CAPITULO CXVI

_Como El-Rei não tinha possibilidade de ir sobre o Infante como

proposera, e como a partida do Infante de Coimbra foi causa da sua

morte_

El-Rei não sabendo da determinação do Infante, que era partir de

Coimbra, fazia fundamento cerca-lo n'ella, o que pela muita gente que

cresceu e pelos mantimentos, e assi outras provisões que se não podiam

haver; e menos tantas bestas, bois, e carros para as armas, artilherias

e carriagem, que para tal certo eram necessarios, parecia mui

dificultoso ou impossivel faze-lo. Pelo qual muitos entendidos se

afirmaram, consirado o pouco provimento que El-Rei tinha, e o muito que

para tal empreza lhe era necessario que não podera haver, se o Infante

não sahira de Coimbra, que El-Rei por aquelle anno não podera cerca-lo,

e que o mais de dano que lhe podera fazer fôra comete-lo de passagem, o

que ao Infante segundo estava percebido, trouxera mais honra que dano

nem perigo.

Porém foi logo El-Rei certificado por um Lourenço Affonso, procurador de

Coimbra, que o Infante se despunha a partir, e queria vir a Santarem,

afeando o mais que pôde sua tenção, de que o duque e o conde seu filho,

como principaes da empresa foram mui alegres; porque viram chegar-se o

effeito de sua esperança e desejo, que era a morte do Infante, cuja

dilação a elles poderia trazer perda e perigo. Pelo qual El-Rei acordou

de sobre ser até saber da certa determição do Infante, e então mandou

poer fronteiros nos castellos d'arredor de Coimbra, receando que o

Infante queria por ventura guerrear o reino, e andar por elle como lhe

fôra aconselhado, e foi Diogo da Cunha a Thomar, e D. Duarte de Menezes

a Pombal, e o proto-notario Berredo a Leiria, e assi outros a outros

lugares.

O Infante dava grande pressa á sua partida, porque não passasse de cinco

dias de Maio que tinha posto; porque n'esse dia fôra certificado que

El-Rei movia contra elle como se disse, e porém de dinheiro por suas

muitas despesas tinha grande necessidade, de que por emprestimos dos

seus criados e servidores se proveu em alguma maneira. E porque a moeda

fallecia e não se podia haver, era conselhado para trato e serviço da

gente, que da prata lavrada que tinha se fizessem uns quadrantes, da lei

e peso de leaes que era então moeda do reino, e que sem mais outra letra

nem figura valessem o preço d'elles. O que o Infante não quiz consentir,

antes o defendeu estreitamente, e d'isto o reprenderam depois que se

intitulara de Rei, e mandara fazer moeda e justiça, o que foi assacado

mas não verdadeiro.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) · 第 44 / 69 题