_De uma fórma de concordia que El-Rei fez em escripto entre o
Infante D. Pedro e o duque de Bragança e d'outras cousas que contra
o dito Infante se seguiram_
E para mais acrecentarem cuidado e paixão ao Infante, vieram a elle logo
D. Fernando, que por alcunha do povo se chamava Cagonho, e com elle Ruy
Galvão, secretario d'El-Rei, pessoas que descubertamente em todo
desserviam e desamavam ao Infante, estes trouxeram em escripto com
signal e sêllo d'El-Rei uma fórma de concordia e amizade com corados
fundamentos de bem, que sem saber nem consentimento do Infante, El-Rei
fez entre elle e o duque de Bragança, requerendo estes messegeiros ao
Infante que á mão direita do signal d'El-Rei pozesse n'elle seu signal,
e tambem seu sêllo. Porque outro tanto era ordenado que o duque havia de
fazer da outra banda; porque o d'El-Rei ficasse por marco de paz e
segurança d'entre ambos. Mas o Infante pela fórma das palavras, que com
pouca honra sua e muito abatimento vinham na concordia, e pela condição
dos messegeiros que a traziam, claramente viu que eram tentações que
seus imigos ordenavam para mais em breve indinarem El-Rei para sua
destruição, e porém sem esperança que a concordia fosse verdadeira,
assignou n'ella e a mandou assellar assi como lhe fôra requerido e
ordenado. Porque o parecer e crença do conde d'Ourem, que isto inventou,
foi que o Infante D. Pedro por sua forte e altiva condição não
obedeceria em assignar tal concerto, e que sua desobediencia daria
corada causa para El-Rei com mais razão ir sobr'elle e o destruir e
castigar como a desleal; porque ao tempo que esta concordia se formava
na côrte, se fizeram juntamente cartas de geraes percebimentos de
guerra, para todalas cidades e villas e pessoas principaes do reino,
salvo para o Infante e para seu filho o Condestabre, com o fundamento
que se a isso não satisfizesse de irem logo sobr'elle; mas esta amizade
assi como sem vontade de todos nunca entr'elles se guardou.
E porque isto por esta via não succedeu á vontade dos imigos do Infante,
tentaram o negocio por outra, em que fizeram que El-Rei enviasse, como
enviou ao Infante, Diogo da Silveira, que depois foi escrivão da
puridade, o qual sem merecimento algum o reprendeu em nome d'El-Rei de
cousas em que o Infante nunca tivera culpa, em especial lhe estranhou
muito o açalmamento d'armas e mantimentos que se dizia que contra
serviço d'El-Rei em seus castellos fazia, mas o Infante confiando em sua
innocencia, depois de verdadeiramente se escusar das outras falsidades
que lhe assacavam, mandou alli logo em continente mostrar-lhe todo o
castello de Monte Mór, e assi o de Coimbra, que eram os principaes que
tinha, em cujo despercebimento claramente viu a informação que se a
El-Rei fizera ser em todo falsa e maliciosa.
E porém como Diogo da Silveira tornou á côrte, logo El-Rei ou por não
ser por elle verdadeiramente informado, ou por outro algum respeito,
tirou ao conde d'Abranches o castello de Lisboa, e a Aires Gomez da
Silva o Officio de Regedor da justiça na casa do Civel, e a Luiz
d'Azevedo o Officio de Vedor da Fazenda, sómente por serem amigos e
servidores do Infante, tendo-lh'os já confirmados por suas cartas. E a
D. Pedro seu filho pediu o conde d'Ourem o Officio de Condestabre,
dizendo que era d'elle roubado, e lhe pertencia de direito. Mas por não
lhe fazerem uma concessão tão fea, sendo seu imigo, El-Rei o deu ao
Infante D. Fernando seu irmão.