Então, collocando-se de encontro ao vento, aproximou-se com toda a

cautela, e ouvio um murmurio de vozes confusas, e o som de um

instrumento que cavava a terra.

Pery applicou o ouvido, e procurou ver o que se passava além, mas era

impossivel; nem uma aberta, nem uma fresta davão passagem ao som, ou ao

olhar.

Só quem tem viajado nos sertões e visto esses cardos gigantes, cujas

largas palmas crivadas de espinhos se entrelação estreitamente

formando uma alta muralha de alguns pés de grossura, poderá fazer

idéa da barreira impenetravel que cercava por todos os lados as pessoas

cuja voz Pery ouvia sem distinguir as palavras.

Entretanto esses homens devião ter ahi entrado por alguma parte; e não

podia ser senão pelo galho de uma arvore secca que se estendia sobre os

cardos, e ao qual se enroscava um cipó nodoso e forte como uma vide.

Pery estudava a posição, e tratava de descobrir o meio de saber o que

se passava a traz daquellas arvores, quando uma voz que julgou

reconhecer exclamou.

--_Per Dio_! eil-a!

O indio estremeceu ouvindo esta voz, e resolveu a todo o custo conhecer

o que fazião aquelles homens; presentio que havia alli um perigo a

conjurar, e um inimigo a combater. Inimigo talvez mais terrivel do que

os Aymorés, porque se estes erão féras, aquelle podia ser a serpente

escondida entre as flôres e a relva.

Assim esqueceu tudo, e o seu pensamento concentrou-se n'uma unica idea,

ouvir o que aquelles homens dizião.

Mas por que meio?

Era o que Pery procurava; tinha rodeado a touca applicando o ouvido, e

pareceu-lhe que em um lugar o ruido das vozes e do ferro que continuava

a cavar, lhe chegava mais distincto.

O indio abaixou os olhos, que brilhárão de contentamento.

O que produzira essa agradavel impressão fôra um simples monticulo de

barro gretado, que se elevava como um pão de assucar dous palmos acima

da terra, e que estava encoberto por folhas de tanchagem.

Era a entrada de um formigueiro, de uma dessas casas subterraneas

construidas pelos pequenos architectos que á força de paciencia e

trabalho minão um campo inteiro, e formão verdadeiras abodadas debaixo

da terra.

Aquelle que Pery descobrira tinha sido abandonado pelos seus habitantes

em virtude da enxurrada que penetrara no pequeno subterraneo.

O indio tirou a sua faca, e cerceando a cupola dessa torre em miniatura,

deixou a descoberto um buraco que penetrava pelo interior da terra, e de

certo ia ter á baixa onde estavão reunidas as pessoas que

conversavão.

Este buraco tornou-se para elle uma especie de tubo acustico, que lhe

trazia as palavras claras e distinctas.

Sentou-se e ouvio.

XV

OS TRES

Loredano que nessa mesma manhã sahira de casa tão cedo, apenas se

entranhou na matta esperou.

Um quarto de hora depois vierão ter com elle Bento Simões e Ruy

Soeiro.

Os tres seguîrão juntos sem dar uma palavra; o italiano caminhava

adiante, e os dous aventureiros o acompanhavão trocando de vez em

quando um olhar significativo.

Por fim Ruy Soeiro rompeu o silencio:

--Não foi de certo para espairecer pelos mattos ao romper da alva, que

nos fizestes vir aqui, misser Loredano?

--Não, respondeu o italiano laconicamente.

--Mas então desembuchai de uma vez, e não percamos tempo.

--Esperai!

--Que espereis, vos digo eu; atalhou Bento Simões, ides n'uma batida...

Onde nos pretendeis levar nesta marcha?

--Vereis.

--Já que não ha meio de vos sacar mais palavra, segui com Deus, misser

Loredano.

--Sim, acudio Ruy Soeiro, segui; que nós tornamos por onde viemos.

--Quando estiverdes de vez para fallar, nos avisareis.

E os dous aventureiros pararão dispostos a retroceder; o italiano

voltou-se com um gesto de desprezo.

--Parvos que sois! disse elle. Se vos parece, revoltai-vos agora que

estais em meu poder, e que não tendes outro remedio senão seguir a

minha fortuna! Voltai!... tambem eu voltarei; mas para denunciar-nos a

todos.

Os dous aventureiros empallidecêrão.

--Não me façais lembrar, Loredano, disse Ruy Soeiro abaixando um olhar

rapido para o punhal, que ha um meio de fechar para sempre as boccas

que se obstinão a fallar.

--Isto quer dizer, replicou o italiano desdenhosamente, que me matarieis

no caso de que eu vos quizesse denunciar?

--A fé que sim! respondeu Ruy Soeiro com um tom que mostrava a sua

resolução.

--E eu pela minha parte faria o mesmo! Primeiro está a nossa vida que

as vossas venetas, misser italiano.

--E que ganharieis vós em matar-me? perguntou Loredano sorrindo.

--Essa é melhor! Que ganharíamos? Achais que é cousa de pequena valia

assegurar a sua existencia e o seu descanço?

--Néscios!... disse o italiano cobrindo-os com um olhar de desprezo e

de piedade ao mesmo tempo. Não vedes que quando um homem traz um

segredo como o meu, a menos que esse homem não seja um truão da vossa

laia, elle deve ter tomado as suas precauções contra estes pequenos

incidentes!

--Bem vejo que estais armado, e mais vale assim, respondeu Ruy Soeiro;

será morte antes que homizio.

--Direis melhor execução, Ruy Soeiro! retrucou Bento Simões.

O italiano continuou:

--Não são essas armas que me servirão contra vós; outras tenho eu

que mais podem; sabei unicamente que vivo ou morto, a minha voz virá de

longe, até mesmo da campa, denunciar-vos e vingar-me.

--Quereis gracejar, misser italiano? A occasião não é asada.

--A seu tempo vereis se gracejo. Tenho na mão de D. Antonio de Mariz o

meu testamento, que elle deve abrir quando me saiba ou me julgue morto.

Nesse testamento conto as relações que existem entre nós, e o fim

para que trabalhamos.

Os dous aventureiros tornárão-se lividos como espectros.

--Comprehendeis agora, disse Loredano sorrindo, que se me assassinardes,

se um accidente qualquer me privar da vida, se me der na cabeça mesmo

fugir e fazer suppor que morri, estais perdidos irremediavelmente.

Bento Simões ficou paralysado como se uma catalepsia o tivesse

fulminado. Ruy Soeiro, apezar do violento abalo que sentia, conseguio

com um esforço recobrar a palavra.

--É impossivel!... gritou elle. Isso que dizeis é falso. Não ha homem

que o fizesse.

--Ponde á prova! respondeu o italiano calmo e impassivel.

--Elle o fez... estou certo... balbuciou Bento Simões em voz sumida.

--Não, retrucou Ruy Soeiro; Satanaz não o faria. Vamos, Loredano;

confessai que nos enganastes, que quizestes atemorisar-nos?

--Disse a verdade.

--Mentes! gritou o aventureiro desesperado.

O italiano sorrio: tirando a sua espada, estendeu a mão sobre a cruz do

punho, e disse lentamente deixando cahir as palavras uma a uma:

--Por esta cruz e pelo Christo que nella soffreu; por minha honra neste

mundo, e minha alma no outro, juro.

Bento Simões cahio de joelhos esmagado por este juramento, que não

deixava de ter alguma solemnidade no meio da floresta sombria e

silenciosa.

Ruy Soeiro pallido, com os olhos a saltarem-lhe das orbitas, os labios

tremulos, os cabellos eriçados e os dedos hirtos, parecia a mumia do

desespero.

Estendeu os braços para Loredano, e exclamou com a voz tremula e

suffocada:

--Pois vós, Loredano, confiastes a D. Antonio de Mariz um papel onde

existe a machinação infernal que tramastes contra sua familia?

--Confiei-o!

--E nesse papel escrevestes que o pretendeis assassinar a elle e a sua

mulher, e lançar fogo á casa se preciso fôr para a realisação de

vossos intentos?

--Escrevi tudo!

--Tivestes o arrojo de confessar que tencionais roubar sua filha e fazer

della, nobre moça, a barregã de um aventureiro e reprobo como vós?

--Sim!

--E dissestes tambem, continuou Ruy no auge da desesperação, que a

outra sua filha nos pertencerá, a nós que jogaremos á sorte para

decidir a qual deverá tocar?

--Não me esqueci de nada, e menos desse ponto importante, respondeu o

italiano com um sorriso; tudo isto está escripto em um pergaminho, nas

mãos de D. Antonio de Mariz. Para sabê-lo, basta que o fidalgo rompa

os pingos de cera preta com que mestre Garcia Ferreira, tabellião do

Rio de Janeiro, o cerrou na minha penultima viagem.

Loredano pronunciou essas palavras com a maior calma, contemplando os

dous aventureiros pallidos e humilhados diante delle.

Passou-se algum tempo em silencio.

--Já vedes, disse o italiano, que estais na minha mão; sirva-vos isto

de exemplo. Quando uma vez se pôz o pé sobre o precipicio, amigos, é

preciso caminhar por cima delle, para não rolar e ir ao fundo.

Caminhemos pois. Só de uma cousa vos advirto; de hoje em

diante--obediência cega e passiva!

Os dous aventureiros não dissêrão palavra; porém a sua attitude

respondia melhor do que mil protestos.

--Agora deixai essa cara triste e consternada. Estou vivo: e D. Antonio

é um verdadeiro fidalgo incapaz de abrir um testamento. Creai

esperança, confiai em mim, que breve alcançaremos a meta.

A physionomia de Bento Simões reanimou-se.

--Fallai claro uma vez ao menos, retrucou Ruy Soeiro.

--Não aqui; segui-me, que vos levarei a um lugar onde conversaremos á

vontade.

--Esperai, acudio Bento Simões; antes de tudo, reparação vos é

devida. Ha pouco vos ameaçámos; aqui tendes as nossas armas.

--Sim, depois do que se passou, é justo que desconfieis de nós; tomai.

Os dous tirárão os punhaes e as espadas.

--Guardai as vossas armas, disse Loredano encarnecendo, servirão para

me defenderdes. Eu sei quanto vos é preciosa e cara a minha existencia!

Ambos os aventureiros empallidecêrão, e seguirão o italiano, que

depois de uma meia hora de caminho chegou á touca de cardos que já

descrevêmos.

Á um signal de Loredano, os seus companheiros subirão á arvore, e

descêrão pelo cipó ao centro dessa área cercada de espinhos, que

tinha quando muito tres braças de comprimento sobre duas de largura.

De um lado, na quebrada que fazia o terreno, via-se uma especie de gruta

ou abobada, restos desses grandes formigueiros que se encontrão pelos

nossos campos, já meio aluidos pela chuva. Neste lugar, á sombra de um

pequeno arbusto que nascêra entre os cardos, sentárão-se os tres

aventureiros.

--Oh! disse o italiano immediatamente; ha algum tempo já que não venho

dessas bandas; mas parece-me que ainda deve haver aqui o quer que seja

que vos dará no gôto.

Reclinou-se, e estendendo o braço pela cava retirou uma botija que alli

estava deitada, e que collocou no meio do grupo.

--É de Caparica, mas do bom. Deste cá não vem!

--Diabo! tendes uma adega exclamou Bento Simões a quem avista da botija

tinha restituido todo o bom humor.

--A fallar a verdade, disse Ruy, esperaria tudo, menos ver sahir deste

buraco uma botija de vinho.

--É para vêrdes! como costumo vir a este lugar, onde ás vezes passo

bem boas soalheiras, precisava ter um companheiro com quem espairecesse.

--E não podieis achar melhor! disse Bento Simões dando uma empinadella

á botija e estalando a lingua. Já lhe tinha saudades!

Cada um dos tres tomou a sua vez de vinho e a botija voltou ao seu

lugar.

--Bom, disse o italiano, agora tratemos do que serve. Prometti, quando

vos convidei a seguir-me, que vos faria ricos, muito ricos.

Os dous inclinárão a cabeça.

--A promessa que vos fiz vai-se realisar: a riqueza está aqui perto de

nós, podemos toca-la.

--Onde? perguntárão os aventureiros lançando um olhar avido em roda.

--Não vai assim tambem, falla-se figuradamente.

Digo que a riqueza está diante de nós, mas para nos apoderarmos della

é preciso...

--O que? Dizei!

--A seu tempo: agora quero contar-vos uma historia.

--Uma historia! replicou Ruy Soeiro.

--Da carocha? perguntou Bento Simões.

--Não, uma historia veridica como uma bulla do nosso santo padre.

Ouvistes fallar algum dia, em um certo Roberio Dias?

--Roberio Dias... Ah! sei! um tal de S. Salvador? disse Ruy Soeiro.

--O mesmo, sem tirar nem pôr.

--Vi-o ha cousa de oito annos em S. Sebastião, donde se passou ás

Hespanhas.

--E sabeis o que ia fazer ás Hespanhas esse digno descendente do

Caramurú, amigo Bento Simões? perguntou o italiano.

--Ouvi rosnar que se tratava de um thesouro fabuloso, que contava

offerecer a Felippe II, o qual em volta o faria marquez, e grande

fidalgo de sua casa.

--E o resto, não vos chegou á noticia?

--Não; nunca mais ouvi fallar do tal Roberio Dias.

--Pois ouvi lá; chegando a Madrid, o homem fez a sua offerta mui

lampeiro, e foi recebido na palma das mãos por el-rei Felippe II que,

como sabeis, tinha as unhas demasiado longas.

--E cinzou-o como uma raposa que era? acudio Ruy Soeiro.

--Enganais-vos; dessa vez a raposa tornara-se macaco; quiz ver o côco

ante de paga-lo.

--E então?

--Então, disse o italiano sorrindo maliciosamente, o côco estava ouco.

--Como ouco?

--Sim, amigo Ruy, tinhão-lhe deixado apenas as cascas; felizmente para

nós, que vamos lograr o miôlo.

--Sois um homem de caixas encouradas, Loredano!

--Dá-se agente a tratos, e não é possivel entender-vos.

--Tenho culpa eu, que não sejais lido na historia das cousas de vossa

terra?

--Nem todos são mitrados como vós, dom italiano.

--Bom, acabemos de uma vez; o que Roberio Dias julgava offerecer em

Madrid a Felippe II, amigos, está aqui!

E Loredano dizendo esta palavra assentou a mão sobre um seixo que havia

ao lado.

Os dous aventureiros olhárão-se sem comprehender, e duvidando da

razão de seu companheiro. Quanto a este, sem se importar com o que

elles pensavão, tirou a espada, e depois de desenterrar a pedra

começou a cavar. Emquanto proseguia neste trabalho, os dous

observando-o passavão alternadamente a botija de vinho, e fazião

conjecturas e supposições.

O italiano já cavava ha tempo, quando o ferro tocou num objecto duro,

que o fez tinir.

--_Per Dio_, exclamou, eil-a!

Dahi a alguns momentos retirava do buraco um desses vasos de barro

vidrado, a que os indios chamavão _camuci_; este era pequeno e fechado

por todos os lados.

Loredano tomando-o pelas duas mãos abalou-o e sentio o imperceptivel

vascolejar que fazia dentro um objecto qualquer.

--Aqui tendes, disse elle lentamente, o thesouro de Roberio Dias;

pertence-nos. Um pouco de tento, e seremos mais ricos que o sultão de

Bagdad, e mais poderosos que o doge de Veneza.

O italiano bateu sobre a pedra com o vaso que se partio em pedaços.

Os aventureiros, com os olhares incendidos de cobiça, esperando ver

correr ondas de ouro, de diamantes e esmeraldas, ficárão estupefactos.

Do bojo do vaso saltára apenas um pequeno rolo de pergaminho coberto

por um couro avermelhado, e atado em cruz por um fio pardo.

Loredano com a ponta do punhal rompeu o laço, e, abrindo rapidamente o

pergaminho, mostrou aos aventureiros um rotulo escripto em grandes

letras vermelhas.

Ruy Soeiro soltou um grito: Bento Simões começou a tremer de prazer,

de pasmo e admiração.

Passado um momento, o italiano estendeu a mão para o papel collocado no

meio do grupo, seus olhos tomarão uma expressão dura.

--Agora, disse elle com a sua voz vibrante, agora que tendes a riqueza e

o poder ao alcance da mão, jurai que o vosso braço não tremerá

quando chegar a occasião; que obedecereis ao meu gesto, á minha

palavra, como á lei do destino.

--Juramos!

--Estou cançado de esperar, e resolvido a aproveitar o primeiro ensejo.

A mim como chefe, disse o italiano com um sorriso diabolico, devia

pertencer D. Antonio de Mariz; eu vo-lo cedo, Ruy Soeiro. Bento Simões

terá o escudeiro. Eu reclamo para mim Alvaro de Sá, o nobre

cavalheiro.

Ayres Gomes vai se ver n'uma dansa! disse Bento Simões com um aspecto

marcial.

--Os mais, se nos incommodarem, irão depois; se nos acompanharem serão

bem vindos. Unicamente vos aviso que aquelle que tocar a soleira da

porta da filha de D. Antonio de Mariz, é um homem morto; esta é a

minha parte de presa! É a parte do leão.

Neste momento ouvio-se um rumor como se as folhas se tivessem agitado.

Os aventureiros não fizerão reparo, e attribuirão naturalmente ao

vento.

--Mais alguns dias, amigos, continuou Loredano, e seremos ricos, nobres,

poderosos como um rei. Tu, Bento Simões, serás marquez do Paquequer;

tu, Ruy Soeiro, duque das Minas; eu... Que serei eu, disse Loredano com

um sorriso que illuminou a sua physionomia intelligente. Eu serei...

Uma palavra partio do seio da terra surda e cavernosa, como se uma voz

sepulcral a houvesse pronunciado.

--Traidores!...

Os tres aventureiros erguêrão-se de um só movimento, hirtos e

lividos: parecião cadaveres surgindo da campa.

Os dous persignárão-se. O italiano suspendeu-se ao ramo da arvore, e

lançou um olhar rapido.

Tudo estava em socego.

O sol a pino derramava um oceano de luz: nenhuma folha se agitava ao

sopro da brisa; nenhum insecto saltitava sobre a relva.

O dia no seu esplendor dominava a natureza.

FIM DA PRIMEIRA PARTE.

SEGUNDA PARTE

PERY

I

O CARMELITA

Corria o mez de março de 1603.

Era portanto um anno antes do dia em que se abrio esta historia.

Havia á beira do caminho que então servia ás raras expedições entre

o Rio de Janeiro e o Espirito Santo, um vasto pouso onde habita vão

alguns colonos e indios cathequisados.

Estava quasi a anoitecer.

Uma tempestade secca, terrivel e medonha, como as ha frequentemente nas

faldas das serranias, desabava sobre a terra. O vento mugindo açoutava

as grossas arvores que vergavão os troncos seculares; o trovão

ribombava no bojo das grossas nuvens desgarradas pelo céo; o relampago

amiudava com tanta velocidade, que as florestas, os montes, toda a

natureza nadava n'um oceano de fogo.

No vasto copiár do pouso havia tres pessoas contemplando com um certo

prazer a luta espantosa dos elementos, que para homens habituados com

elles, não deixava de ter alguma belleza.

Um desses homens, gordo e baixo, deitado em uma rede no meio do

alpendre, com as pernas cruzadas e os braços sobre o peito, soltava uma

exclamação a cada novo estrago produzido pela tempestade.

O segundo, encostado n'um dos esteios de jacarandá que sustentavão o

tecto da alpendrada, era homem trigueiro, de perto de quarenta annos; a

sua physionomia apresentava uns longes do typo da raça judaica; tinha

os olhos fitos em uma vereda que serpejava pela frente da casa até

perder-se no matto.

Defronte delle, tambem apoiado sobre a outra columna, estava um frade

carmelita, que acompanhava com um sorriso de satisfação intima o

progresso da borrasca; animava-lhe o rosto bello e de traços

accentuados um raio de intelligencia e uma expressão de energia que

revelava o seu caracter.

Ao ver esse homem sorrindo á tempestade e affrontando com o olhar a luz

do relampago, conhecia-se que sua alma tinha a força de resolução e a

vontade indomavel capaz de querer o impossivel, e de lutar contra o

céo e a terra para obtê-lo.

Fr. Angelo di Luca achava-se então no pouso como missionario, incumbido

da cathequese e cura das almas entre o gentio daquelle lugar; em seis

mezes que apostolava conseguira aldear algumas familias que esperava

breve trazer ao gremio da igreja.

Um anno havia que obtivera do prior geral da ordem do Carmo a graça de

passar do seu convento de Santa Maria Transpontina, em Roma, para a casa

que a sua ordem tinha fundado em 1590 no Rio de Janeiro, afim de

empregar-se no trabalho das missões.

Tanto o geral como o provincial de Lisboa, tocados por esse ardente

enthusiasmo apostolico, o havião recommendado expressamente a Fr. Diogo

do Rosario, então prior do convento do Carmo no Rio de Janeiro,

pedindo-lhe que empregasse no serviço do Senhor e na gloria da ordem da

Beatissima Virgem do Monte Carmelo, o zelo e o santo fervor do irmão

Fr. Angelo di Luca.

Eis a razão por que o filho de um pescador, sahido das lagunas de

Veneza, achava-se no sertão do Rio de Janeiro, encostado ao esteio de

um pouso, contemplando a tempestade que redobrava de furor.

--Sempre partireis esta noite, Fernão Aines? disse o homem que estava

deitado na rede.

--Ao quarto d'alva, respondeu o outro sem voltar-se.

--E o tempo que vai fazer?

--Não é isso que me estorva, hem o sabeis, mestre Nunes. Esta maldita

caçada!... Receiais que vossos homens não tornem della a tempo?

--Receio que não os leve á todos a bréca por esses mattos com

semelhante borrasca.

O frade voltou-se:

--Aquelles que seguem a lei de Deus estão bem em toda a parte, irmão,

em andurriaes como neste pouso; os máos é que devem tremer o fogo do

céo, e a estes não ha abrigo que os salve.

Fernão Aines sorrio ironicamente.

--Crêdes isso, Fr. Angelo?

--Creio em Deus, irmão.

--Pois embora; prefiro estar onde estou do que por ahi mettido n'algum

despenhadeiro.

--Comtudo, acudio Nunes, o que diz o nosso reverendo missionario...

--Ora deixa fallar Fr. Angelo. Aqui sou eu que zombo da tempestade; lá

seria a tempestade que zombaria de mim.

--Fernão Aines!... exclamou Nunes.

--Maldita lembrança de caçada! murmurou o outro sem attendê-lo.

O silencio se restabeleceu.

De repente uma nuvem abrio-se; a corrente electrica enroscando-se pelo

ar, como uma serpente de fogo, abateu-se sobre um tronco de cedro que

havia defronte do pouso.

A arvore fendeu-se desde o olho até á raiz em duas metades; uma

permaneceu em pé, esguia e mutilada; a outra, tombando sobre o

terreiro, bateu nos peitos de Fernão Aines, e o atirou esmagado no

fundo do alpendre.

Seu companheiro ficou immovel por muito tempo; depois começou a tremer

como se tiritasse com o frio de terçãs; o pollegar estendido para

fazer o signal da cruz, os dentes chocando uns contra os outros, o rosto

contrahido, davão-lhe aspecto terrivel e ao mesmo tempo grotesco.

O frade se tinha voltado livido como se elle fosse a victima da

catastrophe; o terror decompoz um momento a sua physionomia; porém logo

um sorriso sardonico fugio-lhe dos labios ainda descorados pelo choque

violento que soffrêra.

Passado o primeiro momento de susto, os dous chegárão-se para o

ferido, e quizerão prestar-lhe soccorros; este fez um grande esforço,

e erguendo sobre um dos braços soltou n'uma golphada de sangue estas

palavras:

--Castigo do céo!

Reconhecendo que não havia mais cura para o corpo, o moribundo exigio o

remedio espiritual; com a voz fraca pedio a Fr. Angelo que o ouvisse de

confissão.

Nunes fez recolher o seu companheiro a um aposento cuja porta dava para

o alpendre, e deitou-o sobre uma cama de couro.

Já havia anoitecido, o aposento estava na maior escuridão, apenas por

instantes o relampago brilhava lançando o clarão azulado sobre o

confessor meio reclinado para o moribundo, afim de escutar-lhe a voz que

ia gradualmente enfraquecendo.

--Ouvi-me sem me interromper, meu padre; sinto que poucos momentos me

restão; e embora não haja perdão para mim, quero ao menos reparar o

meu crime.

--Fallai, irmão; eu vos escuto.

--Em novembro passado cheguei ao Rio de Janeiro; fui hospedado por um

parente meu; tanto elle como sua mulher me fizêrão o melhor

acolhimento.

«Elle, que havia muito viajado pelo sertão e se dera á vida de

aventureiro, fallou-me um dia de tentarmos uma expedição, cujo

resultado seria grande riqueza para nós ambos.

«Por diversas vezes nos entretivemos sobre esse objecto, até que

abrio-se inteiramente comigo.

«O pai de um Roberio Dias, colono da Bahia, guiado por um indio, havia

descoberto nos sertões daquella provinda minas de prata tão abundantes

que se poderião calçar desse metal as ruas de Lisboa.

«Como atravessasse sertões invios e inhospitos, Dias escrevêra um

roteiro com as indicações necessarias para em qualquer tempo poder-se

achar o lugar onde estão situadas as ditas minas.

«Este roteiro fôra subtrahido a seu dono sem que elle o percebesse; e

por uma longa successão de factos, que faltão-me as forças para

contar-vos, viera cahir nas mãos do meu parente.

«De quantos crimes já não tinha sido causa esse papel, e de quantos

não seria ainda, meu padre, se Deus não houvesse finalmente punido em

mim o ultimo herdeiro desse legado de sangue!...»

O moribundo parou um momento extenuado; depois continuou com a voz

debil:

«Já então com a chegada do governador D. Francisco de Souza se sabia

que Roberio offerecêra em Madrid a Philippe II a descoberta das minas,

e que não o tendo el-rei premiado como esperou, obstinava-se em guardar

silencio.

«A razão deste silencio, que se attribuia geralmente ao despeito, só

a sabia meu parente em cujas mãos parava o roteiro; Roberio chegado ás

Hespanhas se apercebêra do roubo que lhe havião feito, e quizera ao

menos lograr o premio.

«O segredo das minas, a chave dessa riqueza immensa que excedia todos

os thesouros do Miramolim, estava nas mãos do meu parente que,

necessitando de um homem dedicado que o auxiliasse na empreza, julgou

que a ninguem melhor do que a mim podia escolher para partilhar os seus

riscos e esperanças.

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2) · 第 6 / 13 段