_Como o Condestabre filho do Infante D. Pedro foi enviado a
Castella com gentes d'armas, em ajuda de El-Rei de Castella contra
os Infantes d'Aragão, e do que se passou até tornar_
Pela morte d'estas duas Rainhas o partido dos Infantes d'Aragão ficou em
Castella mui fraco e abatido, e o Condestabre porque viu tempo que lh'o
assi aconselhava, ordenou de os fazer lançar e desterrar fóra do reino,
e acabou com El-Rei que escreveu ao Regente com as razões e causas com
que sentio que o mais obrigaria, pedindo-lhe para isso ajuda de gente
d'armas por seu messegeiro, o qual Infante teve sobre o caso bom
conselho em Tentuguel, onde elle foi de sua vontade movido para ir em
pessoa; e porque foi em contrairo aconselhado, determinou-se que
enviasse o senhor D. Pedro seu filho que era Condestabre, em edade de XV
annos, e a mais formosa nem melhor proporcionada creatura que se podia
vêr de seu tempo, ao qual foram ordenados dois mil homens de cavallo, e
quatro mil de pé, e com elle estes fidalgos principaes: D. Alvaro de
Castro que depois foi conde de Monsanto, e Lopo d'Almeida que depois foi
conde d'Abrantes, e D. Duarte de Menezes que depois foi conde de Viana,
e Diogo Soarez d'Albergaria, e Fernão Coutinho, e João de Gouvêa, e
outros muitos fidalgos e cavalleiros da côrte, em que ia a frol d'ella.
E porque o sr. D. Pedro não era cavalleiro, quiz o Infante seu padre que
o fosse da mão do Infante D. Anrique seu tio, que era em Lagos, e foi
para isso chamado a Coimbra, onde logo veiu e este ajuntamento se fez, e
sobre qual dos Infantes devia fazer aquelle auto de Cavallaria, houve
entre elles uma perciosa, mas mui honrada e maravilhosa contenda. Porque
cada um parecia que minguava em seus merecimentos, por acrecentar nos do
outro, e cada um se alegrava ser n'elles do outro vencido para que o
fizesse, e em fim o cargo ficou ao Infante D. Anrique e não sem
merecimento; porque em seu tempo muitos Principes foram de mais terras,
gentes, e rendas, mas não houve em seus dias algum ante quem elle em
perfeição de virtudes, e bondade d'armas, e esforço do coração se
devesse contar por segundo, o qual com novas cerimonias e grandes
festas, armou Cavalleiro o Condestabre seu sobrinho, no mosteiro de S.
Jorge, que é junto com a cidade sobre o Mondego. D'onde logo partio com
mais gentes de sua ordenança; porque alguma que falleceu, se refez toda
com elle em Cidad Rodrigo, primeiro lugar de Castella por onde entrou. E
certo d'armas, cavallos, livré e arreios, foi gente mui luzida e mui
aparelhada para fazer um bom serviço.
El-Rei D. João de Castella, para execução do que desejava, tinha já
cercados na villa de Olmedo a El-Rei de Navarra, e ao Infante D. Anrique
seus cunhados, com muitos e grandes senhores de Castella. Os quaes
esforçados na muita gente que comsigo tinham e confiados que pela antiga
criação e conhecimento que tinham d'aquelle reino, e assi pelo desamor
que geralmente tinham ao Condestrabre, que as gentes d'El-Rei quando os
vissem em rompimento e perigo os ajudariam, e temendo outrosi a gente de
Portugal, que tambem ia sobr'elles, e vendo que por isso o cerco por
muitos inconvenientes lhe não cumpria, determinaram poer seus feitos em
ventura, e dar, como deram, batalha a El-Rei, em que foram de todo
vencidos, d'onde o Infante D. Anrique sahiu ferido em um braço, de que a
poucos dias falleceu em Aragão. E El-Rei de Navarra se acolheu fugido a
seu reino sem mais vir a Castella; ainda que o depois muito procurasse.
D'este caso assi como passara foi o senhor D. Pedro em Cidad Rodrigo
avisado. Sobre o qual os do conselho d'El-Rei, que com elle eram,
praticaram o que fariam. E acordaram que deviam todavia proseguir sua
viagem como fizeram, e que do caso acontecido avisassem logo El-Rei seu
Senhor, e a El-Rei de Castella notificassem sua ida. E com isto feito
foram fazendo suas jornadas, até chegarem á cidade de Touro, onde o
Condestabre D. Pedro houve resposta d'El-Rei de Castella, em que lhe
rogava, que assi como vinha o fosse vêr, como foi, á villa de Maiorca,
onde já com toda sua côrte estava, e em seu recebimento lhe foi feita
honra mui assinada; porque El-Rei com toda sua côrte sahiu ao receber,
mui contentes de vêr um Principe em todo tão proporcionado, em que muito
acrecentava a graça das ricas armas em que ia vestido. E depois de
passarem alguns dias, em que d'El-Rei e dos grandes de seu reino, foi
com muitas honras e festas tratado, El-Rei com os aguardecimentes que em
sua ida cabiam, lhe disse: «Que pois seu serviço lhe não era necessario,
que se poderia tornar para Portugal. E como quer que o Condestabre muito
insistisse para ficar e o servir; como d'El-Rei seu Senhor, e do Infante
seu padre trazia ordenado, El-Rei não quiz, posto que lhe requereu e
desejou que com a gente sómente que para o servir fosse necessaria
ficasse aforrado em sua côrte. Mas aos fidalgos que com elle iam não
pareceu razão leixa-lo assi, sem prazer do Regente. Pelo qual El-Rei o
despediu com dadivas de joias e cavallos, e mullas e outras cousas de
grande preço, e não falleceram outros muitos grandes senhores d'aquelle
reino que lhe offereceram seus presentes, de cousas que sua idade e
tempo requeriam. Mas para d'outrem algum não receber nada, salvo
d'El-Rei, teve as mãos tão castigadas, como as fez soltas em dar e fazer
grandes mercês a aquelles que semelhantes cousas lhe apresentavam, ainda
que com ellas se tornassem, e d'esto se escusava com tanta humildade e
cortezia, que bem parecia que não era por algum vicio de presumpção que
n'elle coubesse.
E assi com sua gente na ordenança em que fôra, e com bandeiras tendidas
se tornou a Portugal e entrou por Bragança, e na villa d'Aveiro achou
El-Rei e com elle o Infante seu padre, d'onde despediram os fidalgos e a
gente que com elle fôra, dando pelo serviço que fizeram muitos
aguardecimentos com as mercês que cada um por sua confissão merecia, e
isto passou no anno de mil e quatrocentos e quarenta e cinco.