espada.
O movimento foi tão rapido, que a palavra soou ao mesmo tempo que a
ponta da lamina de aço batendo na face do italiano.
Loredano quiz evitar o insulto, mas não era tempo: seus olhos
injectárão-se de sangue:
--Sr. cavalheiro, deveis-me satisfação do insulto que me acabais de
fazer.
--É justo, respondeu Alvaro com dignidade; mas não á espada que é a
arma do cavalheiro; tirai o vosso punhal de bandido, e defendei-vos.
Proferindo estas palavras, o moço embainhou a espada com toda a calma,
segurou-a á cinta para não embaraçar-lhe os movimentos e sacou o seu
punhal, excellente folha de Damasco.
Os dous inimigos marchárão um para o outro, e lançárão-se; o
italiano era agil e forte, e defendia-se com summa dextreza; por duas
vezes já, o punhal de Alvaro, roçando-lhe o pescoço, tinha cortado o
talho de seu gibão de belbute.
De repente Loredano, fincando os pés, deo um pulo para tráz, e ergueu
a mão esquerda em signal de tregoa.
--Estais satisfeito? perguntou Alvaro.
--Não, Sr. cavalheiro; mas penso que em vez de nos estarmos aqui a
fatigar inutilmente, melhor seria tomarmos um meio mais expedito.
--Escolhei o que quizerdes, menos a espada; o mais me é indifferente.
--Outra cousa ainda; se nos batermos aqui, podemos incommodar-nos
reciprocamente; porque pretendo matar-vos, e creio que o mesmo desejo
tendes a meu respeito. Ora é preciso que desappareça o que ficar, e o
outro não leve um vestigio que o possa denunciar.
--Que quereis fazer neste caso?
--O rio está aqui perto, tendes a vossa clavina; collocar-nos-hemos
cada um sobre uma ponta de rochedo, aquelle que cahir morto ou
simplesmente ferido, pertencerá ao rio e á cachoeira; não
incommodará o outro.
--Tendes razão, é melhor assim; eu me envergonharia se D. Antonio de
Mariz soubesse que me bati com um homem da vossa qualidade.
--Sigamos, Sr. cavalheiro; nós nos odiamos bastante para não gastarmos
tempo em palavras.
Ambos tomárão na direcção do rio, cujo estrepito ouvia-se
distinctamente.
Alvaro, valente e corajoso, desprezava muito o seu inimigo para ter o
menor receio delle; demais a sua alma nobre e leal, incapaz da mais
pequena vilania, não pensava na traição. Nunca podia lembrar-lhe que
um homem que o viera provocar e ia medir-se com elle n'um combate
franco, levasse a infamia a ponto de querer feri-lo pelas costas.
Assim, continuou a caminhar, quando o italiano, deixando cahir de
proposito a cinta da espada, parou um instante para apanha-la e
prende-la de novo.
O que se passava então no seu espirito não estava de acordo com as
idéas nobres do cavalheiro; vendo o moço adiantar-se, disse comsigo?
--Preciso da vida deste homem, eu a tenho! Seria uma loucura deixa-la
escapar, e pôr a minha em risco. Um duello neste deserto, sem
testemunhas, é um combate em que a victoria pertence ao mais esperto.
Dizendo isto o italiano ia armando a sua clavina com toda a cautela, e
seguia de longe a Alvaro, afim de que o ranger do ferro ou o silencio de
suas pisadas não excitassem a attenção do moça.
Alvaro caminhava tranquillamente; seu pensamento estava bem longe
d'elle, e esvoaçava em torno da imagem de Cecilia, junto da qual via os
grandes olhos negros e avelludados de Isabel embebidos n'uma languidez
melancolica: era a primeira vez que aquelle rosto moreno e aquella
belleza ardente e voluptuosa se viera confundir em sonhos com o anjo
louro de seus amores.
Donde provinha isto? O moço não sabia explicar; mas um quer que seja,
como um presentimento, lhe dizia que naquella scena da janella havia
entre as duas moças um segredo, uma confidencia, uma revelação, e que
esse segredo era elle.
Assim, quando a morte se aproximava, quando já o bafejava e ia toca-lo,
elle descuidoso e pensativo repassava no pensamento idéas de amor, e
alimentava-se de esperanças. Não se lembrava de morrer; tinha
consciencia de si e fé em Deus; mas se por acaso uma fatalidade cahisse
sobre elle, consolava-o a idéa de que Cecilia, offendida, lhe perdoaria
um resto de resentimento que talvez conservasse.
Nisto metteu a mão no seio do gibão e tirou o jasmim que a moça lhe
dera, e que já tinha murchado ao contacto dos seus labios ardentes; ia
beija-lo ainda uma vez, quando lembrou-se que o italiano podia vê-lo.
Mas não ouvio os passos do aventureiro; a primeira idéa que lhe veio
foi que elle tinha fugido; e como a cobardia para as almas grandes se
associa á baixeza, lembrou-se de uma traição.
Quiz voltar-se, e entretanto não o fez. Mostrar que tinha medo daquelle
miseravel revoltava os seus brios de cavalheiro; ergueu a cabeça com
altivez e seguio.
Mal sabia elle que nesse momento o fecho da clavina movido por um dedo
seguro cahia, e que a bala ia partir guiada pelo olhar certeiro do
italiano.
VI
NOBREZA
Alvaro ouvio um sibillo agudo.
A bala roçando pela aba rebatida de seu chapéo de feltro cortou a
ponta da pluma escarlate que se enroscava sobre o hombro.
O moço voltou-se calmo, sereno, impassivel; nem um musculo do seu
rosto agitou-se; apenas um sorriso de soberano desprezo arqueava o
labio superior, sombreado pelo bigode negro.
O espectaculo que se offereceu aos seus olhos causou-lhe uma sorpreza
extraordinária; não esperava de certo ver o que se passava a dez
passos delle.
Pery mostrando nos movimentos toda a força muscular de sua
organisação de aço, com a mão esquerda segura á nuca de Loredano,
curvava-o sob a pressão violenta, e obrigava-o a ajoelhar.
O italiano livido, com o rosto contrahido e os olhos immensamente
dilatados, tinha ainda entre as mãos hirtas a clavina fumegante.
O indio arrancou-a e sacando a longa faca, levantou o braço para
crava-la no alto da cabeça do italiano.
Mas Alvaro tinha-se adiantado e aparou o golpe: depois estendeu a mão
ao indio.
--Solta este miseravel, Pery!
--Não!
--A vida deste homem me pertence; atirou sobre mim; é a minha vez de
atirar sobre elle.
Alvaro ao mesmo tempo que dizia estas palavras, armava a clavina, e
apoiava a bocca na fronte do italiano.
--Ides morrer. Fazei a vossa oração.
Pery abaixou a faca; recuou um passo, e esperou.
O italiano não respondeu; a sua oração foi uma blasphemia horrivel e
satanica; as palpitações violentas do coração batião de encontro ao
pergaminho que tinha no seio, e lembravão-lhe o seu thesouro que ia
talvez cahir nas mãos de Alvaro e dar-lhe a riqueza de que não podêra
gozar.
Entretanto, na baixeza dessa alma havia ainda alguma altivez, o orgulho
do crime; não supplicou, não disse uma palavra, sentindo o contacto
frio do ferro sobre a fronte, fechou os olhos e julgou-se morto.
Alvaro olhou-o um instante, e abaixou a clavina:
--Tu és indigno de morrer á mão de um homem, e por uma arma de
guerra; pertences ao pelourinho e ao carrasco. Seria um roubo feito á
justiça de Deus.
Loredano abrio os olhos; seu rosto illuminou-se com um raio de
esperança.
--Vais jurar que amanhã deixarás a casa de D. Antonio de Mariz, e
nunca mais porás o pé neste sertão; por tal preço tens a vida salva.
--Juro! exclamou o italiano.
O moço tirou o collar que dava tres voltas sobre os hombros, e
apresentou a Loredano a cruz vermelha do Christo que lhe pendia do
peito: o aventureiro estendeu a mão, e repetio o juramento.
--Ergue-te; e tira-te dos meus olhos.
E com o mesmo desprezo e a mesma nobreza, o cavalheiro desarmou a sua
clavina; voltou-se para continuar o seu caminho fazendo um signal a Pery
para que o acompanhasse.
O indio, emquanto se passava a rapida scena que descrevemos, reflectia
profundamente.
Quando ouvira o que dizião ha pouco Loredano e seus dous companheiros,
quando pelo resto da conversa comprehendêra que se tratava de fazer mal
á sua senhora e a D. Antonio de Mariz, a sua primeira idéa tinha sido
lançar-se aos tres inimigos e mata-los.
Foi por isso que soltou aquella palavra que revelava a sua indignação;
mas immediatamente lembrou-se que elle podia morrer, e que nesse caso
Cecilia não teria quem a defendesse. Pela primeira vez na sua vida teve
medo; teve medo por sua senhora, e sentio não possuir mil vidas para
sacrifica-las todas á sua salvação.
Fugio então com bastante rapidez para não ser visto pelo italiano que
subia á arvore: afastou-se delles; chegando á beira do rio, lavou a
sua tunica de algodão, que ficára manchada de sangue; não queria que
soubessem que estava ferido.
Emquanto se entregava a este trabalho, combinava um plano de acção.
Resolveu não dizer nada a quem quer que fosse, nem mesmo a D. Antonio
de Mariz: duas razões o levavão a proceder assim; a primeira era o
receio de não ser acreditado, pois não tinha provas com que podesse
justificar a accusação, que elle, indio ia fazer contra homens
brancos; a segunda era a confiança que tinha de que elle só bastava
para desfazer todas as tramas dos aventureiros, e lutar contra o
italiano.
Assentado este primeiro ponto, passou á execução do plano; esta
reduzia-se para elle em uma punição; aquelles tres homens querião
matar, portanto devião morrer, mas devião morrer ao mesmo tempo, do
mesmo golpe. Pery receava que, combinados como estavão, se um escapasse
vendo succumhir seus companheiros, se deixaria levar pelo desespero e
anticiparia a realisação do crime antes que elle o podesse prevenir.
A sua intelligencia sem cultura, mas brilhante como o sol de nossa
terra, vigorosa como a vegetação deste solo, guiava-o nesse raciocinio
com uma logica e uma prudencia, dignas do homem civilisado; previa todas
as hypotheses, combinava todas as probabilidades, e preparava-se para
realisar o seu plano com a certeza e a energia de acção que ninguem
possuia em grão tão elevado.
Assim dirigindo-se para a casa onde o chamava um outro dever, o de
avisar a D. Antonio da eventualidade de um ataque dos Aymorés, elle
tinha passado junto de Bento Simões e Ruy Soeiro, e guiado pelos
olhares destes viu ao longe Loredano no momento em que apontava sobre o
cavalheiro.
Correr, cahir sobre o italiano, desviar a pontaria, e dobra-lo sobre os
joelhos, foi um movimento tão rapido que os dous aventureiros apenas o
virão passar, virão ao mesmo tempo o seu companheiro subjugado.
A realisação do projecto de Pery apresentava-se naturalmente, sem ser
procurada. Tinha o italiano na sua mão; depois delle caminhava aos dous
aventureiros, para os quaes bastava a sua faca; e quando tudo estivesse
consumado iria ter com D. Antonio de Mariz e lhe diria:
--Esses tres homens vos trahião, matei-os; se fiz mal, puni-me.
A intervenção de Alvaro, cuja generosidade salvou a vida de Loredano,
transtornou completamente esse plano; ignorando o motivo por que Pery
ameaçava o aventureiro, julgando que era unicamente para puni-lo da
tentativa que acabava de commetter perfidamente contra elle, o
cavalheiro a quem repugnava tirar a vida a um homem sem necessidade,
satisfez-se com o juramento, e a certeza de que deixaria a casa.
Emquanto isto se dava, Pery reflectia na possibilidade de fazer as
cousas voltarem á mesma posição; ruas conheceu que não o
conseguiria.
Alvaro tinha recebido de D. Antonio de Mariz todos os principios
daquella antiga lealdade cavalheiresca do seculo XV, os quaes o velho
fidalgo conservava como o melhor legado de seus avós; o moço moldava
todas as suas acções, todas as suas idéas, por aquelle typo dos
barões portuguezes que havião combatido em Aljubarrota ao lado do
Mestre de Aviz, o rei cavalheiro.
Pery conhecia o caracter do moço; e sabia que depois de ter dado a vida
a Loredano, embora o desprezasse, não consentiria que em presença
delle lhe tocassem n'um cabello; e se preciso fosse tiraria a sua espada
para defender este homem, que acabava de tentar contra sua existencia.
E o indio respeitava a Alvaro, não por sua causa, mas por Cecilia a
quem elle amava; qualquer desgraça que succedesse ao cavalheiro
tornaria a senhora triste; isto bastava para que a pessoa do moço fosse
sagrada, como tudo o que pertencia á menina, ou que era necessario ao
seu descanço, ao seu socego e felicidade.
O resultado desta reflexão foi Pery metter a sua faca á cinta; e sem
importar-se mais com o italiano, acompanhar o cavalheiro.
Ambos seguirão em direcção da casa, caminhando ao longo da margem do
rio.
--Obrigado ainda uma vez, Pery; não pela vida que me salvaste, mas pela
estima que me tens.
E o moço apertou a mão do selvagem:
--Não agradece; Pery nada te fez; quem te salvou foi a senhora.
Alvaro sorrio-se da franqueza do indio, e córou da allusão que havia
em suas palavras.
--Se tu morresses, a senhora havia de chorar; e Pery quer vêr a senhora
contente.
--Tu te enganas; Cecilia é boa, e sentiria da mesma maneira o mal que
succedesse a mim, como a ti, ou a qualquer dos que está acostumada a
ver.
--Pery sabe porque falla assim; tem olhos que vêem, e ouvidos que
ouvem; tu és para a senhora o sol que faz o jambo corado, e o sereno
que abre a flôr da noite.
--Pery!... exclamou Alvaro.
--Não te zangues, disse o indio com doçura; Pery te ama, porque tu
fazes a senhora sorrir. A canna quando está á beira d'agua, fica verde
e alegre; quando o vento passa, as folhas dizem Ce-Cy. Tu és o rio;
Pery é o vento que passa docemente, para não abafar o murmurio da
corrente; é o vento que curva as folhas até tocarem n'agua.
Alvaro fitou no indio um olhar admirado. Onde é que este selvagem sem
cultura aprendêra a poesia simples, mas graciosa; onde bebêra a
delicadeza de sensibilidade que difficilmente se encontra n'um coração
gasto pelo attrito da sociedade?
A scena que se desenrolava a seus olhos respondeu-lhe; a natureza
brazileira, tão rica e brilhante, era a imagem que reproduzia aquelle
espirito virgem, como o espelho das aguas reflecte o azul do céo.
Quem conhece a vegetação de nossa terra desde a parasita mimosa até o
cedro gigante; quem no reino animal desce do tigre e do tapir, symbolos
da ferocidade e da força, até o lindo beija-flôr e o insecto dourado;
quem olha este céo que passa do mais puro anil aos reflexos bronzeados
que annuncião as grandes borrascas; quem viu sob a verde pellucia da
relva esmaltada de flôres que cobre as nossas varzeas deslisar mil
reptis que levão a morte n'um atomo de veneno, comprehende o que Alvaro
sentio.
Com effeito, o que exprime essa cadêa que liga os dous extremos de tudo
o que constitue a vida? Que quer dizer a força no apice do poder
alliada á fraqueza em todo o seu mimo; a belleza e a graça succedendo
aos dramas terriveis e aos monstros repulsivos; a morte horrivel a par
da vida brilhante?
Não é isso a poesia? O homem que nasceu, embalou-se e cresceu nesse
berço perfumado; no meio de scenas tão diversas, entre o eterno
contraste do sorriso e da lagrima, da flôr e do espinho, do mel e do
veneno, não é um poeta?
Poeta primitivo, canta a natureza na mesma linguagem da natureza;
ignorante do que se passa nelle, vai procurar nas imagens que tem diante
dos olhos, a expressão do sentimento vago e confuso que lhe agita a
alma.
Sua palavra é a que Deus escreveu com as letras que formão o livro da
creação; é a flôr, o céo, a luz, a côr, o ar, o sol; sublimes
cousas que a natureza fez sorrindo.
A sua phrase corre como o regato que serpeja, ou salta como o rio que se
despenha da cascata; ás vezes se eleva ao cimo da montanha, outras
desce e rasteja como o insecto, subtil, delicada e mimosa.
Eis o que a decoração da scena magestosa, no meio da qual se achava á
beira do _Paquequer_, disse a Alvaro; mas rapidamente, por uma dessas
impressões que se projectão no espirito como a luz no espaço.
O moço recebeu a confissão ingenua do indio sem o minimo sentimento
hostil; ao contrario apreciava a dedicação que o selvagem tinha por
Cecilia, e ia ao ponto de amar a tudo quanto sua senhora estimava.
Assim, disse Alvaro sorrindo, tu só me amas porque pensas que Cecilia
me quer? disse o moço.
--Pery só ama o que a senhora ama: porque só ama a senhora neste
mundo: por ella deixou sua mãi, seus irmãos e a terra onde nasceu.
--Mas se Cecilia não me quizesse como julgas?
--Pery faria o mesmo que o dia com a noite; passaria sem te vêr.
--E se eu não amasse a Cecilia?
--Impossivel!
--Quem sabe? disse o moço sorrindo.
--Se a senhora ficasse triste por ti!... exclamou o indio, cuja pupilla
negra irradiou.
--Sim? o que farias?
--Pery te mataria.
A firmeza com que erão ditas estas palavras não deixava a menor duvida
sobre a sua realidade; entretanto Alvaro apertou a mão do indio com
effusão.
Pery temeu offender o moço; para desculpar a sua franqueza, disse-lhe
com um tom commovido:
--Escuta. Pery é filho do sol; e renegava o sol se elle queimasse a
pelle alva de Cecy. Pery ama o vento; e odiava o vento se elle
arrancasse um cabello de ouro de Cecy. Pery gosta de vêr o céo; e não
levantava a vista, se elle fosse mais azul do que os olhos de Cecy.
--Comprehendo-te, amigo; votaste a tua vida inteira á felicidade dessa
menina. Não receies que te offenda nunca na pessoa della. Sabes se eu a
amo; e não te zangues, Pery, se disser que a tua dedicação não é
maior do que a minha. Antes que me matasses, creio que me mataria a mim
mesmo se tivera a desgraça de fazer Cecilia infeliz.
--Tu és bom; Pery quer que a senhora te ame.
O indio contou então a Alvaro o que se tinha passado na noite
antecedente; o moço empallideceu de colera, e quiz voltar em busca do
italiano; desta vez não lhe perdoára.
--Deixa! disse o indio; Cecy teria medo; Pery vai endireitar isto.
Os dous tinhão chegado perto da casa e ião entrar a cerca do valle,
quando Pery segurou o braço de Alvaro:
--O inimigo da casa quer fazer mal; defende a senhora; se Pery morrer,
manda dizer a sua mãi, e verás todos os guerreiros da tribu chegarem
para combaterem comtigo, e salvarem Cecy.
--Mas quem é o inimigo da casa?
--Queres saber?
--De certo; como hei de combate-los?
--Tu saberás.
Alvaro quiz insistir; mas o indio não lhe deo tempo; metteu-se de novo
pelo matto; emquanto o moço subia a escada, elle fazia uma volta ao
redor da casa, e ganhava o lado para onde dava o quarto de Cecilia.
Já tinha vistado ao longe a janella, quando debaixo de uma ramagem
surgio a figura magra e esguia de Ayres Gomes, coberto de ortigas e
hervas de passarinho, e deitando o bofes pela boca.
O digno escudeiro, tendo encontrado em cima de sua cabeça um maldito
galho desageitado, foi de narizes ao chão, estendeu-se maciamente sobre
a relva.
Apezar disto ergueu-se um pouco sobre os cotovellos, e gritou com toda a
força dos pulmões:
--Olá! mestre bugre!... Dom Cacique!... Caçador de onça viva!... Ouve
cá!
Pery não se voltou.
VII
NO PRECIPICIO
Pery tinha parado para ver Cecilia de longe.
Ayres Gomes ergueu-se, correu para o indio, e deitou-lhe a mão ao
braço.
--Afinal pilhei-o, dom caboclo! Safa!... Deo-me agua pela barba?...
disse o escudeiro resfolgando.
--Deixa! respondeu o indio sem se mover.
--Deixar-te! Uma figa! Depois de ter batido esta mattaria á tua
procura! Tinha que ver!
Com effeito D. Lauriana desejando ver o indio fóra de casa quanto
antes, havia expedido o escudeiro em busca de Pery para trazê-lo á
presença de D. Antonio de Mariz.
Ayres Gomes, fiel executor das ordens de seus amos corria o matto havia
boas duas horas; todos os incidentes comicos, possiveis ou imaginaveis,
tinhão-se como que de proposito collocado em seu caminho.
Aqui era uma casa de maribondos, que elle assanhava com o chapéo, e o
fazião baterem retirada honrosa, correndo a todo o estirão das pernas;
ali era um desses lagartos de longa cauda que pilhado de improviso se
enrolára pelas pernas do escudeiro com uma formidavel chicotada.
Isto sem fallar das ortigas, e das unhas de gato, cabeçadas e quedas,
que fazião o digno escudeiro arrenegar-se, e maldizer da selvajaria de
semelhante terra! Ah! quem o dera nos tojos e charnecas de sua patria!
Tinha pois Ayres Gomes razão de sobra para não querer largar o indio,
causa de todas as tribulações por que passara; infelizmente Pery não
estava de accordo.
--Larga, já te disse! exclamou o indio começando a irritar-se.
--Tem santa paciencia, caboclinho de minha alma! Fé de Ayres Gomes,
não é possivel; e tu sabes! Quando eu digo que não é possivel, é
como se a nossa madre Igreja... Que diabo ia rezar-lhe?... Ai! que
chamei sem querer a madre Igreja do diabo! Forte heresia! Quem se mette
a tagarellar dos santos!... Virgem Santissima! Estou incapaz! Cala-te,
boca! não me pies mais!
Emquanto o escudeiro desfiava esse discurso, meio soliloquio, no qual
havia ao menos o merito da franqueza, Pery não o ouvia, embebido como
estava em olhar para a janella; depois, desprendendo-se da mão que
segurava-lhe o braço, continuou o seu caminho.
Ayres acompanhou-o pisada sobre pisada, com a impassibilidade de um auto
mato.
--Que vens fazer? perguntou-lhe o indio.
--E esta! Seguir-te e levar-te á casa; é a ordem.
--Pery vai longe!
--Ainda que vás ao fim do mundo, é o mesmo, filho.
O indio voltou-se para elle com um gesto decidido.
--Pery não quer que tu o sigas.
--Lá quanto a isto, mestre bugre, perdes o teu tempo; por força ainda
ninguem levou o filho de meu pai, que bom é que, saibas foi homem de
faca e calhão.
--Pery não manda duas vezes!
--Nem Ayres Gomes olha atrás quando executa uma ordem.
Pery, o homem da cega dedicação, reconheceu no escudeiro o homem da
obediência passiva; sentio que não havia meio de convencer este
executor fiel: assim, resolveu livrar-se delle por meio decisivo.
--Quem te deo a ordem?
--D. Lauriana.
--Para que?
--Para te levar á casa.
--Pery vai só.
--Veremos!
O indio tirou a sua faca.
--Heim!... gritou o escudeiro. A conversa vai agora nesse tom? Se o Sr.
D. Antonio não me tivesse prohibido expressamente, eu te mostraria!
Mas... Podes matar-me, que eu não arredo pé.
--Pery só mata o seu inimigo, e tu não és; tu teimas, Pery te amarra.
--Como?... Como é lá isso?
O indio começou a cortar com a maior calma um longo cipó que se
engrasava pelos galhos das arvores, o escudeiro meio espantado sentia a
mostarda subir-lhe ao nariz, e esteve quasi não quasi, atirando-se ao
selvagem.
Mas a ordem de D. Antonio era formal; via-se pois obrigado a respeitar o
indio; ornais que o digno escudeiro podia fazer era defender-se
valentemente.
Quando Pery cortou umas dez braças do cipó que ia enrolando ao
pescoço, embainhou a faca, e voltou-se para o escudeiro sorrindo. Ayres
Gomes sem trepidar puxou da espada, e pôz-se em guarda, segundo as
regras da nobre e liberal arte do jogo de espadão, que professava desde
a mais tenra idade.
Era um duello original e curioso, como talvez não tenha havido segundo,
combate em que as armas lutavão contra a agilidade, e o ferro contra um
vime delgado.
--Mestre Cacique, disse o escudeiro rugando o sobr'olho; deixa-te de
partes: porque, palavra de Ayres Gomes, se te encostas, espeto-te na
durindana!
Pery estendeu o labio inferior, em signal de pouco caso; e começou a
voltear rapidamente em torno do escudeiro, n'um circulo de seis passos
de diametro que o punha fora do alcance da espada: a sua tenção era
assaltar o adversario pelas costas.
Ayres Gomes apoiado a um tronco, e obrigado a gyrar sobre si mesmo, para
defender as costas, sentio a cabeça tontear e vacillou. O indio
aproveitou o momento, atirou-se a elle, pilhou-o de costas, agarrou-o
pelos dous braços, e passou a amarra-lo ao mesmo tronco da arvore em
que estava encostado.
Quando o escudeiro voltou a si da vertigem, uma rodilho de cipós
ligava-o ao tronco desde o joelho até os hombros; o indio seguira seu
caminho placidamente.
--Bugre de um demo! Perro infernal! gritava o digno escudeiro, tu me
pagarás com lingua de palmo!...
Sem prestar a menor attenção á ladainha de nomes injuriosos com que o
mimoseava Ayres Gomes, Pery aproximou-se da casa.
Via Cecilia, com a face apoiada na mão, a olhar tristemente o fosso
profundo que passava em baixo de sua janella.
A menina, depois do primeiro momento de sorpreza em que adivinhou o
ciume de Isabel e o seu amor por Alvaro, conseguio dominar-se. Tinha a
nobre altivez da castidade; não quiz deixar ver a sua prima o que
sentia nesse momento; era boa tambem, amava Isabel, e não desejava
magoa-la.
Não lhe disse pois uma só palavra de exprobração nem de queixa; ao
contrario ergueu-a, beijou-a com carinho, e pedio-lhe que a deixasse
só.
--Pobre Isabel! murmurou ella; com deve ter soffrido!
Esquecia-se de si para pensar em sua prima; mas as lagrimas que
saltárão de seus olhos, e o soluço que fez arfar os seios ruinosos a
chamarão ao seu proprio soffrimento.