_Como El-Rei se foi d'Alcacere a Ceuta, e como a villa foi por
El-Rei de Fez cercada, e El-Rei a não pôde socorrer, e desafiou
El-Rei de Fez_
Esteve El-Rei em Alcacere até o domingo, em que de muitos e mui
principaes homens foi requerido sobre a capitania da villa, mas El-Rei a
deu e empregou bem em D. Duarte de Menezes, com que ainda não satisfez
ás grandes promessas que em cousas d'aquella calidade lhe tinha por seus
assinados prometidas, e El-Rei quando lhe deu a dita capitania e
governança, publicamente assi lh'o disse com palavras de muita sua honra
e louvor.
E depois d'El-Rei prover a villa dos mantimentos, armas, e gente que
pareceu necessaria, e armar muitos cavalleiros que o bem mereceram, á
segunda feira por mar se foi a Ceuta, onde ainda não fôra. Ao qual
senhorio acrescentou d'hi em diante em seu titulo, o d'Alcacere em
Africa, dizendo, _D. Affonso por graça de Deus Rei de Portugal e do
Algarve, Senhor de Ceuta e d'Alcacere em Africa_.
E certamente quando El-Rei viu e contemplou na realeza de Ceuta, e em
sua grandeza, maravilhoso e forte assento, que seu avô com outra
semelhante passagem ganhara, e se lembrou d'Alcacere, e de seu sobrenome
Ceguer, ficou triste e pensoso; porque a parecer dos que as viram, tão
pequena cousa não encheu a grandeza e bondade de seu coração, e
suspirava por outra maior.
El-Rei de Fez como soube que a villa era cercada, partiu com muita
pressa e grande poder pela socorrer, e quando soube que já era tomada,
com muita ira e tristeza sua e dos seus se veiu logo á cidade de
Tangere, para d'alli ajuntar suas gentes e a vir cercar, e trabalhar
pela recobrar, da qual cousa D. Duarte foi logo certificado por um mouro
d'autoridade, que na face d'Alcacere em uma escaramuça que houveram fôra
com outros tomado e captivo, o qual logo mandou a El-Rei que ainda era
em Ceuta, e sobre a certa informação que do mouro houve teve conselho,
em que depois de ser acordado sem diferença, que Alcacere sobre o
provimento d'armas e mantimentos que tinha lhe devia ser dado outro
maior, quanto ao mais, que tocava á ida d'El-Rei para o reino, ou
esperar alli o fim do cerco ou lhe socorrer houve votos diferentes.
Porque uns diziam que dado o dito provimento se devia vir a seus reinos
e não esperar lá mais, outros tiveram que em tal tempo estando El-Rei de
Fez tão acerca, e partindo-se pareceria fraqueza, e que com seu medo o
fazia, e que para isso por tirar suspeitas e fazer um grande
cometimento, que á sua honra e estado cumpria, que o devia mandar
desafiar em campo, e que se acceitasse o desafio, que ainda estava
poderoso para lhe dar batalha e esperar victoria, e quando de tal reto
se escusasse, que então sem pejo poderia para seus reinos partir sem
algum prasmo nem reprensão dos seus nem estranhos, que o já remocavam.
E a este parecer se inclinou mais El-Rei, que com as palavras e razões
que bem cabiam, formou para o dito Rei de Fez um desafio, que lhe enviou
por Martim de Tavora, e Lopo d'Almeida, que embarcados em um navio
aparelhado d'armas, e Reis d'armas e trombetas, e de suas pessoas em grã
cumprimento foram sobre Tangere. Mas El-Rei de Fez avisado do recado com
que iam, mandou que lhe tirassem ás bombardas, e não os quiz ouvir, e
tornaram-se Lopo de Almeida a Ceuta, e Martim de Tavora a Alcacere, onde
tambem com desejo de honra se lançaram muitos fidalgos, que sem duvida
no cerco que defenderam a mereceram e ganharam, tão bem e melhor que na
tomada da villa.
E aos XIII dias de Novembro El-Rei de Fez com trinta mil de cavallo, e
gente de pé sem conto veiu sobre a dita villa, que já d'antes com oito
Alcaides seus era cercada, e logo com bombardas grossas e muitos tiros
outros de fogo, e com muitos besteiros de Grada que trazia, combateu a
villa muitas vezes e com muita força, mas nas infindas mortes e feridas,
e outros danos que sempre dos christãos receberam, bem conheceram logo
que não tinham d'elles a victoria tão leve e tão certa como esperavam.
E sendo El-Rei certificado do cerco da villa e da estreiteza em que os
mouros a punham, logo aos sete dias do cerco veiu d'avante d'ella, com
vontade de a socorrer, ou ao menos de a bastecer. Porque quando a tomou,
sómente lhe ficou mantimento para a gente ordenada para tres mezes, o
que houvera de ser causa de a villa e gente ao diante de necessidade se
perder, se Deus por sua piedade o não remedeara.
E porém, El-Rei pela muita gente contraira dos mouros que achou, que por
mar e por terra impedio sem remedio seu socorro e bastecimento, depois
de enviar a D. Duarte e aos cercados muitos confortos e dar grande
esperança da sua breve tornada, se partiu para Farão no Algarve, onde
desembarcou, e d'hi se foi a Evora para dar ordem a tornar a socorrer a
dita villa, para que depois de tudo bem consirado e provido, achou que
para isso todalas cousas falleciam.