CAPITULO CXIV

_Como os imigos do Infante D. Pedro procuravam haver antes odio que

amor nem afeição entre El-Rei e a Rainha sua mulher_

Porque os contrairos do Infante, vendo que a Rainha era já para elle a

só esperança e remedio de sua salvação, e que por suas perfeições

corporaes e muitas bondades, El-Rei lhe tinha e teria cada vez mór

afeição, com que a ella e a sua vontade se daria mais, trabalhavam por

todalas maneiras de o apartarem d'ella, conselhando-lhe que fosse muitas

vezes á caça e montes, dizendo-lhe que a conversação continua de sua

mulher em tal idade, não sómente era mui contraira á sua saude, mas

ainda mingoa e grande quebra das forças do corpo e do entendimento, e

que ficaria afiminado e não dino nem poderoso para soster o peso do

Regimento e defensão de seus reinos. E na capella e guarda roupa não

falleciam incitadores e ministros d'esta opinião, convocando para isso

mesmo fysicos, que para seu proposito tinham bem ensaiados, que com

livros e autoridades logo assi o provavam.

E taes conselheiros havia d'estes, que reprovavam o ajuntamento do santo

e legitimo matrimonio d'El-Rei com a Rainha, que eram publicos adulteros

e deshonestos concubinarios, jazendo como infernaes em mui continuo e

reprovado coito.

E porque este caminho não sobcedia de todo á sua vontade, cometeram

outro mui errado e muito para reprender; porque fizeram n'estes dias

prender D. Alvaro de Castro, camareiro mór d'El-Rei, que depois foi

conde de Monsanto, assacando-lhe falsamente que dizia amores á Rainha,

por tal que da pena de morte ou desterro que elle por tal caso merecia

nascesse infamia á Rainha com que a El-Rei de todo avorrecesse. Mas o

imigo da perdição que n'estes feitos andava por medianeiro, não pôde

tanto danar, que mais não remedeasse o verdadeiro conhecimento que

El-Rei tinha das muitas e limpas bondades da Rainha, e da grande

lealdade do conde, com que o logo soltou e depois muito honrou e

acrescentou.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) · 第 42 / 69 题