_Da resposta do duque ao Infante D. Pedro_
Após o qual o duque enviou logo a resposta ao Infante, que ainda era em
Penella, por Martim Affonso de Sousa, fidalgo de sua casa, que em
presença de todos lhe disse:
«Senhor, o duque meu Senhor vos notifica por mim em resposta do que lhe
ora enviastes dizer, que depois que nascestes, sempre vos teve por irmão
e amigo, a que desejou fazer prazer e serviço, e que agora por este vos
tem, e não com menos desejo e vontade, e que por cumprir o que El-Rei
lhe mandou, vae a sua côrte por esta estrada publica, e que a gente que
traz não é d'ajuntamentos nem d'alvoroço como vos fizeram crêr, mas é a
que o soe de acompanhar, e que de vir em acertamento seguido para a
côrte caminho direito, haver de tocar vossa terra, que não sabe como
seja caso d'agravo nem escandalo vosso; porque n'ella não ha de
consentir que se faça damno, força, nem tomadia, sómente pedirem alguns
mantimentos se forem necessarios, por seus dinheiros, como vós podereis
fazer em suas terras quando por ellas de vontade, ou por necessidade
quizesseis passar, e que por tanto elle determina todavia seguir assi
seu caminho sem outro desvio, que vos pede que o hajaes assi por bem.»
E o Infante sorrindo-se fingidamente e com cara cheia de verdadeira
sanha, lhe respondeu:
«Martim Affonso, dizei ao duque, que não sou tão nescio nem elle tão
avisado, que com suas dissimulações haja de enganar minha pessoa, nem
abater minha honra; muitos dias ha que nos conhecemos, e muitas vezes
passou já por minha casa e por minhas terras; e me lembra bem a gente
que trazia e a que tem, e agora sei que traz mil e seiscentos de cavallo
armados, com outra muita gente de pé que para esta vinda ajuntou sua e
alheia, o que não responde aos tempos passados nem menos á paz e amizade
que comigo quer ter. E não lhe declarando mais o fim porque assim vem,
pois elle o sabe, nem o abatimento que n'isso recebo pois o deve
entender. Finalmente lhe dizei, que se elle não toma algum outro modo de
vir, porque a todos pareça e seja notorio que elle por minhas terras vem
pacificamente e como irmão e amigo, saiba que vivo lh'o não hei de
consentir.»
E com isto Martim Affonso sem outro mais repouso se despedio.