A menina que um momento duvidara da razão de Pery, comprehendeu toda a

sublime abnegação, toda a delicadeza de sentimento dessa alma inculta.

A sua fingida severidade não pôde mais resistir; deixou pairamos seus

labios um sorriso divino.

--Obrigada, meu bom Pery! Tu és um amigo dedicado; mas não quero que

arrisques tua vida para satisfazer um capricho meu; e sim que a

conserves para me defenderes como já fizeste uma vez.

--Senhora, não está mais zangada com Pery?

--Não; apezar de que devia estar, porque Pery hontem fez sua senhora

affligir-se cuidando que elle ia morrer.

--E Cecy ficou triste? exclamou o Indio.

--Cecy chorou! respondeo a menina com uma graciosa ingenuidade.

--Perdôa, senhora!

--Não só te perdôo, mas quero tambem fazer-te o meu presente.

Cecilia correu ao seu quarto e trouxe o rico par de pistolas que havia

encommendado a Alvaro.

--Olha! Pery não desejava ter umas?

--Muito!

--Pois aqui tens! Tu não as deixarás nunca porque são uma lembrança

de Cecilia, não é verdade?

--Oh! o sol deixará primeiro a Pery, do que Pery a ellas.

--Quando correres algum perigo, lembra-te que Cecilia as deu para

defenderem e salvarem a tua vida.

--Porque é tua, não é, senhora?

--Sim, porque é minha, e quero que a conserves para mim.

O rosto de Pery irradiava com o sentimento de um gozo immenso, de uma

felicidade infinita; metteu as pistolas na cinta de pennas e ergueo a

cabeça orgulhoso, como um rei que acabasse de receber a uncção de

Deus.

Para elle essa menina, esse anjo louro, de olhos azues, representava a

divindade na terra; admira-la, faze-la sorrir, vê-la feliz, era o seu

culto; culto santo e respeitoso em que o seu coração vertia os

thesouros de sentimento e poesia que transbordavão dessa natureza

virgem.

Isabel entrou no jardim; a pobre menina tinha velado toda a noite, e seu

rosto parecia conservar ainda os traços de algumas dessas lagrimas

ardentes que escaldão o seio e requeimão as faces.

A moça e o indio nem se olhárão; odiavão-se mutuamente; era uma

antipathia que começára desde o momento em que se virão, e que cada

dia augmentava.

Agora, Pery, Isabel e eu vamos ao banho.

--Pery te acompanha, senhora?

--Sim; mas com a condição de que Pery ha de estar muito quieto o

socegado.

A razão por que Cecilia impunha esta condição, só podia hem

comprehender quem tivesse assistido á uma das scenas que se passavão

quando as duas moças ião banhar-se, o que succedia quasi sempre ao

domingo.

Pery, com o seu arco, companheiro inseparavel, e arma terrivel na sua

mão dextra, sentava-se longe á beira do rio n'uma das pontas mais

altas do rochedo ou no galho de alguma arvore, e não deixava ninguem

aproximar-se n'um raio de vinte passos do lugar onde as moças se

banhavão.

Quando algum aventureiro por acaso transpunha esse circulo que o indio

traçava com o olhar em redor de si, Pery na posição sobranceira em

que se collocára o percebia immediatamente.

Então se o descuidado caçador sentia o seu chapéo ornar-se de repente

com uma penna vermelha que voava pelos ares sibilando; se via uma setta

arrebatar-lhe o fructo que elle estendia a mão para colher; se parava

assustado diante de uma longa flexa emplumada que despedida por

elevação vinha cahir-lhe a dous passos da frente como para

embargar-lhe o caminho e servir de balisa; não se admirava.

Comprehendia immediatamente o que isto queria dizer; e pelo respeito que

todos votavão a D. Antonio de Mariz e á sua familia, arripiava

caminho; e voltava lançando uma jura contra Pery que lhe crivára o

chapéo, e o obrigara a encolher a mão de susto.

E fazia bem em voltar, porque o indio com o seu zelo ardente não

duvidaria vasar-lhe os olhos para evitar que chegando-se á beira do

rio, visse a moça a banhar-se nas aguas.

Entretanto Cecilia e sua prima tinhão o costume de banhar-se vestidas

com um trajo feito de ligeira estamenha que occultava inteiramente sob a

côr escura as formas do corpo, deixando-lhes os movimentos livres para

nadarem.

Mas Pery entendia que apezar disto seria uma profanação consentir que

um olhar de quem quer que fosse visse a _senhora_ no seu trajo de banho;

nem mesmo o delle que era seu escravo, e por conseguinte não podia

offende-la, a ella que era o seu unico Deus.

Emquanto porém o indio mantinha assim pela certeza de sua vista rapida,

e pela projecção das suas flexas esse circulo impenetravel para quem

que quer que fosse, não deixava de olhar com uma attenção escrupulosa

a corrente e as margens do rio.

O peixe que beijava a flor da agua, e que podia ir offender a moça; uma

cobra verde innocente que se enroscava pelas folhas dos aguapés; um

cameleão que se aquecia ao sol fazendo scintillar o seu prisma de

côres brilhantes; um sagui branco e felpudo que se divertia a fazer

caretas maliciosas suspendendo-se pela cauda ao galho de uma arvore;

tudo quanto podia ir causar um susto á moça, o indio fazia fugir se

estava longe e se estava perto pregava o animal immovel sobre o tronco

ou sobre o chão.

Se um ramo arrastado pela corrente passava, se um pouco do limo das

aguas despegava-se da margem pedregosa do rio, se o fructo de uma

sapucaia pendida sobre o _Paquequer_ estalava prestes a cahir, o indio,

veloz como o tiro do seu arco lançava-se e retinha o coco no meio da

sua quéda, ou precipitava-se n'agua e apanhava os objectos que

boiavão.

Cecilia podia ser offendida pelo tronco que a correnteza carregava, pela

fructa que cahia; podia assustar-se com o contacto do limo julgando ser

uma cobra; e Pery não perdoaria a si mesmo a mais leve magoa que a

moça soffresse por falta de cuidado seu.

Emfim elle estendia ao redor della uma vigilancia tão constante e

infatigavel, uma protecção tão intelligente e delicada, que a moça

podia descançar, certa de que se soffresse alguma cousa seria porque

todo o poder do homem fóra impotente para evitar.

Eis pois a razão porque Cecilia recommendava a Pery que estivesse

quieto e socegado; é verdade que ella sabia que essa recommendação

era sempre inutil, e que o indio faria tudo para que uma abelha sequer

não viesse beijar os seus labios vermelhos confundindo-os com uma flôr

de pequiá.

Quando as duas moças atravessarão a esplanada, Alvaro passeava junto

da escada.

Cecilia saudou de passagem com um sorriso ao joven cavalheiro; e desceu

ligeiramente seguida por sua prima.

Alvaro que tinha procurado ler-lhe nos olhos e no rosto o perdão de sua

loucura da vespera, e nada havia percebido que acabasse com o seu

receio, quiz seguir a moça, e fallar-lhe.

Voltou-se para ver se alguem estava alli que reparasse no que ia fazer,

e deo com o italiano que a dous passos delle o olhava com um dos seus

sorrisos sarcasticos.

--Bom dia, Sr. cavalheiro.

Os dous inimigos trocarão um olhar que se cruzara como laminas de aço

que roçassem uma na outra.

Nesse momento Pery se aproximava lentamente delles, carregando uma das

pistolas que Cecilia lhe havia dado a alguns minutos.

O indio parou, e com um ligeiro sorriso de uma expressão indefinivel

tomou as pistolas pelo cano, e apresentou-as uma a Avaro e outra a

Loredano.

Ambos comprehendêrão o gesto e o sorriso; ambos sentirão que tinhão

commettido uma imprudencia, e que o espirito perspicaz do selvagem havia

lido nos seus olhos um odio profundo, e talvez que a causa desse odio.

Voltárão-se fingindo não ter visto o movimento.

Pery levantou os hombros e mettendo as pistolas na cinta passou entre

elles com a cabeça alta, o olhar sobrançeiro, e acompanhou sua

senhora.

XI

NO BANHO

Descendo a escada de pedra da esplanada Cecilia perguntava á sua prima:

--Diz-me uma cousa, Isabel; porque é que tu não fallas ao Sr. Alvaro?

Isabel estremeceu.

--Tenho reparado, continuou a menina, que nem mesmo respondes á

cortezia que elle nos faz.

--Que elle te faz, Cecilia, replicou a moça docemente.

--Confessa que não gostas delle. Tens-lhe antipathia?

A moça calou-se.

--Não fallas?... olha que então vou pensar outra cousa! continou

Cecilia galanteando.

Isabel empallideceu; e levando a mão ao coração para comprimir as

pulsações violentas, fez um esforço supremo e arrancou algumas

palavras que parecião queimar-lhe os labios:

--Bem sabes que o aborreço!...

Cecilia não viu a alteração da physionomia de sua prima, porque tendo

chegado á baixa nesse momento, esquecera a a conversa, e começára a

brincar com uma alegria infantil sobre a relva.

Mas ainda que visse a pertubação da moça, e o choque que ella tinha

sentido, de certo attribuira isto a qualquer outro motivo, menos ao

verdadeiro.

A affeição que tinha a Alvaro lhe parecia tão innocente, tão

natural, que nunca se lembrára que devia um dia passar daquillo que

era; isto é, de um prazer que fazia sorrir, e de um enleio que fazia

córar.

Esse amor pois, era amor, não podia conhecer o que se passavava n'alma

de Isabel; não podia comprehender a sublime mentira que os labios da

moça acabavão de proferir.

Quando a Isabel, temendo trahir o seu segredo, tinha arrancado do seu

coração cheio de amor, essa palavra de odio, que para ella era quasi

uma blasphemia.

Mas antes isso do que revelar o que se passava em sua alma; esse

mysterio, essa ignorancia que envolvia o seu amor, e o escondia a todos

os olhos, tinha para ella uma voluptuosidade inexprimivel.

Podia assim fitar horas e horas o moço, sem que elle o percebesse, sem

o incommodar talvez com a prece muda do olhar supplicante; podia

rever-se em sua alma sem que um sorriso de desdem ou de zombaria a

fizesse soffrer.

O sol vinha nascendo.

O seu primeiro raio espreguiçava-se ainda pelo céo anilado, e ia

beijar as brancas nuvemzinhas que corrião ao seu encontro.

Apenas a luz branda e suave da manhã esclarecia a terra e sorprehendia

as sombras indolentes que dormião sob as copas das arvores.

Era a hora em que o cactus, a flôr da noite, fechava o seu calice cheio

das gotas do orvalho com que distilla o seu perfume, temendo que o sol

crestasse a alvura diaphana de suas petalas.

Cecilia com a sua graça de menina travessa corria sobre a relva ainda

humida colhendo uma graciola azul que se embalançava sobre a haste, ou

um malvalisco que abria os lindos botões escarlates.

Tudo para ella tinha um encanto inexprimivel; as lagrimas da noite que

tremião como brilhantes das folhas das palmeiras; a borboleta que ainda

com as azas entorpecidas esperava o calor do sol para reanimar-se; a

viuvinha que escondida na ramagem avisava o companheiro que o dia vinha

raiando; tudo lhe fazia soltar um grito de sorpreza e de prazer.

Emquanto a menina brincava assim pela varzea, Pery, que a seguia de

longe parou de repente tomado por uma idéa que lhe fez correr pelo

corpo um calafrio: lembrára-se do tigre.

De um pulo sumio-se n'uma grande moita de arvoredo que se elevava á

alguns passos; ouvio-se um rugido abafado, um grande farfalhar de folhas

que se espedaçavão, e o indio appareceu.

Cecilia tinha-se voltado um pouco tremula:

--Que é isto, Pery?

--Nada, senhora.

--É assim que prometteste estar quieto?

--Cecy não se ha de zangar mais.

--Que queres tu dizer?

--Pery sabe! respondeu o indio sorrindo.

Na vespera tinha provocado uma luta espantosa para domar e vencer um

animal feroz, e deita-lo submisso e inoffensivo aos pés da moça,

julgando que isso lhe causava um prazer.

Agora estremecendo com o susto que sua senhora podia soffrer, destruira,

em um instante essa acção de heroismo, sem proferir uma palavra que a

revelasse. Bastava que elle soubesse o que tinha feito, e o que todos

devião ignorar, bastava que sua alma sentisse o orgulho da nobre

dedicação que se expandia no sorriso de seus labios.

As moças que esta vão bem longe de saber até que ponto tinha chegado

a loucura de Pery, e que não julgavão possivel que um homem podesse

fazer o que elle tinha feito, não comprehendêrão nem a phrase, nem o

sorriso.

Cecilia tinha chegado a uma latada de jasmineiros que havia á borda

d'agua, e que lhe servia de casa de banho; era um dos trabalhos do

indio, que o havia arranjado com aquelle cuidado e esmero que punha em

satisfazer as vontades da menina.

Pery já tinha ganho a margem do rio, e estava longe; Isabel sentou-se

na relva.

Então afastando as ramas dos jasmineiros que occultavão inteiramente a

entrada, Cecilia penetrou naquelle pequeno pavilhão de verdura, e

examinou se as folhas estavão bem embastidas, se não havia alguma

fresta por onde o olhar do dia penetrasse.

A innocente menina tinha vergonha até do raio de luz que podia vir

espiar os thesouros de belleza que occultava a cambraia de suas

roupagens.

Assim, foi depois desse exame escrupuloso, e ainda córando de si mesma,

que começou o seu vestuario de banho. Mas quando o corpinho da anagoa

cahindo descobrio suas alvas espaduas e seu collo puro e suave, a menina

quasi morreu de pejo e de susto. Um passarinho escondido entre as

folhas, um garrulo travesso e malicioso, gritára distinctamente:--_Bem

te vi_!

Cecilia rio-se do susto que tivera, e acabou o seu vestuario de banho

que a cobria toda, deixando apenas nús os braços e o pézinho de

menina.

Atirou-se á agua como um passarinho: Isabel que a acompanhara por

com prazer ficou sentada á beira do rio.

Como Cecilia estava bella nadando sobre as aguas limpidas da corrente,

com seus cabellos louros soltos, e os braços alvos que se curvavão

graciosamente para imprimir ao corpo um doce movimento! Parecia uma

dessas garças brancas, ou colhereiras de rosea côr que deslisão

mansamente á flôr do lago, nas tardes serenas, espelhando-se no

crystal das aguas.

Ás vezes a linda menina se deitava de bruços e sorrindo ao céo azul

ia levada pela corrente; ou perseguia os jassanans e marrecas que

fugião diante della. Outras vezes Pery que estava distante do lado

superior do rio, colhia alguma flôr parasita que deitava sobre um

barquinho feito de uma casca de páo e que vinha trazido pela

correnteza.

A menina perseguia o barquinho á nado, apanhava a flôr, e ia

offerece-la na pontinha dos dedos á Isabel, que desfolhando-a

tristemente murmurava as palavras cabalisticas com que o coração

procura illudir-se.

Em vez porém de consultar o presente, perguntava o futuro, porque sabia

que o presente não tinha esperanças para ella, e se a flôr dissesse o

contrario mentia.

Havia meia hora que Cecilia estava no banho, quando Pery, que collocado

sobre uma arvore não deixava de lançar o olhar ao redor de si vio na

margem opposta as guaximas se agitarem.

A ondulação produzida nos arbustos foi-se estendendo como um caracol,

e aproximando-se do lugar onde a moça se banhava, até que parou detraz

de umas grandes pedras que havia á beira do rio.

Do primeiro lanço d'olhos o indio conheceu que o largo sulco traçado

entre as hastes verdes do arvoredo não podia deixar de ser produzido

por um animal de grande corpulencia.

Seguio rapidamente pelos ramos das arvores, atravessou o rio sobre essa

ponte aerea, e conseguio escondido pelas folhas collocar-se

perpendicularmente ao lugar onde ainda se fazia sentir a oscillação

dos arbustos.

Viu então sentados entre as guaximas dous selvagens, mal cobertos por

uma tanga de pennas amarellas, que com o arco esticado e a flexa a

partir, esperavão que Cecilia passasse diante da fresta que formavão

as pedras para despedirem o tiro.

E a menina descuidada e tranquilla já tinha estendido o braço, e

ferindo a agua passava sorrindo por diante da morte que a ameaçava.

Se se tratasse de sua vida, Pery teria sangue frio; mas Cecilia corria

um perigo, e portanto não reflectio, não calculou.

Deixou-se cahir como uma pedra do alto da arvore: as duas flexas que

partião, uma cravou-se-lhe no hombro, a outra roçando-lhe pelos

cabellos mudou de direcção.

Ergueu-se então, e sem mesmo dar-se ao trabalho de arrancar a seta, de

um só movimento tomou á cinta as pistolas que tinha recebido de sua

senhora, e despedaçou a cabeça dos selvagens.

Ouvirão-se dous gritos de susto que partião da margem opposta, e quasi

logo a voz tremula e colerica de Cecilia que chamava:

--Pery!...

Elle beijou as pistolas ainda fumegantes e ia responder, quando á dous

passos surgio de entre a touça o vulto de uma india que sumio-se

ligeiramente no matto.

Enfiou um olhar pela fresta, e julgando Cecilia já fora do banho e em

lugar seguro, lançou-se atraz da india que já lhe levava um grande

avanço.

Uma larga fita vermelha que escapava da ferida tingia a sua alva tunica

de algodão; Pery sentio-se vacillar de repente e apertou com desespero

o coração como para reter o sangue que espadanava.

Foi um momento de luta terrivel entre o espirito e a materia, entre a

força da vontade e o poder da natureza.

O corpo desfallecia, os joelhos se dobravão, e Pery erguendo os braços

como para agarrar-se á cupola das arvores, estorcendo os musculos para

manter-se em pé, lutava debalde com a fraqueza que se apoderava delle.

Debateu-se um momento contra a poderosa gravitação que o vergava para

a terra; mas era homem, e tinha de ceder á lei da creação. Entretanto

succumbindo o valente indio resistia sempre: e vencido parecia querer

lutar ainda.

Não cahio, não; quando a força lhe faltou de todo, foi-se lentamente

retrahindo e tocou a terra com os joelhos.

Mas então lembrou-se de Cecilia, de sua senhora a quem tinha de vingar,

e para quem devia viver afim de salva-la, e de velar sobre ella. Fez um

esforço supremo: contrahindo-se conseguio reerguer-se: deo dous passos

vacillantes, gyrou no ar e foi bater de encontra a uma arvore com a qual

se abraçou convulsivamente.

Era uma cabuiba de alta grandeza que se elevava pelo cimo da floresta, e

de cujo tronco cinzento borbulhava um oleo côr de opala que desfiava em

lagrimas.

O suave aroma que rescendia dessas gotas fez o indio abrir os olhos

amortecidos, que se illuminárão de uma brilhante irradiação de

felicidade. Collou ardentemente os labios no tronco, e sorveu o oleo,

que entrou no seu seio como um balsamo poderoso.

Sentio-se renascer.

Estendeu o oleo sobre a ferida, estancou o sangue e respirou.

Estava salvo.

XII

A ONÇA

Voltemos á casa.

Loredano, depois do movimento de Pery, tinha acompanhado com os olhos a

Alvaro, o qual seguio pela borda da esplanada para ver Cecilia que

dirigia-se ao rio.

Apenas o moço dobrou o angulo que formava o rochedo, o italiano desceu

a ladeira rapidamente, e metteu-se pelo matto.

Poucos instantes se tinhão passado quando Ruy Soeiro appareceu na

esplanada, ganhou abaixa, e entranhou-se por sua vez na floresta.

Bento Simões imitou-o com pequeno intervallo, e guiando-se por alguns

talhos frescos que vio nas arvores, tomou na mesma direcção.

O pateo ficou deserto.

Decorreu cerca de meia hora: a casa tinha aberto todas as suas janellas

para receber o ar puro da manhã, e as emanações saudaveis dos campos;

um ligeiro pennacho de fumo alvadio coroava o tubo da chaminé,

annunciando que os trabalhos caseiros havião começado.

De repente ouvio-se um grito no interior da habitação; todas as portas

e janellas do edificio fechárão-se com um estrepito e uma rapidez,

como se um inimigo cahisse de assalto.

Pela fresta de uma janella entre-aberta appareceu o rosto de D.

Lauriana, pallida e com os cabellos sem estarem riçados, o que era uma

cousa extraordinária.

--Ayres Gomes!... O escudeiro!... Chamem Ayres Gomes! Que venha já!

gritou a dama.

A janella fechou-se de novo com o ferrolho.

A personagem que já conhecemos pouco tardou, e atravessando a esplanada

dirigio-se á casa, sem comprehender a razão porque áquella hora com

sol alto ainda toda a habitação parecia dormir.

--Fizestes-me chamar! disse elle chegando-se á janella.

--Sim; estais armado? perguntou D. Lauriana por detraz da porta.

--Tenho a minha espada; mas que novidade ha?

A physionomia decomposta de D. Lauriana appareceu de novo na fresta da

janella.

--A onça! Ayres Gomes!... A onça!...

O escudeiro deo um salto prodigioso julgando que o animal de que se

fallava ia saltar-lhe ao cangote, e sacou da espada pondo-se em guarda.

A dama vendo o movimento do escudeiro suppoz que a onça atirava-se á

janella, e cahio de joelhos murmurando uma oração ao santo advogado

contra as féras.

Alguns minutos se passárão assim; D. Lauriana rezando; e Ayres Gomes

rodando no pateo como um corropio, com receio de que a onça não o

atacasse pelas costas, o que além de ser uma vergonha para um homem de

armas da sua tempera, seria um pouco desagradavel para sua saude.

Por fim, de pulo em pulo o escudeiro conseguio ganhar de novo a parede

do edificio e encostar-se nella, o que o tranquillisou completa mente;

pela frente não havia inimigo que o fizesse pestanejar.

Então batendo com a folha da espada na hombreira da janella disse em

voz alta:

--Explicar-me-heis que onça é essa de que fallais, Sra. D. Lauriana;

ou estou cego, ou não vejo aqui sombra de semelhante animal.

--Estais bem certo disso, Ayres Gomes? disse a dama reerguendo-se.

--Se estou certo! Assegurai-vos com os vossos proprios olhos.

--É verdade! Mas em alguma parte ha de estar!

--E porque quereis vós á fina força que aqui esteja uma onça, Sra.

D. Lauriana? disse o escudeiro um tanto impacientado.

--Pois não sabeis? exclamou a dama.

--O que, senhora?

--Aquelle bugre endemoninhado não se lembrou de trazer hontem uma onça

viva para a casa!

--Quem, o perro do cacique?

--E quem mais senão aquelle cão tinhoso!

--É das que elle costuma fazer!

--Viu-se já uma cousa semelhante, Ayres Gomes!

--Mas a culpa não tem elle!

--Quero ver se o Sr. Mariz ainda teima em guardar essa boa joia.

--E que é feito da féra, Sra. D. Lauriana?

--Algures deve estar. Procurai-a, Ayres; corrão tudo, matem-n'a, e

tragão-me aqui.

--É dito e feito, respondeu o escudeiro correndo tanto quando lhe

permittião as suas botas de couro de raposa.

Com pouca demora, cerca de vinte aventureiros armados descêrão da

esplanada.

Ayres Gomes marchava na frente com um enorme chuço na mão direita, a

espada na mão esquerda, e uma faca atravessada nos dentes.

Depois de percorrerem quasi todo o valle e baterem o arvoredo,

voltavão, quando o escudeiro estacou de repente e gritou:

--Eil-a, rapazes! Fogo antes que faça o pulo!

Com effeito, por entre a ramagem das arvores via-se a pelle negra e

marchetada do tigre, e os olhos felinos que brilha vão com o seu

reflexo pallido.

Os aventureiros levarão o mosquete á face, mas no momento de puxarem o

gatilho, largárão todos uma risada homerica, e abaixarão as armas.

--Que é lá isso? Tem medo?

E o destemido escudeiro sem se importar com os outros mergulhou por sob

as arvores e apresentou-se arrogante em face do tigre.

Ahi porém cahio-lhe o queixo de pasmo e de sorpreza.

A onça embalava-se a um galho suspensa pelo pescoço e enforcada pelo

laço que apertando-se com o seu proprio peso, a estrangulára.

Emquanto viva, um só homem bastára para trazê-la desde o Parayba até

á floresta, onde tinha sido caçada; e da floresta até áquelle lugar

onde havia expirado.

Era depois de morta que fazia todo aquelle espalhafato; que punha em

armas vinte homens valentes e corajosos; e produzia uma revolução na

casa de D. Lauriana.

Passado o primeiro momento de admiração, Ayres Gomes cortou acorda e

arrastando o animal foi apresenta-lo á dama.

Depois que de fora lhe assegurarão que o tigre estava bem morto,

entre-abrio-se a porta, e D. Lauriana ainda toda arripiada, olhou

estremecendo o corpo da féra.

--Deixe-o ahi mesmo. O Sr. D. Antonio ha da vê-lo com seus olhos!

Era o corpo de delicto, sobre o qual pretendia basear o libello

accusatorio que ia fulminar contra Pery.

Por differentes vezes a dama tinha procurado persuadir seu marido a

expulsar o indio que ella não podia soffrer, e cuja presença bastava

para causar-lhe um faniquito.

Mas todos os seus esforços tinhão sido baldados; o fidalgo com a sua

lealdade e cavalheirismo apreciava o caracter de Pery, e via nelle

embora selvagem, um homem de sentimentos nobres e de alma grande. Como

pai de familia estimava o Indio pela circumstancia a que já alludimos

de ter salvado sua filha, circumstancia que mais tarde se explicará.

Desta vez porém D. Lauriana esperava vencer; e julgava impossivel que

seu marido não punisse severamente esse crime abominavel de um homem

que ia ao matto amarrar uma onça e trazê-la viva para a casa. Que

importava que elle tivesse salvado a vida de uma pessoa, se punha em

risco a existencia de toda a familia, e sobretudo a della?

Terminava esta reflexão justamente no momento em que D. Antonio de

Mariz assomava á porta.

--Dir-me-heis, senhora, que rumor é este, e qual a causa?

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2) · 第 4 / 13 段