_Como os imigos do Infante D. Pedro procuravam haver antes odio que
amor nem afeição entre El-Rei e a Rainha sua mulher_
Porque os contrairos do Infante, vendo que a Rainha era já para elle a
só esperança e remedio de sua salvação, e que por suas perfeições
corporaes e muitas bondades, El-Rei lhe tinha e teria cada vez mór
afeição, com que a ella e a sua vontade se daria mais, trabalhavam por
todalas maneiras de o apartarem d'ella, conselhando-lhe que fosse muitas
vezes á caça e montes, dizendo-lhe que a conversação continua de sua
mulher em tal idade, não sómente era mui contraira á sua saude, mas
ainda mingoa e grande quebra das forças do corpo e do entendimento, e
que ficaria afiminado e não dino nem poderoso para soster o peso do
Regimento e defensão de seus reinos. E na capella e guarda roupa não
falleciam incitadores e ministros d'esta opinião, convocando para isso
mesmo fysicos, que para seu proposito tinham bem ensaiados, que com
livros e autoridades logo assi o provavam.
E taes conselheiros havia d'estes, que reprovavam o ajuntamento do santo
e legitimo matrimonio d'El-Rei com a Rainha, que eram publicos adulteros
e deshonestos concubinarios, jazendo como infernaes em mui continuo e
reprovado coito.
E porque este caminho não sobcedia de todo á sua vontade, cometeram
outro mui errado e muito para reprender; porque fizeram n'estes dias
prender D. Alvaro de Castro, camareiro mór d'El-Rei, que depois foi
conde de Monsanto, assacando-lhe falsamente que dizia amores á Rainha,
por tal que da pena de morte ou desterro que elle por tal caso merecia
nascesse infamia á Rainha com que a El-Rei de todo avorrecesse. Mas o
imigo da perdição que n'estes feitos andava por medianeiro, não pôde
tanto danar, que mais não remedeasse o verdadeiro conhecimento que
El-Rei tinha das muitas e limpas bondades da Rainha, e da grande
lealdade do conde, com que o logo soltou e depois muito honrou e
acrescentou.