_De como El-Rei mandou vir o duque de Bragança á sua côrte, e como
o Infante D. Pedro determinou que em auto de guerra como vinha não
leixaria-o passar for sua terra_
El-Rei se partiu de Cintra no começo d'Outubro de mil e quatrocentos e
quarenta e sete para Lisboa, d'onde por suas cartas mandou vir á sua
côrte o duque de Bragança, de que o conde d'Ourem seu filho mostrou a
El-Rei para seu conselho e serviço grande necessidade, e o aviso secreto
que o duque de seu filho houve, foi que viesse mais em auto de guerra
que de paz; porque já tinham commovido El-Rei para ir logo sobre o
Infante D. Pedro. O qual pelas espias que com todos trazia foi logo
certificado dos percebimentos de gentes e armas que o duque para isso
fazia, e como fazia fundamento de vir e passar em tal auto, e sem prazer
do Infante por suas terras, e sobre o que o Infante n'isso faria, de
resistir com força sua passagem, ou a dessimular com paciencia, teve com
os seus conselhos, em que houve votos desacordados, e finalmente o
Infante seguindo a opinião do conde d'Abranches e d'alguns outros que
com a sua conformaram, determinou com armas lhe resistir, mostrando que
recebia de Deus muita mercê despoer-lhe assim de uma pessoa a elle tão
damnosa, vingança tão bem aparelhada e tanto desejada, pelo qual de
Coimbra se foi á sua villa de Penella, d'onde as novas de seu fundamento
correram logo á côrte d'El-Rei que era em Santarem, e com todo o
desfavor do Infante alguns fidalgos seus amigos e servidores que eram na
côrte, sentindo que em tal tempo teria d'elles necessidade, se vieram
logo para elle, assim como Aires Gomez da Silva com Fernão Tellez, e
João da Silva seus filhos, e Luiz d'Azevedo, e Martim de Tavora, e
Gonçalo d'Atayde, e outros muitos de menos condição, e n'este caso
Alvaro Gonçalves da Tayde conde da Atouguia e seus filhos, sendo criados
e feitura do Infante, pelo não irem servir n'esta jornada, foram como
ingratos á sua criação e bemfeitoria geralmente bem reprendidos,
especialmente que para sua encuberta usaram de praticas, e fazendo-se
manhosamente e por suas astucias prender e impedir, para não irem
acompanhar e servir o Infante, fazendo-o já desleal e contrairo ao
serviço e obediencia d'El-Rei.
O Infante D. Pedro, porque a este tempo ainda tinha no Infante D.
Anrique sobre todos grande esforço e muita confiança, mandou logo a elle
que era em Thomar, João Pirez Diogo, seu cavalleiro, e por elle lhe
enviou notificar e trazer por extenso á memoria os muitos agravos e
desfavores que d'El-Rei por seus imigos tinha recebidos, e como lhe
parecia que estas cousas, segundo as via guiadas do odio e viradas
contra toda razão e justiça, que apertavam muito para sua destruição,
avisando-o mesmo por mais claro argumento d'isso, da maneira em que o
duque vinha, e como a seu despeito queria passar por sua terra e com que
fundamento, pedindo-lhe que em tanta e tão injusta pressa e angustia
como esta em que estava, elle por sua bondade e com seu valor e
auctoridade, pois era em sua mão, lhe quizesse valer, afirmando se,
porém, «que seu proposito e determinação era impedir por força e sem
escusa a passagem do duque, pois vindo em sombra de poderoso e tendo
outro caminho por que sem escandalo poderia ir á côrte, determinava vir
pela Louzã, que era sua villa, sem lh'o primeiro fazer saber».
E o Infante D. Anrique por então lhe respondeu, «que do que então em seu
caso, e em tal tempo melhor lhe parecesse, lh'o enviaria logo dizer».
Como enviou uma vez por Fernão Lopes d'Azevedo, Comendador Mór de
Christus, e outra por Martim Lourenço, tambem Cavalleiro da Ordem, cuja
conclusão foi: «que o Infante D. Pedro não fizesse de si alguma mudança,
até elle Infante D. Anrique não ser com elle em pessoa, para que dizia
que se aparelhava».