soberbo.
--Lindo animal! disse o fidalgo adiantando-se e tocando com o pé as
presas do tigre.
--Ah! achais lindo! Inda mais achareis quando souberdes quem o
trouxe!...
--Deve ter sido um habil caçador, disse D. Antonio contemplando a féra
com esse prazer de monteria que era um dom dos fidalgos daquelle tempo:
não tem o signal de uma só ferida!
--É obra daquelle excommungado caboclo, Sr. Mariz! respondeu D.
Lauriana preparando-se para o ataque.
--Ah! exclamou o fidalgo rindo; é a caça que Pery hontem perseguia, e
de que nos fallou Alvaro!
--Sim; e que trouxe viva como se fosse alguma paca!
--A trouxe viva! Mas não vêdes que é impossivel?
--Como impossivel, se Ayres Gomes vem de acaba-la agora mesmo!
Ayres Gomes quiz retrucar; mas a dama impoz-lhe silencio com um gesto.
O fidalgo curvou-se e segurando o animal pelas orelhas ergueu-o; ao
passo que examinava o corpo para ver se lhe descobria alguma bala, notou
que tinha as patas e as mandibulas ligadas.
--É verdade! murmurou elle; devia estar viva ha cousa de uma hora;
ainda conserva o calor.
D. Lauriana deixou que seu marido se fartasse de contemplar o animal,
certa de que as reflexões que esta vista produziria não podião deixar
de ser favoraveis ao seu plano.
Quando julgou que tinha chegado o momento, deo dous passos, arranjou a
cauda do seu vestido, e dando um certo descabido ao corpo, dirigio-se a
D. Antonio:
--Bom é que vejais, Sr. Mariz, que nunca me illudo! Que de vezes vos
hei dito que fazieis mal em conservar esse bugre? Não quereis
acreditar: tinheis um fraco inexplicavel pelo pagão. Pois bem...
A dama tomou um tom oratorio, e accentuou a palavra com um gesto
energico apontando para o animal morto:
--Ahi tendes o pago. Toda a vossa familia ameaçada! Vós mesmo que
podieis sahir desapercebido; vossa filha que ignorando o perigo que
corria foi banhar-se, e podia a está hora estar pasto de féras.
O fidalgo estremeceu á idéa do perigo que corrêra sua filha e ia
precipitar-se; mas ouvio um doce murmurio de vozes que parecia um
chilrear de sahis: erão as duas moças que subião a ladeira.
D. Lauriana sorria-se do seu triumpho.
--E se fosse só isto? continuou ella. Porém não pára aqui: amanhã
vereis que nos traz algum jacaré, depois uma cascavel ou uma giboia;
encher-nos-ha a casa de cobras e lacráos. Seremos aqui devorados vivos,
porque a um bugre arrenegado deo-lhe na cabeça fazer as suas bruxarias!
--Exagerais muito tambem, D. Lauriana. É certo que Pery fez uma
selvajaria; mas não ha razão para que receiemos tanto. Merece uma
reprimenda: lh'a darei e forte. Não continuará.
--Se o conhecesseis como eu, Sr. Mariz! É bugre e basta! Podeis
ralhar-lhe quanto quizerdes; elle o fará mesmo por pirraça!
--Prevenções vossas, que não partilho.
A dama conheceu que ia perdendo terreno; e resolveu dar o golpe
decisivo; amaciou a voz, e tomou um tom choroso.
--Fazei o que vos aprouver! Sois homem, e não tendes medo de nada! Mas
eu, continuou arrepiando-se, não poderei mais dormir, só com a idéa
de que uma jararaca sobe-me á cama; de dia a todo o momento julgarei
que algum gato montez vai saltar-me pela janella; que a minha roupa
está cheia de lagartas de fogo! Não ha forças que resistão a
semelhante martyrio!
D. Antonio começou a reflectir seriamente sobre o que dizia sua mulher,
e a pensar no sem numero de faniquitos, desmaios e arrufos que ia
produzir o terror panico justificado pelo facto do indio; comtudo
conservava ainda a esperança de conseguir acalma-la e dissuadi-la.
D. Lauriana espiava o effeito do seu ultimo ataque. Contava vencer.
XIII
REVELAÇÃO
Isabel e Cecilia que voltavão do banho conversando, aproximárão-se da
porta, não sem algum susto do animal; susto que se desfez com o sorriso
do velho fidalgo, revendo-se na belleza de sua filha.
Com effeito, Cecilia estava nesse momento de uma formosura que
fascinava.
Tinha os cabellos ainda humidos, dos quaes se escapava de vez em quando
um aljôfar que ia perder-se na covinha dos seios cobertos pelo linho do
roupão; a pelle fresca como se ondas de leite corressem pelos seus
hombros; as faces brilhantes como dous cardos rosas que se abrem ao pôr
do sol.
As duas meninas fallavão com alguma vivacidade; mas ao aproximarem-se
da porta, Cecilia que ia um pouco adiante voltou-se para sua prima na
pontinha dos pés, e comum arzinho petulante levou o dedo aos labios
recommendando silencio.
--Sabes, Celilia, que tua mãi está muito zangada com Pery! disse D.
Antonio tomando o rostinho mimoso de sua filha e beijando-a na fronte.
--Porque, meu pai? Fez elle alguma cousa?
--Umas das suas, e de que já sabes parte.
--E eu vou contar-te o resto! atalhou D. Lauriana, tocando com a mão o
braço de sua filha.
E de facto apresentou com as côres mais negras, e com a emphase mais
dramatica, não só o risco imminente que na sua opinião tinha corrido
a casa inteira, mas os perigos que ameaçavão ainda a paz e o socego da
familia.
Referio que, se por um milagre a sua caseira não tivesse ha cousa de
uma hora chegado á esplanada e visto o indio fazendo partes diabolicas
com o tigre ao qual naturalmente ensinava a maneira de penetrar na casa,
todos áquella hora estarião defuntos.
Cecilia empallideceu, lembrando-se do descuido e alegria com que
atravessára o valle e se banhára; Isabel conservou-se calma, mas seus
olhos brilharão.
--Assim, concluio peremptoriamente D. Lauriana, não é concebivel que
continuemos com semelhante praga em casa.
--Que dizeis, minha mãi? exclamou Cecilia assustada: pretendeis
manda-lo embora?
--Sem duvida: essa casta de gente, que nem gente é, só póde viver bem
nos mattos.
--Mas elle nos ama tanto! Tem feito tanto por nós não é verdade, meu
pai? disse a menina voltando-se para o fidalgo:
D. Antonio respondeu a sua filha por um sorriso que a socegou:
--Vós ralhareis com elle, meu pai: eu ficarei agastada, continuou
Cecilia, e elle se emendará e não fará mais outra.
--E a de ha pouco? replicou Isabel dirigindo-se a Cecilia.
D. Lauriana, que via a sua causa mal parada depois da chegada das
moças, apezar da repugnancia que sentia por Isabel, conheceu que tinha
nella um alliado; e dirigio-lhe a palavra, o que succedia uma vez por
semana.
--Chega-te, menina; o que é que dizes ter acontecido ha pouco?
--E tambem um perigo que correu Cecilia.
--Qual! minha mãi; foi mais susto de Isabel do que outra cousa.
--Susto, sim; mas pelo que vi...
--Conta me isto; e tu Cecilia, fica ahi socegada.
A menina pelo respeito que tinha a sua mãi não se animou a dizer mais
uma palavra; porém aproveitando-se do movimento que fez D. Lauriana ao
voltar-se para ouvir a Isabel, abanou a cabeça a sua prima pedindo-lhe
que nada dissesse.
A moça fez que não via o gesto, e respondeu a sua tia:
--Cecilia estava se banhando e eu tinha ficado á beira do rio: dahi a
algum tempo vejo Pery que passava ao longe pelo galho de uma arvore.
Elle sumio-se; e de repente uma setta partida daquelle lugar veio cahir
a dous passos de minha prima!
--Ouça cá, Sr. Mariz! exclamou D. Lauriana; ouça as estrepolias do
capeta!
--No mesmo instante, continuou Isabel, ouvimos dous tiros de pistola,
que ainda mais nos assustárão, porque de certo forão apontados tambem
para nosso lado.
--Senhor Deus! É peior do que uma judearia! Mas quem deo pistolas a
esse bugio?
--Fui eu, minha mãi; respondeu timidamente Cecilia.
--Melhor seria que rezasses as tuas contas. Era bem feito que com ellas
mesmo... Senhor Deus! perdoai-me!
D. Antonio tinha ouvido as palavras de Isabel apezar de conservar-se a
alguma distancia; o rosto do fidalgo tomara uma expressão grave.
Fez um ligeiro aceno a Cecilia, e afastou-se com ella em ar de quem
passeava pela esplanada:
--O que diz tua prima é verdade?
--É, meu pai; mas estou certa que Pery não o fez por maldade.
--Comtudo, replicou o fidalgo, isto pode renovar-se, por outro lado tua
mãi está atemorisada; assim, o melhor é afasta-lo.
--Elle vai sentir muito!!
--E eu e tu tambem porque o estimamos; mas não seremos ingratos; eu
pagarei a tua e a minha divida de gratidão; deixa isto ao meu cuidado.
--Sim, meu pai! exclamou a menina com um olhar humido de reconhecimento
e de admiração: Sim! Vós que sabeis comprehender tudo que é nobre!
--Como tu, minha Cecilia! respondeu o fidalgo acariciando-a.
--Oh! eu aprendi no vosso coração, e nas vossas menores acções.
D. Antonio abraçou-a.
--Ah! tenho uma cousa a pedir-vos!
--Dize: ha muito que não me pedes nada, e eu já tenho queixa disto.
--Mandareis conservar este animal? Sim!
--Desde que o desejas...
--Será uma lembrança que teremos de Pery.
--Para ti, que para mim a melhor lembrança és tu. Se não fosse elle,
podia eu agora apertar-te nos meus braços?
--Sabeis que tenho vontade de chorar só de pensar que elle se vai?
--É natural, minha filha, as lagrimas são um balsamo que Deus deo á
fraqueza da mulher, e que negou á força do homem.
O fidalgo separou-se de sua filha, e chegou-se á porta onde se achavão
ainda sua mulher, Isabel e Ayres Gomes.
--Que decidistes, Sr. D. Antonio? perguntou a dama.
--Decidi fazer-vos a vontade, para socego vosso e descanço meu. Hoje
mesmo ou amanhã Pery deixará esta casa; mas emquanto elle aqui
estiver, eu não quero, disse carregando ligeiramente sobre aquelle
monosyllabo, que se lhe diga uma palavra sequer de desagrado. Pery sahe
desta casa porque lh'o peço, e não porque isto seja-lhe ordenado por
alguem. Entendeis, minha mulher?
D. Lauriana, que comprehendia o que havia de energia e resolução
naquelle imperceptivel entoação dada pelo fidalgo a uma simples
phrase, inclinou a cabeça.
--Incumbo-me de fallar eu mesmo a Pery! Dir-lhe-has de minha parte,
Ayres Gomes, que venha ter comigo.
O escudeiro inclinou-se; o fidalgo que se ia retirando, voltou-se:
--Ah! esquecia-me. Mandaras encher este lindo animal que desejo
conservar; será uma curiosidade para o meu gabinete d'armas.
D. Lauriana fez á sorrelfa uma careta de nojo.
--E servirá para que minha mulher se habitue com sua vista, e tenha
menos medo de onças.
D. Antonio afastou-se.
A dama pôde então ir riçar os seus cabellos, e preparar o seu toucado
domingueiro; tinha alcançado uma importante victoria.
Pery ia finalmente ser expulso desta casa, onde na sua opinião nunca
devêra ter entrado.
Emquanto isto passava, Cecilia, ao separar-se de seu pai, voltára o
canto da casa para entrar no jardim, e encontrára Alvaro que passeava
inquieto e pensativo.
--D. Cecilia! disse o moço.
--Oh! deixai-me, Sr. Alvaro! respondeu Cecilia sem parar.
--Em que vos offendi eu para que me trateis assim?
--Desculpai-me, estou triste; em nada me offendestes.
--É que quando se commetteu uma falta...
--Uma falta? perguntou a menina admirada.
--Sim! respondeu o moço abaixando os olhos.
--E que falta commettestes vós, Sr. Alvaro?
--Desobedeci-vos.
--Ah! é grave! disse a moça com um meio sorriso.
--Não zombeis, D. Cecilia! Se soubesseis que inquietações isto me tem
feito passar! Arrependo-me mil vezes do que pratiquei, e comtudo
parece-me que era capaz de pratica-lo de novo.
--Mas, Sr. Alvaro, esqueceis que fallais de uma cousa que ignoro; sei
apenas que se trata de uma desobediencia!
--Lembrais-vos que hontem me mandastes guardar um objecto, que...
--Sim! atalhou a moça corando; um objecto que...
--Que vos pertencia, e que eu contra vontade vossa restitui.
--Como! que dizeis!
--Oh! perdoai! foi uma ousadia! mas...
--Mas emfim eu não entendo nem uma palavra de tudo isto! exclamou a
moça com um movimento de impaciencia.
Alvaro vencendo emfim o seu acanhamento contou rapidamente o que linha
feito na vespera á noite.
Cecilia ouvindo-o, ia se tornando séria.
--Sr. Alvaro, disse ella n'um tom de exprobração, fizestes mal em
praticar semelhante acção, muito mal. Que ninguem o saiba ao menos.
--Eu juro pela minha honra!
--Não basta; vós mesmo desfareis o que fizestes. Não abrirei aquella
janella emquanto houver alli um objecto que não me veio de meu pai, e
em que não posso tocar.
--Senhora!... balbuciou o moço pallido e abatido.
Cecilia levantou os olhos, e viu no rosto de Alvaro tanta amargura e
desespero, que sentio-se commovida.
--Não me accuseis de que succede, disse ella com a voz meiga, a culpa
é vossa.
--Eu o sinto; e não me queixo.
--Bem vistes que não podendo acceitar, pedi que conservasseis como uma
lembrança.
--Oh! eu a conservarei ainda; ella me ensinará a expiar a minha falta,
e m'a recordará sempre.
--Será agora uma triste recordação...
--E posso-as eu ter alegres!
--Quem sabe! disse Cecilia desentrançando dos seus cabellos louros um
jasmim; é tão doce esperar!
Voltando-se para esconder o rubor de suas faces, Cecilia viu perto a
Isabel que devorava esta scena com um olhar ardente.
A menina soltou um grito de susto e entrou rapidamente no jardim. Alvaro
apanhou no ar a pequena flôr que se escapára dos dedos de Cecilia e
beijou-a julgando que ninguem alli estava. Quando o cavalheiro deo com
os olhos na moça, ficou tão perturbado que deixou cahir o jasmim sem
sentir.
Isabel apanhou-o; e apresentando a Alvaro, disse com um accento de voz
inimitavel:
--É tambem uma restituição!
Alvaro empallideceu.
A moça tremula passou diante delle, e entrou no quarto de sua prima.
Cecilia vendo chegar Isabel corou, e não se animou a levantar os olhos,
lembrando-se do que ella tinha visto e ouvido: pela primeira vez a
innocente menina conhecia que havia na sua pura affeição alguma cousa
que se escondia aos olhos dos outros.
Isabel, entrando no aposento da prima ao qual fôra arrastada por um
sentimento irresistivel, arrependera-se immediatamente; a perturbação
que sentia era tão grande, que temeu trahir-se; encostou-se no leito
defronte de Cecilia, muda e com os olhos cravados no chão.
Assim passou-se um longo intervallo; depois as duas moças quasi ao
mesmo tempo erguêrão a cabeça e lançárão um olhar para a janella;
seus olhos se encontrárão, e ambas corárão ainda mais.
Cecilia revoltou-se; a menina alegre e travessa que conservava n'um
cantinho do coração, sob os risos e as graças, o germem da firmeza de
caracter que distinguia seu pai, sentio-se offendida por se ver obrigada
a córar de vergonha diante de outrem, como se tivesse commettido uma
falta.
Revestio-se de coragem, e tomou uma resolução cuja energia se
desenhava em um movimento imperceptivel das sobrancelhas.
--Isabel, abre esta janella.
A moça estremeceu como se uma faisca electrica tivesse abalado o seu
corpo; hesitou, mas por fim atravessou o aposento.
Dous olhares avidos, ardentes, cahirão sobre a janella no momento em
que se abrio.
Nada havia alli.
A emoção que teve Isabel foi tão forte, que involuntariamente
voltou-se para sua prima soltando uma exclamação de prazer; sua
physionomia illuminou-se com um desses reflexos divinos, que parecem
descer do céo sobre a cabeça da mulher que ama.
Cecilia olhava sua prima sem comprehendê-la; mas a pouco e pouco a
admiração e o espanto desenháráo-se no semblante da menina.
--Isabel!...
A moça cahio de joelhos aos pés de Cecilia.
Tinha-se trahido.
XIV
A INDIA
Pery apenas sentio voltarem-lhe as forças, continuou a sua marcha
atravez da floresta.
Por muito tempo seguio as pegadas da india pelo meio do matto com uma
rapidez e uma certeza incrivel para quem não conhecer a facilidade com
que os selvagens percebem os mais fracos vestigios que deixão as
pisadas de um animal qualquer.
Um ramo quebrado, o capim abatido, as folhas seccas espalhadas e
partidas, um galho que ainda se agita, as perolas do orvalho desfeitas,
são aos seus olhos exercidos o mesmo que uma linha traçada na
floresta, e que elles seguem sem hesitação.
Uma razão havia para que Pery se encarniçasse assim em perseguir
aquella india inoffensiva, e a fazer esforços inauditos afim de
agarra-la.
Para hem comprehender esta razão, é necessario conhecer alguns
acontecimentos que se havião passado nos ultimos dias pelas
vizinhanças do _Paquequer_.
No fim da lua das aguas, uma tribu de Aymorés descera das eminencias da
Serra dos Orgãos para fazer a colheita dos fructos e preparar os
vinhos, bebidas e diversos alimentos de que costumava fazer provisão.
Uma familia dessa tribu trazida pela caça apparecêra ha dias nas
margens do Parahyba; compunha-se de um selvagem, sua mulher, um filho e
uma filha.
Esta ultima era uma bella india, cuja posse se disputavão todos os
guerreiros aymorés; seu pai, o chefe da tribu, sentia o orgulho de ter
uma filha tão formosa, como a mais linda setta do seu arco, ou a mais
vistosa penna do seu cocar.
Estamos no domingo.
Na sexta-feira, erão dez horas da manhã, Pery atravessava a matta
imitando alegremente o canto do sahixé, cujas notas sibiladas elle
traduzia pelo doce nome de _Cecy_.
Ia então em procura desse animal que tão importante papel representa
nesta historia, especialmente depois de morto; como não o satisfazia
qualquer pequeno jaguar, assentara buscar nos seus proprios dominios um
dos reis das grandes florestas que corrião ao longo do Parabyba.
Cecilia havia dito uma palavra, e elle que não discutia os desejos de
sua senhora, tomára o seu arco e sua clavina e se tinha posto a
caminho. Chegava a um pequeno regato, quando um cãozinho felpudo sahio
do matto, e logo depois uma india que deo dous passos e cahio ferida por
uma bala.
Pery voltou-se para ver donde partia o tiro, e reconheceu D. Diogo de
Mariz que se aproximava lentamente acompanhado por dous aventureiros.
O moço ia atirar a um passaro, e a india que passava neste momento,
recebêra a carga da espingarda e cahira morta.
O cãozinho lançou-se para sua senhora uivando, lambendo-lhe as mãos
frias, e roçando a cabeça pelo corpo ensanguentado como procurando
reanima-la. D. Diogo, apoiado sobre o arcabuz, volvia um olhar de
piedade sobre essa moça victima de um capricho de caçador, que não
desejava perder a sua pontaria.
Quanto a seus companheiros, rião-se do acontecimento, e divertião-se a
fazer commentarios sobre a qualidade de caça que o cavalheiro tinha
escolhido.
De repente o cãozinho que acariciava sua senhora morta, ergueo a
cabeça, farejou o ar, e partio como uma flexa.
Pery que tinha sido testemunha muda desta scena, aconselhou a D. Diogo
que se recolhesse á casa por prudencia, e continuou a sua caminhada.
O espectaculo que acabava de presenciar o entristecêra; lembrou-se de
sua tribu, de seus irmãos que elle havia abandonado ha tanto tempo, e
que talvez naquella hora erão tambem victimas dos conquistadores de sua
terra, onde outr'ora vivião livres e felizes.
Tendo andado cerca de meia legua, avistou ao longe um fogo na matta; ao
redor estavão sentados dous selvagens e uma india.
O mais velho, de estatura gigantesca, engastava as presas longas e
aguçadas da capivara nas pontas de cannas silvestres, e afiava n'uma
pedra essa arma terrivel. O mais moço enchia de pequenas sementes
pretas e vermelhas um fructo ouco, ornado de pennas e preso a um cabo de
dous palmos de comprimento.
A mulher, que ainda era moça, cardava uma porção de algodão cujos
frocos alvos e puros cahião sobre uma grande folha que tinha no
regaço.
Junto do fogo havia um pequeno vaso vidrado com brazas no qual a india
de vez em quando deitava umas grandes folhas seccas, que levantavão
grossos novellos de fumo. Então os dous indios por meio de uma taboca
aspiravão as baforadas deste fumo, até que os olhos lhes choravão;
depois continuavão o seu trabalho.
No momento em que Pery examinava de longe esta scena, o cãozinho
saltava no meio do grupo: o animal apenas respirou da corrida em que
vinha, puxou com os dentes a trofa de pennas do indio mais moço, que o
atirou a quatro passos com um empurrão.
Aproximou-se então da india, repetio o mesmo movimento; e como fosse
mal acolhido ainda, saltou sobre o algodão, e mordeu-o: a mulher
tomou-o pela colleira de fructos que trazia ao pescoço, sacudio-o pelas
costas, e arranjou as suas pastas; mas estavão tintas de sangue.
Examinou com inquietação o animal; e não o vendo ferido, lançou os
olhos ao redor de si e soltou um grito rouco e guttural; os dous indios
erguêrão a cabeça interrogando com os olhos a causa dessa
exclamação.
Por toda a resposta, a india mostrou o sangue que cobria o animal, e
pronunciou com a voz cheia de afflicção uma palavra de uma lingua
desconhecida, e que Pery não entendeu.
O indio mais moço saltou pela floresta como um campeiro atraz do
cãozinho que lhe servia de guia: o velho e a mulher o seguirão de
perto.
Pery comprehendeu perfeitamente o que se passava, e seguio seu caminho
pensando que os colonos já devião áquella hora estar fora do alcance
dos selvagens.
Era isto o que o indio tinha visto; o que elle ignorava, o acontecimento
do banho lhe revelára claramente.
Os selvagens havião encontrado o corpo de sua filha, e reconhecido o
signal da bala; por muito tempo procurárão debalde as pisadas dos
caçadores, até que no dia seguinte a cavalgata que passava servio-lhes
de guia.
Toda a noite rondárão em torno da habitação, e nessa manhã vendo
sahir as duas moças resolverão vingar-se com a applicação dessa lei
de talião que era o unico principio de direito e justiça que
reconhecião.
Tinhão morto sua filha; era justo que matassem tambem a filha do seu
inimigo; vida por vida, lagrima por lagrima, desgraça por desgraça.
Como pretendêrão realisar a sua vingança e o fim que tiverão, já
sabemos; os dous selvagens dormião para sempre nas margens do
_Paquequer_, sem que uma mão amiga lhes viesse dar sepultura.
Agora é facil conhecer a razão por que Pery perseguia a india, resto
da infeliz familia; sabia que ella ia direito ter com seus irmãos, e
que á primeira palavra que proferisse, toda a tribu se levantaria como
um só homem para vingar a morte do seu cacique, e a perda da mais bella
filha dos Aymorés.
Ora, o indio conhecia a ferocidade desse povo sem patria e sem
religião, que se alimentava de carne humana e vivia como féras no
chão c pelas grutas e cavernas; estremecia só com a idéa de que
podesse vir assaltar a casa de D. Antonio de Mariz.
Era preciso pois exterminar toda a familia, e não deixar nem um
vestigio de sua passagem.
Fazendo estas reflexões, Pery tinha gasto perto de uma hora a
percorrera floresta inutilmente; a india ganhara um grande avanço
durante o tempo em que elle lutava contra o desfallecimento pruduzido
pela ferida. Por fim julgou que o mais prudente era avisar a D. Antonio
immediatamente, afim de que tomasse todas as medidas de prevenção que
exigia a imminencia de perigo.
Tinha chegado a um campo coberto por algumas moitas de carrascos, que se
destacavão aqui e alli sobre um capim aspero e queimado pelo sol.
Apenas o indio deo alguns passos para atravessar o campo, parou fazendo
um gesto de sorpreza; diante delle arquejava um cãozinho, que
reconheceu pela colleira de fructos escarlates que tinha ao pescoço.
Era o mesmo que ha dous dias encontrára na floresta, e que naturalmente
seguia a india no momento em que ella fugia; o indio não o tinha visto
por causa das guaximas.
O animal mostrava ter sido estrangulado por uma torsão tão violenta,
que lhe partira a columna vertebral; entretanto ainda agonisava.
Do primeiro lanço d'olhos Pery tinha visto tudo isto, e calculado o que
se havia passado.
Aquella morte, pensava elle, não podia ter sido feita senão por uma
creatura humana; qualquer outro animal usaria dos dentes ou das garras,
e deixaria traços de ferimento.
O cão pertencia á india; fôra ella pois quem o havia estrangulado ha
bem poucos momentos, porque a fractura do pescoço era de natureza a
produzira morte quasi immediatamente.
Mas por que motivo tinha feito essa barbaridade?--Porque, respondia o
espirito do indio, ella sabia que era perseguida, e o cão que a não
podia acompanhar serviria para denuncia-la.
Apenas formulou este pensamento, Pery deitou-se e auscultou o seio da
terra por muito tempo; duas vezes ergueu a cabeça julgando illudir-se, e
encostou de novo o ouvido ao chão.
Quando levantou-se, o seu rosto exprimia grande sorpreza e admiração;
tinha ouvido alguma cousa de que parecia duvidar ainda, como se os seus
sentidos o illudissem.
Caminhou para o lado do nascente, auscultando a terra a cada momento, e
assim chegou a alguns passos de uma grande touça de cardos que se
elevava n'uma baixa do terreno.