CAPITULO XCII

_De como o Infante D. Anrique se foi vêr a Coimbra com o Infante D.

Pedro, e com elle o conde d'Abranches, e das novidades que se

seguiram_

E o Infante e o conde d'Abranches vendo tempo para isso, foram vêr a

Coimbra o Infante D. Pedro, que com tal vesitação pela estima e

reputação em que o Infante D. Anrique era havido, elle e os seus

mostraram receber muita alegria e grande favor.

Alli se juntaram os Infantes com alguns principaes seus adeptos que hi

eram, e fallaram algumas vezes nas sem razões e agravos que o Infante D.

Pedro tinha nas cousas passadas recebidos, e assi no remedio que se

teria nos que se aparelhavam e estavam por vir, para acrecentamento dos

quaes foram alli certificados que El-Rei como foi em Cintra logo por

engenho do conde d'Ourem e dos outros ordenara em desfavor e quebra do

Infante estas cousas. Uma foi que escreveu a todolos fidalgos e a

cavalleiros do reino em que sentio que havia boa vontade para o Infante,

que sob pena de caso maior por qualquer maneira o não fossem vêr. A

outra que mandou poer e publicar editos por todo o reino, que todolos

criados que foram da Rainha D. Lianor, que de suas fazendas e cousas por

seu caso fossem privados, viessem requerer suas restituições, para que

foi dado por juiz Lopo d'Almeida, que como quer que em todalas outras

cousas fosse havido por homem justo e de são entender, n'esta a juizo de

bons (por ventura, porque o tempo assi o queria) não guardou a ordem

direita que devera; porque todo o que os damnificados por simples

petição pediam lhe era sem exame nem resguardado de justiça julgado, e

logo executado, em que ajuntavam muitas cousas fóra d'esta querella e

d'esta calidade, de que a muitos se seguiu sem causa muito damno. A

outra foi que El-Rei notificou ao Infante D. Pedro que o havia por

degradado de sua côrte, e lhe mandava e defendia que sob pena de caso

maior sem seu especial mandado não fosse a ella nem sahisse de suas

terras.

E isto ordenaram assi os contrairos do Infante, porque se receiaram que

elle com a vista e confiança do Infante D. Anrique tomaria por ventura

atrevimento de se vir com elle á côrte, onde era certo que em pessoa

alimparia ante El-Rei sua honra, o que a elles para seu desejo fôra

mortal inconveniente.

Os Infantes descontentes e maravilhados da sem razão d'estas cousas

acordaram de enviar sobr'ellas a El-Rei, como enviaram Gonçalo Gomez de

Valladares, commendador da Ordem de Christo. O qual como quer que pelas

cartas e instrução dos Infantes que levava em todo cumprisse seu

officio; porém porque o juizo d'El-Rei por sua não madura edade, e pelas

falsas opiniões em que o criavam andava de todo emnevoado, turnou-se aos

Infantes sem alguma determinada resposta nem conclusão. Dilatando-a para

outra pessoa que El-Rei disse que lhes enviaria, o que se não fez.

Partiu-se o Infante D. Anrique para a villa de Soure, e o Infante D.

Pedro para Monte Mór-o-Velho, que são lugares d'onde cada dia se podiam

vêr e avisar, e o mais certo e mais são remedio que n'estas alterações o

Infante D. Anrique achou para seu irmão, em se d'elle despedindo lh'o

leixou e encommendou, que foi sofrimento e paciencia que havia por armas

mais seguras para n'este caso elle sempre vencer.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) · 第 20 / 69 题