_De um cumprimento que o Infante D. Pedro acerca de sua innocencia
por meio de religiosos fez com El Rei_
E o Infante D. Pedro por muitas esmolas e bemfeitorias que aos mosteiros
e casas d'oração sempre fazia, era dos religiosos d'ellas sempre em suas
orações e devoções muito encommendado a Deos, em especial n'este tempo
de sua tanta afflição, os quaes sabendo a determinação errada e perigosa
em que o Infante estava de partir, recorreram muitos a elle, e como
officiaes da alma o amoestavam, e lhe requeriam da parte de Deos
aquellas cousas de que sua maior segurança e salvação se podia seguir, e
principalmente que não partisse nem fizesse de si alguma mudança, e
antes esperasse a fortuna, que acometer.
E ao Infante crendo que o conselho dos taes poderia vir da vontade de
Deos, prouve obedecer-lhe, e quiz finalmente poer seus feitos em suas
mãos, e d'elles apartou um Frei Antão, prior do mosteiro de Aveiro, e
outro Frei Dinis que depois foi confessor d'El-Rei, pessoas de grande
doutrina e mui santa vida, aos quaes disse os fundamentos que o moviam a
sua partida, e as razões que lhe contrariavam esperar cerco, e menos
andar como fugido pelo reino, e assi as injurias e sem razões que
d'El-Rei por induzimento de seus imigos tinha por extenso recebidas.
Porém que lhes parecesse que isto podiam remediar, que elle sobreseria
em sua partida, e por maior cumprimento com El-Rei e mais sua limpeza
faria o que elles ordenassem, e que para firme segurança de manter
sempre o que prometia, e que se fizesse d'elle justiça se a merecesse,
que ante de ser ouvido lhe prazia mais que todos seus filhos fossem
entregues em poder d'El-Rei.
Estes religiosos vendo tanta justificação, esforçaram-se acabar esta
concordia, crendo que não podia ser homem tão sem juizo, e tão fóra de
humanidade que a denegasse, e acordaram que com isto Frei Antão por mais
secreto fosse só a El-Rei, o qual partiu logo com inteira crença e
instrução do Infante, dando graças a Deos por elle se someter a tanta
razão, com a qual esperava tudo acabar a serviço de Deos, e d'El-Rei, e
bem de seus reinos e vassallos, mas este padre por muito que apressou
sua ida, já diante achou o imigo da razão e os contrairos do Infante,
com que não pôde nem ousou dar a El-Rei as cartas do Infante, e muito
menos lhe falar; porque os imigos do Infante de que El-Rei em todolos
lugares e todalas horas era cercado, como sentiram que um religioso de
tanta autoridade, que em tal tempo ia de mandado do Infante, não podia
se não levar cousas de muita concordia e conclusão, de que lhes muito
pesava, não sómente o impediram e ameaçaram para mais alli não estar,
mas ainda lhe defenderam que não tornasse com a resposta ao Infante,
pelo qual se foi triste e mui espantado para o mosteiro de Bemfica,
d'onde avisou de todo o Infante.