anginho do prazer que bafejava tudo quando a rodeava, achou um gozo
ineffavel em chorar. Quando enxugou as lagrimas, soffria menos;
sentio-se alliviada; pôde então reflectir sobre o que havia passado.
O amor revelava-se para ella sob uma nova forma; até aquelle dia a
affeição que sentia por Alvaro era apenas um enleio que a fazia corar,
e um prazer que a fazia sorrir.
Nunca se lembrára que esta affeição podesse passar daquillo que era,
e produzir outras emoções que não fossem o rubor e o sorriso; o
exclusivismo do amor, a ambição de tornar seu e unicamente seu o
objecto da paixão, acabava de ser-lhe revelado por sua prima.
Ficou por muito tempo pensativa; consultou o seu coração, e conheceu
que não amava assim; nunca a affeição que tinha a Alvaro podia
obriga-la a odiar sua prima, a quem queria como irmã.
Cecilia não comprehendia essa luta do amor com os outros sentimentos do
coração, luta terrivel em que quasi sempre a paixão victoriosa
subjuga o dever, e a razão. Na sua ingenua simplicidade acreditava que
podia ligar perfeitamente a veneração que tinha por seu pai, o
respeito que votava a sua mãi, o affecto que sentia por Alvaro, o amor
fraternal que consagrava a seu irmão e a Isabel, e a amizade que tinha
a Pery.
Estes sentimentos erão toda a sua vida; no meio delles sentia-se feliz:
nada lhe faltava: tambem nada mais ambicionava. Emquanto podesse beijar
a mão de seu pai e de sua mãi, receber uma caricia de seu irmão e de
sua prima, sorrir a seu cavalheiro e brincar com o seu escravo, a
existencia para ella seria de flôres.
Assustou-se pois com a necessidade de quebrar um dos fios de ouro que
tecião os seus dias innocentes e felizes; soffreu com a idéa de ver em
luta duas das affeições calmas e serenas de sua alma.
Teria menos um encanto na sua vida, menos uma imagem nos seus sonhos
menos uma flor na sua alma; porém não faria a ninguem desgraçado, e
sobretudo a sua prima Isabel, que ás vezes se mostrava tão
melancolica.
Restavão-lhe suas outras affeições; com ellas pensava Cecilia que a
existencia ainda podia sorrir-lhe; não devia tornar-se egoista.
Para assim pensar era preciso ser uma menina pura e isenta como ella;
era preciso ter o coração como recente botão, que ainda não começou
a desatar-se com o primeiro raio do sol.
Estes pensamentos adejavão ainda na mente de Cecilia emquanto ella
olhava pensativa o fosso, onde tinha cahido o objecto que viera
modificar a sua existencia.
--Se eu podesse obter essa prenda? dizia comsigo. Mostraria a Isabel
como eu a amo e quanto a desejo feliz.
Vendo sua senhora olhar tristemente o fundo do precipicio, Pery
comprehendeu parte do que passava no seu espirito; sem poder adivinhar
como Cecilia soubera que o objecto tinha cahido alli, percebeu que a
moça sentia por isso um pezar.
Nem tanto bastava para que o indio fizesse tudo afim de trazer a alegria
ao rostinho de Cecilia: além de que já tinha promettido a Alvaro
_endireitar isto_, como elle dizia na sua linguagem simples.
Chegou-se ao fosso.
Uma cortina de musgos e trepadeiras lastrando pelos bordas do profundo
precipicio cobria as fendas da pedra: por cima era um topete de verde
risonho sobre o qual adejavão as borboletas de côres vivas; em baixo
uma cava cheia de limo onde a luz não penetrava.
Ás vezes ouvião-se partir do fundo do balseiro os silvos das
serpentes, os pios tristes de algum passaro, que magnetisado ia
entregar-se á morte; ou o tanger de um pequeno chocalho sobre a pedra.
Quando o sol estava a pino, como então, via-se entre a relva, sobre o
calice das campanulas roxas, os olhos verdes de alguma serpente ou uma
linda fita de escamas pretas e vermelhas enlaçando a baste de um
arbusto.
Pery pouco se importava com estes habitantes do fosso e com o
acolhimento que lhe farião na sua morada; o que o inquietava era o
receio de que não tivesse luz bastante no fundo para descobrir o
objecto que ia procurar.
Cortou o galho de uma arvore, que pela sua propriedade, os colonisadores
chamárão _candêa_; tirou fogo, e começou a descer com o facho
acceso. Foi só nessa occasião que Cecilia, embebida nos seus
pensamentos, viu defronte de sua janella o indio a descer pela encosta.
A menina assustou-se; porque a presença de Pery lembrou-lhe de repente
o que se passára pela manhã; era mais uma affeição perdida.
Dous laços quebrados ao mesmo tempo, dous habitos rompidos um sobre o
outro, era muito; duas lagrimas correrão pelas suas faces, como se cada
uma fosse vertida pelas cordas do coração que acabavão de ser
vibradas.
--Pery!...
O indio levantou os olhos para ella.
--Tu choras, senhora? disse elle estremecendo.
A menina sorrio-lhe; mas com um sorriso tão triste que partia a alma.
--Não chores, senhora; disse o indio supplicante; Pery vai te dar o que
desejas.
--O que eu desejo?...
--Sim; Pery sabe.
A moça abanou a cabeça.
--Está alli; e apontou para o fundo do precipicio.
--Quem te disse? perguntou a menina admirada.
--Os olhos de Pery.
--Tu viste?
--Sim.
O indio continuou a descer.
--Que vais fazer? exclamou Cecilia assustada.
--Buscar o que é teu.
--Meu!... murmurou melancolicamente.
--Elle te deo.
--Elle quem?
--Alvaro.
A moça córou; mas o susto reprimio o pejo; abaixando os olhos sobre o
precipicio, tinha visto um reptil deslisando pela folhagem e ouvido o
murmurio confuso e sinistro que vinha do fundo do abysmo.
--Pery, disse empallidecendo, não desças, volta!
--Não; Pery não volta sem trazer o que te fez chorar.
--Mas tu vais morrer!...
--Não tem medo.
--Pery, disse Cecilia com severidade, tua senhora manda que não
desças.
O indio parou indeciso; uma ordem de sua senhora era uma fatalidade para
elle: cumpria-se irremissivelmente.
Fitou na moça um olhar timido: nesse momento Cecilia, vendo Alvaro na
ponta da esplanada junto da cabana do selvagem, retirava-se para dentro
da janella córando.
O indio sorrio.
--Pery desobedece á tua voz, senhora, para obedecer ao teu coração.
E o indio desappareceu sob as trepadeiras que cobrião o precipicio.
Cecilia soltou um grito, e debruçou-se no parapeito da janella.
VIII
O BRACELETE
O que Cecilia viu debruçando-se á janella, gelou-a de espanto e
horror.
De todos os lados surgião reptis enormes que, fugindo pelos alcantis,
lançavão-se na floresta; as viboras escapavão das fendas dos
rochedos, e aranhas venenosas suspendião-se aos ramos das arvores pelos
fios da têa.
No meio do concerto horrivel que formava o sibillar das cobras e o
estridulo dos grillos, ouvia-se o canto monotono e tristonho da cauan no
fundo do abysmo.
O indio tinha desapparecido; apenas se via o reflexo da luz do facho.
Cecilia pallida e tremula julgava impossivel que Pery não estivesse
morto e já quasi devorado por esses monstros de mil fórmas: chorava o
seu amigo perdido, e balbuciava preces pedindo a Deus um milagre para
salva-lo.
Ás vezes fechava os olhos para não ver o quadro terrivel que se
desenrolava diante della, e abria-os logo para prescrutar o abysmo e
descobrir o indio.
Em um desses momentos um dos insectos que pullulavão no meio da
folhagem agitada esvoaçou, e veio pousar no seu hombro; era uma
esperança, um desses lindos coleopteros verdes que a poesia popular
chama _lavandeira de Deus_.
A alma nos momentos supremos de afflicção suspende-se ao fio mais
tenue da esperança; Cecilia sorrio-se entre as lagrimas, tomou a
lavandeira entre os seus dedos rosados e acariciou-a.
Precisava esperar; esperou, reanimou-se, e pôde proferir uma palavra
ainda com a voz tremula e fraca:
--Pery!
No curto instante que succedeu a este chamado, soffreu uma anciedade
cruel; se o indio não respondesse, estava morto; mas Pery fallou:
--Espera, senhora!
Entretanto apezar da alegria que lhe causarão estas palavras, pareceu
á menina que erão pronunciadas por um homem que soffria; a voz
chegou-lhe ao ouvido surda e rouca.
--Estás ferido? perguntou inquieta.
Não houve resposta; um grito agudo partio do fundo do abysmo, e echoou
pelas fragoas; depois o cauan cantou de novo, e uma cascavel silvando
bravia passou seguida por uma ninhada de filhos.
Cecilia vacillou; soltando um gemido plangente cahio desmaiada de
encontro á almofada da janella.
Quando, passado um quarto d'hora, a menina abrio os olhos, vio diante
della Pery que chegava naquelle momento, e lhe apresentava sorrindo uma
bolsa de malha de retroz dentro da qual havia uma caixinha de velludo
escarlate.
Sem se importar com a joia, Cecilia ainda impressionada pelo quadro
horrivel que presenciára, tomou as mãos do indio, e perguntou-lhe com
sofreguidão:
--Não estás mordido, Pery?... Não soffres?... Dize!
O indio olhou-a admirado do susto que via no seu semblante.
--Tiveste medo, senhora?
--Muito! exclamou a menina.
O indio sorrio.
--Pery é um selvagem, filho das florestas; nasceu no deserto, no meio
das cobras; ellas conhecem Pery e o respeitão.
O indio dizia a verdade; o que acabava de fazer era a sua vida de todos
os dias no meio dos campos: não havia nisto o menor perigo.
Tinha-lhe bastado a luz do seu facho, e o canto do cauan que elle
imitava perfeitamente, para evitar os reptis venenosos que são
devorados por essa ave. Com este simples expediente de que os selvagens
ordinariamente se servião quando atravessavão as mattas de noite, Pery
descera e tivera a felicidade de encontrar presa aos ramos de uma
trepadeira a bolsa de seda, que adivinhou ser o objecto dado por Alvaro.
Soltou então um grito de prazer que Cecilia tomou por grito de dôr:
assim como antes tinha tomado o écho do precipicio por uma voz cava e
surda.
Entretanto Cecilia que não podia comprehender como um homem passava
assim no meio de tantos animaes venenosos sem ser offendido por elles,
attribuia a salvação do indio a um milagre, e considerava a acção
simples e natural que acabava de praticar como um heroismo admiravel. A
sua alegria por ver Pery livre de perigo, e por ter nas suas mãos a
prenda de Alvaro foi tal, que esqueceu tudo o que se tinha passado.
A caixinha continha um simples bracelete de perolas; mas estas erão do
mais puro esmalte e lindas como perolas que erão; bem mostravão que
tinhão sido escolhidas pelos olhos de Alvaro, e destinadas ao braço de
Cecilia.
A menina admirou-as um momento com o sentimento de faceirice que é
innato na mulher, e lhe serve de setimo sentido; pensou que devia ir-lhe
bem esse bracelete; levada por esta idéa cingio-o ao braço, e mostrou
a Pery que a contemplava satisfeito de si mesmo:
--Pery sente uma cousa.
--O que?
--Não ter contas mais bonitas do que estas para dar-te.
--E porque sentes isto?
--Porque te acompanharião sempre.
Cecilia sorrio; ia fazer uma travessura.
Assim, tu ficarias contente se tua senhora em vez de trazer este
bracelete, trouxesse um presente dado por ti?
--Muito.
--E o que me dás tu para que eu me faça bonita? perguntou a menina
gracejando.
O indio correu os olhos ao redor de si e ficou triste; podia dar a sua
vida, que de nada valia; mas onde iria elle, pobre selvagem, buscar um
adorno digno de sua senhora!
Cecilia teve pena do seu embaraço.
--Vai buscar uma flor que tua senhora deitará nos seus cabellos, em vez
deste bracelete que ella nunca deitará no seu braço.
Estas ultimas palavras forão ditas com um tom de energia, que revelava
a firmeza do caracter desta menina; ella fechou outra vez o bracelete na
caixa, e ficou um momento melancolica e pensativa.
Pery voltou trazendo uma linda flôr sylvestre que encontrára no
jardim; era uma parasita avelludada, de lindo escarlate. A menina
prendeu a flôr nos cabellos, satisfeita por ter cumprido um innocente
desejo de Pery, que só vivia para cumprir os seus; e dirigio-se ao
quarto de sua prima, occultando no seio a caixinha de velludo.
Isabel pretextára uma indisposição; não sahira do seu quarto depois
que voltára do aposento de Cecilia, tendo trahido o segredo de seu
amor.
As lagrimas que derramou não forão como as de sua prima, de allivio e
consolo; forão lagrimas ardentes, que em vez de refrescarem o
coração, o queimão como o rescaldo da paixão.
Ás vezes, ainda humedecidos de pranto, seus olhos negros brilhavão com
um fulgor extraordinario; parecia que um pensamento delirante passava
rapidamente no seu espirito desvairado. Então ajoelhava-se, e fazia uma
oração, no meio da qual suas lagrimas vinhão de novo orvalhar-lhe as
faces.
Quando Cecilia entrou, elle estava sentada á beira do leito, com os
olhos fitos na janella, por entre a qual se via uma nesga do céo.
Estava bella da melancolia e languidez que prostrava o seu corpo n'um
enlevo seductor, fazendo realçar as linhas harmoniosas de talhe
gracioso.
Cecilia aproximou-se sem ser vista, e estalou um beijo na face morena de
sua prima.
--Já te disse que não te quero vêr triste.
--Cecilia!... exclamou Isabel sobresaltando-se.
--Que é isto? Faço-te medo?
--Não... mas...
--Mas, o que?
--Nada...
--Sei o que queres dizer, Isabel; julgaste que conservava uma queixa de
ti. Confessa!
--Julguei, disse a moça balbuciando, que me tinha tornado indigna de
tua amizade.
E porque? Fizeste-me tu algum mal? Não somos nós duas irmãs, que nos
devemos amar sempre?
--Cecilia, o que tu dizes não é o que tu sentes? exclamou Isabel
admirada.
--Algum dia te enganei? replicou Cecilia magoada.
--Não; perdoa; porém é que...
A moça não continuou; o olhar terminou o seu pensamento, e exprimio o
espanto que lhe causava o procedimento de Cecilia. Mas de repente uma
idéa assaltou-lhe o espirito.
Cuidou que Cecilia não tinha ciumes della, porque a julgava indigna de
merecer um só olhar de Alvaro; esta lembrança a fez sorrir
amargamente.
--Assim, está entendido, disse Cecilia com volubilidade, nada se passou
entre nós; não é verdade?
--Tu o queres!
--Quero, sim; nada se passou; somos as mesmas, com uma differença,
accrescentou Cecilia corando, que de hoje em diante tu não deves ter
segredos para comigo.
--Segredos! Tinha um que já te pertence! murmurou Isabel.
--Porque o adivinhei! Não é assim que desejo; prefiro ouvir de tua
boca; quero consolar-te quando estiveres toda tristezinha como agora, e
rir-me comtigo quando ficares contente. Sim?
--Ah! nunca! Não me peças uma cousa impossivel, Cecilia! Já sabes de
mais; não me obrigues a morrer a teus pés de vergonha.
--E porque te causaria isto vergonha? Assim como tu me amas, não podes
amar uma outra pessoa?
Isabel escondeu o rosto nas mãos para disfarçar o rubor que subia-lhe
ás faces, Cecilia um pouco commovida olhava sua prima, e comprehendia
nesse momento a causa porque ella propria córava quando sentia os olhos
de Alvaro fitos nos seus.
--Cecilia, disse Isabel fazendo um esforço supremo, não me illudas,
minha prima; tu és boa, tu me amas, e não queres magoar-me; mas não
zombes da minha fraqueza. Se soubesses como soffro!
--Não te illudo, já te disse; não desejo que soffras, e menos que
soffras por minha causa; entendes?
--Entendo, e juro-te que saberei fazer calar meu coração; se fôr
preciso elle morrerá antes do que dar-te uma sombra da tristeza.
--Não, exclamou Cecilia, tu não me comprehendes: não é isto que eu
te peço, bem ao contrario quero que... sejas feliz!
--Que eu seja feliz? perguntou Isabel arrebatadamente.
--Sim, respondeu a menina abraçando-a e fallando-lhe baixinho ao
ouvido; que o ames a elle, e a mim tambem.
Isabel ergueu-se pallida, e duvidando do que ouvia; Cecilia teve
bastante força para sorrir-lhe com um dos seus divinos sorrisos.
--Não, é impossivel? Tu me queres tornar louca, Cecilia?
Quero tornar-te alegre, respondeu a menina acariciando-a; quero que
deixes esse rostinho melancolico, e me abraces como tua irmã. Não o
mereço?
--Oh! sim, minha irmã; tu és um anjo de bondade, mas o teu sacrificio
é perdido; eu não posso ser feliz, Cecilia.
--Porque?
--Porque elle te ama! murmurou Isabel.
A menina corou.
--Não digas isto, é falso.
--É bem verdade.
--Elle te disse?
--Não, mas adivinhei-o antes de ti mesma.
--Pois te enganaste, e sabes que mais, não me falles nisto. Que me
importa o que elle sente a meu respeito?
E a menina conhecendo que a emoção se apoderava della fugio, mas
voltou da porta.
--Ah! esqueci-me de dar-te uma cousa que trouxe para ti.
Tirou a caixinha de velludo, e abrindo-a atou o bracelete de perolas ao
braço de Isabel.
--Como te vão bem! Como assentão no teu moreno tão lindo! Elle te
achará bonita!
Este bracelete!...
Isabel teve de repente uma suspeita.
A menina percebeu: ia mentir pela primeira vez na sua vida.
--Foi meu pai que m'o deo hontem; mandou vir dous irmãos; um para mim,
e outro que eu lhe pedi para ti. Assim, não tens que recusar, senão
agasto-me comtigo.
Isabel abaixou a cabeça.
--Não o tires; eu vou deitar o meu e ficaremos irmãs. Adeus, até
logo.
E apinhando os dedos atirou um beijo á prima e sahio correndo.
A travessura e jovialidade do seu genio já tinhão dissipado as
impressões tristes da manhã.
IX
TESTAMENTO
No momento em que Cecilia deixou Isabel, D. Antonio de Mariz subia a
esplanada, preoccupado por algum objecto importante, que dava á sua
physionomia expressão ainda mais grave que a habitual.
O velho fidalgo avistou de longe seu filho D. Diogo e Alvaro passeando
ao longo da cerca que passava no fundo da casa; fez-lhes signal de que
se aproximassem.
Os moços obedecerão promptamente, e acompanhárão D. Antonio de Mariz
até o seu gabinete d'armas, pequena saleta que ficava ao lado do
oratorio, e que nada tinha de notavel, a não ser a portinha de uma
escada que descia para uma especie de cava ou adega, servindo de paiol.
Na occasião em que se abrião os alicerces da casa, os obreiros
descobrirão um socavão profundo talhado na pedra; D. Antonio como
homem previdente, lembrando-se da necessidade que teria para o futuro de
não contar senão com os seus proprios recursos, mandou aproveitar essa
abobada natural, e fazer della um deposito que podesse conter algumas
arrobas de polvora.
O fidalgo achára ainda uma outra grande vantagem na sua lembrança; era
a tranquillidade de sua familia, cuja vida não estaria sujeita a um
descuido de qualquer domestico ou aventureiro; porque no seu gabinete
d'armas ninguem entrava, senão estando elle presente.
D. Antonio sentou-se junto da mesa coberta com um couro de moscovia e
fez signal aos dous moços para que se sentassem a seu lado.
--Tenho que fallar-vos de objecto muito serio, de objecto de familia,
disse o fidalgo. Chamei-vos para me ouvirdes como em uma cousa que vos
interessa e a mim antes do que a todos.
D. Diogo inclinou-se diante de seu pai; Alvaro imitou-o, sentindo um
sobresalto ao ouvir aquellas palavras graves e pausadas do velho
fidalgo.
--Tenho sessenta amos, continuou D. Antonio; estou velho. O contacto
deste solo virgem do Brazil, o ar puro destes desertos remoçou-me
durante os ultimos annos; mas a natureza reassume os seus direitos, e
sinto que o antigo vigor cede á lei da creação que manda voltar á
terra aquillo que veio da terra.
Os dous moços ião dizer alguma doce palavra como quando procuramos
illudir a verdade áquelles a quem prezamos, esforçando por nos
illurdirmos a nós proprios.
D. Antonio conteve-os com um gesto nobre.
--Não me interrompeis. Não é uma queixa que vos faço; é sim uma
declaração que deveis receber, pois é necessaria para que possais
comprehender o que tenho de dizer-vos ainda. Quando durante quarenta
annos jogamos nossa vida quasi todos os dias, quando vimos a morte cem
vezes sobre nossa cabeça, ou debaixo de nossos pés, podemos olhar
tranquillo o termo da viagem que fazemos neste valle de lagrimas.
Oh! nunca duvidamos de vós, meu pai! exclamou D. Diogo; mas é a
segunda vez em dous dias que me fallais da possibilidade de uma tal
desgraça; e esta só idéa me assusta! Estais forte e vigoroso ainda!
--De certo, retrucou Alvaro; dizeis ha pouco que o Brazil vos tinha
remoçado, e eu affirmo-vos que ainda estais na juventude da segunda
vida que vos deo o novo mundo.
--Obrigado, Alvaro, obrigado, meu filho, disse D. Antonio sorrindo;
quero acreditar nas vossas palavras. Comtudo julgareis que é prudente
da parte de um homem que chega ao ultimo quartel da vida, dispor a sua
ultima vontade, e fazer o seu testamento.
--O vosso testamento, meu pai! disse D. Diogo pallido.
--Sim: a vida pertence a Deus, e o homem que pensa no futuro, deve
preveni-lo. É costume encarregar-se isto a um escriba; nem o tenho
aqui, nem o julgo necessario. Um fidalgo não póde confiar melhor a sua
ultima vontade do que a duas almas nobres e leaes como as vossas.
Perde-se um papel, rompe-se, queima-se; o coração de um cavalheiro que
tem sua espada para defendê-lo e seu dever para guia-lo, é um
documento vivo e um executor fiel. Este será pois o meu testamento.
Ouvi-me.
Os dous cavalheiros conhecêrão pela firmeza com que fallava D.
Antonio, que sua resolução era inabalavel; dispuzerão-se a ouvi-lo
com uma emoção de tristeza e respeito.
--Não trato de vós, D. Diogo, a minha fortuna pertence-vos como chefe
da familia que sereis; não trato de vossa mãi, porque perdendo um
esposo restar-lhe-ha um filho devotado: amo-vos a ambos, e vos bem-direi
na ultima hora. Ha porém duas cousas que mais prezo neste mundo, duas
cousas sagradas que devo zelar como um thesouro ainda mesmo depois que
me partir desta vida. É a felicidade de minha filha, e a nobreza do meu
nome; uma foi presente que recebi do céo, o outro legado que me deixou
meu pai.
O fidalgo fez pausa, e volveu um olhar do rosto triste de D. Diogo para
o semblante de Alvaro, que estava em extraordinaria agitação.
--A vós, D. Diogo, transmitto o legado de meu pai; estou convencido que
conservareis o seu nome tão puro como a vossa alma, e vos esforçareis
por eleva-lo, servindo uma causa santa e justa. A vós, Alvaro, confio a
felicidade de minha Cecilia; e creio que Deus enviando-vos a mim, fazem
já dez annos, não quiz senão completar o dom que me havia concedido.
Os dous moços tinhão deitado um joelho em terra, e beijavão cada uma
das mãos do velho fidalgo, que collocado no meio delles envolvia-os
n'um mesmo olhar de amor paternal.
--Erguei-vos, meus filhos, abraçai-vos como irmãos, e ouvide-me ainda.
D. Diogo abrio os braços, e apertou Alvaro ao peito; um instante os
dous corações nobres baterão um de encontro ao outro.
--O que me resta dizer-vos é difficil; custa sempre confessar uma
falta, ainda mesmo quando se falla a almas generosas. Tenho uma filha
natural: a estima que voto a minha mulher e o receio de fazer essa pobre
menina corar de seu nascimento, obrigárão-me a dar-lhe em vida o
titulo de sobrinha.
--Isabel?... exclamou D. Diogo.
--Sim, Isabel é minha filha. Peço-vos a ambos que a trateis sempre
como tal; que a ameis como irmã, e a rodeieis de tanto affecto e
carinho, que ella possa ser feliz, e perdoar-me a indifferença que lhe
mostrei e a infelicidade involuntaria que causei á sua mãi.
A voz do velho fidalgo tornou-se um tanto tremula e commovida; sentia-se
que uma recordação dolorosa, adormecida no fundo do coração, havia
despertado.
--Pobre mulher!... murmurou elle.
Levantou-se, passeou pelo aposento, e conseguindo dominar a sua
emoção, voltou aos dous moços.
--Eis a minha ultima disposição; sei que a cumprireis; não vos peço
um juramento; basta-me a vossa palavra.
Diogo estendeu a mão, Alvaro levou a sua ao coração: D. Antonio, que
comprehendeu tudo quanto dizia essa muda promessa, abraçou-os.
--Agora deixai a tristeza; quero-vos risonhos; eu o estou, vêde! A
tranquillidade sobre o futuro vai remoçar-me de novo; e esperareis
muito tempo talvez, antes que tenhais de executar a minha vontade, que
até lá fica sepultada no vosso coração, como testamento que é.
--Assim o tinha entendido, disse Alvaro.
--Pois então, replicou o fidalgo sorrindo, deveis ficar entendendo
tambem um ponto; é que talvez me incumba eu mesmo de realisar uma das
partes do meu testamento. Sabeis qual?
--A da minha felicidade!... respondeu o moço córando.
D. Antonio apertou-lhe a mão.
--Estou contente e satisfeito, disse o fidalgo; pena é que tenha um
triste dever a cumprir. Sabeis de Pery, Alvaro?
--Vi-o ha pouco.
--Ide e mandai-o a mim.
O moço retirou-se.
--Fazei chamar vossa mãi e vossa irmã, meu filho.
D. Diogo obedeceu.
O fidalgo sentou-se á mesa e escreveu n'uma tira de pergaminho, que
fechou com um retroz e sellou com as suas armas.
D. Lauriana e Cecilia entrárão acompanhadas por D. Diogo.
--Sentai-vos, minha mulher.
D. Antonio reunia sua familia para dar uma certa solemnidade ao acto que
ia praticar.