CAPITULO XCIII

_De uma fórma de concordia que El-Rei fez em escripto entre o

Infante D. Pedro e o duque de Bragança e d'outras cousas que contra

o dito Infante se seguiram_

E para mais acrecentarem cuidado e paixão ao Infante, vieram a elle logo

D. Fernando, que por alcunha do povo se chamava Cagonho, e com elle Ruy

Galvão, secretario d'El-Rei, pessoas que descubertamente em todo

desserviam e desamavam ao Infante, estes trouxeram em escripto com

signal e sêllo d'El-Rei uma fórma de concordia e amizade com corados

fundamentos de bem, que sem saber nem consentimento do Infante, El-Rei

fez entre elle e o duque de Bragança, requerendo estes messegeiros ao

Infante que á mão direita do signal d'El-Rei pozesse n'elle seu signal,

e tambem seu sêllo. Porque outro tanto era ordenado que o duque havia de

fazer da outra banda; porque o d'El-Rei ficasse por marco de paz e

segurança d'entre ambos. Mas o Infante pela fórma das palavras, que com

pouca honra sua e muito abatimento vinham na concordia, e pela condição

dos messegeiros que a traziam, claramente viu que eram tentações que

seus imigos ordenavam para mais em breve indinarem El-Rei para sua

destruição, e porém sem esperança que a concordia fosse verdadeira,

assignou n'ella e a mandou assellar assi como lhe fôra requerido e

ordenado. Porque o parecer e crença do conde d'Ourem, que isto inventou,

foi que o Infante D. Pedro por sua forte e altiva condição não

obedeceria em assignar tal concerto, e que sua desobediencia daria

corada causa para El-Rei com mais razão ir sobr'elle e o destruir e

castigar como a desleal; porque ao tempo que esta concordia se formava

na côrte, se fizeram juntamente cartas de geraes percebimentos de

guerra, para todalas cidades e villas e pessoas principaes do reino,

salvo para o Infante e para seu filho o Condestabre, com o fundamento

que se a isso não satisfizesse de irem logo sobr'elle; mas esta amizade

assi como sem vontade de todos nunca entr'elles se guardou.

E porque isto por esta via não succedeu á vontade dos imigos do Infante,

tentaram o negocio por outra, em que fizeram que El-Rei enviasse, como

enviou ao Infante, Diogo da Silveira, que depois foi escrivão da

puridade, o qual sem merecimento algum o reprendeu em nome d'El-Rei de

cousas em que o Infante nunca tivera culpa, em especial lhe estranhou

muito o açalmamento d'armas e mantimentos que se dizia que contra

serviço d'El-Rei em seus castellos fazia, mas o Infante confiando em sua

innocencia, depois de verdadeiramente se escusar das outras falsidades

que lhe assacavam, mandou alli logo em continente mostrar-lhe todo o

castello de Monte Mór, e assi o de Coimbra, que eram os principaes que

tinha, em cujo despercebimento claramente viu a informação que se a

El-Rei fizera ser em todo falsa e maliciosa.

E porém como Diogo da Silveira tornou á côrte, logo El-Rei ou por não

ser por elle verdadeiramente informado, ou por outro algum respeito,

tirou ao conde d'Abranches o castello de Lisboa, e a Aires Gomez da

Silva o Officio de Regedor da justiça na casa do Civel, e a Luiz

d'Azevedo o Officio de Vedor da Fazenda, sómente por serem amigos e

servidores do Infante, tendo-lh'os já confirmados por suas cartas. E a

D. Pedro seu filho pediu o conde d'Ourem o Officio de Condestabre,

dizendo que era d'elle roubado, e lhe pertencia de direito. Mas por não

lhe fazerem uma concessão tão fea, sendo seu imigo, El-Rei o deu ao

Infante D. Fernando seu irmão.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) · 第 21 / 69 题