_De como o Regente fez côrtes geraes, em que leixou a El-Rei a
primeira vez o Regimento do Reino, segundo era obrigado, e como
El-Rei lh'o tornou a dar_
E consirando o Regente, como para o Janeiro do anno que logo entrava de
mil e quatrocentos e quarenta e seis, El-Rei D. Affonso cumpria idade de
XIV annos, em que, segundo fôro d'Espanha, qualquer Principe Real deve
haver inteira posse e administração de seu reino e senhorio, e
lembrando-se isso mesmo da obrigação em que por sua fé e juramento
ficara de a este tempo livremente lhe entregar o reino, querendo
inteiramente assi cumprir, fez para isso côrtes geraes e solemnes em
Lisboa, e na salla grande dos paços, sendo El-Rei com os Infantes e
senhores, e seus officiaes e procuradores, em sua costumada e antiga
ordenança, o doutor Diogo Affonso Mangancha, em nome do Infante D.
Pedro, fez uma louvada oração, cuja sustancia se concludio em quatro
cousas.
«A primeira, apresentar e entregar alli El-Rei em tal disposição de sua
pessoa, siso e entender, manhas e virtudes, como de sua edade não cria
que no mundo outro tal houvesse; porque dava e dessem todos muitas
graças a Deus. A segunda, que no regimento do reino que todos lhe deram,
como quer que para o bem fazer, elle com todas suas forças, entender, e
diligencia fizera muito a além do que podera; porém que pelo grande
trabalho, que em nome d'outrem era reger, especialmente em tempos de
tantos desvairos e balanços como no seu se seguiram, elle confessava
tel-o feito muito áquem do que devia, de que pedia perdão. A terceira,
em dar aguardecimentos áquelles, que no tal caso bem e lealmente
serviram e ajudaram, guardando nas palavras o acatamento, mais e menos,
segundo cabia nas calidades das pessoas e estados do reino que eram
presentes. A quarta conclusão foi, que em caso que não fôra direito nem
costume aos Principes de tão pequena edade, como eram a quatorze annos
dar-se livre poder de per si regerem reinos e senhorios, que a El-Rei
seu Senhor vista em todo sua perfeição, por graça especial lhe devia ser
dado, como a outro que fosse de muitos mais dias. E que para isso lhe
entregava alli mui livremente, e sem cautella, seu Regimento.»
Metendo-lhe logo com rostro mui alegre a vara da justiça nas mãos, que
em giolhos e com muito acatamento lhe beijou.
E depois d'El-Rei ser recolhido á sua camara, onde era o Infante D.
Fernando, seu irmão, e o Infante D. Anrique, seu tio, com outros muitos
senhores, o Infante D. Pedro, praticando com elle a maneira que d'hi em
diante teria em reger, El-Rei depois de bem ouvir, lhe pediu que até vêr
o que n'isso poderia fazer, elle inteiramente mandasse e fizesse em seu
nome o que d'antes fazia; porque receava de per si só sem sua ajuda ou
d'outrem não poder com tamanho cargo.
E de hi a tres dias se fez na ordenança passada outro ajuntamento, em
que o mesmo doutor Diogo Affonso em nome d'El-Rei fez outra falla,
porque sustancialmente se declarou «que havia por recebido em si do
Infante D. Pedro seu tio e padre o inteiro regimento de seu reino,
dando-lhe, por isso com largo recontamento de seus muitos serviços e
merecimentos, grandes agardecimentos com muitos seus louvores,
outorgando-lhe não sómente auctorisadas quitações de todo o tempo de sua
governança; mas ainda por maior sua honra, que ficasse em registo por
verdadeiro e claro testemunho, da obrigação em que por isso ficava a
elle e a seus filhos, com todolos que d'elles descendessem; porque
conhecia e declarava que nunca algum Principe fôra no mundo com tanto
amor e em tanta perfeição criado, nem em manhas e costumes reaes tão bem
ensinado, nem com tanta lealdade e obediencia servido e tratado, como
elle sempre fôra do Infante D. Pedro seu tio e padre; porém porque elle
ainda não tinha idade para per si só reger sem perigo de si mesmo e das
cousas que regesse, nem tivera a pratica e esperiencia d'ellas como para
Rei cumpria, e era por isso necessario tomar alguma pessoa que no
regimento o insinasse e ajudasse, e por todos respeitos, causas e
razões, não havia em todos seus reinos outro para isso mais pertencente
que o mesmo Infante D. Pedro, que elle de seu proprio moto, sem
lembrança nem requerimento d'alguem o escolhia para isso, e havia por
seu serviço e por bem de seus reinos que elle Infante tornasse com elle
a reger e governar seus reinos, assi como d'antes fazia, até elle se
sentir em desposição para per si só o poder fazer, mandando que a
obediencia que em regendo sempre lhe guardaram, essa d'hi em diante lhe
guardassem muito mais inteiramente.»
E aos grandes e povos de seus reinos que eram presentes, em sua presença
mandou muito agardecer por lhe requererem e darem por mulher a filha do
Infante D. Pedro seu tio e padre, de que sobre todalas cousas do mundo,
por muitas razões era mais contente; mas porque este seu casamento
quando primeiramente foi em Obidos celebrado, por ventura por se fazer
ante de haver idade cumprida e necessaria, para isso sem sua aprovação
pareceria defeituoso, elle que então a tinha já para isso de todo
perfeita, o aprovava e consentia, como se n'aquella hora de seu prazer,
e com sua inteira liberdade novamente o fizesse.