_Do que o conde d'Ourem ordenou em favor do duque seu pae para não
leixar de proseguir seu caminho, e dos recados que El-Rei ao
Infante D. Pedro enviou_
E o Infante D. Pedro vendo já por estas premissas passadas que o
recontro e peleja com o duque em conclusão se não podia escusar, fez
para isso aquelles percebimentos de gentes, armas, artelharias,
mantimentos e cousas que sentio serem necessarias, e com aquella
trigança e diligencia que o caso requeria. Das quaes cousas todas como
passavam o conde d'Ourem foi logo na côrte avisado, e por favorecer a
parte do duque seu padre não sendo bem seguro e confiado de muitos que
n'aquella viagem o acompanhavam, temendo que na maior affronta o
leixariam, fez crêr ao Infante D. Fernando, irmão de El-Rei, que por ser
casado com a neta do duque, filha do Infante D. João, este caso era
proprio seu. Pedindo-lhe que aos que com o duque vinham quizesse
escrever e encommendar sua honra para que em tempo d'alguma affronta e
necessidade se sobreviesse, como fracos o não leixassem.
E de ter o conde este receio e desconfiança não era sem causa; porque os
mais dos fidalgos da companhia do duque com que refizera tanta somma de
gente, não eram de sua casa mas vinham acostados a elle por aquella
jornada sómente, e não com fundamento de tomarem por elle armas contra o
Infante D. Pedro, mas pelo terem na côrte em sua ajuda e favor para seus
negocios e requerimentos que esperavam fazer. E o claro conhecimento que
o duque na vespera da affronta d'isto tomou, lhe fez não esperar o dia
que para ella se aparelhava, como ao diante se dirá.
E porém o Infante D. Fernando como era de mui pequena idade em que o
sangue fervia, não sómente satisfez ao conde com cartas que ordenou á
sua vontade, mas ainda se offereceu ir em pessoa em ajuda do duque, e
assi lh'o escreveu logo e aos seus, por Alvaro de Faria, que depois foi
Commendador do Casal, cuja ida por então não houve effeito; porque as
guardas que o Infante nos caminhos trazia o tomaram, e foi a elle
trazido, e tomou-lhe as cartas e as leu, e o fez tornar para Santarem, e
posto que do Infante nem dos seus não fosse em nenhuma outra cousa
maltratado, elle depois de ser na côrte o não apresentou assi, antes no
desbarato e destroço da sua pessoa e de seu cavallo, que de industria
fingio, se mostrou ser de todo por mandado do Infante despojado,
affirmando que dissera sobre tudo algumas palavras mui contrairás ás
verdadeiras, e não do reprender com o despedio de si, com que poz os
feitos contra o Infante em maior alvoroço e perseguição; porque El-Rei
mandou logo riscar de seus livros o assentamento e todalas tenças que o
Infante d'elle tinha, e deffendeu aos almoxarifes que d'hi em diante
mais lh'os não pagassem. E assi escreveu ao Infante por João Rodrigues
Carvalho, escudeiro de sua casa, defendendo-lhe com grande estranhamento
«que não tivesse ao duque o caminho, e o leixasse passar livremente,
pois o ia servir.» Do qual recado foi o Infante mui triste, e mostrou
grande sentimento, e sobre a sem razão de seus agravos e perseguições
fallou algumas cousas ao messageiro que pareciam de aspereza, mas não
tão feias nem assi malditas, que se não podessem dizer de um agravado
servidor a um Senhor mal informado. Mas João Rodrigues como tornou á
côrte, ou de sua não boa vontade, ou por ser dos contrairos do Infante
assi induzido, afirmou que o Infante publicamente dizia «que não era
vassallo d'El-Rei de Portugal, mas subdito e servidor d'El-Rei de
Castella, e que assi como podera desterrar d'estes reinos a rainha D.
Lianor, que outro tanto saberia fazer aos filhos». Com outras enormes
palavras mui contrairas ás que o Infante com elle fallou, com o teor das
quaes se fizeram logo autos, e tomaram publicos estromentos, que para
mais indinarem o povo contra o Infante, logo foram pelo reino enviados.
Após João Rodrigues, veio ao Infante D. Pedro de mandado do Infante D.
Anrique, o Bispo de Ceuta D. João, que com quanto tinha afeição ao conde
de Ourem por ser da criação do Condestabre, era porém homem de grande
prudencia e de sã e justa tenção. E como quer que apontasse ao Infante
muitas causas e razões, porque catolicamente, e segundo a obediencia em
que a El-Rei era obrigado não devia impedir a passagem do duque. Em fim
não o pôde mover da sua determinação, aprovando-a o Infante com outras
razões de honra e cavallaria, e porém taes que não desfaziam nada de sua
lealdade a El-Rei, afirmando-se «que se o duque quizesse vir em fórma de
pacifico e amigo como sempre viera, que elle o receberia e lhe faria
honra e acolhimento como a irmão e amigo, segundo sempre fizera, e que
d'outra maneira lh'o não havia de consentir, como por Martim Affonso lhe
mandara dizer.»
E estando as cousas n'este ponto, e esperando ainda o Infante D. Pedro
em Penella pelo Infante D. Anrique, como lhe tinha enviado dizer, soube
que elle sem lh'o fazer saber se partira para Santarem onde era El-Rei e
sua côrte, de que o Infante D. Pedro recebeu muita torvação. E não sei
como esta virtude de piedade falleceu n'este Principe para seu irmão,
pois em seu coração todalas outras parecia que sobejavam, de que alguns
disseram que El-Rei por enfraquentar a parte do Infante D. Pedro, o
mandara chamar sabendo que o queria ajudar, e outros afirmaram que elle
fingira tal chamamento por não ser com seu irmão, vendo já sua
determinação de ir contra a defesa d'El-Rei, e por força d'armas
resistir á vinda do duque.
E no começo do mez d'Abril d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta
e nove, veiu ao Infante em Penela Fernão Gonçalves de Miranda com uma
grande instrução d'El-Rei, cuja conclusão foi estranhar-lhe muito
algumas cousas, em especial seus ajuntamentos e o movimento contra o
duque, mandando-lhe em conclusão «que se tornasse a Coimbra, d'onde sem
seu mandado não saisse, e leixasse o duque sem contradição passar assi
como vinha. E que se o não fizesse, que fosse certo que logo procederia
contra elle assi rigorosa e asperamente, como tamanha desobediencia
merecia.»
A esta embaixada d'El-Rei respondeu logo o Infante, justificando com
largas razões seu proposito, concluindo «que pois sua Mercê o mandava
contra sua honra e estado tornar atráz, que outro tanto devia mandar ao
duque que primeiro começara, e que posto que na priminencia das pessoas
de um e do outro havia em tudo tanta diferença, como ao mundo era
notorio, que este caso d'ambos julgasse e houvesse por igual, e ao menos
o que defendia a um, não consentisse ao outro. E que pois sua Mercê por
então não tinha de gente d'armas tão eminente necessidade, mandasse que
o duque passasse por sua terra em modo pacifico, e com a gente de sua
casa ordenada, e que n'esta maneira o receberia como a irmão e amigo, e
lhe faria e mandaria fazer muita honra e bom acolhimento, como sempre
fizera, e que em outra maneira recebendo n'isso tamanha mingoa não o
havia por seu serviço, pela grande parte e razão que com seu real sangue
tinha» e com esta resposta o despediu.