_Do recado que o Infante D. Pedro enviou ao duque, sendo já em
caminho_
O Infante D. Pedro como era prudente, e por não poer em seu proposito
trabalhos escusados, e não fazer despezas baldadas e não necessarias,
antes de o duque passar o Mondego, para saber a tenção com que vinha,
enviou a elle primeiro Vasco de Sousa, fidalgo de sua casa, e por
virtude de uma carta de crença que levava, em presença dos que com elle
vinham publicamente lhe disse:
«Senhor, o Infante, meu Senhor, soube de vossa vinda, e d'este auto de
guerra em que com tantas gentes vindes, e é certificado, que quereis
assi, sem seu prazer, passar por sua terra, de que é muito maravilhado,
assi por esta novidade de gentes armadas, que sem necessidade d'El-Rei,
seu Senhor, nem do reino levaes, como por lh'o não fazerdes primeiro
saber, que pois assi o determinaveis, que quer saber de vós em que
maneira vos ha de receber, e que se houver de ser como irmão e amigo,
como elle deseja, que queria que vos vades chã e pacificamente, como
sempre fostes, e que d'elle e em suas terras recebereis aquella honra,
prazer e gasalhado, que sempre recebestes, e que se com este
desacostumado estrondo d'armas quizerdes assi passar, que por quanto
pela quebra e rompimento em que com elle estaes, a elle seria fraqueza e
abatimento consenti-lo, saibaes que vos hade receber no campo como
imigo, mas que n'este caso por escusardes os males e damnos que se
d'esta viagem podem seguir, deveis tomar outro caminho porque vades,
pois sem seu abatimento nem muito trabalho vosso o podeis bem fazer.»
E com isto Vasco de Sousa se despediu, e tornou ao Infante.