos extenuados não queríam marchar. E olhavamo-nos

interdictos, á luz da pobre lanterna que por milagre escapára ao

desastre.

Emfim, já nos decidiamos a ficar por baixo das azinheiras,

n'algum abrigo escavado da montanha, quando se ouviram badaladas de

sino distinctamente.

--Graças a Deus! exclamei eu todo alegre, que vamos ter guarida no

passal do bom padre ou eremitão que d'aquelle campanario nos está

chamando. Onde é, cocheiro?

O homem esteve sem responder um bocado. Era um alemtejão

supersticioso, tostado, leal, e gigantesco.

--Aquillo, senhor, disse alfim o colosso, fica por traz de cerros que

levam vinte horas a galgar a um homem. De noite, sempre os sons

parecem mais perto, e enganam uma pessoa nas contas que deita.

--Bom! mas que sino é aquelle? Convento, freguezia, castello ou casa

do diabo?

Vi o rapaz benzer-se com um movimento brusco, e lentamente ir

contando, que era o sino de Santa-Agatha, ruinaria maior que uma

cidade, com quatro torres dominando as chapadas dos montes, e casarões

aonde ninguem tinha ido desde que houvera lá fogo.--Ninho de demonios

e malfeitores! Em _trinta e tres_, a guerra civil correra lá,

farejando as riquezas do culto--as freiras tinham debandado pelas

serras, com os seus habitos brancos e os seus rostinhos

macerados--por quatro dias as chammas lamberam os sanctuarios--e diz

que duas ou tres religiosas, entrevaditas, centenarias, se deixaram

morrer nas suas cellas, cantando psalmos, por não haverem já parentes

e amigos, em cujo seio ir acabar. Agora só voltava ao mosteiro algum

maltez perseguido, ou pessoa empenhada em roubar cantarias, alguma

porta de carvalho, e restos d'alfaias sepultas nos entulhos.

Lentamente então, como um fumo d'incenso que oscilla subindo pelas

incertezas penumbrosas da neve, assim a lenda se formára e fôra

condensando, detalhando, subindo em espiras poeticas, dos claustros

gothicos da velha abbadia. E o cocheiro accrescentou:

--Pelos modos, os diabos dizem lá missa a deshoras, com mitras que nem

bispos!

--Venha essa lanterna, disse eu sem mais ouvir. Meia ração

d'aguardente e tabaco! Vossês abriguem-se ahi como poderem, que eu já

volto!

--Mas onde é que o senhor vae?

--Ora essa! á abbadia. Tocou-se á missa: o diabo já deve ter subido ao

altar. O cocheiro ainda quiz accumular obstaculos; até que vendo-os

sem resultado, apontou-me o caminho provavel do mosteiro, lá

longe, sobre as altas serranias, a cujo sopé se tinha desmantelado a

nossa berlinda de viagem.

* * * * *

Pondo-me a caminho, confesso, foram-me os primeiros passos bem duros.

O terreno pedregoso abria fendas onde os pés se enterravam em lama;

tufos d'esteva e piorno vedavam a passagem, circumdavam-me,

prendiam-me o fato, ou vinham dar-me bofetadas nas faces com as suas

mãos pegajosas. E assim fui mais d'uma hora, tropeçando d'um lado e

cahindo d'outro, pelo espinhaço lugubre da cordilheira. Entanto as

nuvens desdobravam-se, menos espessas, correndo, té que uma claridade

de lua velada poude orientar-me na marcha.

Alguns corpos avançados da ruinaria começaram alfim a mostrar-se,

pequenas capellas com arcos gothicos, sombras esguias de cyprestes,

casarões onde bulia a herva açoitada pelo vento... Dez passos além,

achei-me n'uma alpendroada vasta de pedra, toda em arcarias de

capiteis mutilados. Ao centro murmurava uma fonte, cahida ás

gottas sobre uns restos de tanque esculpido; e via-se um portico ao

fundo, com feixes de columnelos, e nichos de apostolos em oração.

Mais dois passos e entrava na igreja. Parte da abobada tinha já

cahido. Arcarias altas, flexuosas, em series parallelas d'uma extensão

desmedida, iam até ao sanctuario. No parapeito d'um ou outro pulpito,

pendiam tapetes de hera--e por um bocado de muralha derrubada via-se o

claustro, contrafortes, arcos butantes, rendas de janellas manuelinas,

estatuas partidas, e montões de pedras lavradas que a vegetação

damninha ia vestindo, engolfando, no labyrintho das suas teimosas

grinaldas.

Lentamente, emquanto marchava entre as maninhas plantas da serra, eu

fôra evocando da nevoenta penumbra das minhas reminiscencias

d'infancia, a lenda que tantas vezes tinha ouvido contar, pelo

inverno, quando finda a ceia os pastores e couteiros vinham fazer

circuito comnosco, de roda do brasido, na cozinha abobadada da

herdade, cujas chaminés se erguiam dos tectos, como duas torres

quadradas de solar.

Lembrava-me de ter ouvido a minha avó, como a abbadia fôra

uma das mais venerandas casas de reclusão de todo o reino,

successivamente enriquecida pelos reis, visita de prelados, e refugio

de muitas princezas e bastardas que alli dormiam o ultimo somno, nos

seus jazigos de pedra, de cujos nichos a velhice alluira figuras e

inscripções.

Apesar das enormissimas riquezas que as religiosas mandavam repartir

pelas gafarias e misericordias da provincia, a regra impunha ás monjas

uma pobreza frigidissima. Dormiam n'uma tabua, as pobres servas, sem

enxergão nem cobertura, e com uma pedra tosca por cabeceira. E vivendo

de hervas e legumes, sem mais tempero que um fio d'azeite e um punhado

de sal, ellas appareciam na estamenha branca das tunicas, afiladas na

sua espiritualisação perpetua de prece, antes como umas sombras de

loucas, espectros de mal soffridas angustias, marchando nos claustros

em genuflexões de extaticas, e como dobradas ao peso das camandulas e

das orações. Um velho Papa da idade gothica doara então o mosteiro de

reliquias, compadecido por austeridade tamanha d'enclausura, e

permittindo que as monjas pudessem dar-se a glutonaria mundana d'um

cordeiro guisado, na ceia do Natal, sob a condição expressa

de ser branco e acabado de nascer.

Sempre na minha lembrança, desde então, tinha ficado aquella humilde

historia das freiritas, dormindo em tarimbas de castanho, e jantando

couves de azeite e sal. No collegio, muita vez, punha-me a fazer

esforços para me representar a figura benevola d'aquelle santo Papa da

idade gothica, risonho sem duvida e encarquilhado, com o seu

barretinho de purpura, e um grande annel de turqueza, concedendo ás

filhas de Santa-Agatha o cordeiro branco para a consoada do Natal.

Vinham-me aquellas coisas n'um fundo de fantasia, para assim dizer

bysantino, sem perspectiva aerea, com o nimbo de oiro nas cabeças, e

pregas miudinhas no bocatel das roupagens--e tão longe do nosso tempo!

tão longe do nosso espirito que eu acabava sempre por sorrir á

inverosimilhança das legendas contadas por minha avó.

Todos os annos na herdade, depois de se haver dito a ladainha diante

do presépe armado no oratorio, com grande pompa de vellas accesas,

cobertas de sêda, paineis de santos, flôres, amuletos e _cearinhas_ de

trigo grelado em pratos da India, ás escuras, durante os

vinte e cinco longos dias de uma lua--todos os annos, á hora de servir

a espetada de lombo de porco com migas, da ceia do Natal, quando já

tudo se assentára em volta da mesa, eu me não esquecia de inquirir.

--Avó. Se o cordeiro de Santa-Agatha estará tenro e capaz de ser

manducado pelas freiritas sem dentes?...

Lá me sorria a bôa velha, com uma expressão de melancholia que eu

n'esse tempo não era capaz de interpretar. E á direita d'ella marcando

intervallo na mesa, um talher inactivo aguardava meu avô, que fazia já

onze annos de fallecido quando eu tocava os dezeseis.

Ai! esse talher era a grande nota solemne da ceia, o symbolo

sacrosanto do espirito de familia, perpetuando o respeito do nome

através das revoluções da idade. O copo estava cheio, o guardanapo

desdobrado, e chegado á mesa o tamborete.

A todo o instante ia entrar na sala o phantasma do velho lavrador, com

a sua matilha de galgas argelinas, e uma d'aquellas grandes risadas

que elle dava, em nos vendo felizes a todos.

Ceia de Natal! Ceia de Natal! Não seria eu, não, que

d'aquella vez havia de começar cantigas ao Deus-menino, ante o presépe

da nossa casa _das Torres_.

Nem iria assentar-me, tão pouco, entre meus irmãos, partilhando a

espetada de lombo no meio da gralhada das creanças, e dos sainetes dos

pastores e maioraes. Oh como o frio da montanha me fazia agora

lembrado o _madeiro do Natal_, tão escrupulosamente escolhido entre os

troncos mais corpulentos das cathedralescas médas d'azinho da nossa

provincia; o _madeiro_ que as comadres vão vêr a casa das comadres e

cuja enormidade d'alguma fórma passa por luxo e synthetisa a

abundancia da casa! Ceia de Natal! Ceia de Natal! N'aquella noite de

cordealidade, tão intima na vida do campo alemtejano, em que o

primogenito da familia tem obrigação de consagrar aos creados o

primeiro _toast_ da ceia, a minha ausencia, eu bem n'a via! trazendo

lagrimas aos olhos de minha mãe, e longos annos permanecendo archivada

entre as tristezas do seu amantissimo coração.--Paciencia! dizia eu,

deixando os meus olhos correr por cima da phantastica decoração de

ruinas, como quem busca fixar a realidade no meio das oscillações que

a sombra despregava das arcarias.

Cessára a chuva de todo, e o vento que ennovelava os castellos de

nuvens, muito baixas, vinha depois marrar com ellas de encontro ás

fragas da cordilheira.

Torvos luaceiros cardavam sobre as coisas, aspectos pardos e monacaes,

d'esse tom vago, inquietador, inexplicavel, que permitte á imaginação

de agigantar o que apenas entrevê.

E assim dirieis que se alongavam na noite os butareus das quatro

torres, e que os boqueirões da treva mastigavam, e como lanças tremiam

os columnelos do templo, espetando na abobada imaginarias cabeças;

emquanto patrulhas de cyprestes paravam a escutar, se áquella hora

rastejaria no mosteiro um infinitesimo de vida, só que fosse. A

primeira coisa que notei, foi que não estava só, porque ao raspar d'um

phosphoro para accender o cachimbo, pude lobrigar na portaria vultos

de gente acocorada.

Pouco a pouco, os meus olhos afizeram-se a destrinçar na sombra os

objectos; e entrei a bispar vultos pequenos, corcovados, que surgiam

por todas as bandas da serra, vagarosos, cosidos ás pedras,

derreados do caminho, e arrastando sapatos de trabalho, com gorros nos

olhos e capotes negros sobre os hombros.

Pelas encostas, longe, perto, muitas luzinhas deslocavam-se em

direitura ao mosteiro, como fanaes guiando a um conclave outros tantos

conspiradores.

Duas ou tres cadeirinhas entram no adro, buscando a sombra dos arcos

com uma cautela apavorada, e aos hombros de homens, que pelo rastejo

dos passos e lentidão dos meneios, ia jurar tinham passado os oitenta

annos. Em poz das liteiras, mulas brancas trazendo mulheres embiocadas

em ponches... jumentinhos de trabalho com gente que tossia... e até

n'uma especie d'esquife, um vulto entre roupas dava grandes gemidos,

quando os portadores oscillavam mais bruscamente a padiola em que o

traziam.

Muito embuçado na capa, eu ia-me approximando da turba, corcovado e

arrastando os passos como os outros; e já sem medo, pois não podia ser

capitania de ladrões aquella gente assim misturada de invallidos.

Quando de repente, patas de cavallos fizeram estrupida nas lages, e eu

vi fazer-se um movimento simultaneo em todos os magotes,

para acorrerem ao encontro dos cavalleiros. Eram quatro. E dois

d'elles, que porventura seriam os juvenis da cavalgata, a julgar pela

ligeireza com que apearam, tinham vindo ajudar o que ficára sobre a

cella, aguardando que o desmontassem da mulla branca onde viera

escarranchado.

Era este um grande velho de cabellos compridos, em ligeiros flocos por

baixo d'um chapeirão d'ecclesiastico, envolto n'uma capa com romeira

de lontra, e de quem todo o mundo se acercava para lhe beijar a mão.

Caminhando, espargia bençãos sobre as cabeças curvadas á sua passagem.

Aprumava com esforço a grande figura biblica e severa, em cujas linhas

fulgurava como um relampago genial d'estatuaria, e em cujos gestos

calmos rescendia a solemnidade d'um apostolo enviado a remir d'um

captiveiro.

Tinham acceso entretanto algumas tochas, cujos clarões deixavam vêr a

fisionomia de aquella assembléa extravagante. Oh minha cabeça esvaida

de cansaço! Eu não posso affirmar lucidamente se acaso era sonho o que

se estava passando: tão extraordinarias visões me tiveram estarrecido

na formidavel sombra do templo. Lembro-me que o sino tocou

de novo. Era um som funebre e longinquo de _gong_, espargindo na noite

um terror de evocação; alguma coisa como a voz do tempo, chamando os

homens a um ajuste de contas definitivo.

Pelas arcarias do claustro, que eu avistára por entre a derrocada d'um

muro, vinha marchando uma procissão de monjas lentas, mirradas,

pequeninas, cambaleantes, e tão brancas e diaphanas á luz das tochas,

que ellas pareciam ter acordado n'aquelle instante dos seus

sepulchros, transpondo os seculos á voz expiadora do _gong_. Entre os

véos cahiam-lhe os cabellos, mais alvos do que a neve, e das suas

sandalias batendo as pedras do claustro, vinha um som baço de

sepulturas vasias, sepulturas com fome, chamando por aquelles

destroços de santas, d'onde a alma parecia ter voado, através das

divinisações augustas do martyrio.

Poucas eram: mas vagarosamente a procissão ia crescendo no percurso,

ao clarão bruxuleante das luzes; porque a todo o instante a turba se

abria para deixar passar uma velhinha segurando uma tocha entre as

mãos descarnadas. Alguem lhe tirára o capote de cima dos

hombros, e da cabeça o bioco de burel que a encapuchava. E surgia

assim, daquella lugubre crosta, uma monjasinha branca de Santa-Agatha,

cingida na estamenha da ordem, o véo de nodosa e rude grossaria... e

que a pequeninos passos de centenaria, oscillando a trémula cabeça, lá

ia enfileirar-se no préstito, com as suas rugas cheias d'eternidade.

A esse tempo, a enorme basilica rompia violentamente da sombra, ampla,

majestosa, cheia de mysterios e esplendores, mesmo assim na ruinaria

das suas esculpturas e rendas ogivaes. E prolongava-se em crepusculos

doces, além das naves, pelos rasgões da derrocada, ondeava á

oscillação das luzes, parecendo expandir-se, como outro'ra, num grande

hausto d'uncção fervorosa e fé christã.

Em cada recanto, cada arco, por todos aquelles nichos, pelas capellas,

diante dos baixos-relevos e das estatuas, agora bruxuleavam lampadas,

cirios, fogueiras, luzes bizarras de fachos, cuja vermelhidão tingia

de sangue os caprichos manuelinos da architectura.

Em face a gigantescos lampadarios de prata e oiro, pendentes da cupula

arruida em cachos de lumes lividos, o altar-mór appareceu de subito

n'uma aureola de pompas, damascos, flôres e vasos de oiro

cravejados de pedraria. O frontal todo de lhamas, faiscava entre a

fumarada dos thuribulos, as grandes flôres de purpura emmaranhadas no

estofo, em cuja trama buliam bruscos formigueiros de diamantes,

saphiras e esmeraldas. E por cima na abobada, a noite errava,

espavorida dos fogos que oscillavam cá em baixo, nas inquietações do

vento. E ao rumor das rezas accordavam as aves nocturnas nos seus

ninhos: pombas e francelhos voejando de friso em friso, grandes corvos

sinistros partindo em bandos das rosaceas, encandeados co'a luz,

tornando a vir, tornando a ir... Pensarieis que regressavam das

tumbas, os espiritos das monjas, e se iam familiarisando ás ruinas, e

conhecendo n'ellas o maravilhoso sanctuario doutro tempo.

--Meu senhor, disse uma voz.

* * * * *

A vista das monjas, a multidão cahira de joelhos, tocada de veneração

por aquellas creaturas celestes, mumias da fé catholica, que a oração

transfigurára até á innocencia ideal dos serafins.

Tosca e triturante, a estamenha lhes cingia a esqualidez das ossadas:

vinha na frente a abbadessa, de báculo e mitra, com uma capa

de brocado, sob o pallio d'uma riqueza estonteadora. As mais seguiam

duas a duas, acocoradas quasi pela idade, e guardando não obstante uma

especie de aerea graça da infancia, através da caricatura d'aquelle

cerimonial complicado. Em todas, o olhar extincto, como um brasido nas

cinzas, perdera a incandescencia entre as macerações da vida ascética.

E d'entre a mortalha alvacenta das vestes, cada vulto sêcco vos

lembraria um violoncello com todas as cordas partidas, de haver

tocado, longos annos, a symphonia pathetica da dôr.

O que dissera, _meu senhor_, puxou-me de banda: era um embuçado

d'estatura pequena, gestos aduncos, e botas molles.

Levou-me para detraz da escadaria d'um pulpito. Engolfamo-nos por um

portello baixo e tenebroso, em cujo trevo marinhava, luctando, na

frialdade limosa da pedra, uma caterva horrivel de grotescos. E como

transpunhamos o portello, o homem tirou da capa uma lanterna. Vi então

diante de mim um velhito lesto, pequeno, azougado, os olhos debruados

de purpura, e com um grande nariz pendido como um monco, até encontrar

a aresta d'um queixo arqueado como a prôa d'um saveiro. Dirieis que as

duas pontas iam tentar brava guerreia: a do nariz embirrando

com a do queixo, a do queixo não sentindo lá grande sympathia pela do

nariz. Mas felizmente interpunha-se a bocca, sentinella vigilante

daquella discordia d'appendices, e que mesmo sem dentes, intervinha,

mordendo o que primeiro rompesse as hostilidades.

--Que quer dizer toda esta mascarada? disse eu.

O velho olhava para mim com um riso estupido de bobo. Tinha um

barretinho de sêda no craneo, grandes orelhas espalmadas aos lados dos

olhos, a bocca em meia lua e um collar de barba dura, direita, branco

sujo, prestava-lhe a caricatura demoniaca d'um bode, á luz fumosa da

lanterna. Foi pelo corredor aos saltinhos, e eu seguia-o tomado de um

espanto sem saber por que.

Ao fundo começava uma escaleira aberta na muralha, tortuosa, falhada

nos degraus, e obstruida por grandes pedregulhos. E o velho começou a

subil-a, levando a lanterna na mão. Como a escadaria era de volta

acanhada, e o passo de espira excessivamente baixo e deprimido,

forçoso nos era de subir corcovados, porque não fendessemos o craneo

d'encontro ao rebordo dos degraus superiores. Fomos tropeçando assim

nas pedras soltas e alluidas, partindo as unhas nas junturas da

muralha--elle sinistro, lesto, arqueado, escorregando, pulando certo

quatro e cinco degraus d'uma vez; eu agarrado ás pregas da sua capa e

á morna viscosidade das suas mãos, cujas unhas se me cravavam na

carne, como os dentes metalicos d'uma pinça.

--Afinal não me explicou que diabo vem fazer aqui toda esta familia.

Elle sorriu-se. Tambem d'esta vez não fizera caso da minha pergunta.

E eu começava a não vêl-o com olhos lisonjeiros.

A escada não tinha fim, caracolando sempre nas trévas humidas, onde

passava o voejar dos morcegos, os guinchos dos ratos, e toda a sorte

de sopros e rizadas maléficas.

O ultimo trago d'aguardente acaba de se me sumir nas profundezas da

goela. E valha a verdade, eu ia perdendo um pouco a noção justa das

coisas. Fórmas, rumores, simples idéas e suggestões me lançavam de

roda, n'uma sarabanda de incoherencias.

Dir-se-hia nos iamos sequestrando, pouco a pouco, ao mundo normal e

quotidiano, com os seus phenomenos e leis eternamente as

mesmas, para invadirmos não sei que exotica região onde tudo era

diverso: a atmosphera e a luz, as figuras, as sensações, e as naturaes

affinidades de ser a ser.

Por instantes, quando o homemzinho passava na luzerna do luar lançada

por alguma fresta da torre, eu ia jurar que elle mudava de figura, á

proporção que ia subindo. Já não tinha na cabeça o solidéu de sêda

preta. As suas orelhas avantajavam-se aos lados dos olhos

despegando-se-lhe do craneo como as dos morcegos, em grandes pregas

cobertas de cabellos. E deixei de ouvir o rumor dos seus passos,

emtanto que a subida se tornava vertiginosa, inquietadora,

embriagante. Cada vez os degraus me pareciam mais estreitos, o passo

de espira mais apertado, e o caracol de pedra mais asphyxiante. E nas

trévas da torre, emquanto eu ouvia os resfollegos do velho saltando os

degraus com furias de possesso, um ar denso e gorduroso forçava-me o

cavername do peito a centuplicar d'inspirações, como n'um paroxismo de

syncope.--Ar! Ar!

A minha cabeça rolava entre vertigens: via moscas de fogo saltarem-me

por diante dos olhos. E era como se cada um dos meus sentidos, estando

separado de mim, não pudesse ou não quizesse procurar-me

sensações nitidas e exactas--tanto as coisas que eu tocava me pareciam

differentes. Larvas de gelo, escorregadias, sem fórma, tocavam-me nas

mãos _shake-hands_ bruscos. Abria então a bocca para gritar que me

acudissem: e percebia que elle voltava logo a cabeça, porque sentia,

positivamente eu sentia na cara o caustico dos seus olhos dilatados

nas trévas, acobardando a minha alma varada d'um inexplicavel

calafrio. Até que emfim chegamos a uma especie de sala rasgada de

porticos, por onde a lua entrava. E rompemos n'ella como o estampido

d'uma granada: o velho indo cahir de bruços no pavimento, e eu por

cima d'elle, n'uma exaltação furiosa--a ponto de por cinco minutos

rolarmos no chão corpo a corpo, engalfinhados, como se algum de nós

pretendesse esquartejar o companheiro. Prestes porém o lesto demonio

se me escapulira das mãos, e sem uma palavra, deixando a capa, correra

aos varandins da torre a debruçar-se.

A sala era grande, com varandins d'esculptura aberta, que pareciam

bordar uma antiga renda de cruzes de Malta e folhagens, sobre o azul

pallido do céo.

Uma floresta de cordas, mastros, travessões e guindastes,

emmaranhava o ambiente e corria de banda a banda. Pendiam sinos dos

porticos, negros, immoveis, suspensos, como aves de rapina

dormitando... mil tamanhos, mil formatos, uns grandes, outros

pequenos, bojudos estes, aquelles campanulados... E na cupula toda

aberta de lucarnas até á flexa, a zunida do vento fazia uma especie de

côro em surdina, instrumentado a risadas e pequenos silvos de

mangação.

* * * * *

O velho fizera um gesto. Uma badalada profunda sacudiu de chofre a

ruinaria inteira, dos alicerces ás grimpas, e foi-se alargando pela

cordilheira, attenuando, extinguindo, n'uma vibração magnifica de

sonoridade.

Terrífico e supremo era o accento d'aquella lingua de cyclope, que o

pulmão de bronze insufflára, no seu vagar prophetico, e que retalhava

o silencio da noite como um echo da vida eterna, soado através da

impenitencia dos homens.

Outra badalada mais forte, e outra, e outra ainda. Crucitando

d'assombro, os bandos de corvos fugiam por todos os lados. E as massas

de sonoridade precipitavam-se nos ares, desgrenhando uma

procella de bramidos, e como um apocalypse prégado ao universo

estarrecido a nossos pés. Para fazer dobrar alguns d'aquelles grandes

sinos, o velho trepava aos varandins e supportes, desdenhando as

vertigens da altura: e eu via-o marinhar então pelas cordagens, correr

como um gato ao longo dos cabrestantes, suspender-se, desapparecer,

cabriolar, suffocado, e insistindo, e voltando, n'um jogo macabro

d'esforços, que ainda mais lhe accentuava a contornadura demoniaca que

elle tinha.

A cada manobra do velho, era como se as badaladas me fossem batidas em

cheio, no coração, derramando-se-me em crises d'angustia por toda a

rede dos nervos convulsivados. Foi n'este estado que eu corri direito

a elle, e pude agarrar-lhe as pernas no momento em que o maldito se

preparava a descrever nos ares uma arrojada espiral, como Quasimodo,

abraçando pela cinta o reboleiro maior do carrilhão.

Aves Migradoras · 第 3 / 13 段