«Aceitei essa meação do crime, esse pacto de roubo, meu padre... Foi

o meu primeiro erro!...»

A voz do aventureiro tornou-se ainda mais sumida. O frade, inclinado

sobre elle, parecia devorar com os labios entre-abertos as palavras

balbuciadas pelo moribundo.

--Coragem, filho!

--Sim! Devo dizer tudo!...Fascinado pela descripção desse thesouro

fabuloso, tive uma lembrança uniqua... essa lembrança tornou-se

desejo......depois idéa, e.... projecto por fim realisou-se.... foi um

crime! Assassinei meu parente; e sua mulher...

--E... exclamou o frade com a voz surda.

E roubei o segredo!

O frade sorrio nas trevas.

--Agora só me resta a misericordia de Deus, e a reparação do mal que

fiz... Roberio é morto, sua mulher vive desgraçada na Bahia... Quero

que este papel lhe seja entregue... Prometteis, Fr. Angelo?...

--Prometto! O papel?...

--Está... occulto...

--Aonde?

--Nes... ta...

O moribundo agonisava.

Fr. Angelo, debruçado inteiramente sobre elle, com o ouvido collado á

sua boca onde borbulhava uma espuma vermelha, com a mão sobre o

coração para ver se ainda palpitava, parecia querer reter o ultimo

sopro da vida, afim de tirar delle uma palavra ainda.

--Aonde?... murmurava de vez em quando o frade com a voz cava.

O enfermo agonisava sempre; os soluços extremos da vida que se apaga

como a lampada que bruxoleia, agitavão apenas o corpo enregelado.

Por fim o frade viu-o levantar o braço hirto, apontando para a parede,

e sentio os seus labios gelados e convulsos que tremêrão, lançando no

seu ouvido uma palavra que o fez saltar sobre o leito.

--Cruz!...

Fr. Angelo ergueu-se circulando o aposento com a vista allucinada; na

cabeceira da cama havia um Christo de ferro sobre uma grande cruz de

páo tosca e mal lavrada.

Com um movimento de raiva o frade apoderou-se da cruz, e quebrou-a de

encontro ao joelho; a imagem rolou pelo chão; entre os estilhaços da

madeira appareceu um rolo de pergaminho achatado pela pressão em que

estivera.

Quebrou com os dentes o sello do papel; chegando á janella leu á

claridade vacillante do relampago as primeiras palavras de um rotulo de

letras vermelhas, que rezava nestes termos:

«_Roteiro verídico e exacto em que se trata da rota que fez Roberio

Dias, o pai, em o anno da graça de 1587 ás paragens de Jacobina, onde

descobrio com o favor de Deus as mais ricas minas de prataria que

existão no mundo; com a summa de todas as indicardes de marcos, balisas

e linha equinocial onde demorão aquellas ditas minas; começado em 20

de janeiro, dia do martyr S. Sebastião, e terminado na primeira dominga

de Paschoa em que chegámos com a mercê da Providencia nesta cidade de

S. Salvador._»

Emquanto o frade esforçava para ler, o moribundo agonisava na ultima

afflição, esperando talvez a absolvição final e a extrema uncção

do penitente.

Mas o religioso não via nesse momento senão o papel que tinha nas

mãos; deixou-se cahir em um banco, e com a cabeça pendida sobre o

braço, entregou-se á funda meditação.

Que pensava elle?...

Não pensava; delirava. Diante de seus olhos, a imaginação exaltada

lhe apresentava um mar argenteo, um oceano de metal fundido, alvo e

resplandecente, que ia se perder no infinito. As vagas desse mar de

prata, ora achamalotavão-se, ora rolavão formando frocos de espuma,

que parecião flores de diamantes, de esmeraldas e rubins scintillando

á luz do sol.

Ás vezes tambem nessa face lisa e polida desenhavão-se como em um

espelho palacios encantados, mulheres bellas como as buris do propheta,

virgens graciosas como os anjos de Nossa Senhora do Monte Carmelo.

Assim decorreu meia hora, em que o silencio era apenas interrompido pelo

estertor do moribundo e pelo trovão que rugia: depois houve uma calma

sinistra; o peccador expirava impenitente.

Fr. Angelo levantou-se, arrancou o habito com um gesto desesperado, e

pisou-o aos pés; sobre o recosto do leito havia uma muda de roupa com

que trajou-se; tirou as armas do cadaver, apanhou o chapéo de feltro,

e apertando ao peito o manuscripto, dirigio-se á porta.

Ouvião-se os passos de Nunes, que passeava fóra no alpendre.

O frade estacou; a presença inesperada desse homem diante da porta,

deo-lhe uma inspiração. Tomou o habito, vestio-o sobre o seu novo

trajo, e escondendo na manga o chapéo do aventureiro, cobrio-se com o

largo capello; então abrio a porta e dirigio-se a Nunes.

--_Consumatum est_, irmão! disse elle com um tom compungido.

--Deus tenha sua alma!

--Assim o espero, se não me faltarem as forças para cumprir o seu

ultimo voto, que é uma reparação...

--De um grave peccado?

--De um crime, irmão. Dai-me luz; vou escrever a Fr. Diogo do Rosario,

nosso prior, porque de onde vou talvez não volte, nem tenhais mais

novas de mim.

O frade escreveu á claridade de uma acha de páo candeia algumas linhas

ao prior do convento do Carmo no Rio de Janeiro, e despedindo-se de

Nunes partio.

Quando dobrava o canto do pouso o céo abrio-se, e a terra incendiou-se

com a luz de um relampago tão forte que o deslumbrou. Dous raios,

descrevendo listras de fogos, tinhão cabido sobre a floresta e

espalhado em torno um cheiro de sulphur que asphyxiava.

O carmelita teve uma vertigem; lembrou-se da scena da tarde, do tremendo

castigo que elle proprio havia evocado na sua hypocrisia, e se

realisára tão promptamente. Mas o deslumbramento passou; estremecendo

ainda e pallido de terror, o reprobo levantou o braço como desafiando a

colera do céo, e soltou uma blasphemia horrivel:

--Podeis matar-me; mas se me deixardes a vida, hei de ser rico e

poderoso, contra a vontade do mundo inteiro!

Havia nestas palavras um quer que seja da sanha e raiva impotente de

Satanaz precipitado no abysmo pela sentença irrevogavel do Creador.

Continuando o seu caminho pelas trevas, costeou a cerca e chegou a uma

grande choça, que havia no fundo do pouso, e onde o missionario

conseguira aldear algumas familias de indios; entrou e acordou um dos

selvagens, a quem ordenou se preparasse para acompanha-lo apenas

rompesse o dia.

A chuva cahia em torrentes; o vento açoutava as paredes de sapé,

esfusiando por entre a palha.

O frade passou a noite em claro, reflectindo e traçando no seu espirito

um plano infernal, para cuja realisação não trepidaria diante de nem

um obstaculo; de vez em quando levantava-se para ver se o horizonte já

se illuminava.

Finalmente veio o dia; a tempestade se tinha desfeito durante a noite; o

tempo estava sereno.

O carmelita acompanhado pelo selvagem partio: vagou pela floresta e pelo

campo em todas as direcções; alguma cousa procurava. Elle avistou

depois de duas horas a touca de cardos junto da qual se passou a

ultima scena que narrámos; examinou-a por todos os lados e sorrio de

satisfeito. Trepando á arvore escorregando pelo cipó, entrárão elle

e o selvagem na área que já conhecemos; o sol tinha nascido ha pouco.

No dia seguinte, por volta de duas horas da tarde, saihio deste lugar um

só homem; não era elle, nem o frade, nem o selvagem. Era um

aventureiro destemido audaz, em cuja physionomia se reconhecião ainda

os traços do carmelita Fr. Angelo di Luca.

Este aventureiro chamou-se Loredano.

Deixava naquelle lugar e sepultado no seio da terra um terrivel segredo;

isto é, um rolo de pergaminho, um burel de frade e um cadaver.

Cinco mezes passados, o vigario da ordem participava ao geral em Roma

que o irmão Fr. Angelo di Luca morrêra como santo e martyr no zelo de

sua fé apostolica.

II

YARA!

Dous dias depois da scena do pouso, por uma bella tarde de verão, a

familia de D. Antonio de Mariz estava reunida na margem do _Paquequer_.

O lugar em que se achava era uma pequena baixa cavada entre dous

outeiros pedregosos que se elevavão naquellas paragens. A relva que

tapeçava essas fragoas, as arvores que havião nascido nas fendas das

pedras, e reclinando sobre o valle tecião um lindo docel de verdura,

tornavão aquelle retiro pittoresco.

Não podia haver sitio mais agradavel para se passar uma sesta de estio,

do que esse caramanchão cheio de sombra e de frescura, onde o canto das

aves concertava com o trepido murmurio das aguas.

Por isso, apezar de ficar elle a alguma distancia da casa, a familia

vinha ás vezes quando o tempo estava sereno gozar algumas horas da

frescura deliciosa que alli se respirava.

D. Antonio de Mariz, sentado junto de sua mulher, contemplava por entre

uma aberta das folhas o céo azul e avelludado de nossa terra, que os

filhos da Europa não se canção de admirar. Isabel, encostada a uma

palmeira nova, olhava a correnteza do rio, murmurando baixinho uma trova

de Bernardim Ribeiro.

Cecilia corria pelo valle perseguindo um lindo colibri, que no vôo

rapido iriava-se de mil côres, scintillando como o prisma de um raio

solar. A linda menina, com o rosto animado, rindo-se dos volteios que a

avezinha lhe fazia dar, como se brincasse com ella, achava nesse

folguedo um vivo prazer.

Mas afinal, sentindo-se fatigada, foi recostar-se em um comoro de relva,

que elevando-se no sopé do rochedo formava uma especie de divan

natural. Descançou a cabeça no declive, e assim ficou com os pézinhos

estendidos sobre a gramma que os escondia como a lã de um rico tapete:

e o seio mimoso a arfar com o anhelito da respiração.

Algum tempo se passou sem que o menor incidente perturbasse o suave

painel que formava esse grupo de familia.

De repente, entre o docel de verdura que cobria esta scena, ouvio-se um

grito vibrante e uma palavra de lingua estranha:

--_Yara!_

E um vocabulo guarany: significa _a senhora_.

D. Antonio levantou-se: volvendo olhos rapidos, vio sobre a eminencia

que ficava sobranceira ao lugar em que estava Cecilia, um quadro

original.

De pé, fortemente apoiado sobre a base estreita a que formava a rocha,

um selvagem coberto com um ligeiro saio de algodão, mettia o hombro a

uma lasca de pedra que se desencravára do seu alveolo, e ia rolar pela

encosta.

O indio fazia um esforço supremo para suster o peso da lage prestes a

esmaga-lo; e com o braço estendido de encontro a um galho de arvore

mantinha por uma tensão violenta dos musculos o equilibrio do corpo.

A arvore tremia; por momentos parecia que pedra e homem se enrolavão

n'uma mesma volta, e precipitavão-se sobre a menina sentada na aba da

collina.

Cecilia ouvindo o grito erguera a cabeça, e olhava seu pai com alguma

sorpreza, sem adivinhar o perigo que a ameaçava.

Ver, lançar-se para sua filha, toma-la nos braços, arranca-la á

morte, foi para D. Antonio de Mariz uma só idéa e um só movimento,

que realisou com a força e a impetuosidade do sublime amor de pai, que

era toda a sua vida.

No momento em que o fidalgo deitava Cecilia quasi desmaiada sobre o

regaço materno, o indio saltava no meio do valle; a pedra gyrando sobre

si, precipitada do alto da collina, enterrava-se profundamente no chão.

Foi então que os outros espectadores desta scena, paralysados pelo

choque que havião soffrido, lançarão um grito de terror, pensando no

perigo que já estava passado.

Uma larga esteira que descia da eminencia até o lugar onde Cecilia

estivera recostada, mostrava a linha que descrevera a pedra na passagem,

arrancando a relva e ferindo o chão. D. Antonio, ainda pallido e

tremulo do perigo que correra Cecilia, volvia os olhos daquella terra

que se lhe afigurava uma campa, para o selvagem que surgira, como um

genio bemfazejo das florestas do Brazil.

O fidalgo não sabia o que mais admirar, se a força e heroísmo com que

elle salvára sua filha, se o milagre de agilidade com que se livrára a

si proprio da morte.

Quanto ao sentimento que dictára esse proceder, D. Antonio não se

admirava; conhecia o caracter dos nossos selvagens, tão injustamente

calumniados pelos historiadores; sabia que fora da guerra e da vingança

erão generosos, capazes de uma acção grande, e de um estimulo nobre.

Por muito tempo reinou silencio expressivo nesse grupo, que se acabava

de transformar de modo tão imprevisto.

D. Lauriana e Isabel de joelhos oravão a Deus, rendendo-lhe graças;

Cecilia ainda assustada apoiava-se ao peito de seu pai e beijava-lhe a

mão com ternura; o indio humilde e submisso fitava um olhar profundo de

admiração sobre a moça que tinha salvado.

Por fim D. Antonio passando o braço esquerdo pela cintura de sua filha,

caminhou para o selvagem, e estendeu-lhe a mão com gesto nobre e

affavel: o indio curvou-se e beijou a mão do fidalgo.

--De que nação és? perguntou-lhe o cavalheiro em guarany.

--Goytacaz, respondeo o selvagem erguendo a cabeça com altivez.

--Como te chamas?

--Pery, filho de Ararê, primeiro de sua tribu.

--Eu, sou um fidalgo portuguez, um branco inimigo de tua raça,

conquistador de tua terra; mas tu salvaste minha filha; offereço-te a

minha amizade.

--Pery aceita; tu já eras amigo.

--Como assim? perguntou D. Antonio admirado.

--Ouve.

O indio começou, na sua linguagem tão rica e poetica, com a doce

pronuncia que parecia ter aprendido das auras da sua terra ou das aves

das florestas virgens, esta simples narração:

«Era o tempo das arvores de ouro.

«A terra cobrio o corpo de Ararê, e as suas armas; menos o seu arco de

guerra.

«Pery chamou os guerreiros de sua nação, e disse:

«--Pai morreu; aquelle que fôr o mais forte entre todos, terá o arco

de Ararê. Guerra!»

«Assim fallou Pery; os guerreiros respondêrão Guerra!

«Emquanto o sol allumiou a terra, caminhámos; quando a lua subio ao

céo, chegámos. Combatêmos como Goytacazes. Toda a noite foi uma

guerra. Houve sangue, houve fogo.

«Quando Pery abaixou o arco de Ararê não havia na taba dos brancos

uma cabana em pé, um homem vivo; tudo era cinza.

«Veio o dia e allumiou o campo; veio o vento e levou a cinza.

Pery tinha vencido; era o primeiro da sua tribu, e o mais forte de todos

os guerreiros.

Sua mãi chegou e disse:

«Pery, chefe dos Goytacazes, filho de Ararê, tu és grande, tu és

forte como teu pai; tua mãi te ama.

«Os guerreiros chegárão e disserão:

«Pery, chefe de Goytacazes, filho de Ararê, tu és o mais valente da

tribu, e o mais temido do inimigo; os guerreiros te obedecem.

«As mulheres chegárão e disserão:

«Pery, primeiro de todos, tu és bello como o sol, e flexivel como a

canna selvagem que te deo o nome; as mulheres são tuas escravas.

«Pery ouvio e não respondeu; nem a voz de sua mãi, nem o canto dos

guerreiros, nem o amor das mulheres, o fez sorrir.

«Na casa da cruz, no meio do fogo, Pery tinha visto a senhora dos

brancos; era alva como a filha da lua; era bella como a garça do rio.

«Tinha a cor do céo nos olhos; a cor do sol nos cabellos; estava

vestida de nuvens, com um cinto de estrellas e uma pluma de luz.

«O fogo passou; a casa da cruz cahio.

«De noite Pery teve um sonho; a senhora appareceu; estava triste e

fallou assim:

«Pery, guerreiro livre, tu és meu escravo; tu me seguirás por toda a

parte, como a estrella grande acompanha o dia.

«A lua tinha voltado o seu arco vermelho, quando tornámos da guerra;

todas as noites Pery via a senhora na sua nuvem; ella não tocava a

terra, e Pery não podia subir ao céo.

«O cajueiro quando perde a sua folha parece morto; não tem flôr, nem

sombra; chora umas lagrimas doces como o mel dos seus fructos.

«Assim Pery ficou triste.

«A senhora não appareceu mais; e Pery via sempre a senhora nos seus

olhos.

«As arvores ficárão verdes; os passarinhos fizerão seus ninhos; o

sabiá cantou; tudo ria: o filho de Ararê lembrou-se de seu pai.

«Veio o tempo da guerra.

«Partimos; andámos; chegámos ao grande rio. Os guerreiros armárão

as redes; as mulheres fizerão fogo; Pery olhou o sol.

«Vio passar o gavião.

«Se Pery fosse o gavião, ia ver a senhora no céo.

«Vio passar o vento.

«Se Pery fosse o vento, carregava a senhora no ar.

Vio passar a sombra.

«Se Pery fosse a sombra, acompanhava a senhora de noite.

«Os passarinhos dormirão tres vezes.

«Sua mãi veio e disse:

«Pery, filho de Ararê, guerreiro branco salvou tua mãi; virgem branca

tambem.

«Pery tomou sua armas e partio; ia ver o guerreiro branco para ser

amigo; e a filha da senhora para ser escravo.

«O sol chegava ao meio do céo e Pery chegava tambem ao rio; avistou

longe a tua casa grande.

«A virgem branca appareceu.

«Era a senhora que Pery tinha visto; não estava triste como da

primeira vez; estava alegre; tinha deixado lá a nuvem e as estrellas.

«Pery disse:

«A senhora desceu do céo, porque a lua sua mãi deixou; Pery, filho do

sol, acompanhará a senhora na terra.

«Os olhos esta vão na senhora; e o ouvido no coração de Pery. A

pedra estalou e quiz fazer mal á senhora.

«A senhora tinha salvado a mãi de Pery, Pery não quiz que a senhora

ficasse triste, e voltasse ao céo.

«Guerreiro branco, Pery, primeiro de sua tribu, filho de Ararê, da

nação Goytacaz, forte na guerra, te offerece o seu arco; tu és

amigo.»

O indio terminou aqui a sua narração.

Emquanto fallava, um assomo do orgulho selvagem da força e da coragem

lhe brilhava nos olhos negros, e dava certa nobreza ao seu gesto. Embora

ignorante, filho das florestas, era um rei; tinha a realeza da força.

Apenas concluio, a altivez do guerreiro desappareceu; ficou timido e

modesto; já não era mais do que um barbaro em face de creaturas

civilisadas, cuja superioridade de educação o seu instincto

reconhecia.

D. Antonio o ouvia sorrindo-se do seu estylo ora figurado, ora tão

singelo como as primeiras phrases que balbucia a criança aos peitos

maternos. O fidalgo traduzia da melhor maneira que podia essa linguagem

poetica a Cecilia, a qual já livre do susto queria por força, apezar

do medo que lhe causava o selvagem, saber o que elle dizia.

Comprehendêrão da historia de Pery, que uma india salva havia dous

dias por D. Antonio das mãos dos aventureiros e a quem Cecilia enchêra

de presentes de velorios azues e escarlates, era a mãi do selvagem.

--Pery, disse o fidalgo, quando dous homens se encontrão e ficão

amigos, o que está na casa do outro recebe a hospitalidade.

--E o costume que os velhos transmittirão aos moços da tribu e os pais

aos filhos.

--Tu cearás comnosco.

--Pery te obedece.

A tarde declinava; as primeiras estrellas luzião. A familia,

acompanhada por Pery, dirigio-se á casa, e subio a esplanada.

D. Antonio entrou um momento e voltou trazendo uma linda clavina

tauxiada com o brazão de armas do fidalgo, a mesma que já vimos nas

mãos do indio.

--É a minha companheira fiel, a minha arma de guerra: nunca mentio

fogo, nunca errou o alvo: a sua bala é como a setta do teu arco. Pery

tu me déste minha filha; minha filha te dá a arma de guerra de seu

pai.

O indio recebeu o presente com uma effusão de profundo reconhecimento.

--Esta arma que vem da senhora e Pery farão um só corpo.

A campa do terreiro tocou annunciando a ceia.

O indio, vexado no meio dos usos estranhos, tomado de um santo respeito,

não sabia como se ter.

Apezar de todos os esforços do fidalgo, que sentia um prazer indizivel

em mostrar-lhe quanto apreciava a sua acção e remoçara com a alegria

de ver sua filha viva, o selvagem não tocou em um só manjar.

Por fim D. Antonio de Mariz conhecendo que toda a insistencia era

inutil, encheu duas taças de vinho das Canarias.

--Pery, disse o fidalgo, ha um costume entre os brancos, de um homem

beber por aquelle que é amigo. O vinho é o licor que dá a força, a

coragem, a alegria. Beber por um amigo é uma maneira de dizer que o

amigo é e será forte, corajoso e feliz. Eu bebo pelo filho de Ararê.

--E Pery bebe por ti, porque és pai da senhora; bebe por ti, porque

salvaste sua mãi; bebe por ti, porque és guerreiro.

A cada palavra o indio tocou a taça e bebeu um trago de vinho, sem

fazer o menor gesto de desgosto; elle beberia veneno á saude do pai de

Cecilia.

III

GENIO DO MAL

Pery voltou por differentes vezes á casa de D. Antonio de Mariz.

O velho fidalgo o recebia cordialmente e o tratava como amigo; seu

caracter nobre sympathisava com aquella natureza inculta.

Cecilia porém, apezar do reconhecimento que lhe inspirava a sua

dedicação por ella, não podia vencer o receio que sentia vendo um

desses selvagens de quem sua mãi lhe fazia tão feia descripção, e de

cujo nome se servia para metter-lhe medo quando criança.

Em Isabel o indio fizera a mesma impressão que lhe causava sempre a

presença de um homem daquella côr; lcmbrára-se de sua mãi infeliz,

da raça de que provinha, e da causa do desdem com que era geralmente

tratada.

Quanto a D. Lauriana, via em Pery um cão fiel que tinha um momento

prestado um serviço á familia, e a quem se pagava com um naco de pão.

Devemos porém dizer que não era por mão coração que ella pensava

assim, mas por prejuizos de educação.

Quinze dias depois que Cecilia fôra salva por Pery, uma manhã Ayres

Gomes atravessou a esplanada e foi ter com D. Antonio que estava no seu

gabinete.

--Sr. D. Antonio, esse estrangeiro a quem déstes hospedagem ha duas

semanas, pede-vos audiencia.

--Manda-o vir.

Ayres Gomes introduzio o estrangeiro. Era esse mesmo Loredano em que se

havia transformado o carmelita Fr. Angelo di Luca.

--Que desejais, amigo, faltárão-vos em alguma cousa?

--Ao contrario, Sr. cavalheiro; acho-me tão bem, que o meu desejo seria

ficar.

--E quem vos impede? A nossa hospitalidade assim como não pergunta o

nome do que chega, tambem não lhe inquire o tempo da partida.

--A vossa hospitalidade é de um verdadeiro fidalgo, Sr. cavalheiro; mas

não é della que desejo fallar.

--Explicai-vos então.

--Um homem da vossa banda vai ao Rio de Janeiro, onde tem mulher e

filhos que lhe chegarão do Reino.

--Sim; já hontem me fallou disso.

--Falta-vos pois um homem; eu posso ser este homem, se não achais nisso

inconveniente.

--Nem um absolutamente.

--Nesse caso posso considerar-me como admittido?

--Attendei; Ayres Gomes vai dizer-vos as condições a que vos

sujeitais; se estiverdes por ellas é negocio decidido.

--Creio que já conheço essas condições, disse o italiano sorrindo.

--Ide sempre.

O fidalgo chamou o seu escudeiro, e incumbio-o de pôr o italiano ao

facto das condições do bando de aventureiros que tinha ao seu

serviço. Era este um dos privilegios de Ayres Gomes, que o desempenhava

com toda a gravidade de que era susceptivel a sua personagem um tanto

grotesca.

Chegados á esplanada, o escudeiro perfilou-se, e proferio o seguinte

introito:

--Lei, estatuto, regimento, disciplina ou como melhor nome haja, a que

se sujeita todo aquelle que entrar á soldada na banda do Sr. cavalheiro

D. Antonio de Mariz, fidalgo cota d'armas, do tronco dos Marizes em

linha recta.

Aqui o escudeiro molhou a palavra e proseguio.

--_Primo_: Obedecer sem repinicar. Quem o contrario fizer pereça morte

natural.

O italiano fez um gesto de approvação.

--Isto quer dizer, misser Italiano, que se um dia o Sr. D. Antonio vos

mandar saltar deste rochedo em baixo, fazei a vossa oração e saltai;

porque de uma ou outra maneira, pelos pés ou pela cabeça, fé de Ayres

Gomes, lá ireis.

Loredano sorrio.

--_Segundo_: Contentar-se com o que ha. Quem o contrario...

--Com o vosso respeito, Sr. Ayres Gomes, não vos deis a um trabalho

inutil; sei tudo o que ides rezar-me, e por isso dispenso-vos de

continuar.

--Que quereis dizer?

--Quero dizer que todos os camaradas, cada um por sua vez, já me

descreverão a ceremonia que ora pondes em pratica.

--Não obstante...

--Escusado é. Sei tudo, aceito tudo, juro tudo que quizerdes.

E dizendo isto o italiano fez uma viravolta, e dirigio-se para o

gabinete de D. Antonio, emquanto o escudeiro, zangado por não ter

levado ao fim a scena de iniciação a que dava tão grande valor,

resmungava:

--Não póde ser boa casta de gente?

Loredano apresentou-se a D. Antonio.

--Então? disse o fidalgo.

--Aceito.

--Bem; agora só falta uma cousa, que Ayres Gomes não vos disse

naturalmente.

--Qual, Sr. cavalheiro?

--É que D. Antonio de Mariz, disse o fidalgo pousando a mão sobre o

hombro do italiano, é um chefe rigoroso para seus homens, porém um

amigo leal para seus companheiros. Sou aqui o senhor da casa e o pai de

toda a familia a que actualmente pertenceis.

O italiano curvou-se para agradecer, mas sobretudo para esconder a

alteração da physionomia.

Ouvindo as palavras nobres do fidalgo, sentio-se perturbado; porque já

então lhe fermentava no cerebro o plano da trama que ia urdir, e que

vimos revelar-se um anno depois.

Sahindo do lugar cm que deixara occulto o seu thesouro, o aventureiro

caminhou direito á casa de D. Antonio de Mariz e pedio a hospitalidade

que a ninguem se recusava: sua intenção era passar-se ao Rio de

Janeiro, onde concertaria os meios de aproveitar a fortuna.

Duas idéas se tinhão apresentado ao seu espirito no momento em que se

vira possuidor do roteiro de Roberio Dias.

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2) · 第 7 / 13 段