Ás vezes tambem apresentava-se ao seu espirito a imagem melancolica de

Isabel; lembrava-se que ella tambem amava, e não era amada. Esta

lembrança creava certo laço entre elle e a moça; ambos soffrião pela

mesma causa, ambos sentião o mesmo pezar, e curtião igual desengano.

Depois vinha a idéa de que era a elle que Isabel amava; sem querer

repassava na memoria as ternas palavras; revia o sorriso triste e os

olhares de fogo que se avelludavão com alanguidez do amor.

Parecia-lhe que sentia ainda o halito perfumado da moça, a pressão da

cabeça desfallecida em seu hombro, o contacto das mãos tremulas, e o

echo das queixas murmuradas pela voz maviosa.

O coração lhe palpitava com violencia; esquecia-se revendo a bella

imagem, de um moreno suave, a que o amor dava reflexos e uma aureola

esplendida.

Mas de repente estremecia, como se a moça ainda estivesse perto delle;

passava a mão pela fronte para arrancar as reminiscencias que o

incommodavão; e tornava á indifferença de Cecilia e ao desengano de

suas esperanças.

Quando Pery se aproximou, Alvaro estava n'um dos momentos de tedio e

desapego da vida, que succedem ás dores profundas.

--Diz-me, Pery. Fallaste de inimigos?

--Sim; respondeu o indio.

--Quero conhecê-los.

--Para que?

--Para ataca-los.

--Mas são tres.

--Melhor.

O indio hesitou:

--Não; Pery quer combater só os inimigos de sua senhora; se elle

morrer tu saberás tudo; acaba então o que Pery tiver começado.

--Para que este mysterio? Não podes dizer já quem são esses inimigos?

--Pery póde; mas não quer dizer.

--Porque?

--Porque tu és bom e pensas que os outros tambem são; tu defenderás

os máos.

--Oh! que não. Falla!

--Ouve. Se Pery não apparecer amanhã, tu não tornarás a vê-lo: mas

a alma de Pery voltará para te dizer os nomes delles.

--Como?

--Tu verás. São tres; querem offender a senhora, matar seu pai, a ti,

a todos da casa. Tem outros que os seguem.

--Uma revolta!... exclamou Alvaro.

--O primeiro delles quer fugir e levar Cecy, que tu amas; mas Pery não

deixará.

--É impossivel! disse o moço surprendido.

Pery te diz verdade.

--Não creio!...

Com effeito o cavalheiro attribuindo as desconfianças do indio a uma

exageração filha da sua dedicação extrema pela filha de D. Antonio,

não podia acreditar no horrivel attentado: sua direitura de

sentimentos repellia a possibilidade de um crime tal.

O fidalgo era amado e respeitado por todos os aventureiros: nunca

durante dez annos que o moço o acompanhava se tinha dado na banda um

só acto de insubordinação contra a pessoa do chefe; havia faltas de

disciplina, rixas entre os companheiros, tentativas de deserção; mas

não passava disto.

O indio sabia que Alvaro duvidaria do que se passava; e por isso se

obstinava em guardar parte do segredo, receiando que o moço com o seu

cavalheirismo não tomasse o partido dos tres aventureiros.

--Tu duvidas de Pery?

--Quem faz uma accusação tal, precisa prova-la. Tu és um amigo, Pery;

mas os outros tambem o são, e têm o direito de se defenderem.

--Quando um homem vai morrer, tu julgas que elle mente? perguntou o

indio com firmeza.

--Que queres dizer com isto?

--Pery vai vingar sua senhora; vai se separar de tudo quanto ama; se

elle perder a vida dirás ainda que se engana?

Alvaro foi abalado pelas palavras do indio.

--Melhor é que falles a D. Antonio de Mariz.

--Não; elle e tu servem para combater homens que atacão pela frente;

Pery sabe caçar o tigre na floresta, e esmagar a cobra que vai lançar

o bote.

--Mas então o que queres de mim?

--Que se Pery morrer, acredites no que elle te diz e faças o que elle

fez; que salves a senhora!

--Assassinar?... Nunca, Pery; nunca o meu braço brandirá o ferro

senão contra o ferro!

O indio lançou ao moço um olhar que brilhou nas trevas.

--Tu não amas Cecy!

Alvaro estremeceu.

--Se tu a amasses, matarias teu irmão para livra-la de um perigo.

--Pery, talvez não comprehendas o que vou dizer-te. Daria a minha vida

sem hesitar por Cecilia; mas a minha honra pertence a Deus e á memoria

de meu pai.

Os dous homens olhárão-se um momento em silencio; ambos tinhão a

mesma grandeza de alma, e a mesma nobreza de sentimento; entretanto as

circumstancias da vida havião creado nelles um contraste.

Em Alvaro, a honra e um espirito de lealdade cavalheiresca dominavão

todas as suas acções; não havia affeição ou interesse que podesse

quebrar a linha invariavel que elle havia traçado, e era a linha do

dever.

Em Pery a dedicação sobrepujava tudo; viver para sua senhora, crear em

torno della uma especie de providencia humana, era a sua vida;

sacrificaria o mundo se possivel fosse, contanto que podesse como o Noé

dos indios, salvar uma palmeira onde abrigar Cecilia.

Entretanto essas duas naturezas, uma filha da civilisação, a outra

filha da liberdade selvagem, embora separadas por distancia immensa,

comprehendião-se: a sorte lhes traçára um caminho differente; mas

Deus vasára em suas almas o mesmo germen de heroismo, que nutre os

grandes sentimentos.

Pery conheceu que Alvaro não cederia; Alvaro sabia que Pery apezar de

sua recusa, cumpriria exactamente o que tinha resolvido.

O indio a principio pareceu impressionado pela obstinação do

cavalheiro; porém ergueu a cabeça com um gesto altivo, e batendo com a

mão no peito largo e vigoroso, disse em tom de energia:

--Pery só, defenderá sua senhora: não precisa de ninguem. É forte;

tem como a andorinha as azas de suas flechas; como a cascavel o veneno

das settas; como o tigre a força de seu braço; como a ema a velocidade

de sua carreira. Só póde morrer uma vez; mas uma vida lhe basta.

--Pois bem, amigo, respondeu o cavalheiro com nobreza, vais realisar o

teu sacrificio; eu cumprirei o meu dever. Tenho uma vida tambem, e a

minha espada. Farei de uma a sombra de Cecilia; com a outra traçarei em

torno della um circulo de ferro. Podes ficar certo que os inimigos que

passarem por cima de teu corpo acharão o meu antes de chegarem á tua

senhora.

--Tu és grande; podias ter nascido no deserto, e ser o rei das

florestas; Pery te chamaria irmão.

Apertárão as mãos e dirigirão-se á casa; em caminho Alvaro

lembrou-se que ainda não conhecia os homens contra os quaes tinha de

defender Cecilia; perguntou seus nomes; Pery recusou formalmente e

prometteu que o cavalheiro saberia, quando fosse tempo.

O indio tinha a sua idéa.

Chegando á casa os dous separárão-se; Alvaro ganhou o aposento que

occupava; Pery encaminhou-se para o jardim de Cecilia.

Erão então oito horas da noite, toda a familia se achava reunida na

cêa; o quarto da menina estava ás escuras. Pery examinou os arredores

para vêr se tudo estava tranquillo e em socego; e sentou-se n'um banco

do jardim.

Meia hora depois uma luz esclareceu a janella do quarto, e a porta

abrindo-se deixou vêr o corpinho gracioso de Cecilia que se destacava

no vão esclarecido.

A menina avistando o indio correu para elle:

--Meu pobre Pery, disse ella; tu soffreste hoje muito, não é verdade?

E achaste tua senhora bem má e bem ingrata, porque te mandou partir!

Mas agora, meu pai disse: Ficarás comnosco para sempre.

--Tu és boa senhora: tu choravas quando Pery ia partir; pediste para

elle ficar.

--Então não tens queixa de Cecy? disse a menina sorrindo.

--O escravo póde ter queixa de sua senhora? tornou o indio

simplesmente.

--Mas tu não és escravo!... respondeu Cecilia com um gesto de

contrariedade; tu és um amigo sincero e dedicado. Duas vezes me

salvaste a vida; fazes impossiveis para me veres contente e satisfeita;

todos os dias te arriscas a morrer por minha causa.

O indio sorrio:

--Que queres que Pery faça de sua vida, senhora?

--Quero que estime sua senhora e lhe obedeça, e aprenda o que ella lhe

ensinar, para ser um cavalheiro como meu irmão D. Diogo e o Sr. Alvaro.

Pery abanou a cabeça.

--Olha, continuou a menina; Cecy vai te ensinar a conhecer o Senhor do

céo, e a rezar tambem e ler bonitas historias. Quando souberes tudo

isto, ella bordará um manto de seda para ti; terás uma espada, e uma

cruz no peito. Sim?

--A planta precisa de sol para crescer, a flôr precisa de agua para

abrir; Pery precisa de liberdade para viver.

--Mas tu serás livre; e nobre como meu pai!

--Não!... O passaro que vôa nos ares cahe, se lhe quebrão as azas; o

peixe que nada no rio morre, se o deitão em terra; Pery será como o

passaro e como o peixe, se tu cortares as suas azas e o tirares da vida

em que nasceu.

Cecilia bateu com o pé em signal de impaciencia.

--Não te zanga, senhora.

--Não fazes o que Cecy pede?... Pois Cecy não te quer mais bem; nem te

chamará mais seu amigo. Vê; já não guardo a flôr que me déste.

E a linda menina, machucando a flôr que arrancou dos cabellos, correu

para o seu quarto, e bateu a porta com violencia.

O indio voltou pezaroso á sua cabana.

De repente cortou o silencio da noite voz argentina, que cantava uma

antiga chacara portugueza, com sentimento e expressão arrebatadora. Os

sons doces de uma guitarra hespanhola fazião o acompanhamento da

musica.

A chacara dizia assim:

Foi um dia.--Infanção mouro

Deixou

Alcaçar de prata e ouro.

Montado no seu corcel,

Partio

Sem pagem, sem anadel.

Do castello á barbacã

Chegou

Viu formosa castellã.

Aos pés daquella a quem ama

Jurou

Ser fiel á sua dama.

A gentil dona e senhora

Sorrio;

Ai! que isenta ella não fora

«Tu és mouro; eu sou christã:»

Fallou

A formosa castellã.

«Mouro, tens o meu amor:

Christão,

Serás meu nobre senhor.»

Sua voz era um encanto,

O olhar

Quebrado, pedia tanto!

«Antes de ver-te, senhora,

Fui rei;

Serei teu escravo agora.

«Por ti deixo meu alcaçar

Fiel;

Meus paços d'ouro e de nacar.

«Por ti deixo o paraiso;

Meu céo

É teu mimoso sorriso.»

A dona em um doce enleio

Tirou

Seu lindo collar do seio.

E duas almas christãs,

Na cruz

Um beijo tornou irmãs.

A voz suave e meiga perdeu-se no silencio do ermo; o echo repetio um

momento as suas doces modulações.

FIM DA SEGUNDA PARTE.

NOTAS

DO TOMO PRIMEIRO.

PAG. 3.--=Guarany=.

O titulo que damos a este romance significa o _indigena brazileiro_. Na

occasião da descoberta, o Brazil era povoado por nações pertencentes

a uma grande raça, que conquistára o paiz havia muito tempo, e

expulsára os dominadores. Os chronistas ordinariamente designavão esta

raça pelo nome _Tupi_ mas esta denominação não era usada senão por

algumas nações. Entendemos que a melhor designação que se lhe podia

dar era a da lingua geral que fallavão e naturalmente lembrava o nome

primitivo da grande nação.

PAG. 3.--=O Paquequer=.

Para se conhecer a exactidão dessa descripção do rio Paquequer

naquella epoca, lêa-se B. da Silva Lisboa, _Annaes do Rio de

Janeiro_, 1° tomo, pag. 162. Hoje as grandes plantações de café

transformárão inteiramente aquelles lugares outr'ora virgens e

desertos.

PAG. 4.--=Brazão d'armas=.

Este brazão da casa dos Marizes é historico; nos mesmos _Annaes do Rio

de Janeiro_, tomo 1°, pag. 329, acha-se a sua descripção que copiei

litteralmente.

PAG. 11.--=D. Antonio de Mariz=.

Este personagem é historico, assim como os factos que se referem ao seu

passado, antes da epoca em que começa o romance.

Nos _Annaes do Rio de Janeiro_, tomo 1°, pag. 328, lêa-se uma breve

noticia sobre sua vida.

PAG. 13.--=D. Pedro da Cunha=.

Deste projecto de transportar ao Brazil a coroa portugueza, falla

Warnhagen na sua historia do Brazil.

PAG. 16.--=Aventureiros=.

O costume que tinhão os capitães daquelle tempo de manterem uma banda

de aventureiros ás suas ordens, é referido por todos os chronistas.

Esse costume tinha o quer que seja dos usos da media idade, e a

necessidade o fez reviver em nosso paiz onde faltavão tropas regulares

para as conquistas e explorações.

PAG. 14.--=D. Lauriana=.

Segundo B. da S. Lisboa a mulher de D. Antonio de Mariz chamava-se

Lauriana Simoa, e era natural de S. Paulo.

PAG. 19.--=D. Diogo de Mariz=.

Este personagem tambem é historico. Em 1607 era provedor da alfandega

do Rio de Janeiro, cargo que tinha servido seu pai alguns annos antes.

S. Lisboa.--_Annaes_.

PAG. 20.--=Pistoletes=.

Ou arcabuzes pequenos. Pela ord. n° 5, tit. 80, s. 13ª, era defesa

trazê-los armados ou tê-los em casa.

PAG. 32.--=Um indio=.

O typo que descrevemos é inteiramente copiado das observações que se

encontrão em todos os chronistas. Em um ponto porém varião os

escriptores; uns dão aos nossos selvagens uma estatura abaixo da

regular; outros uma estatura alta. Neste ponto preferi guiar-me por

Gabriel Soares que escreveu em 1580, e que nesse tempo devia conhecer a

raça indigena em todo o seu vigor, e não degenerada como se tornou

depois.

PAG. 38.--=Forcado=.

Esta maneira de caçar uma onça, que a muitos parecerá extraordinaria,

é referida por Ayres do Casal. Ainda hoje no interior ha sertanejos que

cação deste modo, e sem o menor risco ou difficuldade, tão habituados

já estão.

PAG. 40.--=Ticum=.

O ticum é uma palmeira de cujos filamentos os indios usavão como os

Europeus do linho. Della se servião para suas redes de pesca, para

cordas de arco e outros misteres; o fio preparado por elles com a resina

de almocega era fortissimo.

PAG. 42.--=Biribá=.

Era a arvore com que os indigenas tiravâo fogo por meio do attrito,

roçando fortemente um fragmento de encontro ao outro. B. da S.

Lisboa.--_Annaes_.

PAG. 43.--=Gardenia=.

Nome scientifico que Fr. Velloso na sua Flora Fluminense dá á açucena

silvestre; nos nossos campos encontra-se essa flôr da varias côres; a

mais commum é a branca e escarlate.

PAG. 73.--=Pery=.

Palavra da lingua guarany que significa _junco silvestre_.

PAG. 80.--=Oleo=.

É uma das arvores mais elevadas de nossas florestas; cresce a mais de

cem palmos, e o tronco chega a uma extraordinaria grossura.

PAG. 94.--=Hirara=.

Especie de gato selvagem, indigena do Brazil.

PAG. 100.--=Soffrer=.

É um lindo passaro do Brazil, côr de ouro, com os encontros de um

negro brilhante. O seu canto doce imita a palavra soffrer, razão por

que os primeiros colonos lhe derão esse nome.

PAG. 102.--=Cecy=.

É um verbo da lingua guarany que significa _magoar_, _doer_.

PAG. 106.--=Sapucaia=.

Arvore de alta grandeza, que dá um fructo do tamanho e da confeição

de um côco.

PAG. 107.--=Pequiá=.

Arvore de mais de cem palmos de altura, que tem uma pequena flôr de

brilhante escarlate; floresce nos mezes de setembro e outubro.

PAG. 111.--=O cactus=.

Temos differentes especies de cactus; os mais lindos são o branco, o

rosa e o amarello, a que os indigenas chamavão _urumbeba_. Todos elles

abrem á meia noite e fechão ao despontar do sol.

PAG. 111.--=Graciola=.

É o nome scientifico que Fr. Velloso na sua _Flora Fluminense_ dá á

pequena flôr azul de um arbusto indigena.

PAG. 111.--=Malvalisco=.

Assim designa Saint-Hilaire uma especie de malva indigena brazileira,

cuja flor é escarlate.

PAG. 112.--=Viuvinha=.

Pequeno passaro negro que canta ao amanhecer; dizem ser o primeiro

que saúda o nascimento do dia.

PAG. 113.--=Jasmineiro=.

Ha uma especie de jasmineiro indigena do Brazil; assim o dizem os dous

botanicos que citamos acima.

PAG. 115.--=Colhereira=.

É uma das aves aquaticas mais lindas do Brazil; suas pennas são de uma

bella côr de rosa.

PAG. 146.--=O cão=.

Diz o Sr. Warnhagen na sua historia do Brazil que o cão era o

companheiro constante do nosso indigena, ainda mais do que do Europeu.

PAG. 149.--=Cabuiba=.

A cabuiba ou cabureiba, _Balsamum Peruvianum_ de Pison, _Cabuibaiba_ de

Maregrave e _Miroxilem Cabriuva_ de outros naturalistas, é uma arvore

das nossas mattas de mais de cem palmos, e a que vulgarmente se chama

arvore do balsamo.

Distilla um licor louro de um cheiro agradavel, que dizem milagroso para

cura de feridas frescas. (Gabriel Soares; S. Lisboa e Ayres do Casal.)

PAG. 154.--=Formigueiro=.

No sertão encontrão-se frequentemente essas excavações subterraneas,

feitas por uma formiga, a que os indios chamárão _taciahy_.

PAG. 161.--=Garcia Ferreira=.

Garcia Ferreira foi provido no officio de tabellião do Rio de Janeiro

por Salvador Corrêa de Sá, em 15 de Fevereiro de 1588. (B. da Silva

Lisboa.)

PAG. 163.--=Roberio Dias=.

Roberio Dias offereceu a Felippe II o segredo de uma grande mina de

prata, descoberta por elle nos sertões de Jacobina, provincia da Bahia;

pedia em troca o titulo de marquez das Minas, que não lhe foi dado.

Essas minas, falsas ou verdadeiras, nunca se descobrirão.

Roberio morreu pobre e desgraçado, recusando revelar o segredo das

minas. (B. da S. Lisboa.)

PAG. 177.--=Convento do Carmo=.

«Logo que os carmelitas se estabelecerão em Santos pela doação de

José Adorno, de 1589, se passou ao Rio do Janeiro o padre Fr. Pedro,

para fundar aqui o convento do Carmo. Supposto não conste com certeza o

anno da fundação é indisputavel todavia que fôra entre 1589 e 1590,

pois que já estava aquelle feito em 1595. Corria por tradição

geralmente ter sido o seu começo em 1590.» (B. da S. Lisboa, tom.

VII°, cap. 2°, § 6.)

PAG. 196.--=Arvores de ouro=.

A sapucaia perde a folha no tempo da florescencia, e cobre-se de tanta

flor amarella que não se vê nem tronco, nem galhos; o mesmo succede á

embaiba, ao páo d'arco e outras arvores. (G. Soares, _Roteiro do

Brazil_, e B. da S. Lisboa _Annaes_).

Sendo epoca da florescencia dessas arvores em setembro, a phrase

figurada do indio traduz-se da seguinte maneira: «Era o mez de

setembro.»

PAG. 196.--=O mais forte=.

É sabido que entre as nossas tribus, o chefe era sempre aquelle que

tinha maior reputação de valor e fortaleza. O principio de

hereditariedade, se algumas vezes regulava a successão do mando, era

ephemero.

PAG. 197.--=Taba dos brancos=.

Allude-se á colonia da Victoria, hoje capital da provincia do Espirito

Santo, que foi duas vezes arrasada pelos Goytacazes Tupininquins. É um

desses combates que o indio conta de passagem.

PAG. 198.--=Senhora dos brancos=.

Pela descripção seguinte conhece-se que o selvagem viu na igreja, na

occasião do incendio que devorou a villa da Victoria, uma imagem de

Nossa Senhora, que o impressionou vivamente.

PAG.--=A estrella grande=.

O que dizem alguns chronistas, a respeito da ignorancia absoluta dos

indigenas sobre a astronomia, me parece inexacto. Os Guaranys tinhão os

conhecimentos rudes, filhos da observação. Chamavão a estrella

_jacy-tato_, fogo da lua; suppunhão pois que a lua é que transmittia a

luz ás estrellas. Conhecião as quatro phases da lua: a lua nova,

_jacy-peçaçu_; o quarto crescente, _jacy-jemorotuçu_; a lua cheia,

_jacy-caboaçu_; e o quarto minguante, _jacy-jearoca_. Dividião o anno

em duas estações: a estação do sol, _coaracyara_, e a estação da

chuva, _ama'na-ara_; são as mesmas que hoje conhecemos, e as unicas que

realmente existem no Brazil. Muitas outras observações podiamos fazer,

que omittimos para evitar prolixidade.

PAG. 199.--=Grande rio=.

Esta palavra é relativa: todas as nações chamavão assim o maior rio

que havia no territorio que ellas conhecião, e é por isso que se

encontrão tantos _rios grandes_ nos nomes dos rios do nosso paiz. Para

os Goytacazes o Rio-Grande era o Parabyba.

PAG. 218.--=A nação goytacaz=.

Esses factos lêem-se em qualquer dos escriptores que se têm occupado

dos primeiros tempos coloniaes do Brazil, e especialmente em G. Soares,

que foi contemporâneo delles.

PAG. 260--=Cipós=.

Diz Gabriel Soares: «Deu a natureza ao Brazil, por entre os arvoredos,

umas cordas muito rijas, muitas que nascem aos pés dos arvores e

atrepão por ellas acima, a que chamão cipós, com que os indios atão

a madeira de suas casas e os brancos que não podem mais. Nestes mesmos

mattos se crião outras cordas mais delgadas e primas a que os indios

chamavão «timbós,» que são mais rijas que os cipós acima.»

A quantidade infinita de cipós é uma das originalidades das florestas

do Brazil, e admirou os naturalistas estrangeiros que o visitárão.

PAG. 222.--=Candêa=.

Diz o mesmo autor: «Ha uma arvore meã que se chama «ibiriba» a qual

os Indios fazem em fios para fachos, com que vão mariscar e para

andarem de noite; e ainda que seja verde, cortada daquella hora, pega o

fogo nella como em alcatrão, e não apaga o vento os fachos della; e em

casa servem-se os indios de achas dessa madeira, como de candêas.

PAG. 269.--=Cauan=.

É uma ave que devora as cobras, pelo que ellas fogem della, Os indios,

segundo affirma Ayres do Casal, imitavão o seu canto, quando andavão

á noite pelo matto, e assim preservavão-se de serem mordidos.

PAG. 338.--=Setta por elevação=.

A destreza e a habilidade com que os Indios atiravão a setta era tal,

que os Europeus a admiravão. Para atirarem por elevação,

deitavão-se, seguravão o arco com os dous dedos dos pés e lançavão

ao ar a setta que, subindo, descrevia uma parabola e ia cahir no alvo.

Ainda ha pouco tempo no Pará se vião, nas aldêas de indios já

cathequisados, pareos deste jogo, em que o alvo era um tronco de

bananeira decepado. O tenente Pimentel, filho do presidente de

Matto-Grosso, foi assassinado pelos indios deste modo, cavalgando no

meio de muitos cavalleiros. Nenhum foi ferido: e todas as settas

abatêrão-se sobre o moço de quem os selvagens se querião vingar.

FIM DAS NOTAS DO TOMO PRIMEIRO.

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2) · 第 13 / 13 段