_Como El-Rei outra vez acceitou a crusada contra os turcos quando
fez os Cruzados, e com os percebimentos que para isso fez passou em
Africa e tomou aos mouros a villa d'Alcacere_
E no anno de mil e quatrocentos e cincoenta e sete annos, veiu a estes
reinos por delegado do Papa Calisto, um Bispo de Silves português, homem
de bom saber e grande autoridade, que a El-Rei trouxe a Cruzada contra
os turcos, com grandes e piedosas graças e perdões da Sé Apostolica,
assi como sobre o caso foram outros a outros reinos e provincias de
christãos.
E El-Rei porque de sua real condição era para honrosos feitos mui
inclinado, consirando a obrigação em que estava pela offerta e aparelho
que para isso já fizera que não cumprira, vendo-se em melhor disposição
e com menos pejos, por razão d'estar sem mulher, e que para segurança de
sua direita sobcessão tinha filhos ligitimos, elle com grande alegria e
muita devoção, e com todalas pessoas principaes do reino acceitou a dita
Cruzada. Na qual se offereceu servir com os ditos doze mil homens por um
anno á sua custa, como d'antes prometera, para que tinha d'ajuda muitas
armas que comprara, e navios que mandara fazer, e assi outras muitas
cousas para tal perseguimento mui necessarias e proveitosas.
E fazendo fundamento, e crendo que todolos outros Reis e Principes
christãos com suas pessoas, gentes e forças ajudariam como elle n'este
santo proposito, mandou logo Martim Mendez Berredo, fidalgo de sua casa,
e a elle mui acceito, a El-Rei D. Affonso de Napoles seu tio, para
d'elle saber e se enformar muitas cousas que por seu aviso lhe cumpriam,
e assi lhe requerer e trazer mandados e provisões suas, com que em seus
reinos e terras, e principalmento em Secilia e na Pulha lhe desse por
seu dinheiro bitualhas e mantimentos, onde El-Rei era aconselhado que
com mais seu proveito e menos trabalho se podia fornecer, mas o dito
Berredo não achou em Napoles nem Italia, aquelle percebimento nem desejo
que para tal empresa cumpria, nem como El-Rei cuidava, de que logo
avisou El-Rei.
N'este tempo e no fervor d'esta Cruzada, andava ainda desterrado em
Castella o senhor D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, que com muita
paciencia de grandes necessidades e desaventuras, que em seu desterro
soportava, e com uma louvada temperança, que em suas fallas e obras para
El-Rei e para o reino sempre teve, obrigou e comoveu El-Rei para o
retornar em seus reinos e lhe fazer aquella honra e mercê que elle por
muitas causas merecia, especialmente porque o duque de Bragança, como
viu a morte da Rainha, não o contradisse com tanta instancia nem com
tanto receio, como em sua vida d'ella fazia; porque tinha uma promessa
d'El Rei, que o dito D. Pedro em vida do duque sem seu prazer não viesse
a estes reinos, da qual desistio. E El-Rei por isso lhe alevantou o
desterro, e o convidou para a Cruzada, com fundamento de o levar
comsigo, a que elle obedeceu, e veio a estes reinos bem acompanhado, e
logo para a mesma Cruzada invencionado com muita gentilleza foi d'El-Rei
e da côrte com muita honra e gasalhado recebido, e El-Rei lhe leixou o
mestrado d'Avis, de que ante de seu desterro e por morte do Infante D.
Fernando fôra provido, e deu-lhe mais seu honrado assentamento, com que
sempre serviu mui leal e honradamente, até que de Ceuta se foi para
Barcelona como se dirá.
E com o grande desejo e louvado alvoroço que El-Rei tinha para esta
santa viagem, mandou novamente lavrar d'ouro fino sobido em toda
perfeição, a moeda dos cruzados, em cujo peso e não preço mandou sobre
todolos ducados da christandade acrescentar dois grãos, por tal que por
terras tão alongadas e nações tão diversas como as porque esperava de
passar corressem e se tomassem sem alguma duvida; porque em seu tempo e
d'El-Rei D. Duarte seu padre, de ouro não se lavrou outra moeda, salvo
escudos d'ouro baixo, que em reinos estranhos se tomavam com grande
quebra e muito pejo.
E tendo El-Rei com seu animo não menos catholico que esforçado, com
innumeraveis despesas, feitas e aparelhadas todalas cousas e provimentos
que cumpriam, o notificou assi á mór parte de todolos Reis e Principes e
provincias de christãos. E finalmente nunca d'algum por verdadeira obra,
nem sómente fingida mostrança, pôde entender que em seu piedoso trabalho
e perigo tão conhecido, o teria por parceiro nem ajudador, antes
claramente foi conhecido que se El-Rei por abatimento de todos tal
movimento fizera, que por vingança da injuria e quebra que n'isso
recebiam lhe ordenaram coisas com tal cautella, com que por força
desistira da empresa, com muita despesa e pouca sua honra.
Pelo qual tudo bem visto e examinado em seu conselho que teve, ajuntando
tambem outras muitas contrariedades e inconvenienentes que no reino e
fóra d'elle em muitas cousas e de grande perigo podiam recrescer, foi
El-Rei finalmente e sem contradição aconselhado que na empresa da
Cruzada se não entremetesse, e que repousasse, regendo em paz e justiça
seus reinos e vassallos, até que a visse tomar e proseguir a outros
Principes, e que então obraria n'isso como o tempo e a razão o
aconselhassem, ou se quizesse por exercicio de sua devoção, e por elle
parecer verdadeiro ramo dos excellentes e reaes troncos de que procedia,
podia passar em Africa, e tomar aos infieis algum lugar em que Deus
fosse servido, e sua fé mais acrescentada, pois era guerra da mesma
calidade, e que a elle com mais honra e mór segurança d'Espanha mais
pertencia. E este acceitou El-Rei por meio mais de sua inclinação e
contentamento, e no conselho que logo sobr'isso teve foi acordado que
fosse á cidade de Tangere, sobre que acordou de levar vinte cinco mil
homens de combate, afóra a outra gente do mar e serviço, para que fez
seus percebimentos, e ordenava passar logo n'este anno de mil e
quatrocentos e cincoenta e sete. Ao que deu total impedimento sobrevir
crua pestenença á cidade de Lisboa, onde da embarcação principal se
fazia fundamento. Pelo qual El-Rei foi conselhado que sobrestevesse e
leixasse por então a guerra dos mouros pela não tomar com a ira de Deus
e contra sua vontade.
E sobre esta determinação, que para seu desejo foi de mortal tristeza se
passou á comarca d'entre Tejo e Odiana, e estando em Estremoz, por
certidão que houve dos danos e roubos que dos franceses os seus vassalos
no mar recebiam, acordava de mandar em guarda da costa o almirante Ruy
de Mello com vinte náos grossas e outros navios, e com muita gente, em
especial a mais limpa de sua côrte. E estando já tudo ordenado e
provido, e a frota com as vergas altas para partir, vieram a El-Rei
cartas do conde d'Odemira, que era capitão de Ceuta, como por avisos
certos que tinha, El Rei de Fez vinha sobr'ella para a cercar,
pedindo-lhe provisão e ajuda e soccorro quando cumprisse. Da qual cousa
sendo tambem avisado o Infante D. Fernando, veiu logo a El-Rei pedir-lhe
licença para ir ao socorro, e assi o fez o marquez de Villa Viçosa, de
que El-Rei se escusou; porque lhe descobriu que sua determinada vontade
era passar em pessoa, e trabalhar por tomar algum bom lugar, com desejo
de vir em sua defesa e cobramento El-Rei de Fez, para lhe dar batalha e
acabar com elle estes rebates, e elles assi o aprovaram.
E para socorro de Ceuta enviaram diante alguns senhores, com fundamento
d'El-Rei ir após elles, mas não foi, porque El-Rei de Fez como deu vista
a Ceuta logo se volveu. Porque esta determinação d'El-Rei ir sobre
Tangere foi ao conde D. Sancho revelada, El-Rei por seu conselho a
mudou, e converteu em Alcacer Ceguer com fundamento e razões que a bem
de conquista e a necessidades do reino cumpriam, a que por sua evidencia
que apontou, se deu inteira auctoridade. Pelo qual El-Rei acordou, que
por razão da má disposição de Lisboa que ainda não cessava, sua
embarcação fosse em Setuvel, e o marquez de Valença fizesse a outra no
Porto, e o Infante D. Anrique a do Algarve.
E tudo se aparelhou e fez prestes com muita brevidade e trigança, para
que foram ajuda e aviamento os percebimentos passados.
El-Rei, d'Estremoz se foi a Evora, e hi leixou seus filhos, e com elles
D. Briatiz, e Diogo Soarez d'Albergaria seu marido, que por sua
fidalguia, bondades, e grande saber foi dado ao Principe por aio, e até
sua morte sempre o foi.
Veiu-se El-Rei a Setuvel para logo embarcar, em que sobreveiu alguma
torvação pela grande doença de febre em que achou o Infante D. Fernando
seu irmão, de que Deus em breve o livrou, tendo elle já mandado que por
não ficar o levassem, e assi doente em um leito o metessem no mar.
E um sabado, derradeiro dia de Setembro, do anno do nascimento de Nosso
Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos e cincoenta e sete, depois
d'El-Rei ouvir sua missa solemne e prégação mui devota, foi em procissão
armado, e não de todas armas, até os bateis, acompanhado de sua guarda e
de muita e mui luzida gente, e n'elles bem remados e ricamente toldados
se foi á sua náo, que se chamava Santo Antonio, e com elle o Infante D.
Fernando, e o senhor D. Pedro, que alli veiu com gentes e concertos que
muito louvaram, e o marquez de Villa Viçosa com D. Fernando, e D. João,
seus filhos, e D. Alvaro de Castro, e Pero Vaz de Mello, e outros muitos
senhores e fidalgos, com que El-Rei do dito porto partio com noventa
vellas.
E á terça-feira seguinte, tres dias d'Outubro, pela manhã, dobraram o
cabo de S. Vicente, e chegaram á villa de Sagres, onde o já esperava o
Infante D. Anrique, que a El-Rei e a todos os que sairam em terra fez
falla em grande perfeição e abastança; era já hi o conde d'Odemira, que
viera de Ceuta com quatro fustas e um barinel, e á quarta-feira foi
El-Rei a Lagos, e á quinta-feira sahiu em terra e pousou no castello,
onde esteve oito dias esperando as frotas do Porto e do Mondego e
d'outros lugares, que alli todos chegaram.
El-Rei á terça-feira, que eram dez dias d'Outubro, se recolheu á sua náo
porque todos se recolhessem, e á quarta-feira tornou logo a sair armado,
com sua guarda diante, e todo o mais com maravilhoso e rico estado e
grande gentileza, foi ouvir missa, e com elle todolos senhores que eram
na frota. Acabada a qual El-Rei posto em meio de todos, com graciosa e
alegre contenença, e com palavras cheias de devoção e grandeza, esforço
e perfeita eloquencia, e com cautelas e fundamentos de bom e prudente
guerreiro declarou sua ida sobre a villa d'Alcacere, louvando e
agardecendo a todos com muita humanidade a diligencia e amor com que o
tão honradamente vinham servir, offerecendo-se a lh'o conhecer com as
honras e mercês, e acrescentamento que a cada um coubesse e merecesse. E
em fim de sua falla, o Infante D. Fernando como pessoa mais principal
lhe respondeu por todos, assaz bem e como cumpria. E em fim de suas
palavras, com os giolhos no chão lhe beijou as mãos, e assi todos os
principaes que hi eram, e á quinta feira XVII dias d'Outubro El-Rei
partiu de Lagos com toda sua frota, em que por todas haveria duzentas e
vinte vellas, e ao sabado porque o vento não terçou para tomar o porto
d'Alcacere, foi El-Rei surgir pela manhã sobre a barra de Tangere, onde
esteve aquelle dia e ao domingo, por recolher a outra frota que não
chegava.
E n'estes dias andando El-Rei pelo mar, viu e contemplou bem a cidade,
sobre que desejou que sua ida se mudasse, e acerca d'isso teve conselho
bem aperfiado; porque a grandeza de seu coração não requeria menos
empresa, e em fim se concordaram no primeiro proposito com que logo
partiu, e á segunda-feira ao meio dia chegou a Alcacere, e com elle os
navios mais pequenos que se podiam ter ás correntes do estreito.
Mandou El-Rei aparelhar e perceber, para logo tomar terra, e porque
ambos os navios em que iam os Infantes não poderam ancorar com elle, e
com forçadas correntes foram d'elle surgir duas legoas, e assi bem
outras quarenta vellas, El-Rei os mandou a grã pressa chamar, e quando
vieram já o acharam armado entre muitos bateis armados postos em sua
ordenança para tomar terra, esperando pelo Infante D. Anrique que já
tardava, e como o viu fez com muita viveza vogar rijamente os bateis á
praia, que com muito esforço e acordo a tomaram todos juntamente, em que
se não soube bem determinar quaes foram primeiros nem segundos.
Eram na praia até quinhentos mouros de cavallo d'aquella comarca, e
muitos mais de pé, de que na resistencia que cometeram para defender a
desembarcação morreram logo alguns, e elles tambem dos christãos feriam
outros, e mataram ao sair, um Ruy Barreto, comendador da Ordem de
Christus. Mas com tal pressa foram os mouros apertados, que uns para a
villa, e outros para as serras d'onde vieram, todos se acolheram, e no
encalço d'elles seguiu João Fernandez da Arca, fidalgo de bom esforço, e
nas cousas do paço de seu tempo gracioso e mui ensinado. E tanto se
chegou ao muro por vingar a morte que logo recebeo, que de uma pedra de
cima do muro foi logo ao pé d'elle morto, de que por sua bondade e
criação em toda a côrte houve grande sentimento.
E sobre a tarde depois de se repartirem os combates, e n'elles se
assentarem as bombardas e ordenarem as mantas, e bancos, e escadas, que
com muita presteza se tiraram da frota, El-Rei posto em um cavalo
sezeliano, armado e acobertado com sua espada nua na mão, mandou cometer
a villa com alguma mostrança de combate, para vêr sómente a maneira de
fortaleza e defeza em que se os mouros punham, que n'elles foi assaz boa
e com grande recado e esforço; porque com tiros de fogo e bestas que
tinham, e pedras que não falleciam, faziam muito dano. Mas os christãos
emprenderam tão de verdade, e com tanta força o combate, que El-Rei nem
os Infantes os poderam recolher nem afastar d'elle, em que logo
derribaram um grande lanço da barreira, e os cavalleiros e gente do
Infante D. Anrique, com muito esforço e ardideza romperam e entraram por
as portas da mesma barreira, e foram com muita ousadia cometer com
engenhos as portas da villa, que por sua grande fortaleza não poderam
quebrar; porque eram mui fortes, e forradas de mui grossas pastas de
ferro. E sendo já de noite vendo o Infante D. Anrique o desejo e a
determinação dos seus, socorreo alli com sua bandeira despregada, e com
palavras de Principe tão prudente e ardido como elle era, os avivou
muito mais para o combate, que á sua vista e com sua ajuda o fizeram sem
alguma covardice. E El-Rei e o Infante D. Fernando seu irmão sentindo na
gente do arraial o mesmo fervor e orgulho, que de victoria lhes davam
mui grande esperança, mandaram ás trombetas fazer sinal de combate, que
por todas partes se deu tão rijamente, e com tanta competencia de honra,
que o que menos trabalhava, parecia que toda a empresa tomava sobre si,
a que ajudava muito e não favorecia pouco a presença d'El-Rei, que a
todalas afrontas acudia, e com palavras de tanto acordo e esforço, de
que todos eram maravilhados e mui contentes.
O Infante D. Anrique que n'aquelle officio era velho artificial, mandou
á meia noite poer fogo a uma bombarda grossa, que no seu combate era
assentada, com que aos mouros começou de fazer não menos dano que
espanto, pelo qual desesperados já d'achar remedio de salvação em suas
armas, nem defesa, a vieram buscar e procurar na piedade do Infante. O
qual lhe respondeu que por quanto El-Rei seu Senhor era alli vindo por
serviço de Deos sómente, e não por cobiça de seus resgates nem fazendas,
que ao dito Senhor aprazia que elles se saissem com suas mulheres e
filhos, e cousas, e leixassem a villa com todolos christãos captivos que
n'ella estivessem, os quaes vendo tão determinada resposta, vencidos já
de condições tão piedosas, lhe pediram que por aquella noite mandasse
sobreser no combate, do que ao Infante não prouve, antes o mandou mais
avivar, e pediram após isso uma hora de sobresimento para haverem seu
acordo, e o Infante muito menos lh'a deu, antes os desenganou que se
fossem entrados por força, que todos sem resguardo nem privilegio de
idade, com ferro haviam d'acabar suas vidas. Os quaes meios e concertos
o Infante mandou logo notificar a El-Rei, e ao Infante D. Fernando, que
de todalas partes esforçaram o combate, que era esforçado e não
enfraquecia, pelo qual os mouros se remedearam, e deram nas primeiras
seguranças e condições do Infante D. Anrique, e para aprovação de seu
rendimento enviaram logo suas seguras arrefens, que foram levadas á
tenda d'El-Rei com que o combate logo cessou. E ao outro dia
quarta-feira pela manhã, os mouros sairam todos com suas mulheres,
filhos, e fazendas sem algum receber nojo, dano, nem alguma outra
semrazão, de que os mouros vendo tanta e tão segura verdade nos
christãos, tomaram em seu mal muito conforto. Porque o Infante D.
Fernando teve na saida d'elles cargo de sua segurança, e como acabaram
de sair, que foi depois de meio dia, entrou El-Rei na villa a pé em
procissão com os Infantes e senhores e outra nobre gente, e se foi á
misquita, que foi logo tornada em egreja de Santa Maria da Misericordia,
onde já estava posto um altar em que El-Rei fez oração, e elle e todos
com muita devoção por tão segura victoria deram graças e louvores a
Deos, porque segundo o lugar era de torres e muros mui forte, e tão
provido de gente, bem pareceu tomando-se tão levemente como se tomou,
que com a mão e graça de Deos se tomara, mais que com força nem poder
dos homens.