CAPITULO XCV

_Como o conde d'Arrayolos veiu de Ceuta para concordar o Infante

com El-Rei, e as causas porque se presumio que estas cousas se

damnavam mais_

O conde d'Arrayolos a este tempo depois da morte do conde D. Fernando

era capitão e governador da cidade de Ceuta, onde por ser muito amigo do

Infante D. Pedro, sendo certificado do engano e malicia que n'estes

feitos andavam, desejando o serviço d'El-Rei e doendo-se do Infante,

para cuja perdição todalas cousas se inclinavam, se veiu d'Africa á

côrte como homem virtuoso e de justa tenção, e como quer que seu pai e

seu irmão tivesse por contrairos, começou de entender com muita

diligencia na concordia entre El-Rei e o Infante. Mas o duque seu padre,

e o conde d'Ourem seu irmão anojados muito de seu proposito, não o

podendo d'elle desviar faziam com El-Rei que em muitas cousas o

desfavorecesse. Especialmente não o ouvindo as vezes que o conde

requeria e desejava.

E vendo elles com tudo que sua bondade não cansava, e que sem embargo

das fortes contrariadades que recebia tomava por fundamento trazer á

côrte o Infante para que per si mostrasse a limpeza de suas culpas,

fizeram novas fingidas, e com côres e signaes que pareciam de certeza,

que os mouros vinham poderosamente cercar, ou tinham cercado Ceuta, com

que o fizeram volver sem alguma conclusão em Africa, d'onde não

retornou, salvo depois da morte do Infante. Porque então leixou

livremente a capitania a El-Rei, que a deu ao conde D. Sancho.

E não foi o conde d'Arrayolos só a que esta enganosa quebra d'El-Rei com

o Infante parecesse assi mal como era razão. Porque muitos outros bons

ás vezes publica, e as mais secretamente, quizeram com El-Rei em sua

concordia entender, mas os imigos do Infante punham ao coração d'El-Rei

com informações erradas taes defensivos, que a lembrança de seus

merecimentos para seu galardão e limpeza nunca na memoria d'El-Rei

podesse entrar. Pelo qual o Infante apressado em sua alma d'estes

continos padecimentos, suspirando pelo conhecimento da verdade, que

havia por mais principal remedio de sua salvação, escreveu a El-Rei por

seus confessores, e por outras pessoas religiosas muitas vezes,

pedindo-lhe em todas por mercê, com palavras de muita piedade e com

grande acatamento e obedencia «que por testemunhos e induzimentos de

seus imigos o não quizesse julgar nem tão maltratar, e houvesse por bem

arreda-los de seus ouvidos, e assim manda-los sair de sua côrte, como a

elle por menos causas fizera; porque sendo fóra, elle não haveria seus

mandados e determinações contra si por tão graves nem tão suspeitas como

então lhe pareciam, e as cumpriria sem agravo nem escandalo, e lhe

obedeceria com muito amor e lealdade, e que lhe lembrasse a grande

perfeição e amor em que o criara, e a muita verdade e acatamento com que

o sempre servira, e ao pouco que durando seu regimento em sua fazenda e

estado tinha acrecentado.» E principalmente por confirmação de sua boa

vontade lhe pedia «que não se esquecesse que o casara com sua filha que

tanto amava, e não fôra com fundamento e desejo de apagar, mas perpetuar

sua vida e real geração.»

E com estas cousas que traziam fundamento de razão e verdade, e por a

condição natural d'El-Rei ser inclinada a todo razoado bem, muitas vezes

se despunha a lhe pesar dos procedimentos e agravos que contra seu tio

fazia, e certo parecia que as cousas de seu damno e abatimento em que

consentia eram confrangidamente e sem sua vontade. Porque algumas

pessoas dinas de fé e autoridade afirmaram, que uma das causas

principaes porque estes feitos entre El-Rei e o Infante mais se

damnaram, foi por entrevirem n'elles cartas falsas; porque umas davam a

El-Rei em nome do Infante, que o Infante nunca mandara, e outras recebia

o Infante com signaes d'El-Rei, em que El-Rei nunca assignara, fazendo

os contrairos do Infante poer n'ellas as sustancias com que os corações

de uma parte e da outra mais se damnassem.

E por certo presumir-se assi não era sem caso; porque cotejadas as

cartas que n'este tempo se acharam escriptas da mão d'El-Rei para o

Infante com outras muitas feitas por escrivães que lhe mandavam, bem

parecia que as da mão d'El-Rei eram proprias, e de filho para pae, e as

dos escrivães muito alheias; porque mostravam ser de Rei imigo para

vassallo desleal, e em tanta contradição de cartas de uma só pessoa para

outra, e em um tempo e sobre uma mesma sustancia, claro se podia

conhecer que aquellas em que parecesse a boa vontade eram proprias e

verdadeiras d'El-Rei, e as outras eram acidentaes e postiças, ou o mais

certo constrangidas.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) · 第 23 / 69 题