parte de Isabel, tinha excitado a curiosidade do cavalheiro; seu
espirito perdia-se n'um dedalo de duvidas e incertezas.
Cada vez o mysterio se obscurecia mais; a principio Isabel dizia que
tinhão escarnecido della; agora dava a entender que era culpada: o
cavalheiro resolveu a todo o transe penetrar o que para elle era um
enigma.
--D. Isabel!
A moça tirou as mãos do rosto; tinha as faces inundadas de lagrimas.
--Porque chorais? perguntou Alvaro soprezo.
--Não m'o pergunteis!...
--Escondeis-me tudo! Deixais-me na mesma duvida! O que me fizestes vós?
Dizei!
--Quereis saher? perguntou a moça com exaltação.
--Tanto tempo ha que supplico-vos!
Alvaro tomara as duas mãos da moça, e com os olhos fitos nos della
esperava emfim uma resposta.
Isabel estava branca como a cambraia do seu vestido; sentia a pressão
das mãos do moço nas suas e o seu halito que vinha bafejar-lhe as
faces.
--Me perdoareis?
--Sim! Mas porque?
--Porque...
Isabel pronunciou esta palavra n'uma especie de delirio; uma revolução
subita se tinha operado em toda a sua organisação.
O amor profundo, vehemente que dormia no intimo de sua alma, a paixão
abafada e reprimida, por tanto tempo, acordára, e quebrando as cadêas
que a retinhão erguia-se impetuosa e indomavel.
O simples contacto das mãos do moço tinha causado essa revolução; a
menina timida ia transformar-se na mulher apaixonada: o amor ia
transbordar do coração como a torrente caudalosa do leito profundo.
As faces se abrazárão; o seio dilatou-se; o olhar envolveu o moço,
ajoelhado a seus pés, em fluidos luminosos; a boca entreaberta parecia
esperar, para pronuncia-la, a palavra que sua alma devia trazer aos
labios.
Alvaro fascinado a admirava; nunca a vira tão bella; o moreno suave do
rosto e do collo da moça illuminava-se de reflexos doces e tinha
ondulações tão suaves, que o pensamento ia, sem querer, enleiar-se
nas curvas graciosas como para sentir-lhe o contacto, espreguiçar-se
pelas fórmas palpitantes.
Tudo isto passára rapidamente emquanto Isabel hesitava ao proferir a
primeira palavra.
Por fim vacillou: reclinando sobre o hombro de Alvaro, como uma flor
desfallecida sobre a haste, murmurou:
Porque... vos amo!
XII
AS MENSAGENS DE PERY
Alvaro ergueu-se como se os labios da moça tivessem lançado nas suas
veias uma gota do veneno subtil dos selvagens que matava com um atomo.
Pallido, atonito, fitava na menina um olhar frio e severo; seu coração
leal exagerava a affeição pura que votava a Cecilia a tal ponto, que o
amor de Isabel lhe parecia quasi uma injuria; era ao menos uma
profanação.
A moça com as lagrimas nos olhos, sorria amargamente; o movimento
rapido de Alvaro tinha trocado as posições; agora era ella que estava
ajoelhada aos pés do cavalheiro.
Soffria horrivelmente; mas a paixão a dominava; o silencio de tanto
tempo queimava-lhe os labios; seu amor precisava respirar, expandir-se,
embora depois o desprezo e mesmo o odio o viessem recalcar no coração.
--Promettestes perdoar-me!... disse ella supplicante.
--Não tenho que perdoar-vos, D. Isabel, respondeu o moço erguendo-a;
peço-vos unicamente que não fallemos mais de semelhante cousa.
--Pois bem! Escutai-me um momento, um instante só, e juro-vos por minha
mãi, que não ouvireis nunca mais uma palavra minha! Se quereis, nem
mesmo vos olharei! Não preciso olhar para ver-vos!
E acompanhou estas palavras comum gesto sublime de resignação.
--Que desejais de mim? perguntou o moço.
--Desejo que sejais meu juiz. Condemnai-me depois; a pena vindo de vós
será para mim um consolo. M'o negareis?
Alvaro sentio-se commovido por essas palavras soltas com o grito de um
desespero surdo e concentrado.
--Não commettestes um crime, nem precisais de juiz; mas se quereis um
irmão para consolar-vos, tendes em mim um dedicado e sincero.
--Um irmão!... exclamou a moça. Seria ao menos uma affeição.
--E uma affeição calma e serena que vai bem outras, D. Isabel.
A moça não respondeu; sentio a doce exprobração que havia naquellas
palavras; mas sentia tambem o amor ardente que enchia sua alma, e a
suffocava.
Alvaro tinha-se lembrado da recommendação de D. Antonio de Mariz; o
que a principio fora uma simples compaixão tornou-se sympathia. Isabel
era desgraçada desde a infancia; devia pois consola-la, e desde já
cumprir a ultima vontade do velho fidalgo, a quem amava e respeitava
como pai.
--Não recuseis o que vos peço, disse elle affectuosamente, aceitai-me
por vosso irmão.
--Assim deve ser, respondeu Isabel tristemente, Cecilia me chama sua
irmã; vós deveis ser meu irmão. Aceito! Sereis bom para mim?
--Sim, D. Isabel.
--Um irmão não deve tratar sua irmã pelo seu nome simplesmente?
perguntou ella com timidez.
Alvaro hesitou.
--Sim, Isabel.
A moça recebeu essa palavra como um gozo supremo; parecia-lhe que os
labios do cavalheiro, pronunciando assim familiarmente o seu nome, o
acariciavão.
--Obrigada! Não sabeis que bem me faz ouvir-vos chamar-me assim. É
preciso ter soffrido muito para que a felicidade esteja em tão pouco.
--Contai-me as vossas magoas.
--Não; deixai-as comigo; talvez depois as conte; agora só quero
mostrar-vos que não sou tão culpada como pensais.
--Culpada! Em que!
--Em querer-vos, disse Isabel corando.
Alvaro tornou-se frio e reservado.
--Sei que vos incommodo: mas é a primeira e a ultima vez; ouvi-me,
depois ralhareis comigo, como um irmão com sua irmã.
A voz de Isabel era tão doce, seu olhar tão supplicante, que Alvaro
não pode resistir.
--Fallai, minha irmã.
--Sabeis o que eu sou; uma pobre orphã que perdeu sua mãi muito cedo,
e não conheceu seu pai. Tenho vivido da compaixão alheia; não me
queixo, mas soffro. Filha de duas raças inimigas devia amar a ambas;
entretanto minha mãi desgraçada fez-me odiar a uma, o desdem com que
me tratão fez-me desprezar a outra.
--Pobre moça! murmurou Alvaro lembrando-se segunda vez das palavras de
D. Antonio de Mariz.
--Assim isolada no meio de todos, alimentando apenas o sentimento amargo
que minha mãi deixára no meu coração, sentia a necessidade de amar
alguma cousa. Não se póde viver sómente de odio e desprezo!...
--Tendes razão, Isabel.
--Inda bem que me approvais. Precisava amar; precisava de uma affeição
que me prendesse á vida. Não sei como, não sei quando, comecei a
amar-vos; mas em silencio, no fundo de minha alma.
A moça embebeu um olhar nos olhos de Alvaro.
--Isto me bastava. Quando vos tinha olhado horas e horas, sem que o
percebesseis, julgava-me feliz; recolhia-me com a minha doce imagem, e
conversava com ella, ou adormecia, sonhando bem lindos sonhos.
O cavalheiro sentia-se perturbado; mas não ousava interromper a Isabel.
--Não sabeis que segredos tem esse amor que vive só de suas illusões,
sem que um olhar, uma palavra o alimente. A mais pequenina cousa é um
prazer, uma ventura suprema. Quantas vezes não acompanhava o raio de
lua que entrava pela minha janella e que vinha a pouco e pouco se
aproximando de mim; julgava vêr naquella doce claridade o vosso
semblante, e esperava tremula de prazer como se vos esperasse. Quando o
raio se chegava, quando a sua luz assetinada cahia sobre mim, sentia um
gozo immenso; acreditava que me sorrieis, que vossas mãos aperta vão
as minhas, que vosso rosto se reclinava para mim, e vossos labios me
fallavão...
Isabel pendeu a cabeça languida sobre o hombro de Alvaro; o cavalheiro
palpitando de emoção passou o braço pela cintura da moça e apertou-a
ao coração; mas de repente afastou-se com um movimento brusco.
--Não vos arreceieis de mim, disse ella com melancolia, sei que não me
deveis amar. Sois nobre e generoso; o vosso primeiro amor serão ultimo.
Podeis-me ouvir sem temor.
--Que vos resta a dizer-me ainda? perguntou Alvaro.
--Resta a explicação que ha pouco me pedieis.
--Ah! emfim!
Isabel contou então como apezar de toda a força de vontade com que
guardava o seu segredo se havia trahido; contou a conversa de Cecilia, e
o modo por que a menina lhe fizera aceitar o bracelete.
--Agora sabeis tudo; o meu affecto vai de novo entrar no meu coração,
donde nunca sahiria se não fosse a fatalidade que fez com que vos
aproximasseis de mim, e me dirigisseis algumas palavras doces. A
esperança para as almas que não a conhecêrão ainda, illude tanto e
fascina, que devo merecer-vos desculpa. Esquecei-me, meu irmão, antes
que lembrar-vos de mim para odiar-me!
--Fazeis-me uma injustiça, Isabel; não posso é verdade ser para vós
senão um irmão, mas esse titulo sinto que o mereço pela estima e pela
affeição que me inspirais. Adeus, minha boa irmã.
O moço pronunciou estas ultimas palavras com uma terna effusão, e,
apertando a mão de Isabel, desappareceu: precisava estar só para
reflectir sobre o que lhe acontecia.
Estava agora convencido que Cecilia não o amava, e nunca o havia amado;
e esta descoberta tinha lugar no mesmo dia em que D. Antonio de Mariz
lhe dava a mão de sua filha!
Sob o peso da magoa dolorosa, como é sempre a primeira magoa do
coração, o cavalheiro afastou-se distrahido, com a cabeça baixa;
caminhou sem direcção, seguindo a linha que traçavão os grupos de
arvores, destacados aqui e alli sobre a campina.
Estava quasi a anoitecer: a sombra pallida e descorada do crepusculo
estendia-se como um manto de gaze sobre a natureza; os objectos ião
perdendo a forma, a cor, e ondulavão no espaço vagos e indecisos.
A primeira estrella engolfada no azul do céo luzia a furto como os
olhos de uma menina que se abrem ao acordar, e cerrão-se outra-vez
temendo a claridade do dia: um grillo escondido no toco de uma arvore
começava a sua canção; era o trovador insecto saudando a
aproximação da noite.
Alvaro continuava o seu passeio, sempre pensativo, quando de repente
sentio um sopro vivo bafejar-lhe o rosto; erguendo os olhos viu diante
de si uma longa flexa fincada no chão, e que ainda oscillava com o
movimento que lhe tinha imprimido o arco.
O moço recuou um passo e levou a mão á cinta; logo reflectindo
aproximou-se da seta e examinou a plumagem de que estava ornada; erão
de um lado pennas de azulão e do outro pennas de garça.
Azul e branco erão as côres de Pery; erão as cores dos olhos e do
rosto de Cecilia.
Um dia a menina, semelhante a uma gentil castellã da media idade,
tinha-se divertido em explicar ao indio, como os guerreiros que servião
uma dama, costumavão usar nas armas de suas côres.
--Tu dás a Pery as tuas cores, senhora? disse o indio.
--Não tenho, respondeu a menina; mas vou tomar umas para te dar;
queres?
--Pery te pede.
--Quaes achas mais bonitas?
--A de teu rosto, e a de teus olhos.
Cecilia sorrio.
--Toma-as; eu te as dou.
Desde este dia, Pery enramou todas as suas settas de pennas azues e
brancas; seus ornatos, além de uma faxa de plumas escarlates que fôra
tecida por sua mãi, erão ordinariamente das mesmas côres.
Foi por esta razão que Alvaro, vendo a plumagem da setta,
tranquillisou-se; conheceu que era de Pery, e comprehendeu o sentido da
phrase symbolica que o indio lhe mandava pelos ares.
Com effeito aquella flecha na linguagem de Pery não era mais do que um
aviso dado em silencio e de uma grande distancia; uma carta ou
mensageira muda, uma simples interjeição: _Alto_!
O moço esqueceu os seus pensamentos e lembrou-se do que Pery lhe havia
dito pela manhã; naturalmente o que acabava de fazer tinha relação
com esse mysterio que apenas deixara entrever.
Correu os olhos pelo espaço que se estendia diante delle, e sondou com
o olhar as moitas que o cercavão; não viu nada que merecesse
attenção, não percebeu um signal que lhe indicasse a presença do
indio.
Alvaro resolveu pois esperar; e parando junto da flecha, cruzou os
braços, e com os olhos fitos na linha escura da matta que se recortava
no fundo azul do horizonte, esperou.
Um instante depois uma pequena setta açoutando o ar veio cravar-se no
tope da primeira, e abalou-a com tal força que a haste inclinou-se;
Alvaro comprehendeu que o indio queria arrancar a flecha, e obedeceu á
ordem.
Immediatamente terceira seita cahia dous passos á direita do
cavalheiro, e outras forão-se succedendo na mesma direcção de duas em
duas braças até que uma mergulhou-se n'um arvoredo basto que ficava a
trinta passos do lugar onde parára a principio.
Não era difficil desta vez comprehender a vontade de Pery; Alvaro, que
acompanhava as settas á proporção que cahião, e que sabia indicarem
ellas o lugar onde devia parar, apenas viu a ultima sumir-se no
arvoredo, escondeu-se por entre a folhagem.
Dahi, com pequeno intervallo, viu tres vultos que passavão pouco mais
ou menos pelo logar que ha pouco havia deixado; Alvaro não os pôde
conhecer por causa da ramagem das arvores, mas viu que caminhavão
cautelosamente, e pareceu-lhe que tinhão as pistolas em punho.
Os vultos afastárão-se dirigindo-se á casa; o cavalheiro ia
segui-los, quando os folhas se abrirão, e Pery resvallando como uma
sombra, sem fazer o menor rumor, aproximou-se delle, e disse-lhe ao
ouvido uma palavra.
--São elles.
--Elles quem?
--Os inimigos brancos.
--Não te entendo.
--Espera: Pery volta.
E o indio desappareceu de novo nas sombras da noite que avançava
rapidamente.
XIII
TRAMA
Tornemos ao lugar onde deixámos Loredano e seus dois companheiros.
O italiano, depois que Alvaro e Pery se afastárão, levantou-se;
passada a primeira emoção, sentira um accesso de raiva e desespero por
lhe escaparem os seus inimigos.
Um instante lembrou-se de chamar os complices para atacar o cavalheiro e
o indio; mas essa idéa desvaneceu-se logo; o aventureiro conhecia os
homens que o seguião; sabia que podia fazer delles assassinos, mas
nunca homens de energia e resolução.
Ora, os dous inimigos que tinha a combater, erão respeitaveis; e
Loredano temeu comprometter ainda mais a sua causa, já muito mal
parada. Devorou pois em silencio a sua raiva, e começou a reflectir nos
meios de sahir da posição difficil em que se achava.
Neste meio tempo Ruy Soeiro e Bento Simões vinhão se aproximando
receiosos do que tinhão visto, e temendo o menor incidente que
complicasse a situação.
Loredano e seus companheiros olhárão-se em silencio um momento; havia
nos olhos desses ultimos uma interrogação muda e inquieta, a que
respondia perfeitamente o rosto pallido e contrahido do italiano.
--Não era elle!... murmurou o aventureiro com a voz surda.
--Como sabeis?
--Se fosse, acreditais que me deixasse a vida?
--É verdade; mas quem foi então?
--Não sei; porém agora pouco importa. Quem quer que fosse, é um homem
que sabe o nosso segredo, e pode denuncia-lo, se já não o fez.
Um homem?... murmurou Bento Simões que até então se conservara
silencioso.
--Sim; um homem. Quereis que fosse uma sombra?
--Uma sombra não, mas um espirito! acudío o aventureiro.
O italiano sorrio de escarneo.
--Os espiritos têm mais que fazer para se occuparem com o que vai por
este mundo; guardai as vossas abusões, e pensemos seriamente no partido
que devemos tomar.
--Lá quanto a isto, Loredano, é escusado; ninguem me tira que anda em
tudo isto uma cousa sobrenatural.
--Quereis calar-vos, estúpido carola! replicou o italiano com
impaciencia.
--Estupido!... Estupido sois vós que não vistes que não ha ouvido de
creatura que podesse ouvir as nossas palavras, nem voz humana que saia
da terra. Vinde! E vou mostrar-vos se o que digo é ou não a verdade.
Os dous acompanhárão Bento Simões e voltárão á touça de cardos,
onde tivera lugar a sua entrevista.
--Ide, Ruy, e fallai á guela despregada para vêr se Loredano ouve uma
palavra sequer.
Com effeito a experiencia mostrou-lhes o que Pery tinha conhecido; que o
som da voz entaipado dentro daquella especie de tubo, se elevava e
perdia no ar, sem que dos lados se podesse perceber a menor phrase. Se
porém o italiano se tivesse collocado sobre o formigueiro que penetrava
até ao chão onde ha pouco estavão sentados, teria tido a explicação
da scena anterior.
--Agora, disse Bento Simões, entrai; eu gritarei e vereis que a palavra
vos passará pela cabeça e não sahirá da terra.
--Quanto a isto pouco se me dá, respondeu o italiano. A outra
observação, sim, tranquillisa-me. O homem que nos ameaçou não ouvio;
desconfia apenas.
--Ainda insistis em que fosse um homem?
--Escutai, amigo Bento Simões; ha uma cousa de que tenho mais medo do
que de uma cobra; é de um homem visionario.
--Visionario! dizei crente!
--Um vale outro. Visionario ou crente, se me fallais outra vez em
espiritos e milagres, prometto-vos que ficareis neste lugar onde
servireis de carniça aos urubús.
O aventureiro tornou-se esverdinhado; não era a idéa da morte e sim da
pena eterna que segundo uma crença religiosa, soffrem as almas cujos
corpos ficão insepultos, o que mais o horrorisava.
--Pensastes?
--Sim.
--Admittis que fosse um homem?
--Admitto tudo.
--Jurais?
--Juro.
--Sobre...
--Sobre minha salvação.
O italiano soltou o braço do miseravel, que cahio de joelhos pedindo ao
Deus que offendia perdão para o perjurio que acabava de commetter.
Ruy Soeiro voltou: os tres seguirão calados o caminho que tinhão
feito; Loredano pensativo, seus companheiros cabisbaixos.
Sentárão-se á sombra de uma arvore; ahi permanecêrão quasi uma
hora, sem saber o que devião fazer, nem o que podião esperar. A
posição era critica; reconhecião que se achavão n'um desses lances
da vida, em que um passo, um movimento, precipita o homem no fundo do
abysmo, ou o salva da morte que vai cahir sobre elle.
Loredano media a situação com a audacia e energia que nunca o
abandonava nas occasiões extremas; uma luta violenta se travára neste
homem, só tinha agora um sentimento, uma fibra; era a sêde ardente do
gozo, sensualidade exacerbada pelo ascetismo do claustro e o isolamento
do deserto. Comprimida desde a infancia, a sua organisação se
expandira com vehemencia no meio desse paiz vigoroso, aos raios do sol
ardente que fazia borbulhar o sangue.
Então, no delirio dos instinctos materiaes, surgirão duas paixões
violentas.
Uma era a paixão do ouro; a esperança de poder um dia deleitar-se na
contemplação do thesouro fabuloso que como Tantalo elle ia tocar e
fugia-lhe.
A outra era a paixão do amor; a febre que lhe requeimava o sangue
quando via aquella menina innocente e candida, que parecia não dever
inspirar senão affeições castas.
A luta que naquelle momento o agitava dava-se entre essas duas paixões.
Devia fugir e salvar o seu thesouro, perdendo Cecilia? Devia ficar e
arriscar a vida para saciar o seu desejo infrene?
Ás vezes dizia comsigo que bastava-lhe a riqueza para poder escolher no
mundo uma mulher que amasse; outras parecia-lhe que o universo inteiro
sem Cecilia ficaria deserto, e inutil lhe seria todo o ouro que ia
conquistar.
Por fim ergueu a cabeça. Seus companheiros esperavão uma palavra sua
como o oraculo do seu destino; preparárão-se para ouvi-lo.
--Só ha duas cousas a fazer; ou entrarmos na casa, ou fugirmos daqui
mesmo; é preciso resolver. Que pensais vós?
--Eu penso, disse Bento Simões tremulo ainda, que devemos fugir quanto
antes, e andar dia e noite sem parar.
--E vós, Ruy, sois do mesmo aviso?
--Não; fugir é nos denunciar e perder. Tres homens sós neste sertão,
obrigados a evitar o povoado, não podem viver; temos inimigos por toda
a parte.
--Que propondes então?
--Que entremos em casa como se nada se tivesse passado; ou estamos
descobertos, e neste caso ainda faltão as provas para nos condemnarem;
ou ignorão tudo e não corremos o menor risco.
--Tendes razão, disse o italiano, devemos voltar; nessa casa está a
nossa fortuna, ou a nossa ruina. Achamo-nos n'uma posição em que
devemos ganhar tudo ou perder tudo.
Houve longa pausa durante que o italiano reflectia.
--Com quantos homens contais, Ruy? perguntou elle.
--Com oito.
--E vós, Bento?
--Sete.
--Decididos?
--Promptos ao menor signal.
--Bem, disse o italiano com o desempenho de um chefe dispondo o plano da
batalha; trazei cada um os vossos homens amanhã a esta hora; é preciso
que á noite tudo esteja concluido.
--E agora o que vamos fazer? perguntou Bento Simões.
--Vamos esperar que escureça; á bocca da noite nos achegaremos da
casa. Um de nós á sorte entrará primeiro; se nada houver, dará
signal aos outros. Assim, quando um se perca, dois ao menos terão ainda
esperança de salvar-se.
Os aventureiros resolverão passar o dia no matto; uma caça, algumas
fructas silvestres derão-lhes simples mas abundante refeição.
Por volta de cinco horas da tarde se encaminhárão á casa, afim de
sondarem o que passava, e realisarem o seu projecto.
Antes de partirem, Loredano carregou a clavina, mandou seus companheiros
carregar as suas, e disse-lhes:
--Assentai bem nisto. Na posição difficil em que estamos, quem não é
nosso amigo é nosso inimigo. Póde ser um espião, um denunciante; em
todo o caso será depois menos um que teremos contra nós.
Os dous comprehendêrão a justeza dessa observação, e seguirão com
as armas engatilhadas, olho vivo e ouvido alerta.
Apezar porém da sua attenção, não vîrão agitar-se as folhas a dous
passos delles, e estender-se pelos arbustos uma oudulação que parecia
produzida pela correnteza do vento.
Era Pery; havia um quarto d'hora que elle acompanhava os aventureiros
como a sua sombra; o indio deixando D. Antonio dera pela sua ausencia, e
conjecturando que elles tramavão alguma cousa, lançou-se em sua
procura.
O italiano e seus companheiros caminhavão já havia pedaço, quando
Bento Simões parou:
--Quem entrará primeiro?
--A sorte decidirá, respondeu Ruy.
--Como?
--Desta maneira, disse o italiano. Vêdes aquella arvore? O que primeiro
chegar a ella será o ultimo a entrar; o ultimo será o primeiro.
--Está dito!
Os tres mettêrão as armas á cinta, e preparárão-se para a corrida.
Pery ouvindo-os teve uma inspiração: os aventureiros ião separar-se;
como Loredano, elle tambem disse, comsigo:
--O ultimo será o primeiro.
E tomando tres flechas, esticou a corda do arco; mataria os aventureiros
sem que um percebesse a morte dos outros.
Os tres partirão; mas não tinhão feito uma braça de caminho quando
Bento Simões tropeçando, foi de encontro a Loredano, e estendeu-se no
chão ao fio comprido do lombo.
Loredano soltou uma blasphemia, Bento gritou misericordia; Ruy que já
ia adiante, voltou julgando que alguma cousa succedia.
O plano de Pery tinha gorado.
--Sabeis, disse Loredano, que no pareo perde aquelle que se deixou
cahir. Sereis o primeiro, amigo Bento.
O aventureiro não replicou.
Pery não perdêra a esperança de lhe deparar a fortuna outra occasião
favoravel para realisar o seu projecto; seguio-os. Foi então que de
longe por baixo das arvores avistou Alvaro na mesma direcção em que
ião os aventureiros; despedindo uma setta por elevação dera ao
cavalheiro o primero signal, e os outros que o fizerão afastar-se.
Deixando Alvaro, a intenção do indio era atalhar os aventureiros,
espera-los junto á cerca; e quando elles se separassem para entrar a um
e um, mata-los.
Mas uma fatalidade parecia perseguir o indio, e proteger os inimigos.
Quando Bento Simões, destacando-se dos companheiros entrou na cerca,
Pery ouvio naquella direcção a voz de Cecilia que voltava do passeio
com seu pai e sua prima.
A mão do indio, que nunca tremêra no meio do combate, cahio inerte;
escapou-lhe o arco, só com a idéa de que a setta que ia atirar podesse
assustar a menina, quanto mais offendê-la.
Bento Simões passou incolume.
XIV
A CHACARA
Pery viu passar pouco depois Loredano e Ruy Soeiro.
Era a terceira vez que os aventureiros depois de estarem na sua mão lhe
escapavão por uma especie de fatalidade.
O indio reflectio alguns momentos, e tomou uma resolução definitiva;
modificou inteiramente o seu plano. A principio decidira não atacar os
tres inimigos de frente, não porque os temesse, mas sim porque receiava
que morrendo podessem realisar a salvo o projecto, cujo segredo só elle
sabia.
Conheceu porém que não havia remedio senão recorrer a este
expediente; o tempo corria; de um momento para outro podia o italiano
executara sua trama.
O que precisava era achar um meio para no caso de succumbir prevenir a
D. Antonio de Mariz do perigo que o ameaçava; este meio havia já
acudido ao pensamento do indio.
Foi ter com Alvaro que o esperava.
O moço já o tinha esquecido; pensava em Cecilia, na sua affeição
quebrada, na sua mais doce esperança murcha, e talvez perdida para
sempre.