--Que queres tu dar-lhe?
A menina comprehendeu immediatamente; a affeição pouco commum que
tinhão a Pery, a gratidão que lhe votavão, era uma especie de segredo
entre esses dous corações; era uma planta delicada que não querião
expor ao reparo que causaria aos outros amizade tão sincera por um
selvagem.
Ouvindo a pergunta de seu pai, Cecilia, que neste dia tinha soffrido
tantas emoções diversas, lembrou-se do que se tratava.
--Como! sempre pretendeis manda-lo embora! exclamou ella.
--É necessario; eu te disse.
--Sim: mas pensei que depois houvesseis resolvido o contrario.
--Impossivel!
--Que mal faz elle aqui?
--Sabes quanto eu o estimo; quando digo que é impossivel, deves
crêr-me.
--Não vos agasteis!...
--Assim não te oppões?
Cecilia calou-se.
--Se não queres absolutamente, não se fará; mas tua mãi soffrerá, e
eu, porque lhe prometti.
--Não; a vossa palavra antes de tudo, meu pai.
Pery appareceu na porta da sala; uma vaga inquietação resumbrava no
seu rosto, quando viu-se no meio da familia reunida.
A sua attitude era respeitosa, mas o seu porte tinha a altivez innata
das organisações superiores; seus olhos grandes, negros e limpidos
percorrêrão o aposento, e fixárão-se na physionomia veneravel do
cavalheiro.
Cecilia prevendo o que se ia passar tinha-se escondido por detraz de seu
irmão D. Diogo.
--Pery, acreditas que D. Antonio de Mariz é teu amigo? perguntou o
fidalgo.
--Tanto quanto um homem branco pode ser de um homem de outra côr.
--Acreditas que D. Antonio de Mariz te estima?
--Sim; porque o disse e mostrou.
--Acreditas que D. Antonio de Mariz deseja poder pagar-te o que fizeste
por elle, salvando sua filha?
--Se fosse preciso, sim.
--Pois bem, Pery; D. Antonio de Mariz, teu amigo, te pede que voltes á
tua tribu.
O indio estremeceu.
--Porque pedes isto?
--Porque assim é preciso, amigo.
--Pery entende; estás cançado de dar-lhe hospitalidade!
--Não!
--Quando Pery te disse que ficava não te pedio nada; sua casa é feita
de palha em cima de uma pedra; as arvores do matto lhe dão o sustento:
sua roupa foi tecida por sua mãi que veio traze-la na outra lua. Pery
não te custa nada.
Cecilia chorava; D. Antonio e seu filho estavão commovidos; D. Lauriana
mesma parecia enternecida.
--Não digas isto, Pery? Nunca na minha casa te faltaria a menor cousa,
se tu não recusasses tudo e não quizesses viver isolado na tua cabana.
Mesmo agora dize o que desejas, o que te agrada, e é teu.
--Porque então mandas Pery embora?
D. Antonio não sabia o que responder; e foi obrigado a procurar um
pretexto para explicar ao indio o seu procedimento: a idéa da
religião, que todos os povos comprehendem, pareceu-lhe a mais propria.
--Tu sabes que nós os brancos temos um Deus, que mora lá em cima, a
quem amamos, respeitamos e obedecemos.
--Sim.
--Esse Deus não quer que viva no meio de nós um homem que não o
adora, e não o conhece; até hoje lhe desobedecêmos; agora elle manda.
--O Deus de Pery tambem mandava que elle ficasse com sua mãi, na sua
tribu, junto dos ossos de seu pai, e Pery abandonou tudo para seguir-te.
Houve um momento de silencio; D. Antonio não sabia o que replicar.
--Pery não te quer aborrecer; só espera a ordem da senhora. Tu mandas
que Pery vá, senhora?
D. Lauriana que apenas se tinha fallado em religião voltára ás suas
prevenções contra o indio, fez um gesto imperioso a sua filha.
--Sim! balbuciou Cecilia.
O indio abaixou a cabeça; uma lagrima deslisou-lhe pela face.
O que elle soffria é impossivel dizer; a palavra não sabe o segredo
das tormentas profundas de uma alma forte e vigorosa, que pela primeira
vez sente-se vencida pela dôr.
X
DESPEDIDA
D. Antonio aproximou-se de Pery e apertou-lhe a mão:
--O que eu te devo, Pery, não se paga; mas sei o que devo a mim
mesmo. Tu voltas á tua tribu: apezar da tua coragem e esforço, pode a
sorte da guerra não te ser favoravel, e cahires em poder de algum dos
nossos. Este papel te salvará a vida e a liberdade; acceita-o em nome e
de tua senhora e no meu.
O fidalgo entregou ao indio o pergaminho que ha pouco tinha escripto e
voltou-se para seu filho:
--Este papel, D. Diogo, assegura a qualquer Portuguez de quem Pery possa
ser prisioneiro, que D. Antonio de Mariz e seus herdeiros respondem por
elle e pelo seu resgate, qualquer que fôr. É mais um legado que vos
deixo a cumprir, meu filho.
--Ficai certo, meu pai, replicou o moço, que saberei responder á essa
divida de honra, não só em respeito á vossa memoria, como em
satisfação dos meus proprios sentimentos.
--Toda a minha familia aqui presente, disse o fidalgo dirigindo-se ao
indio, te agradece ainda uma vez o que fizeste por ella; reunimo-nos
todos para te desejarmos a boa volta ao seio dos teus irmãos e ao campo
onde nasceste.
Pery fitou o olhar brilhante no rosto de cada uma das pessoas presentes,
como para dizer-lhes o adeus que seus labios naquella occasião não
podião exprimir.
Apenas seus olhos se fitarão em Cecilia, impellido por uma força
invencivel atravessou o aposento e foi ajoelhar-se aos pés de sua
senhora.
A menina tirou do peito uma pequena cruz de ouro presa a uma fita preta,
e deitou-a no pescoço do indio:
--Quando tu souberes o que diz esta cruz, volta, Pery.
--Não, senhora; de onde Pery vai, ninguem voltou.
Cecilia estremeceu.
O selvagem ergueu-se, e caminhou para D. Antonio de Mariz, que não
podia dominar a sua emoção.
--Pery vai partir; tu mandas, elle obedece; antes que o sol deixe a
terra, Pery deixará tua casa; o sol voltará amanhã, Pery não
voltará nunca. Leva a morte no seio porque parte hoje; levaria a
alegria se partisse no fim da lua.
--Por que razão? perguntou D. Antonio; desde que é necessario que nos
separemos, tanto deves sentir hoje, como d'aqui a tres dias.
--Não, replicou o indio; tu vais ser atacado amanhã talvez, e Pery
estaria comtigo para defender-te.
--Vou ser atacado? exclamou D. Antonio pensativo.
--Sim: podes contar.
E por quem?
--Pelo Aymoré.
--E como sabes isto? perguntou D. Antonio fitando nelle um olhar
desconfiado.
O indio hesitou durante um momento; estudava a resposta.
--Pery sabe porque viu o pai e o irmão da india, que teu filho matou
sem querer, olharem tua casa de longe, soltarem o grito da vingança, e
caminharem para sua tribu.
--E tu o que fizeste?
--Pery viu-os passar; e vem te avisar para que te prepares.
O fidalgo fez com a cabeça um movimento de incredulidade.
--É preciso não te conhecer, Pery, para acreditar no que dizes; tu
não podias olhar com indifferença para os inimigos de tua senhora e
meus.
O indio sorrio tristemente.
--Erão mais fortes; Pery deixou que passassem.
D. Antonio começou a reflectir; parecia evocar as suas reminiscencias,
e combinar certas circumstancias que tinha impressas na memoria.
Seu olhar abaixando-se do rosto de Pery, cahira sobre os hombros; a
principio vago e distrahido como o de um homem que medita, começou a
fixar-se e a distinguir um ponto vermelho quasi imperceptivel, que
apparecia no saio de algodão do indio.
Á proporção que a vista se firmava, e que o objecto se desenhava mais
distincto, o semblante do fidalgo se esclarecia, como se tivesse achado
a solução de um difficil problema.
--Estás ferido? exclamou o fidalgo de repente.
Pery recuou um passo; mas D. Antonio lançando-se para elle entreabrio o
talho de sua camisa, e tirou-lhe as duas pistolas da cinta; examinou-as,
e viu que estavão descarregadas.
O cavalheiro depois deste exame cruzou os braços, e contemplou o indio
com admiração profunda.
--Pery, disse elle, o que fizeste é digno de ti; o que fazes agora é
de um fidalgo. Teu nobre coração pode bater sem envergonhar-se sobre o
coração de um cavalheiro portuguez. Tomo-vos a todos por testemunhas,
que vistes um dia D. Antonio de Mariz apertar ao seu peito um inimigo de
sua raça e de sua religião como a seu igual em nobreza e sentimentos.
O fidalgo abrio os braços e deo em Pery o abraço fraternal consagrado
pelos estylos da antiga cavallaria, da qual já naquelle tempo apenas
restavão vagas tradições. O indio, de olhos baixos, commovido e
confuso, parecia um criminoso em face do juiz.
--Vamos, Pery, disse D. Antonio, um homem não deve mentir, nem mesmo
para esconder as suas boas acções. Responde-me a verdade.
--Falla.
--Quem disparou dous tiros junto ao rio, quando tua senhora estava no
banho?
--Foi Pery.
--Quem atirou uma flexa que cahio junto de Cecilia?
Um Aymoré, respondeu o indio estremecendo.
--Porque a outra flexa ficou sobre o lugar onde estão os corpos dos
selvagens?
Pery não respondeu.
--É escusado negares; tua ferida o diz. Para salvar tua senhora, te
offereceste aos tiros dos inimigos; depois os mataste.
--Tu sabes tudo; Pery não é mais preciso: volta á sua tribu.
O indio lançou um ultimo olhar a sua senhora, e caminhou para a porta.
--Pery! exclamou Cecilia, fica; tua senhora manda.
Depois correndo para seu pai, e sorrindo-lhe entre as lagrimas, disse
com um tom supplicante:
--Não é verdade? Elle não deve partir mais. Vós não podeis manda-lo
embora, depois do que fez por mim?
--Sim! A casa onde habita um amigo dedicado como este, tem um anjo da
guarda que vela sobre a salvação de todos. Elle ficará comnosco, e
para sempre.
Pery, tremulo e palpitando de alegria e esperança, estava suspenso aos
labios de D. Antonio.
--Minha mulher, disse o fidalgo dirigindo-se a D. Lauriana com uma
expressão solemne, julgais que um homem que acaba de salvar pela
segunda vez vossa filha pondo em risco a sua vida, que, despedido por
nós, apezar da nossa ingratidão, a sua ultima palavra é uma
dedicação por aquelles que o desconhecem, julgais que este homem deva
sahir da casa onde tantas vezes a desgraça teria entrado, se elle ahi
não estivera?
D. Lauriana, tirados os seus prejuizos, era uma boa senhora, e quando o
seu coração se commovia sabia comprehender os sentimentos generosos.
As palavras de seu marido achárão écho em sua alma.
--Não, disse ella levantando-se e dando alguns passos; Pery deve ficar,
sou eu que vos peço agora esta graça, Sr. D. Antonio de Mariz; tenho
tambem a minha divida a pagar.
O indio beijou com respeito a mão que a mulher do fidalgo lhe
estendêra.
Cecilia batia as mãos de contente; os dous cavalheiros sorrião um para
o outro, e comprehendião-se. O filho sentia um certo orgulho, vendo seu
pai nobre, grande e generoso. O pai conhecia que seu filho o approvava,
e seguiria o exemplo que lhe dava.
Neste momento Ayres Gomes appareceu no vão da porta e ficou
estupefacto.
O que se passava era para elle uma cousa incomprehensivel, um enigma
indecifravel para quem ignorava o que succedêra anteriormente.
Pela manhã, depois do almoço, D. Antonio de Mariz, chegando a uma
janella da sala, vira uma grande nuvem negra abater-se sobre a margem do
_Paquequer_. A quantidade dos abutres que formavão essa nuvem, indicava
que o pasto era abundante; devia ser um ou muitos animaes de grande
corpulencia.
Levado pela curiosidade natural em uma existencia sempre igual e
monotona, o fidalgo desceu ao rio; encontrou junto da latada de
jasmineiros que servia de casa de banho á Cecilia, uma pequena canôa
em que atravessou para a margem opposta.
Ahi descobrio os corpos dos dous selvagens que immediatamente reconheceu
pertencerem á raça dos Aymorés; viu que tinhão sido mortos com arma
de fogo. Nesse momento não se lembrou de cousa alguma senão de que os
selvagens ião talvez atacar a sua casa, e um terrivel presentimento
cerrou-lhe o coração.
D. Antonio não era supersticioso; mas não podéra eximir-se de um
receio vago quando soube da morte que D. Diogo tinha feito
involuntariamente e por falta de prudencia; fôra este o motivo por que
se tinha mostrado tão severo com seu filho.
Vendo agora o começo da realisação de suas sinistras previsões,
aquelle receio vago que a principio sentira, redobrou; auxiliado pela
disposição de espirito em que se achava, tornou-se em forte
presentimento.
Uma voz interior parecia dizer-lhe que uma grande desgraça pesava sobre
sua casa, e a existencia tranquilla e feliz que até então vivêra
naquelle ermo ia transformar-se n'uma afflicção que elle não sabia
definir. Sob a influencia desse movimento involuntario d'alma, que ás
vezes sem motivo nos mostra a esperança ou a dôr, o fidalgo voltou á
casa.
Perto viu dous aventureiros a quem ordenou que fossem immediatamente
enterrar os selvagens, e guardassem o maior silencio sobre isto; não
queria assustar sua mulher.
O mais já sabemos.
Pensou que podia a desgraça, que elle temia, recahir sobre sua pessoa,
e quiz dispor a sua ultima vontade, assegurando o socego de sua familia.
Depois, o aviso de Pery lembrou-lhe de repente o que tinha visto;
recordou-se das menores circumstancias, combinou-as com o que Isabel
havia contado a sua tia, e conheceu o que se tinha passado como se o
houvesse presenciado.
A ferida do indio que se abrira com as emoções por que passou durante
o momento cruel em que sua senhora o mandava partir, tinha manchado o
saio de algodão com um ponto quasi imperceptivel; este ponto foi um
raio de luz para D. Antonio.
O escudeiro, o digno Ayres Gomes, que depois de esforços inauditos
conseguira arrastar com o pé a sua espada, levanta-la e com ella cortar
os laços que o prendião, tinha pois razão de ficar pasmado diante do
que se passava.
Pery, beijando a mão de D. Lauriana, Cecilia contente e risonha, D.
Antonio de Mariz e D. Diogo contemplando o indio com um olhar de
gratidão; tudo isto ao mesmo tempo, era para fazer enlouquecer ao
escudeiro.
Sobretudo para quem souber que apenas livre correra á casa unicamente
com o fim de contar o occorrido e pedir a D. Antonio de Mariz licença
para esquartejar o indio; resolvido se o fidalgo lh'a negasse
despedir-se do seu serviço, no qual se conservava havia trinta annos;
mas tinha uma injuria a vingar, e bem que lhe custasse deixar a casa,
Ayres Gomes não hesitava.
D. Antonio vendo a figura espantada do escudeiro, rio-se; sabia que elle
não gostava do indio, e quiz neste dia reconciliar todos com Pery.
--Vem cá, meu velho Ayres, meu companheiro de trinta annos. Estou certo
que tu, a fidelidade em pessoa, estimarás apertar a mão de um amigo
dedicado de toda a minha familia.
Ayres Gomes não ficou pasmado só; ficou uma estatua. Como desobedecer
a D. Antonio que lhe fallava com tanta amizade? Mas como apertar a mão
que o havia injuriado?
Se já se tivesse despedido do serviço, seria livre; mas a ordem o
pilhára de sorpreza; não podia sophisma-la.
--Vamos, Ayres!
O escudeiro estendeu o braço hirto; o indio apertou-lhe a mão
sorrindo.
--Tu és amigo; Pery não te amarrará outra vez.
Por estas palavras todos adivinhárão confusamente o que se tinha
passado, e ninguem pôde deixar de rir-se.
--Maldito bugre! murmurava o escudeiro entre dentes; has de sempre
mostrar o que és.
Era hora do jantar: o toque soou.
XI
TRAVESSURA
Na tarde desse mesmo domingo em que tantos acontecimentos se tinhão
passado, Cecilia e Isabel sahião do jardim com o braço na cintura uma
da outra.
Estavão vestidas de branco; lindas ambas, mas tinha cada uma diversa
belleza; Cecilia era a graça; Isabel era a paixão; os olhos azues de
uma brincavão; os olhos negros da outra brilhavão.
O sorriso de Cecilia parecia uma gota de mel e perfume que distillavão
os seus labios mimosos; o sorriso de Isabel era um beijo ideal, que
fugia-lhe da boca e ia roçar com as suas azas a alma daquelles que a
contemplavão.
Vendo aquella menina loura, tão graciosa e gentil, o pensamento
elevava-se naturalmente ao céo, despia-se do envolucro material e
lembrava-se dos anginhos de Deus.
Admirando aquella moça morena, languida e voluptuosa, o espirito
apegava-se á terra; esquecia o anjo pela mulher; em vez do paraiso,
lembrava-lhe algum retiro encantador, onde a vida fosse um breve sonho.
No momento em que sahião do jardim, Cecilia olhava sua prima com um
certo arzinho malicioso, que fazia prever alguma travessura das que
costumava praticar.
Isabel, ainda impressionada pela scena da manhã, tinha os olhos baixos;
parecia-lhe, depois do que se havia passado, que todos, e principalmente
Alvaro, ião ler o seu segredo, guardado por tanto tempo no fundo de sua
alma.
Entretanto sentia-se feliz; uma esperança vaga e indefinida
dilatava-lhe o coração e dava á sua physionomia a expressão de
jubilo, expansão da creatura quando acredita ser amada, aureola
brilhante que bem se podia chamar _a alma do amor_.
O que esperava ella? Não sabia; mas o ar lhe parecia mais perfumado, a
luz mais brilhante, o olhar via os objectos côr de rosa, e o leve
roçar da espiguilha do vestido no seu collo avelludado causava-lhe
sensações voluptuosas.
Cecilia com o mysterioso instincto da mulher adivinhava, sem
comprehender, que alguma cousa de extraordinario se passava em sua
prima, e admirava a irradiação de belleza que brilhava no seu moreno
semblante.
--Como estás bonita! disse a menina de repente.
E conchegando a face de Isabel aos labios, imprimio nella um beijo
suave; a moça respondeu affectuosamente á caricia de sua prima.
--Não trouxeste o teu bracelete? exclamou ella reparando no braço de
Cecilia.
É verdade! replicou a menina com um gesto de enfado.
Isabel julgou que este gesto era produzido pelo esquecimento; mas a
verdadeira causa foi o receio que teve Cecilia de se trahir.
--Vamos busca-lo?
--Oh! não! ficaria tarde, e perderiamos o nosso passeio.
--Então devo tirar o meu; já não estamos irmãs.
--Não importa; quando voltarmos prometto-te que ficaremos bem irmãs.
Dizendo isto Cecilia sorria maliciosamente.
Tinhão chegado á frente da casa. D. Lauriana conversava com seu filho
D. Diogo, emquanto D. Antonio de Mariz e Alvaro passeavão pela
esplanada conversando.
Cecilia se dirigio a seu pai, levando Isabel, que ao aproximar-se do
joven cavalheiro sentio fugir-lhe a vida.
--Meu pai, disse a menina, nós queremos dar um passeio. A tarde está
tão linda! Se eu vos pedisse e ao Sr. Alvaro para que nos
acompanhassem?
--Nós fariamos como sempre que tu pedes, respondeu o fidalgo
galanteando; cumpririamos a tua ordem.
--Oh! ordem, não, meu pai! Desejo apenas!
--E o que são os desejos de um lindo anginho como tu?
--Assim, nos acompanhais?
--De certo.
--E vós, Sr. Alvaro?
--Eu... obedeço.
Cecilia fallando ao moço não pode deixar de córar; mas venceu a
perturbação e seguio com sua prima para a escada que descia ao valle.
Alvaro estava triste; depois da conversa que tivera com Cecilia, vira-a
durante o jantar; a menina evitava os seus olhares, e nem uma só vez
lhe dirigira a palavra. O moço suppunha que tudo isto era resultado da
sua imprudencia da vespera; mas Cecilia mostrava-se tão alegre e
satisfeita que parecia impossivel ter conservado a lembrança da offensa
de que elle se accusava.
A maneira por que a menina o tratava tinha mais de indifferença do que
de resentimento; dir-se-hia que esquecêra tudo que havia passado; nem
guardava já a minima lembrança da manhã. Era isto o que tornára
Alvaro triste, apezar da felicidade que sentira quando D. Antonio o
chamára seu filho; felicidade que ás vezes parecia-lhe um sonho
encantador que ia esvaecer-se.
As duas moças havião chegado ao valle, e seguião por entre as moitas
de arvoredo que bordavão o campo formando um gracioso labyrintho. Ás
vezes Cecilia desprendia-se do braço de sua prima, e correndo pela
vereda sinuosa que recortava as moitas de arbustos, escondia-se por
detraz da folhagem, e fazia com que Isabel a procurasse debalde por
algum tempo. Quando sua prima por fim conseguia descobri-la, rião-se
ambas, abraçavão-se e continuavão o innocente folguedo.
Uma occasião porém Cecilia deixou que D. Antonio e Alvaro se
aproximassem; a menina tinha um olhar tão travesso e um sorriso tão
brejeiro, que Isabel ficou inquieta.
--Esqueci-me dizer-vos uma cousa, meu pai.
--Sim! E o que é?
--Um segredo.
--Pois vem contar-m'o.
Cecilia separou-se de Isabel; chegando-se para o fidalgo, tomou-lhe o
braço.
--Tende paciencia por um instante, Sr. Alvaro, disse ella voltando-se;
conversai com Isabel; dizei-lhe vossa opinão sobre aquelle lindo
bracelete... Ainda não o vistes?
E sorrindo afastou-se ligeiramente com seu pai; o segredo que ella
tinha, era a travessura que acabava de praticar, deixando Alvaro e
Isabel sós, depois de lhes ter lançado uma palavra, que devia produzir
o seu effeito.
A emoção que sentirão os dous moços ouvindo o que dissera Cecilia é
impossivel de descrever.
Isabel suspeitou o que se tinha passado; conheceu que Cecilia a
enganára para obriga-la a aceitar o presente de Alvaro; o olhar que sua
prima lhe lançára afastando-se com seu pai, lh'o tinha revelado.
Quanto á Alvaro, não comprehendia cousa alguma, senão que Cecilia
tinha-lhe dado a maior prova do seu desprezo e indifferença; mas não
podia adivinhar a razão por que ella associara Isabel a esse acto que
devia ser um segredo entre ambos.
Ficando sós em face um do outro, não ousavão levantar os olhos;
avista de Alvaro estava cravada no bracelete; Isabel, tremula, sentia o
olhar do moço, e soffria como se um annel de ferro em braza cingisse o
seu braço mimoso.
Assim estiverão tempo esquecido; por fim Alvaro desejoso deter uma
explicação, animou-se a romper o silencio:
--Que significa tudo isto, D. Isabel? perguntou elle supplicante.
--Não sei!... Fui escarnecida! respondeu Isabel balbuciando.
--Como?
--Cecilia fez-me acreditar que este bracelete vinha de seu pai, para me
fazer aceita-lo; pois se eu soubesse...
--Que vinha de minha mão! Não aceitarieis?
--Nunca!... exclamou a moça com fogo.
Alvaro admirou-se do tom com que Isabel proferio aquella palavra;
parecia dar um juramento.
--Qual o motivo? perguntou depois de um momento.
A moça fitou nelle os seus grands olhos negros; havia tanto amor e
tanto sentimento nesse olhar profundo, que se Alvaro o comprehendesse
teria a resposta á sua pergunta. Mas o cavalheiro não comprehendeu nem
o olhar nem o silencio de Isabel; adivinhava que havia nisto um
mysterio, e desejava esclarecê-lo.
Aproximou-se da moça e disse-lhe com a voz doce e triste:
--Perdoai-me, D. Isabel; sei que vou commetter uma indiscrição; mas o
que se passa exige uma explicação entre nós. Dizeis que fostes
escarnecida; tambem eu o fui. Não achais que o melhor meio de acabar
com isto, seja o fallarmos francamente um ao outro?
Isabel estremeceu.
--Fallai: eu vos escuto, Sr. Alvaro.
--Escuso confessar-vos o que já adivinhastes; sabeis a historia deste
bracelete, não é verdade?
--Sim! balbuciou a moça.
--Dizei-me pois como elle passou do lugar onde estava ao vosso braço.
Não penseis que vos censuro por isso, não; desejo apenas conhecer até
que ponto zombão de mim.
--Já vos confessei o que sabia. Cecilia enganou-me.
--E a razão que teve ella para enganar-vos não atinais?
--Oh! se atino.... exclamou Isabel reprimindo as palpitações do
coração.
--Deizei-m'a então. Eu vo-lo peço e supplico!
Alvaro tinha deitado um joelho em terra, e tomando a mão da moça
implorava della a palavra que devia explicar-lhe o acto de Cecilia, e
revelar-lhe a razão que tivera a menina para rejeitar a prenda que elle
havia dado.
Conhecendo esta razão talvez podesse desculpar-se, talvez podesse
merecer o perdão da menina; e por isso pedia com instancia a Isabel que
lhe declarasse o motivo porque Cecilia a havia enganado.
A moça vendo Alvaro a seus pés, supplicante, tinha-se tornado livida;
seu coração batia com tanta violencia que via-se o peito de seu
vestido elevar-se com as palpitações fortes e apressadas: o seu olhar
ardente cahia sobre o moço e o fascinava.
--Fallai! dizia Alvaro; fallai! Sois boa; e não me deixeis soffrer
assim, quando uma palavra vossa pode dar-me a calma e o socego.
--E se essa palavra vos fizesse odiar-me? balbuciou a moça.
--Não tenhais esse receio; qualquer que seja a desgraça que me
annunciardes, será bem vinda pelos vossos labios; é sempre um consolo
receber-se a má nova de voz amiga!
Isabel ia fallar, mas parou estremecendo:
--Ah! não posso! seria preciso confessar-vos tudo!
--E porque não confessais? Não vos mereço confiança? Tendes em mim
um amigo.
--Se fosseis!...
E os olhos de Isabel scintillárão.
--Acabai!
--Se me fosseis amigo, me havieis de perdoar.
--Perdoar-vos, D. Isabel! Que me fizestes vós para que eu vos perdoe?
disse Alvaro admirado.
A moça teve medo do que havia dito; cobrio o rosto com as mãos.