_Da treladação e exequias que se fizeram aos ossos do Infante D.
Pedro, e como a Rainha sua filha logo falleceu, e os ossos da
Rainha D. Lianor foram de Castella trazidos ao mosteiro da Batalha_
E além do grande amor e affeição que entre elle e a Rainha havia, ainda
pelo nascimento do Principe se dobrou muito mais, com que a Rainha já
mais confiada requereu e pediu a El-Rei, que os ossos do Infante seu
Padre como lhe tinha prometido não andassem provando tantas e tão vis
sepulturas, e quizesse que fossem trazidos a Lisboa, e d'ali os levassem
ao mosteiro da Batalha; porque alli faria por mais sua honra e mór seu
estado.
E como quer que isto fosse pelo duque de Bragança e por seu filho o
marquez muito contrariado, El-Rei posposto tudo o concedeo. Não querendo
porém que o senhor D. Pedro Irmão da Rainha, que depois da morte de seu
padre andava em Castella desterrado, viesse a suas exequias e saimento,
nem a este reino; porque o tinha por seu alvará assi prometido ao dito
duque. E tinha dado ao Infante D. Anrique o Mestrado d'Avis, que tinha
D. Pedro filho do Infante D. Pedro. Mas o Papa nunca lh'o quiz conceder,
dizendo que se não podia confiscar nem elle o perder como as outras
cousas seculares. Pelo qual os ossos do Infante com assaz honra foram
logo trazidos ao mosteiro da Trindade de Lisboa, e d'hi ao mosteiro de
Santo Eloy, onde foram em grande triumfo e muita veneração postos em
tumba e estrado á vista de todos.
E concertado o dia em que os haviam de levar á Batalha, El-Rei e a
Rainha se foram diante para os esperar no mosteiro da Batalha, a que
foram chamados e vieram todolos senhores e senhoras principaes do reino,
salvo o Infante D. Fernando, e o marquez de Valença, que tomaram outra
opinião contraira ao prazer e contentamento da Rainha.
E o cargo principal da treladação e acompanhamento da dita ossada ficou
ao Infante D. Anrique, o qual vestido não de dó preto, mas d'aluz
escuro, e assi muitos senhores que eram com elle fez com muita pompa e
grande cerimonia tirar a dita ossada do dito mosteiro de Santo Eloy, e
com solemne procissão de Bispos e cabido, e muitas ordens e clerezia,
que para isso foi junta, e com grande numero de tochas acesas a levarem
á Sé. E d'hi pela rua Nova, acompanhada do Infante e de muita gente com
que chegaram á Porta da Mouraria, e de hi se tornaram, e foi com ella o
Infante D. Anrique com muitos senhores, que com grande honra e com
muitas orações, que de continuo iam pela alma do Infante rezando, a
levaram ao dito mosteiro da Batalha, d'onde El-Rei e a Rainha com
solemne procissão acompanhada de muitos prelados, abades e clerizia e de
muita e nobre gente sahiu a recebe-la.
E as senhoras e mulheres que alli foram, levaram algum sinal de dó que
não foi de veos pretos, mas tintos como allionado escuro. Fez-se o dito
saimento com essa, e com toda outra perfeição e solemnidade que se podia
e devia fazer a um tal Principe natural, sem alguma magoa fallecido.
Acabado o qual, entrando já o inverno, El-Rei e a Rainha se foram para a
cidade d'Evora, onde a Rainha adoeceo logo de fruxo de sangue, de que
nos paços de S. Francisco onde pousava, a dois de Dezembro do dito anno
de mil e quatrocentos cincoenta e cinco logo falleceu, cuja morte foi
d'El-Rei muito chorada e sentida, e assi de todos, em especial dos
criados e servidores do Infante seu padre.
A causa de sua morte segundo foi accidental e arrebatada, por maginação
dos mais foi attribuida a peçonha que dos imigos de seu padre por sua
segurança disseram que lhe fôra ordenada, e como quer que para isso
houve muitas conjecturas e presunções, porém da certa verdade Deus é o
sabedor.
Foi seu corpo levado ao mosteiro da Batalha, onde jaz soterrado per si
em uma capella do cruzeiro. E d'hi a um mez que foi no Janeiro seguinte
de mil e quatrocentos cincoenta e seis, El-Rei lhe fez o mais honrado e
solemne saimento que até então por Rainha d'estes reinos se fizera. A
que vieram ao dito mosteiro todolos senhores e senhoras, e Prelado,
abades e priores de todo o reino, e toda outra gente de sorte sem
excepção.
N'este anno logo depois da morte da Rainha, El-Rei enviou pela ossada da
Rainha D. Lianor sua madre, que jazia em Toledo onde falleceu como atrás
fica, a qual com grande honra, e com muita e nobre gente foi trazida a
Elvas, onde El-Rei com todolos grandes e Prelados de seu reino a foi
receber, e a levou ao mosteiro da Batalha, em que com a devida
solemnidade e cerimonia, que em tal auto e a tão alta Rainha se
requeria, foi lançada com El-Rei D. Duarte seu marido.