CAPITULO LXXXIV

_De como foi a morte da Rainha D. Lianor em Toledo, estando já para

se tornar a Portugal_

No anno de mil e quatrocentos e quarenta e quatro, vendo-se El-Rei de

Castella em poder dos Infantes d'Aragão seus cunhados, roubado da

liberdade e senhorio que a sua dinidade real pertencia, tinha a elles

grande odio e desamor, e para se em alguma maneira d'elles isentar,

ordenou por conselhos e modos do Condestabre D. Alvaro de Luna de mandar

como mandou por visorei á comarca de Andaluzia ao Infante D. Anrique,

provendo-o para isso de poderes fingidos com fundamentos falsos,

dando-lhe a entender que assi cumpria para sua mais honra e mór

segurança, onde por engenho do dito Condestabre e mestres de Alcantara e

Calatrava seus contrairos, e com gente de Sevilha e outra muita que o

Infante D. Pedro d'estes reinos lá mandou, foi em todo desobedecido, e

em desbaratos que houve mui mal tratado, e d'esta vez se tomou Carmona,

e em tanto se conformou o Condestabre com outros grandes senhores

d'aquelle reino que para isso se ajuntaram por força d'armas, e tiraram

El-Rei do poder e sobgeição d'El-Rei de Navarra, que segundo o que se

via não o tratava, nem acatava como a rei superior se devia.

E d'estas voltas de fortuna que a Rainha D. Lianor viu padecer aos

Infantes seus irmãos, foi da esperança que n'elles tinha desesperada de

todo, e vendo-se já mal olhada d'El-Rei e da Rainha sua irmã, e com

pouca sua ajuda, foi-se da côrte para a cidade de Toledo, d'onde

constrangida já de grandes minguas que a apertavam, soltou quasi toda a

gente que tinha, encommendando os filhamentos e vivendas de seus criados

a aquelles senhores de Castella com que cada um mostrava ter mais

contentamento de viver.

Alli veiu a Rainha a tanta necessidade e pobreza, que para seu

suportamento lhe conveiu receber ajudas em pão e dinheiro d'alguns

Prelados e donas viuvas d'aquelle reino, em especial de uma D. Maria da

Silva de Toledo, senhora de nobre sangue e muita fazenda. E n'este reino

e em Ceuta sendo de suas necessidades sabedor D. Fernando de Noronha,

primeiro conde de Villa Real, e segundo capitão da dita cidade; porque

era de real sangue e mui nobre coração; principalmente porque El-Rei D.

Duarte o criara e acrecentara com muito amor, e asi por elle ter com a

Rainha divido mui conjuncto, a mandou visitar e ajudar com uma boa somma

d'ouro amoedado, de que por sua nobreza e bom conhecimento foi de todos

cá e lá mui louvado. Pelo qual a Rainha sentindo-se já envergonhada de

requerer, e cansada de esperar, vendo os caminhos e remedios de sua

esperança, com as mudanças de seus irmãos de todo cerrados, houve-se de

todo por mal aventurada, e sobretudo por enganos mal aconselhada, e

suspirando já por Portugal, ao menos para lhe sua terra comer o corpo,

fallou com Mossem Gabriel de Lourenço, seu capellão mór, e com suas

crenças, instrucção e poder, o enviou a Albuquerque, d'onde por meio do

conde d'Arrayollos tratasse alguma concordia com o Infante D. Pedro, ao

qual Infante a Rainha com palavras e cousas assaz piadosas, enviava já

pedir, ao mais consentimento e lugar para vir a estes reinos, e n'elles

morrer, não como Rainha, mas como sua irmã menor que se queria poer em

suas mãos, de que se contentaria receber o que elle quizesse, e lhe

parecesse razão.

O conde d'Arroyollos, como era homem virtuoso e de justa tenção,

acceitou com boa vontade o negocio, e o Regente a que o dito conde por

Vasco Gil, seu secretario, o notificou, o ouviu e recebeu com muito

melhor mostrança, e andando já em apontamentos com esperança de bôa

conclusão, chegou recado certo ao Regente, como a Rainha D. Lianor

fallecera na mesma cidade de Toledo, sexta-feira XIX dias de Fevereiro

de mil quatrocentos e quarenta e cinco.

Foi sua morte arrebatada, sem ter uma hora de accordo para o que á sua

alma e á sua fazenda cumpria, em que houve violenta presumpção que fôra

de peçonha; porque em lhe lançando uma ajuda, que por ser um pouco

achacada requerera, logo sem entrevalo nem repouso deu alma a Deus. E a

opinião dos mais foi que esta morte lhe ordenara, não o Infante D.

Pedro, como muitos maliciosos quizeram falsamente dizer, mas o

Condestabre D. Alvaro de Luna, por meio de uma mulher da villa de

Ilhescas, que em casa da Rainha tinha grande entrada e muita

familiaridade. Receoso que, se a Rainha vivesse, estando em a cidade de

Toledo, ordenaria como o Infante D. Anrique seu irmão, tornasse a ella,

de que fôra já lançado. Porque foi avisado que ella o procurava e

concertava já com Pero Lopez d'Ayala, que na cidade era alcayde mór, e

cavalleiro mais principal, crendo que se o Infante fosse senhor de tal

cidade, o Condestabre o havia por cousa muito contraira a seu desejo e

proposito, que era destrui lo e desterra-lo do reino com seus irmãos, e

por argumento d'isto, outro tanto se presumio do mesmo Condestabre, que

ordenara á Rainha D. Maria, mulher d'El-Rei D. João, que após sua irmã

não durou com vida mais de XV dias.

E esta Rainha D. Maria jaz sepultada na capella mór do mosteiro

d'Aguadallupe.

O Regente como soubesse do fallecimento da Rainha, enviou logo pela

Infante D. Joana, que ficara e estava em Toledo em grande desamparo, e a

foi ao extremo receber, e trouxe mui honradamente para Lisboa, onde a

poz em companhia da Infante D. Catharina sua irmã, em poder de Violante

Nogueira, e tomou para El-Rei todolos criados que ficaram da Rainha,

tirando alguns em que tinha suspeita e descontentamento.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) · 第 12 / 69 题