lado da aldeia, houvera de tarde uma festarola d'ermida.
Todas as creadas tiveram licença para ir até lá, depois do jantar,
excepto Luiza que estava de serviço á marqueza, e Ezequiel que, já
velho, quizera ficar junto de seu amo. Dos terrados do palacio via-se,
já noite, a foguetaria estrondeando no adro, e clarões de fogueiras
lambendo as saias das moças na sarabanda dos bailaricos. De quando em
quando, uma labareda mais clara desenhava no azul profundo a branca
fachada da igreja, d'onde sahia um campanario em agulha, cujas sinetas
desde a manhã tagarellavam festivamente. Extinctos os rumores das
officinas, no andar terreo, silenciosas as cocheiras e mais
dependencias da casa, toda a enorme residencia dir-se-hia acachapada
n'uma somnolencia lugubre, entre a confusão dos arvoredos. Apenas nos
quartos da fidalga cochichavam tres ou quatro velhas damas das quintas
perto, que tinham vindo de visita, aproveitando a aberta do dia santo;
e na casa de jantar, logo depois do café, o jogo começára entre os
convidados do marquez.
Sósinha no terraço, Luiza seguia a curva dos foguetes no céo
primaveril, esmagada pela espantosa scena com Ezequiel. Queixar-se...,
ella tinha pensado em queixar-se. Mas Ezequiel contaria a
scena do afogador e das pulseiras, a sua loucura pelo Ruy, e todas as
tagarellices que a pobre cahira em confiar-lhe. Á tardinha, vencida de
remorsos, ainda ella ousára ir com o estojo ao marquez, a recusar-lhe
nitidamente aquellas offerendas que não merecia. Elle olhou-a com a
bondade um pouco ironica que costumava ter.
--Meu padrinho, eu vinha...
--Ah, não me agradeças, pequena. Sei da companhia que fazes á senhora.
É uma lembrança de minha parte. Nas raparigas bonitas é que essas
coisas dizem bem. Vai.
E Luiza não tivera coragem d'insistir.
Essa noite, Ruy que passeava, fumando, ao longo da balaustrada,
observou-lhe:
--Estás com pena de não ter ido ao arraial?
--Eu cá sim! respondeu ella. Olhe que ha de ser por lá uma balburdia.
Se lá estivesse, o que eu fazia era voltar.
--Ainda é tempo, se queres. Minha mãi dá-te licença.
--Ai, não. Gosto pouco de romarias.
--O que é que tens então? Pareces triste. Pareces doente.
--Eu não tenho nada, menino.
Elle fez mais duas vezes o comprimento da balaustrada,
lentamente, fumando: e o seu passo não fazia ruido sobre o xadrez da
plataforma.
--Só se te zangaste esta manhã... Foi brincadeira minha, não faças
caso.--Mas Luiza sorriu-se: zangar, porque?
--Eu sei! Podias não ter gostado.
--D'um beijo? Ora! não vinha talvez p'ra mim.
Ruy tossiu um pouco. De cada vez que elle dava costas, os olhos de
Luiza seguiam-n'o. E a sua figura perdia-se no escuro, ficava um
instante indecisa entre as sombras das arvores. Luiza aguardava então
que elle voltasse, com extasis de devota, e quando o lume do seu
cigarro apparecia, ella retomava a sua postura de Manon batida.
--Já sei, que tem um namoro, disse ella em voz baixa, ao fim d'um
esforço.
Elle voltou-se.--Eu!
--Tem, tem.
Ruy estava muito familiar.
--Póde ser. Na vizinhança ha bonitas raparigas.
--Não, não, cá em casa.
E o pequeno rindo.--Então és tu.
--Ai, a mim ninguem faz festa. Acham-me feia.
--Ao contrario. Toda a gente anda por ahi a fazer-te a côrte. Eu
percebo.
--Esses!... disse ella, fazendo olhinhos de gata sobre Ruy. E encolheu
desdenhosamente os hombros.
--Mas, emfim, quem namóro eu?
--Não disfarce. Quando entrava no seu quarto esta manhã, ouvi...--Já
elle proseguia no giro interrompido, como se entendera a indiscrição.
Essa vez demorou-se mais. E ao topal-a, bruscamente:
--E tu que recebes presentes! Dizes que não.
--Ah, sabe.
--Esta manhã.
--Á hora dos beijos... juntou Luiza para lhe metter ferro.
Elle tinha ficado nervoso.--Hein? presentesinhos...
--Quem m'os deu explicou-me o motivo porque m'os dava. A minha recusa
seria prova de soberba, e tinha de passar por desagradecida aos olhos
de meu padrinho.
--Quero dizer, eu não me importa...
--O tal Ezequiel que enxafurda os outros na calumnia, devia
lembrar-se das muitas infamias da sua vida. Olhe que se eu quizesse
fallar!
--Não. Isso cautella. É um creado velho, elle prudente, elle fiel...
Emfim, agrada-me.
--Deus fará com que se desilluda, menino, quanto mais depressa melhor.
Mas ao menos, devia ter-lhe contado tudo, o intrigante.
--E achas pouco? tornou elle em ar de mofa.
Luiza interdicta, não sabia bem ao que elle se estava referindo.
Ficaram calados.
Até que resoluta, um pouco tremula, pondo-lhe as mãos sobre as mãos:
--Ha uma pessoa só de quem eu gosto, disse ella.
--Cá em casa estão muitas. Provavelmente gostas de todas.
Ella dava grandes suspiros, afflicta: e desatou n'um choro
subitamente.
--Mas vamos! Que é isso? Porque choras tu?
--Não é nada, não é nada...
--Não, isso has de dizer.
Ella deitou-se-lhe aos joelhos, e n'uma anciedade:
--Oh não me deixe! Não me deixe! Se elle soubesse! Era tão
desgraçada, tão maldita! Todos na casa queriam perdel-a; Ezequiel
antes de todos, lhe infundia um pavor funebre e desgrenhado. Que mal
fazia ella? Porque insistiam em lhe fazer sentir a sua falsa posição
n'aquella casa?
--Mas cita os nomes, conta o que te fazem, insistia Ruy por acalmal-a.
--Não sei, não sei, dizia a rapariga: e soluços bruscos abalavam-lhe o
peito. Era uma angustia que a tomava, uma tristeza que lhe vinha sugar
o coração. De noite acordava espavorida, com um novello nas goelas,
sem poder respirar. Tinha que dormir fechada á chave, por sentir
passos de roda do seu quarto, sombras fugindo na curva dos
corredores... Tudo lhe parecia hostil n'aquelle palacio agora... os
olhares dos homens, as tagarellices das creadas, os proprios rumores
indistinctos d'altas horas.--Ezequiel dissera que a havia de perder.
--Olha a mania! Ezequiel não passa d'um pobre velho.
Ella quasi o cingia pela cintura, estreitamente, fazendo-se pequenina,
e como se quizesse abrigar-se no concavo das suas axillas. Supplicava
em voz surda, com a bocca collada ao peito d'elle. Dirieis
uma liana de martyrio enlaçando a haste flexivel d'um cipó.
--Não, não, menino Ruy. Luiza bem adivinhára os intentos d'aquelle
homem sinistro. Elle queria-a. E ousára dizer-lh'o com que palavras,
sabe Deus!--E outros ainda. Marquez das Flôres, que outro dia, ao
encontral-a no jardim... Finalmente Biscaya vinha arranhar-lhe á porta
do quarto... O ruivo mandava-lhe poesias... Nas cozinhas, em ella
entrando, todas as moças tossiam como se lhe soubessem d'um pôdre. Até
os da cocheira tinham ousado chalaças crúas, quando succedia
toparem-n'a de perto. E Luiza tremia, Luiza perdia a cabeça!--Uns por
ciumes da protecção que os senhores lhe dispensavam; outros por maus
desejos que ella sempre tinha repellido; e todos buscando precipital-a
da sympathia de Ruy e da marqueza. Oh, já não sabia como fugir áquella
calcinante atmosphera de odio e rancor.
--Casar, disse elle. É o que deves fazer. E o seu olhar evitava-a.
--Casar, ella! quem queria uma mulher sem fortuna, e com a educação
mais alta que o nascimento? Os habitos que contrahira n'aquella casa
prohibiam-lhe de se unir a um qualquer homem do campo que ella de
resto não saberia amar sinceramente. Esses mesmos habitos haviam
compromettido a serenidade da sua consciencia, e quem sabe se
auctorisado os desbragados propositos dos que buscavam perdel-a?
Mesmo, a sua razão tresvairava: era necessario um esforço desesperado
para varrer da cabeça as loucuras que por lá corriam.
Loucuras, sim?
Ella não delirava. Casar com este ou com aquelle, tudo era cahir do
sonho radioso a que se afizera primeiro. O homem que ella adorava,
jámais poderia sem descer, tocar-lhe com os labios na testa. E o seu
futuro, ella bem no via, descendo n'uma espiral d'angustias e
desalentos. Em creancinha, quando o menino estava ausente, Luiza
dir-se-hia no palacio a filha unica da marqueza, que todos acariciavam
de passagem, buscando por ella captar a benevolencia da fidalga. A
felicidade era tão facil d'aprender! Assim se fôra educando, como se a
destinassem a algum homem de condição superior. Até a familiaridade de
Ruy, n'aquelle tempo, lhe ajudára a fomentar a sua illusão de
grandeza. Agora Ruy estava um homem--adeus encantamento!
Luiza teria de voltar a ser uma guardadora de porcos.
Elle apadrinhou-a com um magnifico gesto fidalgo. Quasi nem metade das
suas palavras ouvira, porque havia um instante, surpreso, se escutava,
sentindo-se invadir d'um sentimento indefinivel, delicioso,
inquietante, que lhe ascendia no sangue, e o esbraseava no mais
recondito da sua carne, e lhe punha fervores pela nuca, até ás fontes,
como se fôra um veneno. Aquillo espraiava-se n'elle em bruscas ondas:
era uma sensação inexplicavel de vaga delicia, sobresalto, receio,
queimadura... Já trinta vezes quizera afastar Luiza, sacudir os
filtros que vinham da sua provocadora belleza, retomar o seu bello ar
de principe herdeiro, impassivel aos arrulhos do serralho: e outras
trinta sentira faltar-lhe a coragem. Entrou então a dizer-lhe
consolações ao acaso. Ella estava por força na sentimentalidade
ephemera d'um mau momento, vendo côr de cinza por uma ennublação
instantanea da sua viveza de rapariga--nem admirava, com a doença da
senhora marqueza... E senão, que queria dizer tudo o que lhe ouvira?
Das suas palavras, não resahia uma só causa de soffrimento
legitima. Era quasi tudo pesadello romantico, trahindo a crise dos
nervos convulsivados, hemorrhagia sem lançada, preludio d'amor
latente, que fluctuava ainda sem escolha d'idolo. No fundo d'essa
avenida de projecções melancolicas, era evidente que a sombra d'um
homem adejava, mas sem physionomia, sem cabeça... uma insurreição do
feminino em cata de nupcias. As mulheres aos vinte annos vibravam
todas n'aquella passageira crise do sexo reclamando o culto para que
foi votado. O necessario agora era pôr uma cabeça sobre os hombros
d'aquella translucida apparição, dar-lhe face, dar-lhe caracter,
dar-lhe nome... Finalmente, tornar o phantasma em homem!--E sorrindo:
hei de procurar-te um noivo, deixa estar.
Luiza erguera a cabeça.
--Tu?
Surprehendido, elle encarou-a. Viu-lhe o perfil dealbado por um
lampejo da sulfatara interior, e a lascivia da bocca aspirando o
halito das suas benignas palavras.
--O meu noivo, balbuciava ella n'uma especie de amoroso delirio,
poetisado pelas cadencias da voz debordando em melodias. Procura-o
perto. Talvez te não responda, apesar dos meus suspiros que
o chamam, noite e dia. É uma estranha creatura, esse noivo, bella como
a apparição do Christo a Santa Thereza, porém fria e fatal aos que se
lhe approximam. Só prostrada na terra eu ouso chegar-me a elle, como
um reptil a uma corça branca dos bosques. Entre nós, eu bem conheço,
ha o boqueirão d'uns poucos de seculos de cultura. Quero preencher com
a minha belleza esse formidavel precipicio que me prohibe de o adorar.
Ai de mim! Embalde os meus braços tremulos se lhe estendem, e os meus
olhos extaticos vão pousar-se, como pombas, no esplendor da sua
belleza tão pura. Elle não quer ouvir os meus soluços, nem derramar
nos meus cabellos a calorosa uncção das suas caricias. É nobre, é
altivo. O seu destino o preserva das minhas traiçoeiras ciladas. Todas
as aflicções da minha alma, todas as reluctancias da minha juventude,
dias de esperança, noites de delirio, nostalgias a olhar do angulo
d'um terraço o cotovello d'estrada por onde a sua carruagem se
sumiu... tudo ahi fica murcho e desfeito no caminho dos seus passos,
sem que elle volte a cabeça para me lêr no branco dos olhos a
cruciantissima dôr que a sua pisadura fez verter. Annos e
annos, esta cegueira luctou por captivar-lhe a misericordia, sem
reparar nas concessões infamantes que a minha alma ia fazendo aos
desejos que a torturavam. Quiz transfigurar primeiro o meu amor n'um
celeste e casto poema, todo espiritual, todo intimo; subtilisal-o em
dedicações, impôr-lhe sacrificios... devotar-me emfim á sua
felicidade, calando o grito do meu coração que reclama sem partilha,
essa creatura em que elle não póde pensar sem deslumbramentos.
Protesto inutil! Filha de grosseiras gentes, puidas de miseria, e
fazendo do vicio desforço para amordaçar o desespero, estava escripto
que eu havia de andar a rojo, como a serpente, tentando a claridade
immortal da sua adolescencia.
Luiza calou-se, arquejante. E os seus cabellos roçavam pela bocca de
Ruy, mordicando-lhe a pelle do queixo com uma titilação imperceptivel.
--Emfim, a minha paixão chega a um limite e rebenta, prevendo o
instante em que elle me vai fugir para não voltar. Oh não me abandones
tu!
--Vem gente, tornava Ruy n'um sobresalto.
A mesma loucura os tomava e fazia pulsar estreitamente
unidos, assim como n'uma bocca muda, um labio a outro labio.
--Não! É um minuto mais, dizia ella. Eu já não sei o que digo. A idéa
de que outra mulher terá beijado a tua bocca tira-me o somno, e o meu
sangue tumultua e allucina-se desde que perdi a esperança de te
captivar a um simples fremito das minhas sobrancelhas. Eu não te peço
um desses amorfos e dessorados amores que sob a umbella da igreja
podem mostrar-se a toda gente, na atonia estupida em que a lei
amosenda as _fioriture_ do coração. Tornei-me um animal de luxo, não é
assim? cuja posse disputam em tua casa esses homens. Então escolho-te!
Estou no meu direito. E como uma escrava, estatelo-me no chão que tu
pisas, para que me esmagues a cabeça depois de me haveres cingido, uma
vez só que seja.
Ella cahira-lhe aos pés, e beijava-lh'os com a exaltação d'uma louca e
os phrenesis d'uma enfeitiçada. N'aquele instante, Ruy nem sequer teve
um gesto para apanhal-a do chão. Fizera-se muito pallido. Os seus
braços tinham cahido. E um terrivel sorriso zigzagueava na sua bocca
enygmatica. Dirieis uma creança, que chegada ao fim d'um
bello conto, subito se desencanta do entrecho, e passa adiante, sem
lhe ligar mais attenção. Assim elle entrou nos quartos da marqueza,
bruscamente, deixando-a prostrada nos primeiros degraus da escadaria.
Por conseguinte, Ruy tinha-a recusado, depois de a ouvir monologar
como uma actriz fastidiosa. Interdicta e buscando vencer o asco que de
si mesma lhe vinha, Luiza escutava o furioso debater da sua vaidade
sacudida na estriadura d'aquella humilhação. Sahiram as visitas,
voltaram da festa os creados, que pouco a pouco, ceia finda, iam
desertando para os seus dormitorios. Luiza trouxe o caldo á marqueza,
vazou-lhe o calice de Madeira com a mesma solicitude machinal, sem ter
reparado na escarradeira cheia de sangue, na somnolencia e na pallidez
da pobre dama. Renovou o azeite da lampada do oratorio, desceu á
cozinha onde sua irmã pela centesima vez insistia em lhe aconselhar o
casamento com Ezequiel, como mastro de _cocagne_ para a familia
inteira: e de joelhos, na capella, para as rezas da noite, por mais
que fizesse, o seu espirito perdia-se em oceanos de magua: até que
afogueada, estupida de scismar no seu destino, veio ao terraço banhar
a cabeça nas brisas da noite.
Os ultimos romeiros desciam do monte, e amadornavam por esses caminhos
os echos das cantigas, deixando atraz de si n'uma espectativa lugubre,
a somnolencia espectral dos arvoredos. Uma livida noite amortalhava o
immenso descampado. Entre cerraceiros de nevoa, a lua minguante subia
por ondas de claridade torva, gordurenta, sem reflexos, como uma
agua-forte sinistra que rolasse as suas tragedias de cinzento,
desfazendo nos macissos as ultimas _nuances_ de paisagem. Ai, pobre
Luiza! Aquella repulsa fazia-a rolar na sua idéa a uma condição, além
de cuja ignominia ella julgava se não podia descer mais. Quanto daria
ella agora, a pobre tonta, por voltar a ser na estima d'elle a sua
companheira de brinquedos, a sua pessoa de confiança, a sua amiga, a
sua irmã?... e poder encaral-o com os olhos limpidos d'outr'ora, sem
córar por aquella scena de seducção premeditada, que até na propria
consciencia a envilecia! Agora ella olhava á roda de si cahida da
exaltação que a levára a cingir-se com elle, interrogando-se,
perscrutando-se, dizendo-se indigna de todas as commiserações.
Era uma mulher sem vergonha, quasi ignobil, que inspirára o
nojo, mesmo formosa, mesmo intacta, ao primeiro homem a quem estendera
as pomas dos seus desejos. Podia aceitar quaesquer das infamantes
soluções que lhe propunham: ser a amante do creado, ou ir saciar o
deleite ephemero d'um dia ao marquez e aos mais debochados do seu
sequito. O seu desejo extincto, tudo o mais lhe era indifferente; e a
morte começava d'ali por diante, com a frialdade do seu coração
prohibido de bater por alguem. Mesmo, não via outro destino além de
prostituir-se ou matar-se. Para ella o mundo começava em Ruy, acabava
em Ruy, e só durára no cyclo em que elle a trouxera enfeitiçada. Ruy
sequestrado ao seu amor: adeus mocidade, alegria chilreante, manhãs no
terraço á hora de dar alpista aos canarios, projectos, ardores,
phantasias, esperanças! Elle recusára-a: de que lhe serviam pois as
turgidas pomas, a cinta ondulosa de serpente, e o divino ventre de
geraneo e espuma, todas as expansões, todos os calafrios, todos os
mimos, de que a adolescencia avelluda e povôa o corpo da mulher? Na
contensão capitosa dos seus extasis, Ruy vira apenas a selvageria do
goso que extravasa em gestos de braços e na effervescencia
torpida dos beijos. Além da grosseira exterioridade lasciva e calida,
tudo o mais lhe escapára d'aquelle amor confessado violentamente,
refinamentos, fremitos, intellectuaes sobresaltos... o prazer dos
sentidos vibrantes á visão da pessoa que se adora... os infinitos
respeitos, supplicas balbuciadas por entre os dentes cerrados,
transluzindo ameaça--e delicadezas submissas d'escrava--e esse fluido
que sobrenada da alma amorosa, e enche de poesia tudo o que se palpa e
respira, em torno d'ella.
Desceu ao jardim, direita ao poço. Havia um silencio opaco e terrivel,
que pesava no ambito á semelhança d'um remorso que fibra a fibra
estivesse roendo um coração. O poço era largo, com uma nora por cima,
e a amura de pedra escancarada ao ar. Se ao menos elle diria
«Coitada!» quando lhe fossem contar como ella tinha morrido!... E
inhalava para se dar alento, grandes haustos d'ar frio. Os seus olhos
deram co'as janellas do palacio, illuminadas ainda. Eram, d'uma banda,
as janellas de Ruy, e da outra a lampada do oratorio, cuja porta abria
sobre o quarto de dormir da senhora marqueza. Vamos! era preciso ser
forte. Nossa Senhora estenderia os braços para impedir que ella se
despenhasse no inferno. E pôz-se a medir a queda, esburcinada no
boccal de pedra da nascente. Atafulhada de sombra, a pavorosa goela
não mexia. De quando em quando, uma gotta escapava-se dos alcatruzes
da nora, indo fazer lá no fundo um _plhau!_ glacial. Entretanto a
nevoa fazia aos arvoredos, _toilettes_ de gaze, para a festa funebre
de Luiza. Solicitamente o luaceiro vinha, aqui, além, tocar o bojo
d'uma perola d'orvalho, as transparencias d'uma renda de bruma, os
claros da argentea brancura immaculada... Ella desfolhou a rosa que
puzera nos cabellos. Ergueu o espirito para o alto, com uma doçura
branca de martyr; e persignando-se, enxugava as ultimas lagrimas. Na
calada começou então a retinir uma campainha. Nos quartos da marqueza?
Era a chamar Luiza. Oh pobre madrinha! Luiza estava já sentada á beira
do poço, prompta a escorregar-se á agua. Porém uma instantanea sombra
tinha passado nos stores do oratorio, cujas vidraças soaram no terraço
em bocadinhos. Que era aquillo? Alguma coisa de anormal se estava
passando. Quem gritára? Engano? Allucinação? Luiza fez um salto,
esquecida da morte, e deitou a correr para d'onde o barulho partia.
Quando entrou no quarto da marqueza, cahira pelas escadas, derribára
Ezequiel que vinha pelo corredor, rasgára as saias nas portas,
tropeçando nos moveis umas poucas de vezes. Viu a cama vazia e toda
cheia de sangue nos travesseiros. A porta do oratorio estava aberta, e
sobre a alcatifa, entre portas, a pobre senhora estorcia-se, quasi
núa, vomitando sangue em espumosas golfadas. Luiza agarrou-se a ella,
gritando que lhe acudissem: e em toda a casa, de repente, tinha sido
um alvoroço extraordinario. Ezequiel, que foi o primeiro a chegar,
inda viu a velha revolver os olhos, dar um estremeção que lhe retezou
as pernas ao comprido. E de repente ficou-se.
--Coitadinha, coitadinha! Está prompta, dizia o velho em tom beato. Eu
bem previa esta desgraça! Mas Luiza barafustava para que elle fosse
chamar depressa o marquez, e mandasse á villa buscar o doutor
Souza.--Depressa, depressa que ella vai-se-nos aqui sem sacramentos!
Elle abanava a careca, tendo remodelado na face a mascara patriarchal
dos dias serenos. Desolava-se muito pelos cantos. Como aquillo fôra
depressa! Uma coisa que ninguem esperava! Lá conseguiram
transportal-a para a cama. O corpo estava frio. Um dos braços,
levantado, cahiu inerte nas roupas, apenas o deixaram.--Está morta!
Mas ninguem vinha acudir! Que estava fazendo nos quartos toda aquella
gente que não ouvira os gritos d'alarme? Ezequiel entrava e sahia, ia
a uma porta, voltava á capella, idiota d'espanto, abanando as mãos,
sem saber.--Ah menina Luiza, menina Luiza; eu bem lhe disse esta
manhã. Chegou-se a ella:--O que ha de ser agora de ti?
A camareira não ouvia, agarrada á marqueza, e seguindo a installação
da morte n'aquella physionomia de cera. A sua rica madrinha! A sua
amiga! A sua unica affeição!
--Casa commigo, insistia Ezequiel. A minha vida é pouca coisa.
Deixo-te tudo. Casa commigo.
Já o marquez vinha entrando, com Ruy e os seus amigos, e toda a gente
da casa áquella hora estremunhada.
O fidalgo curvou-se para o leito: dizia phrases d'espanto, allucinadas
e d'um grande effeito decorativo.
--Mas, senhores, ella resfria! Oh fatalidade! e outras muitas, que os
amigos, um pouco lassos na digestão da ceia, trocavam por
outras da mesma polida complacencia. Compuzera um rosto d'afflicção
reprimida, conforme de rigor na circumstancia, e que foi muito
apreciado pelo que dizia dos seus affectos maritaes. Lagoaças e pai
Cezario tinham-n'o abraçado a tres quartos, dizendo--coragem! n'um
magnifico accento de contra-basso.
Quando de repente Luiza deu um grito, vendo os olhos da marqueza irem
ficando vitrosos. Alguns curvaram-se a vêr. Ezequiel e Lagoaças
trouxeram velas accesas. E o choro das creadas abriu de repente no
quarto uma ladainha horrifica de lamentos. Uma especie de teia
d'aranha revestia devagar as pupillas pallidas da morta.
--O espelho, o espelho.
Ezequiel trouxe do gabinete um espelhinho de punho ornado;
puzeram-lh'o á bocca.
--Inda respira!
Mas o pulso perdia-se. O coração queria calar-se. A aura hysterica
descorrelacionava os movimentos de Ruy, cujas mãos buscavam juntar-se
n'uma supplica frenetica de que ninguem fazia caso.
--Jesus! dizia Luiza erguendo os braços, entre as mulheres
de joelhos. Onde está o nome de Jesus não ha perigo á salvação. E as
rezas perdiam-se em ondas de soluços. Então o marquez tirou a boina da
cabeça, avançou dois passos com o espelho que já não embaciára,
collado á bocca da fidalga. E n'um tom alto:
--A senhora marqueza de Selmes morreu.
O SINEIRO DE SANTA-AGATHA
Ha quinze annos, vespera de Natal, n'uma noite bem frigida e chuvosa,
ia eu em jornada através das serras, caminho da minha aldeia, a fim de
consoar, conforme a velha usança, no aconchego patriarchal da familia:
quando a sege que me levava estalou com fracasso, desabando em bocados
pelo chão. A custo pudéra salvar-me do destroço, que a sege velha e de
correias, sobre duas grandes rodas esculptadas, esbarrondara de chofre
contra um amontoado de penedos, e o cocheiro contuso em muitas partes
do corpo, era quasi impotente para sustar os galgões dos cavallos
sacudidos pelo terror da derrocada. No meio das trevas, áquella hora,
sob a chuva sibilante, como encontrar agasalho?
Era no mais cerrado das brenhas. Lugubres penedias estacavam por toda
a banda.