_Vinda do conde d'Abranches ás côrtes_
A este tempo chegou tambem a Lisboa, que vinha de Ceuta, o conde
d'Abranches, que sobre todos era grande servidor e muito amigo do
Infante D. Pedro, e publico amigo do conde d'Ourem, e em sua chegada não
foi então d'El-Rei e de sua côrte assi agasalhado e honrado, como seus
serviços presentes e merecimentos passados requeriam. Porém o conde assi
como era de nobre sangue, assi não fallecia n'elle uma graciosa soltura
de dizer, com mui esforçado coração e singular aguardecimento, com que
ante El-Rei e os de sua côrte, no publico e no secreto defendia muito a
honra e estado do Infante D. Pedro, com claros exemplos e vivas razões
de sua mui louvada lealdade, afeando muito com grande audacia os
movimentos e maldades que seus imigos tão sem causa contra elle moviam.
E como quer que El-Rei fosse induzido, que não ouvisse o conde e o
mandasse ir fóra de sua côrte, poendo-lhe que em todas as culpas do
Infante elle era muito culpado, porém porque El-Rei era de alto coração,
aceso no ardor de autos cavalleirosos, suspirando para grandes emprezas,
folgava muito de o ouvir, e começava dar-lhe de si muita parte e
acolhimento, especialmente porque o Infante D. Anrique ante El-Rei
muites vezes por cousas muito assinadas em que o vira, dizia por elle,
que não sómente Portugal, mas Espanha toda se devia de haver por honrada
criar tal cavalleiro. E porque os imigos do Infante viram que a vontade
d'El-Rei ácerca do conde não terçava por elles como desejavam,
lançaram-lhe amigos d'elle lançadiços, e pessoas de credito que com
resguardo de grande segredo o aconselhassem que se fosse fóra da côrte,
e não entrasse em um conselho publico que se então fazia, avisando-o
manhosamente que n'elle por cousas do Infante D. Pedro o haviam de
prender. Mas o conde com a cara cheia d'esforçada segurança lhe disse:
«Amigos, certamente pelos muitos e grandes serviços que tenho feitos a
esta casa de Portugal, eu lhe mereço mais villas e castellos com que me
acrecente, que prisões nem cadeias em que sem causa me ponha, e por
tanto com todo o que me dizeis, sabei que não hei-de fugir do conselho e
serviço d'El-Rei nosso Senhor, pois leal e verdadeiramente sempre o
segui. E porém se tal cousa, e por tal causa se move contra mim, sabei
certo que em defender minha honra, e limpeza d'aquelle Senhor, eu me
mostrarei hoje dino de ser confrade da Santa Garrotea que recebi, e
espero em Deus que sem ociosidade de minhas mãos, os que me quizerem
visitar antes seja na sepultura, que nos carceres nem cadeias, e por
isso não hajaes dó nem compaixão de minha vida porque minha morte
honrada a fará com louvor viver mui viva, e muito mais honrada nas
memorias dos homens para sempre.»
Pelo qual o conde depois de com esta determinação despedir estes
manhosos e dobrados conselheiros; porque a hora do conselho se chegava a
que determinou ir, se vestiu de panos finos mui bem, e muito melhor
d'armas secretas, com que entrou no paço, onde seus imigos vendo a
segurança de sua pessoa, foram claramente certificados do esforço e
bondade de seu coração.
E estando El-Rei na casa do conselho, onde eram muitos senhores
presentes e os principaes imigos do Infante, o conde com cara que mais
parecia que ameaçava que temia, lhe tocou em sua prisão que lhe fôra
revelada, e assi lhe fallou com muito repouso e grande auctoridade nas
cousas do Infante e suas, approvando sua bondade e lealdade por termos,
e com razões a todos tão manifestas, que se não podiam contrariar;
concluindo, que quaesquer pessoas de qualquer estado e condição que
fossem, que do contrairo tinham informado a El-Rei, eram com reverença e
acatamento de sua real pessoa, a Deus e a elle e ao mundo máos e
tredores, e que com licença e consentimento de sua Senhoria os
combateria por armas, e em campo a tres d'elles os melhores juntamente.
A resposta d'El-Rei para o conde foi então graciosa e branda, e com
mostrança que lhe pesara de o ouvir, que para o máo fundamento dos que
tratavam a morte do Infante foram mui tristes sinaes, e por arredarem
El-Rei do Infante D. Anrique e do conde, que começavam ser causa que de
todo impedia seu damnado proposito, o levaram a Cintra aforrado.