CAPITULO LXXX

_D'outra embaixada que ao Regente veiu d'El-Rei e do povo de

Castella, sobre as mesmas cousas da Rainha, e da resposta que

houveram, e como se entendeu em alguma concordia e contentamento da

Rainha_

E o Infante D. Pedro se foi com El-Rei á cidada do Porto, onde tornaram

a elle sobre o mesmo caso da Rainha quatro embaixadores, dois em nome

d'El-Rei de Castella, e dois em nome do seu povo; porque a Rainha D.

Lianor, quando viu os primeiros embaixadores tornar com resposta á sua

esperança e desejo tão contraira, começou claramente de conhecer os

enganos em que caira, e lastimando-se d'isso aos Infantes seus irmãos,

elles por em alguma maneira cumprirem com ella, fizeram com El-Rei que

os procurados dos povos de seus reinos em côrtes ouvissem, como ouviram

suas querellas e agravos contra o Regente, e com tal graveza se

propozeram, que foi accordado enviar-se já por final aquella embaixada,

em nome d'El-Rei e do povo com temerosas protestações, dizendo que

quando aos requerimentos d'ella não se satisfizesse, poderiam então

mover guerra, sem parecer que por sua parte as pazes se quebrantavam.

Sobre a qual o Regente teve conselho, e enviou avisos aos Infantes e

pessoas principaes do reino, e foi determinado que o Infante não desse

determinada resposta aos embaixadores, e que por dilatar a remettesse, á

que El-Rei seu Senhor enviaria, para que offereceria a El-Rei de

Castella todo o que por contemplação sua e de seu povo á Rainha n'estes

reinos se devia e podia fazer.

E com isto despediu os embaixadores, e se foi com El-Rei á villa de

Tentuguel, que é no Campo Mondego. Onde accordou de enviar, como enviou

por embaixadores a Castella, como ficara, a Lionel de Lima, que depois

foi primeiro bisconde de Villa Nova de Caminha, e o doutor Ruy Gomes

d'Alvarenga. Os quaes bem instructos e avisados do que haviam de dizer,

se foram a El-Rei de Castella, com quem falaram em apartado as cousas de

sua embaixada, em que sustancialmente concludiram que a Rainha por

muitas causas, razões e impedimentos que apontaram, não devia vir a

estes reinos, nem menos ter a governança d'elles, nem a criação d'El-Rei

e seu irmão que requeria, e que o reino todo havia por tamanho

inconviniente para o bem e assessego d'elle, que para o não consentir se

despoeriam ante a todo trabalho e perigo; mas ainda que por direito não

houvesse para isso obrigação, que por ser madre d'El-Rei seu Senhor, e

por elle Rei o requerer, lhe dariam onde ella quizesse fóra de Portugal,

seu dote e arras, e todas as cousas suas que n'este reino se achassem,

que não fossem da Corôa, e mais dez mil dobras d'ouro para satisfação

dos que a serviram. E com isto outras muitas razões, com exemplos de

merecimentos passados, porque El-Rei devia amar muito mais El-Rei seu

Senhor e ao Regente, que a Rainha D. Lianor nem a seus irmãos.

El-Rei de Castella depois de os ouvir, ante de lhe responder teve com os

grandes do seu reino sobr'isso conselho, em que eram os Infantes

d'Aragão e a Rainha, onde para a paz e para guerra houve votos e

sentenças contrairas; e finalmente o conde de Faram, e um Bispo da Avila

que eram presentes, com fundamentos e razões mui justas concludiram que

por este negocio da Rainha, ainda que fosse irmã, nem filha d'El-Rei,

que pelas pazes que com Portugal tinha feitas e juradas, não lhe podia

nem devia fazer guerra, e que a mór ajuda que á Rainha podiam dar, assi

era de rogos sómente; com os quaes dois senhores muitos outros se foram.

E o conde de Faram aderençou sua falla para a Rainha, e lhe disse:

«Senhora, bem creiu em caso que o voto que dei seja contrairo a vosso

desejo que não leixará vossa mercê de crêr que eu amo muito vosso

serviço, e dos Senhores Infantes vossos irmãos, por cuja honra e estado

eu trabalhei e padeci o que elles sabem, cá por isso o dei e o disse, e

por isso vos quero bem conselhar. Soes primeiramente muito enganada em

procurardes entrar em Portugal por guerra, e contra vontade do Regente e

dos Infantes seus irmãos; pois sabeis que todo o reino por natureza os

ama, e por obrigação e vontade os hão-de servir, e das mostranças que

alguns lá fizeram de vos recolher e servir, já deveis de ser

desenganada, e a concordia do conde de Barcellos e do Marechal com o

Infante D. Pedro vos é para isso claro exemplo, e que vos pareça que a

necessidade do tempo lh'o fez assi fazer, ainda não creaes, vendo elles

as cousas revoltas que não sostenham a parte de seu Rei natural antes

que a do estranho, e mais eu não sei que segurança tereis do amor do

povo que guerreardes por fogo e sangue, que tal caso se não pode

escusar, antes para vossa vida conseguireis odio, desamor e perigo, que

por todas razões não deveis querer; não fallo já no grande trabalho e

muita perda que estes reinos de Castella receberam com esperança de tão

duvidosa victoria. Aquelle reino não é pequeno, e é mui forte e de gente

leal e mui esforçada, e será mui máo de sogigar por força. E para melhor

verdes esta impossibilidade, sabeis bem que um cavalleiro de duas

fortalezas tem n'estes reinos coração de se levantar contra a obediencia

e serviço d'El-Rei nosso Senhor; e quero dizer se o devo dizer, que não

é poderoso de o cercar nem tomar, quanto mais que os Infantes vossos

irmãos que aqui estão, de necessidade conviria terem n'estes reinos

outra gente d'armas, e não pouca contra o Condestabre e o Mestre

d'Alcantara seus imigos, e que seria impossivel ou com abatimento de

suas honras e estados se sogigarem a elles, que seria grande vituperio

em sangue real, que Deus nunca consinta, cá não haveis de duvidar que

estes dois homens pela grande imizade que comvosco e com elles tem e

pelas boas obras que do Regente em suas necessidades e affrontas tem

recebidas, o hão sempre de servir e ajudar, por mais enfraquentar vosso

poder, cá de todo são desconfiados de vossa concordia, e fazendo ainda

esta empreza tão leve, que sem muita pena cobrassemos o reino de

Portugal, não creaes que o dessemos a El-Rei vosso filho, nem a vós o

Regimento d'elle; porque para cobrar novos reinos não ha fé nem verdade,

cá é aos mortaes cobiça sobre todas, e sobre tudo com reverença e

acatamento d'El-Rei nosso Senhor que aqui está, vos digo que sua

Senhoria tem com gram razão grande amor ao Regente. E crêde que por só

importunação de que por vós e vossos irmãos foi vencido, tem feito

contra elle o que fez, n'estas embaixadas que enviou, cá não ha por sua

vontade de proseguir cousa que em sua honra e estado muito desfaça, pelo

qual Senhora, meu conselho é que pelo que a vosso habito, consciencia, e

assessego pertence, acceiteis qualquer razoado partido que de Portugal

vos fizerem, cá do contrairo sede certa, que cada vez recebereis mais

dano, e mór paixão.

Este desengano do conde de Faram foi muito louvado, e muitos do conselho

o seguiram, e El-Rei o approvou, pelo qual por parte da Rainha logo se

apontaram alguns meios, em que para ella requereram uma grande somma de

dobrões. E para alguns seus, casamentos assignados, e para outros

satisfações de dinheiro, pago em certo modo e tempo, com outras cousas

que tambem requereram, segundo que por escripto o apontaram, e com estes

meios vieram os embaixadores a Portugal, com fundamento de logo tornarem

com a concordia; e porque o Regente sem todo o reino e principaes d'elle

não quiz n'elles tomar certo assento, seguiu-se no ajuntamento para isso

tanta dilação, que n'estes reinos, e nos de Castella principalmente

sobrevieram em tanto cousas de taes afrontas e necessidades, que as da

Rainha ficaram de todo por acabar, até que com ellas acabou também sua

vida, como se dirá.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) · 第 8 / 69 题