_De como o Infante D. João falleceu, e que filhos d'elle ficaram_
No fim do mez de Outubro d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e
dois, o Infante D. João em a villa d'Alcacere do Sal acabou sua vida de
febre, d'onde levaram seu corpo ao mosteiro da Batalha, onde tem sua
sepultura, dentro da capella d'El-Rei D. João seu padre, e foi sua morte
com dôr e tristeza de muitos muito sentida; porque era Principe de
grande casa, e em que havia muitas bondades e virtudes sem algum vicio
que as minguassem, em especial era muito amigo do bem commum d'estes
reinos, que por elle mostraram claros signaes da perda que n'elle
perderam.
E o que de sua morte e privação mostrou sobre todos ser mais triste e
anojado, foi o Infante D. Pedro que era em Coimbra, onde como soube de
seu fallecimento, cahiu de verdadeiro nojo em cama á morte, não havendo
em sua enfermidade outra causa, e não era sem razão; porque eram irmãos
que sem cautella e mui verdadeiramenta se amaram, e foram sempre em todo
mui conformes, e o amor que o Infante D. Pedro lhe tinha não ficou sem
experiencia de ser mui conhecido; porque não sómente na vida, mas depois
da morte muito mais claro em todas suas cousas lh'o mostrou; porque do
Infante D. João ficaram tres filhas e um filho. O filho houve nome D.
Diogo, a que o Regente logo em nome d'El-Rei fez Condestabre, e deu o
Mestrado de Santiago com todalas rendas e cousas que o Infante seu padre
tinha, e falleceu logo muito moço, e a filha maior a que chamavam D.
Isabel, que de virtudes da alma e perfeições do corpo foi em todo
cumprida, casou com El-Rei D. João de Castella, que sendo elle de edade
de quarenta annos a houve por segunda sua mulher, de que nasceu real
geração e sobre todas mui excellente. E a segunda filha do Infante D.
João houve nome D. Breatiz, esta casou o Infante D. Pedro com o Infante
D. Fernando, irmão d'El-Rei D. Affonso, de que houveram por filhos, a
sobre todas mui virtuosa a Rainha D. Lianor, mulher que foi d'El-Rei D.
João o segundo d'estes reinos de Portugal, e El-Rei D. Manoel nosso
Senhor, que por fallecimento d'outro legitimo herdeiro, directa e
ligitimamente os sobcedeu. E a terceira filha do Infante D. João se
chamou D. Filippa, que sem casar, casando e fazendo muito bem a seus
criados e criadas, acabou virtuosamente sua vida.
N'este anno estando o Regente com El-Rei na cidade d'Evora, falleceu sem
herdeiros um D. Duarte, que foi senhor de Bragança, e tinha o castello
d'Outeiro de Miranda; veiu logo á côrte o conde de Barcellos, e pediu
este senhorio e castello ao Regente, o qual se escusou d'elle por o ter
já promettido ao conde d'Ourem seu filho, que no requerimento se
antecipara primeiro, e porém logo entre o pae e o filho houve n'isso tal
concordia, que o conde d'Ourem por ser filho maior esperando todo
sobceder, juntamente desistiu da promessa e por prazer do Regente a
passou ao conde de Barcellos, que logo pelo dito Infante D. Pedro foi
feito e intitulado duque de Bragança. Mas não se seguiu assi, porque o
filho que era moço, falleceu primeiro que o pae que era já mui velho,
como se dirá.