_D'outra embaixada que ao Regente veiu d'El-Rei e do povo de
Castella, sobre as mesmas cousas da Rainha, e da resposta que
houveram, e como se entendeu em alguma concordia e contentamento da
Rainha_
E o Infante D. Pedro se foi com El-Rei á cidada do Porto, onde tornaram
a elle sobre o mesmo caso da Rainha quatro embaixadores, dois em nome
d'El-Rei de Castella, e dois em nome do seu povo; porque a Rainha D.
Lianor, quando viu os primeiros embaixadores tornar com resposta á sua
esperança e desejo tão contraira, começou claramente de conhecer os
enganos em que caira, e lastimando-se d'isso aos Infantes seus irmãos,
elles por em alguma maneira cumprirem com ella, fizeram com El-Rei que
os procurados dos povos de seus reinos em côrtes ouvissem, como ouviram
suas querellas e agravos contra o Regente, e com tal graveza se
propozeram, que foi accordado enviar-se já por final aquella embaixada,
em nome d'El-Rei e do povo com temerosas protestações, dizendo que
quando aos requerimentos d'ella não se satisfizesse, poderiam então
mover guerra, sem parecer que por sua parte as pazes se quebrantavam.
Sobre a qual o Regente teve conselho, e enviou avisos aos Infantes e
pessoas principaes do reino, e foi determinado que o Infante não desse
determinada resposta aos embaixadores, e que por dilatar a remettesse, á
que El-Rei seu Senhor enviaria, para que offereceria a El-Rei de
Castella todo o que por contemplação sua e de seu povo á Rainha n'estes
reinos se devia e podia fazer.
E com isto despediu os embaixadores, e se foi com El-Rei á villa de
Tentuguel, que é no Campo Mondego. Onde accordou de enviar, como enviou
por embaixadores a Castella, como ficara, a Lionel de Lima, que depois
foi primeiro bisconde de Villa Nova de Caminha, e o doutor Ruy Gomes
d'Alvarenga. Os quaes bem instructos e avisados do que haviam de dizer,
se foram a El-Rei de Castella, com quem falaram em apartado as cousas de
sua embaixada, em que sustancialmente concludiram que a Rainha por
muitas causas, razões e impedimentos que apontaram, não devia vir a
estes reinos, nem menos ter a governança d'elles, nem a criação d'El-Rei
e seu irmão que requeria, e que o reino todo havia por tamanho
inconviniente para o bem e assessego d'elle, que para o não consentir se
despoeriam ante a todo trabalho e perigo; mas ainda que por direito não
houvesse para isso obrigação, que por ser madre d'El-Rei seu Senhor, e
por elle Rei o requerer, lhe dariam onde ella quizesse fóra de Portugal,
seu dote e arras, e todas as cousas suas que n'este reino se achassem,
que não fossem da Corôa, e mais dez mil dobras d'ouro para satisfação
dos que a serviram. E com isto outras muitas razões, com exemplos de
merecimentos passados, porque El-Rei devia amar muito mais El-Rei seu
Senhor e ao Regente, que a Rainha D. Lianor nem a seus irmãos.
El-Rei de Castella depois de os ouvir, ante de lhe responder teve com os
grandes do seu reino sobr'isso conselho, em que eram os Infantes
d'Aragão e a Rainha, onde para a paz e para guerra houve votos e
sentenças contrairas; e finalmente o conde de Faram, e um Bispo da Avila
que eram presentes, com fundamentos e razões mui justas concludiram que
por este negocio da Rainha, ainda que fosse irmã, nem filha d'El-Rei,
que pelas pazes que com Portugal tinha feitas e juradas, não lhe podia
nem devia fazer guerra, e que a mór ajuda que á Rainha podiam dar, assi
era de rogos sómente; com os quaes dois senhores muitos outros se foram.
E o conde de Faram aderençou sua falla para a Rainha, e lhe disse:
«Senhora, bem creiu em caso que o voto que dei seja contrairo a vosso
desejo que não leixará vossa mercê de crêr que eu amo muito vosso
serviço, e dos Senhores Infantes vossos irmãos, por cuja honra e estado
eu trabalhei e padeci o que elles sabem, cá por isso o dei e o disse, e
por isso vos quero bem conselhar. Soes primeiramente muito enganada em
procurardes entrar em Portugal por guerra, e contra vontade do Regente e
dos Infantes seus irmãos; pois sabeis que todo o reino por natureza os
ama, e por obrigação e vontade os hão-de servir, e das mostranças que
alguns lá fizeram de vos recolher e servir, já deveis de ser
desenganada, e a concordia do conde de Barcellos e do Marechal com o
Infante D. Pedro vos é para isso claro exemplo, e que vos pareça que a
necessidade do tempo lh'o fez assi fazer, ainda não creaes, vendo elles
as cousas revoltas que não sostenham a parte de seu Rei natural antes
que a do estranho, e mais eu não sei que segurança tereis do amor do
povo que guerreardes por fogo e sangue, que tal caso se não pode
escusar, antes para vossa vida conseguireis odio, desamor e perigo, que
por todas razões não deveis querer; não fallo já no grande trabalho e
muita perda que estes reinos de Castella receberam com esperança de tão
duvidosa victoria. Aquelle reino não é pequeno, e é mui forte e de gente
leal e mui esforçada, e será mui máo de sogigar por força. E para melhor
verdes esta impossibilidade, sabeis bem que um cavalleiro de duas
fortalezas tem n'estes reinos coração de se levantar contra a obediencia
e serviço d'El-Rei nosso Senhor; e quero dizer se o devo dizer, que não
é poderoso de o cercar nem tomar, quanto mais que os Infantes vossos
irmãos que aqui estão, de necessidade conviria terem n'estes reinos
outra gente d'armas, e não pouca contra o Condestabre e o Mestre
d'Alcantara seus imigos, e que seria impossivel ou com abatimento de
suas honras e estados se sogigarem a elles, que seria grande vituperio
em sangue real, que Deus nunca consinta, cá não haveis de duvidar que
estes dois homens pela grande imizade que comvosco e com elles tem e
pelas boas obras que do Regente em suas necessidades e affrontas tem
recebidas, o hão sempre de servir e ajudar, por mais enfraquentar vosso
poder, cá de todo são desconfiados de vossa concordia, e fazendo ainda
esta empreza tão leve, que sem muita pena cobrassemos o reino de
Portugal, não creaes que o dessemos a El-Rei vosso filho, nem a vós o
Regimento d'elle; porque para cobrar novos reinos não ha fé nem verdade,
cá é aos mortaes cobiça sobre todas, e sobre tudo com reverença e
acatamento d'El-Rei nosso Senhor que aqui está, vos digo que sua
Senhoria tem com gram razão grande amor ao Regente. E crêde que por só
importunação de que por vós e vossos irmãos foi vencido, tem feito
contra elle o que fez, n'estas embaixadas que enviou, cá não ha por sua
vontade de proseguir cousa que em sua honra e estado muito desfaça, pelo
qual Senhora, meu conselho é que pelo que a vosso habito, consciencia, e
assessego pertence, acceiteis qualquer razoado partido que de Portugal
vos fizerem, cá do contrairo sede certa, que cada vez recebereis mais
dano, e mór paixão.
Este desengano do conde de Faram foi muito louvado, e muitos do conselho
o seguiram, e El-Rei o approvou, pelo qual por parte da Rainha logo se
apontaram alguns meios, em que para ella requereram uma grande somma de
dobrões. E para alguns seus, casamentos assignados, e para outros
satisfações de dinheiro, pago em certo modo e tempo, com outras cousas
que tambem requereram, segundo que por escripto o apontaram, e com estes
meios vieram os embaixadores a Portugal, com fundamento de logo tornarem
com a concordia; e porque o Regente sem todo o reino e principaes d'elle
não quiz n'elles tomar certo assento, seguiu-se no ajuntamento para isso
tanta dilação, que n'estes reinos, e nos de Castella principalmente
sobrevieram em tanto cousas de taes afrontas e necessidades, que as da
Rainha ficaram de todo por acabar, até que com ellas acabou também sua
vida, como se dirá.