--Por lhe confessar que só os imbecis se portam bem? Por lhe

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FIALHO D'ALMEIDA

AVES MIGRADORAS

4.o Milhar

LISBOA

LIVRARIA CLÁSSICA EDITORA

DE A. M. TEIXEIRA & C.a (FILHOS)

_Praça dos Restauradores, 17_

1922

PORTO--Imprensa Portuguesa

Rua Formosa, 116

AVES MIGRADORAS

--Mas tu és minha amiga, balbuciava a creatura querendo tomar-lhe as

mãos n'uma supplica desolada. Devias ter dó d'esta fatalidade que me

leva ao encontro de Ruy. Oh, tu não sabes! A idéa d'elle tira-me o

somno, embebeda-me, convulsiona-me, vai commigo a toda a parte. Tu ao

menos tiveste familia, irmãos, alguem. A mim nunca ninguem me quiz. Os

garotos puxavam-me os cabellos, meu pai batia-me em estando

embriagado. Aos dez annos puzeram-me fóra, que fosse trabalhar. E

andei descalça atraz dos porcos, ia aos sabbados pedir esmolas ás

portas dos ricos. Um verão agarram-me a furtar uvas n'uma vinha: o

vinheiro era um bruto, jogou-me um tiro; e cheia de sangue, quasi

morta, uns cavadores que passavam, foram levar-me a casa da

minha madrasta. Mas á embocada da aldeia, como eu ia estendida n'uma

padiola de ramos, a senhora marqueza viu-me passar da sua janella, e

por caridade, recolheu-me. Alli se fôra creando, a fazer companhia ao

menino. Ruy n'esse tempo era um despota, obrigava-a a saltar muros, a

pendurar-se de cordas, a fazer de cavallo. E batia-lhe. Em compensação

Luiza adorava-o com um amor de cadella agradecida. Do fundo da sua

humildade, nascia-lhe um deslumbramento inexplicavel, uma curiosidade,

uma cegueira de Ruy. E nervosa, franzininha, como a figura d'uma

borboleta na melancholia pallida d'um sonho, adquirira já

precocidades: e os seus grandes olhos remordiam na belleza do

pequenito, substractos de muitissimas aspirações. Na quinta, os

trabalhadores ás vezes perguntavam-lhe:

--Queres ser amiga além do menino?

Ella abria os seus olhos vorazes, dizendo com a cabeça que sim.

Entrementes o pequeno ia crescendo. Era alto, delgado, divinamente

perfeito. Tinha já essa attitude desinteressada d'enthusiasmos,

indifferente aos impulsos fortes, desdenhosa, petulante, das creaturas

nascidas em meios altos, e destinadas ao predominio. As suas

mãos davam cobiça, brancas de cera, e com detalhes mimosos d'obra

prima. Oh, mas a bocca, inexplicavel, trazia embrionada na esculptura

dos labios, todas as florações mysteriosas d'uma ascendencia

patricia--bocca de chefe pela austeridade, de diplomata pela ironia, e

de mulher pela doçura com que a descerrava, em sorrisos cicatrizadores

das esgarçaduras que a sua altivez antes fizera. Quando elle veio do

collegio a primeira vez, empallidecera: mas a expressão dos seus olhos

era uma coisa indescriptivel d'encanto, de melancholia e suavidade.

Á enformatura tenra, oscillando como a haste anemica d'uma flôr de

estufa, viera juntar-se o mysterio poetico d'um espirito insexualmente

delicado, cujas infantilidades corrigia a cada instante um fogo-fatuo

d'idéa, e a graça grave, indecifravel cambiante, da esphinge que

contempla, sem desmentir jámais a prega austera da bocca. Era já,

n'essa idade, a creatura de gostos raros, avara de palavras e gestos,

fria, correcta, com preguiças d'ataxica e relampagos de crueldade na

pupila augusta de Cesar, adorando o luxo dos palacios antigos, tendo a

mania do _bibelotage_, e antegostando, como todos os homens da sua

familia, uma especie de deleite perverso no desnortear pelo

testemunho das suas impressões prevaricadas, a sensibilidade reputada

normal pela outra gente. Essa susceptibilidade depressa se embotava

todavia, reclamando intercadencias, e por vezes derivando em

passageiras allucinações. Indole toda de _nuances_, refrangida d'um

sangue com predominio de soro, como uma luz coada através da sêda d'um

biombo, elle parecia arvorar o pallido como flamula de guerra da hoste

macabra dos nevrosados, cuja vida o tédio do vulgar envenena. Por seu

lado, Luiza conseguira ganhar pela viveza dos seus expedientes e

remoques, o espirito da senhora marqueza, ao tempo enlanguescido no

estranho mal que ia varrendo as gentes da sua raça, mercê das

allianças consanguineas em que esta teimára immobilisar-se. Em cinco

annos, nada restava já da pequena mendiga chegada ao palacio n'uma

padiola de ramos, com os cabellos nos olhos, os pés enlameados,

coberta de trapos, e resequida n'uma magreza dolorosa. Era uma bruna

de beiços rubros, dentes pequenos, com fórmas d'esculptura e sadias

destrezas d'amazona. Desde a partida de Ruy para Campolide, que ella

não tinha na casa occupações definidas. Conservavam-n'a, um

pouco por gratidão, e por amor tambem, um quasi nada. E assim era um

bocado de tudo--leitora, enfermeira, guarda das estufas, esmolér-mór,

creada de mesa e bordadora--e assim podera conservar a sua selvageria

d'origem, tão familiar aos serviços da propriedade.

Luiza era intelligente: alli se fôra educando, aprendendo, adquirindo

pela familiaridade da boa companhia e da riqueza esparsa em obras de

gosto, através dos velhos aposentos, essa cultura interior de

sentimentos, essa exoticidade de preferencias, essa indiscutivel

distincção de conversar e receber, que a tornaram depois tão

appetecida cá fóra--isto realçado co'a turbulencia da creatura nascida

em pleno campo, espojada nos fenos, e rebelde no sangue, longe das

peias deformantes da sociedade. Só de longe a longe, á força de

hydrotherapias complicadas, a senhora marqueza obtinha uma ou outra

hora de vida serena, e conseguia furtar-se aos lugubres nervosismos da

enfermidade. Era o feitio de Ruy, menos a juventude, mais a

impaciencia. A custo lhe sahia o espirito das abstracções e

somnolencias em que ficava embrenhado horas e horas; e exiguamente,

distillando a lucidez como uma essencia, gotta a gotta, n'um

_ting-ling_ monotono. A sua vida passava-se n'um canto de capella,

entre sombras, enterrada n'um _fauteuil_ com baldaquino, e só de lá

sahia para se entregar ao cultivo de quatro ou seis predilecções

extravagantes. Resentia-se do claustro onde passára os primeiros annos

de educanda, e da côrte onde tinha gosado os primeiros mezes de

casada. Era uma natureza extatica, adorando as pompas do culto, os

requintes subtilisados da lithurgia, os movimentos dramaticos do orgão

no instrumental das grandes cerimonias--um pouco de mysticismo, n'um

pouco de miguelismo, n'um pouco de idiotismo,--com paixões de plantas

monstruosas e aves singulares, alimentando-se de fructas, vestida de

antigos damascos e _pompadours_ de raminhos, e tendo sempre bolos

d'ovos no beniterio do seu genuflexorio. Era vêr a ternura de Luiza

durante as crises da boa senhora, e a meiga servilidade da sua voz

rebuscando as mais enternecidas musicas, para pedir perdão de lhe não

ter adivinhado mais cedo o pensamento.

Essa ternura, Luiza não a fazia nascer exclusivamente da gratidão que

nutria pela castellã: vinha antes da emoção que Ruy lhe

dava, da febre que lhe produzia a lembrança da sua belleza fruste e

singular. Todas as dedicações se fundiam n'ella, e assim todas as

especies de desejos inquietantes. Vinda d'uma mancebia d'aldeia, onde

rolavam a toda a hora palavras bebedas e acções quasi medonhas, Luiza

achára entre os moços da quinta, nas conversas surdas da cozinha e da

arribana, á hora da ceia, a continuação do que vira e ouvira em casa

da madrasta. Fôra preciso um cuidado assiduo, nos primeiros tempos,

para refazer-lhe o vocabulario, e transviar para intuitos mais

limpidos, a tendencia de vicio que ella trazia no sangue, em

purulentos coagulos. Se a educação e o mimo em que fôra subindo, á

proporção que se insinuava nas sympathias do palacio, lhe haviam feito

a lingua casta, e a expressão virginea, já por fim, no fundo, o

terrivel sangue conspirava n'ella, co'as herdanças fataes da vida

airada, phosphorejando ardores que a nubilidade ás vezes desencadeava

em verdadeiras procellas. Inda creança, o seu amor pelo Ruy já não

podia dizer-se immaculado. Não era esse idyllio de bambinos colligados

na mesma adoração por uma boneca, nem a celeste comedia,

inolvidavel, de duas cabecinhas attentas para o mesmo malmequer que se

esfolha á beira d'um campo de trigo, sob o guarda-sol de sêda que a

ama baloiça, sorrindo de os vêr tão sérios, os dois noivos pequeninos.

Mas uma paixão d'inferior que se deslumbra pelos filhos da raça cujas

perfeições não pôde igualar, paixão com haustos de posse,

indeclinavelmente physica, prematura, perversa, e cheia

d'estonteamentos já torpidos. Com a idade, aquella ancia de Luiza não

se corrigia nem purificava, senão ia crescendo, accentuando,

colorindo, na medida da sua adolescencia cada vez mais radiosa em

seducções.

Nas férias, mal se sonhava o dia em que Ruy devia chegar, já ella não

parava quieta em parte alguma. E eil-a passando os dias nos aposentos

do menino, revolvendo alcatifas, mudando o logar do leito, perturbando

a ordem dos quadros, a disposição dos mobilamentos, agrupando plantas,

pelo que sabia das predilecções de seu amo--pondo stores e biombos em

todos os portaes por onde francamente entrassem a luz e o ar. Na casa,

os creados sorriam, como quem sabe de tudo--gallinha canta... E os

ditinhos pullulavam. Mas um que era já ruço, muito gordo,

quasi sacerdotal pela rigidez da compostura, costumava deter-se á

porta dos quartos, tossindo devagarinho, a vêl-a trabalhar.

--É o Ezequiel menina Luiza.

Ella gostava d'esse, que a defendia sempre das animadversões da

creadagem, e por toda a parte a cercava de deferencias tocantes.

Mesmo, das suas palavras paternas, ruminadas n'um fundo de reflexão um

poucochinho canalha, vinha-lhe uma sorte de lisongeira coragem.

Ezequiel era o unico que parecia não pôr em duvida a ascendencia de

Luiza sobre a outra creadagem. Emtanto elle ás vezes punha-se a

esquadrinhal-a, na sua bonhomia de velho, deixando cahir palavras

descuidosas aqui e além, para a fazer dar á lingua, e espaçando

reticencias de proposito, no sitio onde a rapariga, simploriamente,

logo ia prender revelações.

--Muitos parabens, menina Luiza. Faltam só quatro dias.

Ella, fingindo não entender:

--Ora essa! Para que, Ezequiel?

Elle ia entrando, punha o espanejador ao canto da porta, enxugava os

dedos da pitada ao avental.

--Estas raparigas, estas raparigas!... E d'ahi que tinha? Não

ha tanta menina pobre casada com pessoas grandes? Eu sempre queria

vêr...

--Vossê, Ezequiel, nunca tem melhores lembranças. Ora o mofino!

E o velho, conciliador:

--Acaso admira que vossemecê goste de Ruy? O contrario é que

espantava. Creados de pequeninos, no mesmo berço quasi... E olhe que

têem muita força os beijos a que uma pessoa se acostuma de creança.

Ella empallidecia e córava sem escrupulo, surprehendida no divino

tormento que lhe extasiava o espirito em fogos multicôres.

--Olhe cá, Ezequiel. Cada um no seu lugar. O que diriam de mim, santo

Deus?

--Coisa nenhuma, coisa nenhuma. Todos vêem como a senhora marqueza

trata comsigo. Zús d'aqui, zús d'alli, está-lhe sempre a chamar minha

filha. Olhe que é muita amizade, é amizade de mais para uma servente.

Eu sei que isto enfurece os invejosos. Não faça caso, menina Luiza,

não faça caso.

--Ah, não tenha medo, Ezequiel.

--E o menino Ruy então, não fallemos. Esse gosta, e gosta muito. Até

cartas lhe manda. Não se faça encarniçada, menina Luiza.

--O disparate!

--Já cá sabemos tudo; pois então!

--Crédo! Santo Nome! São cartas que elle manda para a senhora.

--Para a senhora, sim, para a senhora mais nova. Eh! Eh! fazia elle

batendo as palmas, n'um tom maligno d'avô condescendente. Essa cama

que fique bem fofa, essa campainha que fique bem perto. Rapaziada,

rapaziada!

Ouvindo estas coisas, Luiza abandonava-se, perdia a cabeça. E do

coração subiam-lhe á bocca ondas de confidencias, gritos d'alma,

brutaes franquezas de rebelde. A intensidade do seu sonho interior era

tão forte, tão sobreexcitado o delirio da sua imaginação, que para

seguir-lhe a trajectoria, Luiza compromettia-se mentindo, gabando-se

de scenas imaginarias, sem quasi perceber que se calumniava. Não, Ruy

não lhe escrevia. Não, Ruy não gostava d'ella. Mas Luiza, Luiza morria

por tel-o ao pé de si. Esses dias eram uma doidice, e Luiza não

dormia, Luiza não comia, Luiza não dava attenção á leitura, Luiza

estava distrahida á missa da senhora marqueza. A cada instante,

omissões no serviço, pequenos confortos descurados nos aposentos,

portas abertas deitando correntes d'ar, stores erguidos nas janellas,

que endoloriam os olhos da enferma, apenas familiarisados co'as

penumbras cinzentas do seu canto d'oratorio.

Então a fidalga impacientava-se: as impaciencias traziam-lhe o

nervoso. Era um horror. Para poisar os dedos no braço de Luiza, abrir

o livro de rezas, dar uma dentada n'um bolo, a pobre creatura estava

minutos em sobresaltos choreicos, debatendo-se contorcida, sentando-se

e erguendo-se apenas se sentava, lançando da bocca palavras

improprias, repetindo certos adverbios no meio das phrases: e

amargurada, presa de terror, por ter a consciencia de não estar

fallando bem.

Raro, raro, o senhor marquez que residia em Lisboa, na roda dos

alegres _viveurs_ d'então, se aventurava até áquelle deserto da

quinta, calado, religioso, e com uma expressão claustral

d'austeridade. N'essas poucas visitas, sua excellencia não vinha por

certo estancar saudades de sua mulher, senão solicitar da pobre dama,

mais uma vez, assignatura para alguma hypotheca que o auctorisasse a

proseguir na sua vida libertina de velho rapaz. Chegava então pela

noite, em caminho de ferro, estava até ao outro dia, e na madrugada

seguinte, zut! elle ahi vai. As palavras que os dois esposos trocavam,

eram uma simples formula de deferencia imposta pelo orgulho ás

cogitações chocarreiras da creadagem, em que ella buscava mostrar o

desdem que nutria pelo esposo, e o esposo parecia artificialisar ainda

mais, a sua amabilidade correcta de marido desencantado. Na primavera

comtudo, a visita do marquez prolongava-se d'alguns dias, como era o

tempo das caçadas. Trazia então quatro ou cinco velhos amigos, alguns

creados, e as matilhas de galgos requeridas para a diversão. A

marqueza recluia-se mais, se é possivel, no seu angulo de palacio,

pretextando que a luz lhe encadeava a vista, que o ruido lhe

exasperava a _migraine_, e o aspecto da alegria dos outros mais fazia

contrastar a sua mortal e esmaecida tristeza de antiga moribunda. E os

caçadores ficavam sós, livres inteiramente para deixar correr sem

respeito, n'aquellas duas ou tres semanas de campo, uma impetuosa

existencia de barões feudaes, accesa nas risadas do bom vinho das

cavas, nas correrias em pós das rapozas e lebres, e castigando-se á

noite, finda a ceia, Deus sabe, entre os braços das mulheres que

Ezequiel recrutava discretamente pelo burgo, na grande sala de lambeis

gobelinos, com mobilias marchetadas de quatro seculos. Todas as

manhãs, Ezequiel ia aos aposentos da senhora marqueza deixar

galantemente um ramilhete da parte de seu amo, que á volta da caça lhe

mandava em _plateau_ tambem, a melhor peça da correria. Os fidalgos de

ha trinta annos eram ainda mais inuteis que os de hoje. A mordomos e

intendentes abandonavam a gerencia dos seus negocios interiores.

Restos d'altivez faziam-lhes encarar desprezivelmente o que elles

chamavam classes subalternas. Isto contrastando nas suas horas lucidas

com a intimidade que a mór parte abria a fadistas e toureiros, nos

momentos de vinhaça, por esses bordeis que ficaram celebres em

cantigas do fado. Este marquez de Selmes foi como os outros, um

perdulario espargindo fortuna e forças no rodilhão dos prazeres mais

em voga ao tempo. Em Lisboa, dava talher a uma turba de litteratos,

graciosos e moços de curro, com quem elle gostava de mesclar os seus

jantares d'intimos, por manter o ar d'um grande senhor amigo das

artes, requestado pela popularidade dos varios conventiculos elegantes

da capital. E na quinta, aquelle mundo heterogeneo de parasitas

representava-se um pouco, mais resumido, pelo critico Lagoaças,

Alberto M., Marquez das Flôres, grande pegador de bois, pai nobre

Cezario, e festejado Mattos, que fazia rir a sociedade referindo

historias da Lisboa duvidosa, no seu aranzel comico de _tatibitati_.

N'aquella primavera, a surpreza do marquez fôra Luiza, a grande Luiza

que lhe surgia de repente uma senhora, e cujas infantilidades o velho

galante distrahidamente afagára até ahi. Lagoaças, que era forte

apreciador de fructos no cedo, foi o primeiro a chamar-lhe a attenção

para a deliciosa frescura d'aquella maçã prohibida, que promettia

co'os seus acres succos perfumar a bocca de quem lhe cravasse os

dentes primeiro. Foi então um movimento geral de galantaria no grupo

dos caçadores, sobre Luiza. Com a sua _nonchalance_ habitual, o

marquez dava carta de corso aos amigos, admittindo-lhes correr palacio

a qualquer hora, em pós da famosa presa, se tudo fosse discretamente

acontecido. Quem mais lesto e galanteador se antolhasse, mais

esperanças poderia nutrir de successo. Alberto M. começou uma elegia.

Deliciosa aranha delicada,

E com pennugens d'oiro revestida:

Ligeira, dôce, setinosa e leve...

Tens a peçonha lubrica mettida,

Na caricia das patas côr de neve.

.................................

Marquez das Flôres era outro genero: confiava na mocidade viril dos

seus braços, e nas casacas vermelhas de caçador com que apparecia

todas as manhãs no grande pateo da casa, soado o primeiro hallali nas

trompas dos monteiros. E a batalha começou, estando Ezequiel empenhado

em fazer triumphar o marquez.

Uma manhã fazia Luiza o _ménage_ dos passaros, sobre o terraço,

Ezequiel que chega d'acaso. Bons dias d'um lado, bons dias do outro, e

começou uma conversa d'introito, ao fim da qual, sem se saber como,

Ezequiel já fallava nas graças de seu amo, ideal dos fidalgos

generosos, nata dos amigos commodos, e _non plus ultra_ dos amantes

discretos. Não é verdade, menina Luiza, não é verdade? Ui! que

gorgetas elle lhe dava! Pares de calças que lhe abandonára,

novinhos em folha! E a sua maneira de tratar então, como d'igual para

igual!

--Boa pessoa, fez machinalmente a rapariga, é muito boa pessoa.

--Uma coisa não sabe a menina. Elle está doido por si.

--Ai! o tramouco do velho...

--Diz que a ha-de fazer muito feliz.

--Brr! Pois quem somos nós?

--Tanto que me encarregou...

--Vossê alcovita agora, Ezequiel?

--Desejaria vêl-a amparada, menina Luiza. Conheci-a pequena n'esta

casa, vi-a medrar e fazer-se mulher, e gosto de si como os avôs das

netinhas tagarellas. D'ahi, não promette grandes dilatamentos a vida

da noss'ama: cedo, tarde, quando menos cuide, ahi vai ella caminho dos

anjos. E fallando claro: a situação que ella lhe fez n'esta casa, é

uma coisa postiça que lá fóra a menina não poderá continuar sem uma

protecção. Quer que mudemos de conversa?

--Posso, Ezequiel, isso posso. Não digo a servir, mas escolhendo rapaz

com quem me case.

--Da aldeia, da quinta... Que creação é a d'esses homens?

Afeitos ao trabalho das terras, querem mulher da sua condição, que

sache, que monde, que moireje, e vista d'estamenha, e tenha rijeza

p'ra lhes parir um creanço, em todas as paschoas de Deus. Além d'isso,

duas naturezas desiguaes na educação--marido ciumento da mulher que

não merece--mulher desprezando o marido que a não soube captivar.

D'ahi zangas, ralhos, maus tratos, que sei eu? Ao passo que sendo

rica, poderia encontrar um moço d'estimação que lhe fizesse a vida

doirada, n'uma casa cheinha como um ovo.

--Mas rica, rica... Vossê conhece a minha gente. Morrem todos de fome,

lá por casa. Se me não comem os olhos, é que não podem tirar-m'os sem

que eu dê por isso. Ser rica, de que modo, por que processo? Diga.

--Eu a bem dizer, não tenho plano. Idéas vagas, muito d'alto, que se

não podem assim contar a uma rapariga nova e com principios diversos

dos meus. Idéas de velho que viu mundo e sabe chamar os bois pelo seu

nome. Olhe. Quando eu era rapaz tive uma patrôa viuva, entradota, mais

que medonha--inda esbraseada por noivar, pobre senhora!--que uma noite

me beliscou o assento, de passagem por um corredor ás escuras. Eu não

quiz: gostava muito mais da cozinheira: opiniões de galucho, menina

Luiza! Fui p'ra rua como era de justiça. Quatro annos depois estava o

cocheiro nomeado visconde do appellido da minha antiga adoradora.

Perdidinha por mim, menina Luiza, perdidinha. Carago! E eu tão bruto

que não quiz! Se lhe ponho as calças em cima, andava agora de sege por

essas capitaes.

--Fallando claro, o teu sermão quer dizer: amiga-te com o senhor

marquez, rapariga. Não é isto? Por sua morte, talvez sejas rica; em

vida d'elle por força has-de ser feliz.

Ezequiel não retrucou, mas poz-se a contar historias de raptos,

vergonhosos amores, coisas cynicas e patuscas, sem apparente

colligação de sentido. A voz fizera-se-lhe surda, d'uma firmeza

espaçada que lhe espargia na face aspectos graves de prégador e de

magistrado. E recapitulou da prédica, pitadeando, que a vida era um

quotidiano mercado onde a gente adquiria o que por acaso tivesse de

sobrecellente. Manoel Antonio Ferro, sahira da aldeia com elle,

Ezequiel, em 40, com tres pintos no bolso, e o saquito da roupa

branca. Entrado marçano n'uma loja do Porto, roubou o dono: primeira

façanha, vá vendo... Foi ao Brasil mercandejar nos escravos, volta

millionario. Chegado a Lisboa n'um estadão de principe, recommendado

até aos olhos, nenhuma casa se abriu para o receber. Trazia na

consciencia duas mortes, ao que se contava, e uns poucos de processos

por contrabando e moeda falsa. O homem não se ralou muito co'a

recepção dos patricios. Fez tranquillamente um palacio na Junqueira,

talhou jardins, comprou herdades, derribou azinheiras, plantou vinha,

fez eleições: e um bello dia, quando já entrava a ser necessario, deu

doze contos para escolas, reclamando farda de moço fidalgo, pelos

Ferros de Santo Thyrso, que eram ladrões d'estrada e sapateiros. Toda

a gente entrou a chamar-lhe venerando, desde os doze contos. Hoje,

ninguem funda um banco sem o nomear director, e não se inaugura uma

escóla sem elle lá ir botar discurso, com os seus ares de pai-avô.

Está par, está conde; e se ainda não põe na cabeça a corôa real, é que

já tem uma de cornos, mimo da mulher, a sogra d'este Marquez das

Flôres que ahi está de visita. A duqueza de Montes, menina Luiza, hoje

velha, e tão virtuosa senhora, que manda rosarios da Terra Santa a

noss'ama... era uma dançarina do primeiro café-concerto que se fundou

em Lisboa, cheia de molestias. Depois da dança, vinha p'ras mesas

embebedar-se com genebra, sentada no collo de quem lhe desse dois

pintos. Eh! Eh! Tudo se vende e se compra: caras geitosas, virgindades

velhas e novas, familia, patria, salvação, condecorações, reputações,

sapatos d'ourello e garrafas de vinho. Quer um bom camarote no reino

dos céos, menina Luiza? Dê quatro contos ao papa: manda-lhe a chave na

volta do correio. Faz-se de côres? Ora adeus! Não digo que seja dos

Evangelhos, esta doutrina. Mas é o resumo de cincoenta annos de

trambulhões e miserias. Seja-me rica! A primeira felicidade é ter que

vender. Mas a unica, a verdadeira, é poder comprar.

--Ezequiel, vossê tem a alma ruim.

--Por lhe confessar que só os imbecis se portam bem? Por lhe dizer que

este mundo é dos descarados? Ai, se eu tivesse podido convencer-me

d'estas coisas na sua idade! Não traria agora senão a libré de mim

proprio, e o mundo havia de fazer o que me viesse á cabeça. Faça o que

quizer, menina Luiza. Mas esta fabula é clara como agua. O senhor

marquez gosta de si. Qualquer dia a senhora marqueza, trrr... foi-se.

Que ha de fazer a Luizinha? Estará resolvida a dar-se por mulher ao

primeiro labrego que venha? Mas creatura! Voltar para os casebres da

sua madrasta, d'onde fugiu a honra com medo aos piôlhos? Brada aos

céos! Viver pura como a luz, uma vida escura como a noite? Olha a

tolice! Despir trajos de senhora, deixar este palacio e os confortos

da vida farta, a que se afez desde pequena?.. Bau! Bau! não tem

coragem. Isso sim! Vá, tane as mãosinhas em trabalhos que humilham e

não salvam da pobreza e da fome. Hum! Hum! menina Luiza. Esses olhos

não mentem no que deixam adivinhar. Venda, venda! O senhor marquez

gosta de si.

As lagrimas saltavam já dos olhos de Luiza.

--É mais facil morrer, disse ella.

--Pois minha rica, não será rondando o Ruy noite e dia, mais de noite

que de dia, que a menina ha de ir á cova de capella e palmito. Gostar

do filho, tem todos os inconvenientes de gostar do pai, menos as

vantagens. Esse pequeno é um cabeça louca; póde fazer apetite ao

femeaço--o que não faz com certeza é uma bizarria que a deixe

independente a si. Porque não póde! Porque não tem! D'ahi,

tarefa inutil perseguil-o. O fedelho por ora não larga os amiguinhos

do collegio. A menina não tem fortuna, parece-me ambiciosa... Venda. O

seu genero está na alta. Dezoito annos. Uma lindeza! Venda. Bocca de

morango, voz de seraphim... Venda, venda. O senhor marquez gosta de

si.

Era o tempo das florações e dos ninhos. Divinas juventudes explodiam

d'amor nas seivas da terra, na luz e nos perfumes do ar. O céo dôce,

todo o campo uma distillaria d'essencias: lá baixo, na aldeia, as

romarias começavam, e os casamentos tambem. Luiza guardava silencio,

co'os olhos longe, vendo subir a manhã pelo cantar dos passaros.

Comprar e vender. Vender e comprar. Uma carinha bonita, um corpinho

perfeito. O senhor marquez gosta de si.--E Luiza chorou todo o santo

dia.

* * * * *

N'essa cabeça de fogo entretanto, surgia cada vez mais fascinadora, a

imagem de Ruy, toda abrasada d'estranhos prestigios: e diante d'ella

ardendo sempre o lampadario d'um culto cego e inexoravel. Com o

pequeno tinham vindo á quinta passar as férias da Paschoa, tres ou

quatro dos seus companheiros mais intimos--Palhalvo, já gordo aos

quinze annos, cujas bochechas tinham o geito d'estarem soprando uma

desconforme trombeta, á semelhança d'esses anjos papudos que fazem

apotheose ao calix mystico, nos frontões das capellas-móres--Mattoso,

filho d'um criado velho, que a senhora marqueza destinava ao

sacerdocio, e dominava o grupo com os seus modos severos de

preceptor--Jorge Forjaz, primo d'Albertina, era o litterato, e

recitava Rodrigues Cordeiro e Palmeirim nos banhos da Nazareth e Praia

da Vieira--emfim Biscaya, especie d'aranhiço adunco, côr de feno,

sempre tossindo, era um engeitado que o marquez recolhera e mandára

ensinar, e cuja maldade e azedume transpareciam já nos seus dichotes

de gaiato. Esta ronda de meninos bonitos, uns mais precoces do que

outros, alvoroçava o palacio logo ao romper da manhã, extravasando nos

pateos em exercicios de força e gymnastica, furtando beijos ás moças

por onde quer que as topasse, partindo n'uma algazarra, em carretas de

lavoira, para as searas onde mondassem raparigas, ou organisando

correrias, d'onde os cavallos voltavam desferrados e cobertos

d'espuma. Póde-se calcular o que estes diabos accrescentavam de

desordem á volta dos festins do marquez: excepto Ruy, que ia ao almoço

e jantar fazer companhia a sua mãi. Era a unica imposição tambem da

boa senhora, ter o filho em _toilette_, defronte de si, nas refeições.

E isto enchia d'importancia o pequeno, todo esforçado em infiltrar na

melancolia austera da enferma, um raio da sua graça juvenil. Mesmo, o

seu respeito por ella, timbrava em mimos, pieguices, ternuras,

pequenas dedicações que a velha dama absorvia sem transluzir na face

exangue emoção d'especie alguma.

Desde que Ruy chegára á quinta, a marqueza dispensava Luiza de lhe lêr

as orações e velhos livros de pastoraes, villancicos ou novenas aos

santos patronos mais dilectos. Era então Ruy o encarregado de lhe

percorrer as passagens estimadas. Elle a tudo se prestava, com um

tocante respeito de pagem amoroso, tentando seguir nos olhos d'ella o

grau de satisfação que promovia, e evitando as crises com uma

ligeireza d'alma adoravel e compadecida. Immovel por traz da cadeira

da marqueza, Luiza servia-os, interpondo a enferma como medianeira

innocente, no jogo galante em que ella buscava encasular a

adolescencia do rapaz. Alguma vez este lhe dirigia a palavra, a buscar

apoio n'uma asserção, a preferir o conselho de Luiza no tocante a

qualquer pormenor de solicitude para com a mãi. E a alegria da pobre

creatura, quando elle erguia aos olhos d'ella, os seus olhos picados

de scentelhas leaes! N'essa alma de collegial, toda escrupulosa no

_froufrou_ da sua alvinitente plumagem, parece, nenhuma idéa de mulher

passára ainda. E Luiza interrogava-se, sofreava-se, confusa,

estonteada, aterrada das suas audacias, e sem coragem de revolver co'a

sombra d'uma _coquetterie_, o lago azul d'aquella pureza celeste.

Uma manhã, cedo ainda, Luiza ia acordar Ruy para um almoço na horta,

antes da caçada, quando se deteve á porta do quarto, sentindo rir e

cochichar por entre as cortinas do leito. Talvez que Palhalvo,

madrugador, a tivesse antecedido. Uma avidez de saber espicaçava-a

entretanto. Pé ante pé, esgueirou-se por entre os batentes da porta,

franzindo pouco o reposteiro, para se ir acocorar, sutilosa, por traz

do grande biombo de coiro que resguardava a entrada. Era um dialogo

abafado, d'um tom unido, e com palavras expirantes que ás vezes se

perdiam entre murmurios de suspiros e beijos. Luiza avançou

traiçoeiramente a cabecita de vibora para fóra do esconderijo. E os

seus olhos estavam como uma interrogação rancorosa, através das

phantasticas elegancias d'essa camara, que nos seus mais pequenos

detalhes evocava em estatua a organisação desconnexa, fruste,

mysteriosa, desigual, que lá vivia. Bem podia a estranheza da

installação ser tomada em amostra de faculdades singulares. D'aquellas

fórmas erraticas e symphonicas de côres amortecidas, via Luiza

exhalar-se, sob um dia novo, a alma exotica a que ellas serviam

d'involucro. As paredes eram forradas de velludo sombrio, já desbotado

nos sitios do sol, e com pinturinhas vaporosas de figuras e flôres.

Sombrios tapetes, quasi uma relva, amorteciam a bulha dos passos, até

aos degraus do immenso leito toucado d'escuro, á laia d'eça, e com

cercaduras á moda das da armação mural. Uma quantidade de moveis

singulares: credencias d'ébano sobre ligeiros pés, trabalhadas como

uma renda preciosa de volutas, entre ferrarias de prata batida a

martello; nudezas d'estatuas aos cantos, brancas d'insomnia no rasgo

genial das suas attitudes, servindo de cabide a chapéos de mil

formatos: grandes jarrões sobre cubos esculpidos, em cujas arestas

noctiluziam douradas vagas de pregos: e mesas carregadas d'estatuetas,

marfins, velhas miniaturas, bocetas esculptadas: espelhos de metal,

tenebrosos, por cima dos canapés, fazendo surgir da sua agua verde,

esqualidos phantasmas d'enforcados: roupões de grandes desenhos na

espalda dos tamboretes: e defronte do leito, um enorme divan com os

cochins em desordem, alguns atirados, e livros por cima, cujas folhas

os galgos iam passando entre as patas, por distrahir-se, nos

intervallos da somneca. De cada um d'esses pormenores, um braço sahia

e apontava um capricho, escaninhos velados de religião instinctiva,

qualquer coisa de cavalheiroso em que palpitava uma raça, ou se iam

espreguiçando as passivas mollezas da anemia hereditaria. Lentamente,

os olhos de Luiza afizeram-se a divagar por toda aquella confusa

penumbra. Pela direita, acima do genuflexorio, n'uma especie de

tryptico negro, havia um quadro: era estranho: duas mãos brotavam da

carbonosa noite do fundo, implorativas, mãos d'asceta devorado pela

tentação: uma cabeça funebre movia-se nas sombras d'um capuz,

insistindo em affirmar o quer que fosse d'asperrimo--se a lampada

gothica de tres bicos, cahida do tecto, oscillava, no tom mortiço que

as luzes têm de dia, mesmo ás escuras. Aquillo parecia um templo, sob

a agonia terrivel da lampada. Mas já lambendo o muro, o clarão d'ella

fazia valer tropheus d'armas, radiando d'estapafurdias panoplias: a

mitra d'um bispo, cravejada de joias, um parasol de coiro arrancado ás

escavações d'um templo romano, em Evora, peitoraes d'uma antiga cota

sarracena... E dir-se-hia uma sala d'armas então. Porém do outro lado,

a luz ia aclarar perto do leito, um perfumador de cobre sobre tripé de

bronze. Luiza reparou. Ligeiros fumos fugiam á tona da caçoila,

espojando arômas de flôres de Takeoka, bolas de styrax, coiro da

Russia, jasmins... E santo Deus! a narina farejava lupanar. De quando

em quando, as cortinas do leito mexiam, e pelo ar respirado da peça,

aquelles perfumes torpidos erravam, n'essa calentura das alcovas

habitadas pela reminiscencia de muitos amores sobrepostos. Luiza

sentia-se desfallecer, á idéa d'outra mulher antes d'ella, ter

captivado o estudante. Mas que mulher? dizia a camareira

emparvoecida. O nome d'ella? O feitio d'ella? Dentro do palacio, por

mais que procurasse, não descobria uma rival. Sua irmã não era bella:

e fatigada, arrastando saias de barra immunda... Na cozinha, as

creadas, todas feias de perder os sentidos. Alguma creatura de fóra?

Isso é que não! De noite, Luiza rondava os corredores: a galeria que

abraçava exteriormente o quarto de Ruy, era Luiza que lhe fechava a

grade de ferro, aberta sobre os jardins. E irresoluta, tinha um suor

na raiz dos cabellos. Aquelle sonso! Aquelle vil!--A sua primeira gana

tinha sido correr ao leito, afastar as cortinas, ir contar tudo á

senhora. Mas um terror apoderára-se dos seus membros. Que medonha

noite na sua alma, que singular e perfida violação do seu destino,

quando ella visse com os seus olhos, palpasse com os seus dedos, o que

já alcunhava de traição a uma fé que ninguem lhe havia ainda jurado! E

lá dentro, n'aquelle infame ninho de volupias, sempre o murmurio de

beijos e suspiros. Urgia emtanto chamal-o para o almoço. Já no pateo

havia rumores de vozes e relinchos de cavallos. Luiza sahiu pé ante

pé, para entrar outra vez com grande ruido de portas atiradas. Mas

ainda ella não transpunha a área de resguardo marcada pelo biombo, Ruy

sahiu do leito com impeto, muito pallido, vestido apenas d'uma camisa

de sêda: e vindo a ella, volubilmente, abraçou-a a plenos braços,

deu-lhe um beijo furioso na bocca, e de rodilhão pôl-a fóra, fechando

a porta sem mais explicações. Foi n'aquelle idyllio triste a unica

impressão feliz que ella sentira: e todo o dia, toda a noite, lhe

sabia a bocca áquelle beijo de rapaz que lhe entrára na carne pela

furia virulenta da lingua.

D'alli a pouco, os caçadores deixavam o pateo direito ao laranjal.

Luiza chegou-se ao terraço a vêl-os partir. Era o resto. Alberto M.,

empurrava para a porta Marquez das Flôres, retardado em dizer

madrigaes á camareira. Festejado Mattos ia bifurcado n'um burro,

immovel como um bonzo por baixo d'um grande chapéo de esteira do

Algarve, entre cabazes de provisões. Marquez de Selmes fôra o ultimo a

transpôr a porta. Reparando em Luiza, gentilmente:

--Tira a cabeça do sol, não adoeças.

E mandou-lhe um beijo nos dedos. Então ella alongou a vista para além

dos muros do pateo, viu Ruy pelo braço de Mattoso, conversando a

passos vagarosos.

--Menina Luiza.

Era Ezequiel com uma caixa de marroquim.

--Da parte do senhor marquez.

Luiza abriu o cofre, na ingenua expansão de Margarida ao atacar a aria

das joias, na scena do jardim.

--Joias, joias! e houve no orgulho d'ella, um romper do sol

vertiginoso.

--Para começo, é do melhor, dizia Ezequiel. E Luiza tocava n'um

bracelete ao acaso, com safiras e pequenas perolas d'agua duvidosa.

Havia mais um afogador, seu par de brincos, outra pulseira... E a sua

bocca sorria de pasmo, na sua cara enxovalhada de pejo.

--Vale quarenta libras, toda esta caganifancia, quarenta. O homem faz

limpamente os seus negocios, dizia Ezequiel. Eh! Eh! ponha lá as

pulseiras, menina Luiza:--abriu uma.--Que lindeza! Metteu-lh'a no

braço. É para vêr como fica.

Luiza toda se arrepiava ao frio do metal na pelle trigueira do seu

punho. Lembravam-lhe aquelles beijos na camara de Ruy, pela manhã. E

fechou o cofre de repente, dizendo a Ezequiel que o tornasse

a levar ao marquez. Com certeza houvera engano. Ella não podia aceitar

presentes d'aquelles.

Então c'o gesto grave, Ezequiel:

--Nada, nada. Seu amo ficaria fulo, se visse as joias recambiadas.

Mas Luiza não o escutava, nem ouvia. De novo, o ciume lhe fizera

derivar a attenção por outra corrente.

Oh, a mulher que estava com elle! Não poder ella agarral-a sem

testemunhas! Não lhe poder tomar o nó da goela entre os pollegares

furiosos; e desagregar-lh'o, e esmagar-lh'o fazendo-lhe espalmar a

lingua para fóra da bocca, até á base toda sangrenta nas mordeduras da

agonia! Via-o então apparecer d'entre as cortinas--como elle vinha,

lesto, branco, em sobresaltos!--na sua esguia camisa de sêda, vermelha

e longa, muito franzida á volta do pescoço, e toda ella moldando a

estatura elançada d'algum d'esses reisinhos loiros das phantasmagorias

poeticas de Shakespeare. E o beijo que lhe déra, tão sapido de

delicias inéditas, bocca a bocca, Luiza tinha-o sempre no fremito dos

seus labios, e guardava-lhe o perfume no halito, como se o embalsamára

uma pastilha de harem.

--Além de que, tenho fé que a menina vai d'aqui a pouco mudar

de tenção. Olá se vai!

--Que está a rosnar, Ezequiel?

--Nada, nada. Aceitar, que quer dizer? É um presente: meu amo não pede

nada por elle. D'ahi, seria a primeira vez... Eu cá recusei deitar-me

co'a viuva, que era barbosa e medonha, mas sempre lhe fui recebendo

bom relogio de oiro. Gente pobre põe de banda orgulhos tolos. É metter

n'algibeira, menina Luiza. É de boa creação.

Luiza ficou cogitando. Joias tinha-as ella visto nos gavetões da

marqueza, em grandes cofres de setim desbotado: estylos modernos,

velhos estylos, todos os metaes, todos os esmaltes, pedras de todas as

aguas e de todas as côres. O mal da pedraria, que faz cúpida a mulher

do alto luxo, Luiza não podia soffrel-o ainda, no seu humilde papel de

camareira. Vagamente ella entrevia a seducção d'aquellas faiscantes

areias, que os romances acclamam como talisman de todas as concessões,

sem todavia desconfiar que atmosphera mordente põem de roda á belleza,

as fulgurantes pedras lapidadas. Ir contar tudo á senhora marqueza?

Boa idéa. Luiza foi aos aposentos da enferma. Ahi lhe daria o ataque

de nervos, desharmonia na casa, e talvez para ella o olho da

rua... Muito embora! Entrou. Mas logo ao entrar ouviu tossir. A velha

passára mal durante a noite, vomitos sêccos, uma ponta de febre, e a

manhã passou-se n'isto. A marqueza não tinha querido erguer-se da

cama, e ouviu missa mesmo deitada, pela porta entreaberta do oratorio.

A cada momento, Luiza tinha que voltal-a, trazer-lhe um livro,

executar uma ordem, aconchegar uma cortina, vêr o tempo. E só pelo

meio dia pôde tirar um bocado para se ir vestir. O quarto d'ella era

junto aos aposentos da senhora, com uma porta sobre o grande corredor

que levava aos quartos de Ruy, não longe dos quaes demorava Ezequiel.

E Luiza começou um _toilette_ minucioso e cuidado. Ao canto fumegava o

banho, em que ella entornára meio frasco d'agua flórida. E sobre a

commoda, o cofre aberto, deixava vêr os presentes do marquez. Das

gavetas saccou Luiza a roupa que precisava: uma camisa d'abertos, bem

fina e trabalhada por ella, saias brancas--era um domingo--e d'uma

gaveta pequena, o retrato de Ruy que poz á vista, sobre o pequeno

movel de cabeceira. Já uma a uma, as saias d'ella iam cahindo, diante

do espelho, com a friorenta graça, um pouco crispada, d'um

faisão que se banha no regato, ruflando as plumas, depois de haver

bebido. E ainda apoiando ao seio a camisa, que despira, espremeu

d'alto, vagarosamente, sobre a tina, a esponja ensopada em agua

tépida. Desnastrára os seus cabellos, que eram grandes, espiralados,

bem fartos, reluzentes e negros, torcendo-os após sobre a nuca, n'um

grande molho de serpentes, como nas estatuas classicas, os cabellos da

Venus aphrodite. Espiralitas doidas, carrapitos finos, muitos

frisados, soltavam-se-lhe do turbilhão de cabellos, por brinquedo,

cocegando-a na pelle doirada do pescoço. Emfim a camisa cahiu; e era

assim adoravel de nudez, triumphante de mocidade, cheia de revelações

e surprezas virginaes. Quasi morena, a sua pelle vestia uma carne

rija, symetrica, cantando sonatas perfidas de volupia, em que resoavam

estribilhos de dentadas, gritos hystericos, spasmos e soluços

d'insaciavel peccado. Mesmo, á volta da banheira, dirieis que as

coisas abriam palpebras, e por entre as palpebras, olhos que a

fitavam, furiosos de deboche, gritando infamias por centenas de boccas

invisiveis. Ui! como a sua divina garganta, rapazes, parece

crystallisar em bellezas inéditas, toda a luxuria em que as gerações

têm urrado, sedentas da fórma, ha tantos seculos! Que bazar de

tentações delirantes era o seu peito, que duas pétalas de rosa

maculam, tão altas, tão iguaes, tão erecteis, que antes pareciam

beicitos de criança, estendidos n'um momo candido para aceitarem o

beijo d'um velho amigo da casa.--E mergulhou, espanejada, dilatada de

prazer, cantarolando baixo uma cantiga. A espaços chapinhava a agua,

immergia, tornava a cahir, amollecida n'um desejo, sonhando noites de

nupcias com elle, sobre o leito de cortinas sombrias, onde as suas

respirações se estrangulassem entre um murmurio de beijos e suspiros.

O retrato de Ruy nem a fitava, receando a perscrutação impreterivel

dos seus olhos, e o jugo d'aquelles braços, absorvente e pantanoso.

Uma hora no relogio do corredor.

Ainda agora Luiza não sabe explicar, como é que tendo jurado a si

mesma, recambiaria o estojo ao marquez, se encontrou no fim do banho

em frente ao espelho, núa como Cypris na areia de Cythéra, ensaiando o

effeito do afogador e dos braceletes, na pelle rosada ainda dos

attritos da esponja. Á medida que ia fixando sobre o espelho, tantos

e tantos detalhes de perder a cabeça, passava no clarão dos seus olhos

o mudo extasi de si propria, e a coriscação do oiro novo, nas

flocosidades brunas da garganta e dos hombros. E comsigo mesmo acabou

por achar razão a Ezequiel. Por fim de contas, aceitar que quer dizer?

É um presente. O senhor marquez não pede nada em demasia da offerta.

Virava a cabeça para vêr o luzeiro dos brincos, ageitava o colar,

punha as pulseiras... Deliciosa, fascinadora, appetecivel! Se Ruy

pudesse vêl-a a plena luz, assim despida, e sem a hypocrisia do mais

ligeiro véo, talvez que elle sustasse de vez tantas repulsas--ai,

talvez!--e viesse cahir-lhe aos pés absorvido na sua belleza immortal.

Oh, como da esbelteza nervosa dos dois corpos, ventre a ventre, se

evolaria o poema de mysteriosas caricias n'esse instante, rimado a

beijos, labio a labio; esse divino poema, através de cujas estancias

rola a batalha do gozo, e do calice de cujas imagens gotteja a

tripla-essencia das mais celestes devassidões! Duas vezes ou tres

desenrolára a camisa, esfregando-a da gomma entre as mãos

sobresaltadas: e ainda por fim se adorava no espelho adulador, furiosa

por dar-se, n'um paroxismo que ia até ao deslumbramento. De repente

pareceu-lhe ouvir rumor no quarto proximo. Enfiou a camisa á pressa,

atarantada; pé ante pé foi indo de mansinho até á porta, receosa,

d'ouvido á escuta occultando a nudez por traz dos reposteiros. Não se

enganára. Estava entreaberta a porta do corredor. Então lançou um

chale pelos hombros, enfiou as chinellas á pressa, sem se atrever a

perguntar quem andava lá. Mas deu um grito de susto, vendo Ezequiel

diante d'ella, lívido de morte, tremulo e babado como um satyro

decrepito.

Luiza apenas tivera tempo de acocorar-se a um canto da peça, buscando

encobrir-se toda no chale, pallida de vergonha e gritando ao malandro

que se fosse.

Porém este, apopletico, nem fallar podia, fulminado por aquella visão

de mulher núa, e com o cuspo a espessar-se em grossos fios nos cantos

da bocca.

--Aquelle ruivo, menina Luiza, tartamudeou elle por fim, rolando os

olhos,--o que faz versos... Entregou-me este papel para vossemecê.

--Bem, bem, vá-se embora. Ande! Não ha maior atrevimento.

--Ouve, Luizinha, rica filha, eu já me vou. É uma coisa que

eu trago aqui guardada. Des'que te vi. E tão núasinha, tão boa, Jesus

do céo!

--D'aqui p'ra fóra! Já! Ou chamo gente.

--Os outros querem-te por uma vez, pai, filho, moços e velhos, anda

tudo atraz de ti. É uma canalha, já t'o disse, é uma canalha. Até me

propuzeram que te amordaçasse, uma noite, p'ra se refocilarem comtigo,

aquelles ladrões.

A sua voz rastejava, o seu aspecto era terrivel.

--Pelo amor de Deus! supplicou elle. Ouve-me ainda.--Estou quasi rico.

Estou velho. Oh, chega-te a mim! Podemos casar. Ámanhã. Hoje mesmo.

Filhinha! Que és bonita d'offender a Deus no céo.

Estendia os braços para cingil-a, co'a lingua sêcca na bocca, e

alongando os beiços lividos contra os claros de nudez que lobrigava.

--Anda commigo. Sahirás d'esta espelunca. Só em Lisboa, tenho doze

contos no banco, á minha ordem. Pratas, inscripções arrecadadas ao

canto do meu bahú. Ouve, Luiza! Tu matas-me, diabo! tu estás deitando

a minha alma no inferno. Um beijo só n'essas carninhas.

Deixa dar. Que mal te faz?

E vergado á tremura senil dos debochados, Ezequiel cambaleava,

crispava-se, indo para ella de rastros, assim como um cão leproso

conquistando a codea que lhe negam, sob golfões de chicotadas.

--Não tenho herdeiros. Um pobre velho! De hoje p'r ámanhã posso

morrer. Lembras-te do que te tenho dito? Os conselhos, os mimos...

tristezas que eu soffro por causa de ti. Eh! Eh! Está decidido que

aceitarás.

Então conseguiu agarrar-lhe um braço, o que desligou Luiza das algemas

nervosas que a sustinham, estarrecida, perante o sapo de cujo visco

escorria tanta lascivia torva d'impotente. Houve uma lucta. Os

cabellos de Luiza rolaram.

--Larga-me, ladrão! dizia ella n'um choro baixo, rapido, soluçando em

convulsões. Comtigo, nem morta, estupor! Doira-te, a vêr se eu te não

cuspo n'essa cara. A tua vida, todos a conhecem. Devias andar na costa

d'Africa, amarrado com cadeias a algum canzarrão da tua parecença.

Larga-me, larga-me, quando não dou cabo de ti!

Elle porém, retendo-a, sem violencia ainda:

--Tu deves lembrar-te, Luizinha, do bem que eu te tenho

feito. Os teus desejos, ando a adivinhal-os. O teu nome é-me sagrado

em toda a parte. Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus!

--Rua d'aqui! De quem eu gosto é do menino. Eu hei-de ser d'elle por

força. Inda que eu haja d'entrar na vida depois.

Os dentes do velho rangeram. Chorava, ria, esse homem, cobrindo o

peito de baba; era assombroso de vexame! Luiza conseguira libertar uma

das mãos; e pregou-lhe nas ventas uma bofetada medonha. Áquella

affronta, Ezequiel perdeu a cabeça. As obscenidades golfaram-lhe da

bocca, como granizos espessos, pintando toda a decrepita infamia da

sua alma. Ella estava de pé junto da porta, quasi núa, sem se

importar. Tinha no collo e nas orelhas as joias que lhe mandara o

marquez. O velho viu-as.

--Eh! Eh! Sempre aceitaste o cofre de meu amo. Já lhe posso ir contar

que o mais difficil trabalho está vencido. É melhor ser amásia de

fidalgo que mulher de creado de servir. Inda tu procedeste com brio.

Ha marafonas honradas! Podias ter escolhido as duas profissões ao

mesmo tempo. Ella ria-lhe na cara. E o miseravel, volvida a

crise, apresentou-lhe as ultimas concessões. Ajoelhára. E jurou-lhe

consentiria o adulterio. Dava-lhe as suas riquezas por uma noite só

d'intimidade. Casada com elle--ao dia seguinte, podia partir com

dinheiro dos seus cincoenta annos d'escravidões e economias.

Luiza não retrucou: agarrára um papel de cima da cama.

Deliciosa aranha delicada...

Mas casualmente, erguendo os olhos, viu na bandeira da porta tres

cabeças gravemente assestadas á vidraça, gozando a comedia com a paz

d'alma de bons espectadores das galerias. Marquez das Flôres tinha um

grande binoculo com que a mirava. O poeta estava em extasi. Do

festejado Mattos mal se via a careca luzente, como era mais pequeno, e

uma ponta do nariz guloso que vinha adejar contra os vidros, como um

focinho de morcego encandeado contra a luz d'uma fogueira.

* * * * *

Aves Migradoras · 第 1 / 13 段