_De como o Infante D. Anrique se foi vêr a Coimbra com o Infante D.
Pedro, e com elle o conde d'Abranches, e das novidades que se
seguiram_
E o Infante e o conde d'Abranches vendo tempo para isso, foram vêr a
Coimbra o Infante D. Pedro, que com tal vesitação pela estima e
reputação em que o Infante D. Anrique era havido, elle e os seus
mostraram receber muita alegria e grande favor.
Alli se juntaram os Infantes com alguns principaes seus adeptos que hi
eram, e fallaram algumas vezes nas sem razões e agravos que o Infante D.
Pedro tinha nas cousas passadas recebidos, e assi no remedio que se
teria nos que se aparelhavam e estavam por vir, para acrecentamento dos
quaes foram alli certificados que El-Rei como foi em Cintra logo por
engenho do conde d'Ourem e dos outros ordenara em desfavor e quebra do
Infante estas cousas. Uma foi que escreveu a todolos fidalgos e a
cavalleiros do reino em que sentio que havia boa vontade para o Infante,
que sob pena de caso maior por qualquer maneira o não fossem vêr. A
outra que mandou poer e publicar editos por todo o reino, que todolos
criados que foram da Rainha D. Lianor, que de suas fazendas e cousas por
seu caso fossem privados, viessem requerer suas restituições, para que
foi dado por juiz Lopo d'Almeida, que como quer que em todalas outras
cousas fosse havido por homem justo e de são entender, n'esta a juizo de
bons (por ventura, porque o tempo assi o queria) não guardou a ordem
direita que devera; porque todo o que os damnificados por simples
petição pediam lhe era sem exame nem resguardado de justiça julgado, e
logo executado, em que ajuntavam muitas cousas fóra d'esta querella e
d'esta calidade, de que a muitos se seguiu sem causa muito damno. A
outra foi que El-Rei notificou ao Infante D. Pedro que o havia por
degradado de sua côrte, e lhe mandava e defendia que sob pena de caso
maior sem seu especial mandado não fosse a ella nem sahisse de suas
terras.
E isto ordenaram assi os contrairos do Infante, porque se receiaram que
elle com a vista e confiança do Infante D. Anrique tomaria por ventura
atrevimento de se vir com elle á côrte, onde era certo que em pessoa
alimparia ante El-Rei sua honra, o que a elles para seu desejo fôra
mortal inconveniente.
Os Infantes descontentes e maravilhados da sem razão d'estas cousas
acordaram de enviar sobr'ellas a El-Rei, como enviaram Gonçalo Gomez de
Valladares, commendador da Ordem de Christo. O qual como quer que pelas
cartas e instrução dos Infantes que levava em todo cumprisse seu
officio; porém porque o juizo d'El-Rei por sua não madura edade, e pelas
falsas opiniões em que o criavam andava de todo emnevoado, turnou-se aos
Infantes sem alguma determinada resposta nem conclusão. Dilatando-a para
outra pessoa que El-Rei disse que lhes enviaria, o que se não fez.
Partiu-se o Infante D. Anrique para a villa de Soure, e o Infante D.
Pedro para Monte Mór-o-Velho, que são lugares d'onde cada dia se podiam
vêr e avisar, e o mais certo e mais são remedio que n'estas alterações o
Infante D. Anrique achou para seu irmão, em se d'elle despedindo lh'o
leixou e encommendou, que foi sofrimento e paciencia que havia por armas
mais seguras para n'este caso elle sempre vencer.