Cecilia quiz fazer-lhe a vontade com risco de sua vida. É para mim uma
das cousas mais admiraveis que tenho visto nesta terra, o caracter desse
indio. Desde o primeiro dia que aqui entrou, salvando minha filha, a sua
vida tem sido um só acto de abnegação e heroismo. Crêde-me, Alvaro,
é um cavalheiro portuguez no corpo de um selvagem!
A conversa continuou; mas Cecilia tinha ficado triste, e não tomou mais
parte nella.
D. Lauriana retirou-se para dar as suas ordens; o velho fidalgo e o
moço conversárão até oito horas, em que o toque de uma campa no
terreiro da casa veio annunciar a ceia.
Emquanto os outros subião os degráos da porta e entravão na
habitação, Alvaro achou occasião de trocar algumas palavras com
Cecilia.
--Não me perguntais pelo que me ordenastes, D. Cecilia? disse elle á
meia voz.
--Ah! sim! trouxestes todas as cousas que vos pedi?
--Todas e mais... disse o moço balbuciando.
--E mais o que? perguntou Cecilia.
--E mais uma cousa que não pedistes.
--Esta não quero! respondeu a moça com um ligeiro enfado.
--Nem por vos pertencer já? replicou elle timidamente.
--Não entendo. É uma cousa que já me pertence, dizeis?
--Sim; porque é uma lembrança vossa.
--Nesse caso guardai-a, Sr. Alvaro, disse ella sorrindo, e guardai-a
bem.
E fugindo, foi ter com seu pai, que chegava á varanda, e em presença
delle recebeo de Alvaro um pequeno cofre, que o moço fez conduzir, e
que continha as suas encommendas. Estas consistião em joias, sedas,
espiguilhas de linho, fitas, galacês, hollandas, e um lindo par de
pistolas primorosamente embutidas.
Vendo essas armas, a moça saltou um suspiro abafado e murmurou comsigo:
--Meu pobre Pery! Talvez já não te sirvão nem para te defenderes.
A ceia foi longa e pausada, como costumava ser naquelles tempos em que a
refeição era uma occupação seria, e a mesa um altar que se
respeitava.
Durante a collação, Alvaro esteve descontente pela recusa que a moça
fizera do modesto presente que elle havia acariciado com tanto amor e
tanta esperança.
Logo que seu pai ergueu-se, Cecilia recolheu ao seu quarto, e ajoelhando
diante do crucifixo, fez a sua oração. Depois, erguendo-se, foi
levantar um canto da cortina da janella e olhar a cabana que se erguia
na ponta do rochedo, e meu estava deserta e solitaria.
Sentia apertar-se o coração com a idéa de que, por um gracejo,
tivesse sido a causa da morte desse amigo dedicado que lhe salvára a
vida, e arriscava todos os dias a sua sómente para faze-la sorrir.
Tudo nesta recamara lhe fallava delle: suas aves, seus dous amiguinhos
que dormião, um no seu ninho e outro sobre o tapete, as pennas que
servião de ornato ao aposento, as pelles dos animaes que seus pés
roçavão, o perfume suave de beijoim que ella respirava; tudo tinha
vindo do indio que, como um poeta ou um artista, parecia crear em torno
della um pequeno templo dos primores da natureza brasileira.
Ficou assim a olhar pela janella muito tempo; nessa occasião nem se
lembrava de Alvaro, o joven cavalheiro elegante, tão delicado, tão
timido, que córava diante della, como ella diante delle.
De repente a moça estremeceo.
Tinha visto á luz das estrellas passar um vulto que ella reconheceu
pela alvura de sua tunica de algodão, e pelas formas esbeltas e
flexiveis; quando o vulto entrou na cabana, não lhe restou a menor
duvida.
Era Pery.
Sentio-se alliviada de um grande peso: e pode então entregar-se ao
prazer de examinar um por um, com toda a attenção, os lindos objectos
que recebera, e que lhe causavão um vivo prazer.
Nisto gastou seguramente meia hora; depois deitou-se, e como já não
tinha inquietação nem tristeza, adormeceu sorrindo á imagem de
Alvaro, e pensando na magoa que lhe fizera, recusando o seu mimo.
VIII
TRES LINHAS
Tudo estava em socego: apenas quando o vento escasseava, ouvia-se do
lado do edificio habitado pelos aventureiros um rumor de vozes abafadas.
Á esta hora, havia naquelle lugar tres homens bem differentes pelo seu
caracter, pela sua posição e pela sua origem, que entretanto tinhão
uma mesma idéa.
Separados pelos costumes e pela distancia, os seus espiritos quebravão
essa barreira moral e physica, e se reunião n'um só pensamento,
convergindo para um mesmo ponto como os raios de um circulo.
Sigamos pois cada uma das linhas traçadas por essas existencias, que
mais cedo ou mais tarde hão de cruzar-se no seu vertice.
N'uma das alpendradas que corrião no fundo da casa, trinta e seis
aventureiros cercavão uma longa mesa, no meio da qual trascalavão em
escudellas de páo algumas peças de caça, já estreadas de uma maneira
que fazia honra ao appetite dos convivas.
O catalão não corria nos cangirões de louça e de metal com tanta
fartura quanta era de desejar; mas em compensação, vião-se aos cantos
do alpendre grossas talhas cheias de vinho de cajú e ananaz, onde os
aventureiros podião beber á larga.
O vicio tinha supprido os licores europeos pelas bebidas selvagens;
afóra uma pequena differença de sabor, havia no fundo de todas ellas o
alcool que excita o espirito, e produz a embriaguez.
A collação começara á meia hora; nos primeiros momentos não se
ouvio senão o mastigar dos dentes, os beijos dados aos cangirões, e o
ranger da faca na escudella.
Depois, um dos aventureiros proferio uma palavra, cuja replica correu
immediatamente á roda da mesa; a conversa tornou-se uma especie de
choro confuso e discordante.
Foi no meio desta algazarra que um dos convivas, erguendo a voz, lançou
estas palavras:
--E vós, Loredano, nada dizeis? Estais ahi que não ha modo de vos
ouvir uma palavra!
--Certo, acudio outro, Bento Simões diz verdade; se não é a fome que
vos traz mudo, algo tendes, misser italiano.
--Voto a Deus, Martim Vaz, disse um terceiro, que são penares por
alguma moçoila que andou requestando em S. Sebastião.
--Tirai-vos lá com os vossos penares, Ruy Soeiro; achais que Loredano
seja homem de se amofinar por cousas de tal jaez?
--E porque não, Vasco Affonso? Todos calçamos pelo mesmo sapato, em
que o aperte mais a uns do que a outros.
--Não julgueis os mais por vós, dom namorado; homens ha que trazem seu
pensamento, empregado em cousa de mór valia do que requebros e
galanteios.
O italiano conservava-se taciturno, e deixava que os outros o trouxessem
á baila, sem dar-se por achado: era facil de ver que elle seguia com
affinco uma idéa que lhe trabalhava no espirito.
--Mas, por Deus, continuou Bento Simões, fallai-nos do que vistes na
vossa viagem, Loredano; apostaria que alguma vos succedeu!
--Ide com o que vos digo, retrucou Ruy Soeiro, misser italiano está
penado da amores.
--E por quem, se vos parece? perguntárão alguns.
--Ora! não custa sabe-lo; por aquelle cangirão de vinho que ahi lhe
está fronteiro; não vedes que olhos que lhe deita?
Os aventureiros largárão-se a rir, applaudindo a lembrança.
Ayres Gomes appareceu á porta do saguão.
--Eia, rapazes? disse elle com uma voz que se esforçava por tornar
severa. Leva rumor!
--É um dia de chegada, Sr. escudeiro; e deveis leva-lo em conta: acudio
Ruy Soeiro.
Ayres sentou-se, e começou a fazer as honras a um resto de veado que
estava em frente delle.
--Olá! vós outros, gritou elle, com a bocca cheia, para dous
aventureiros que se havião levantado, ide encher vosso quarto, que já
refizestes, e os mais esperão sua vez.
Os dous aventureiros sahirão para ir revesar os outros que era costume
ficarem de sentinella á noite; medida esta necessaria naquelle tempo.
--Estais hoje muito severo, Sr. Ayres Gomes, disse Martim Vaz,
--Aquelle que dá as ordens, sabe o que faz; a nós cumpre obedecer,
respondeu o escudeiro.
--Ah! porque não dizieis isto logo!
--Pois ficareis agora entendidos; boa guarda, que talvez breve tenhamos
que ver.
--Venha isso, acudio Bento Simões, que já me enfastio de atirar ás
pacas e porcos do matto.
--E em honra de quem pensais vós que queimaremos breve algumas libras
de polvora? perguntou Vasco Affonso.
--Tem que saber isso? Quem, senão os indios, nos dão esta folia?
Loredano ergueu a cabeça.
--Que historias contais ahi? Suppondes que os indios nos atacarão?
perguntou elle.
--Oh! eis misser italiano que acorda; foi preciso cheirar-lhe a
chamusco, exclamou Martim Vaz.
A presença de Ayres Gomes, reprimindo a franca hilaridade dos
aventureiros, fez com que fossem uns após outros desemparando a mesa, e
deixassem o escudeiro na companhia dos cangirões e escudellas.
Loredano, levantando-se, fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões; e
os tres seguirão juntos até ao meio do terreiro; o italiano
murmurou-lhes ao ouvido uma simples palavra:
--Amanhã!
Depois, como si nada se tivesse passado entre elles, os dous
aventureiros seguirão cada um de seu lado, e deixarão Loredano
continuar o seu caminho até a beira do precipicio.
Do lado opposto, o italiano viu reflectir-se sobre as arvores o tenue
reflexo da luz que esclarecia o quarto de Cecilia, cujas janellas não
podia distinguir por causa do angulo que formava a esplanada.
Ahi esperou.
Alvaro deixando Cecilia, voltára triste e sentido da recusa que
soffrêra, embora o consolasse a sua ultima palavra, e sobretudo o
sorriso que a acompanhou.
Não se podia resignar á perda desse prazer infinito com que havia
contado, de vêr nos ornatos da moça uma prenda sua, uma lembrança que
lhe dissesse que pensava nelle. Tinha afagado tanto essa idéa, tinha
vivido tanto tempo della, que arranca-la de seu espirito seria um
soffrimento cruel.
Emquanto atravessava o espaço que o separava do seu aposento, formulou
um projecto e tomou uma resolução. Metteu n'uma pequena bolsa de seda
uma caixinha de joias; e, envolvendo-se no seu manto, costeou a casa e
aproximou-se do pequeno jardim que entestava com o gabinete de Cecilia.
Tambem elle viu a luz das janellas se reflectir de fronte; e esperou que
a noite se adiantasse, e toda a casa dormisse.
Ao tempo que isto se passava, Pery, o indio que já conhecemos, tinha
chegado com o seu fardo, tão precioso que não o trocaria por um
thesouro.
No vallado que se estendia á beira do rio, deixou o seu prisioneiro,
depois de o ter mettido n'uma especie de tronco que arranjou, curvando
um galho de arvore. Subio então á esplanada, e foi nesta occasião que
a moça o viu entrar na sua cabana; o que porém não pôde distinguir,
foi a maneira por que sahira quasi logo.
Havia dous dias que não via sua senhora, que não recebia della uma
ordem; que não adivinhava um desejo seu para satisfaze-lo
immediatamente.
O primeiro pensamento do indio, foi pois ver Cecilia, ou ao menos a sua
sombra; entrando na cabana, percebeu, como os outros, a restea de luz
que coava entre as cortinas da janella.
Suspendeu-se a uma das palmeiras que servia de esteio á choça e por um
desses movimentos ageis que lhe erão tão naturaes, de um salto
segurou-se ao galho de um oleo gigante que, elevando-se sobre a encosta
fronteira, deitava alguns ramos do lado da casa.
Durante um momento o indio pairou sobre o abysmo, balançando-se no
galho fraco que o sustinha: depois equilibrou-se e continuou essa viagem
aérea com a mesma segurança e a mesma firmeza com que um velho
marinheiro caminha sobre as gavias e sobre as enxarcias.
Com uma ligeireza extraordinária ganhou o outro lado da arvore, e,
escondido pela folhagem, aproximou-se até um galho que ficava fronteiro
das janellas de Cecilia cerca de uma braça. Era nesse mesmo momento que
Loredano chegava de um lado e Alvaro de outro, e se collocavão
igualmente á alguns passos.
A principio, Pery, só teve olhos para ver o que se passava dentro do
aposento: Cecilia examinava ainda por uma ultima vez as encommendas que
lhe havião chegado do Rio de Janeiro.
Nessa muda contemplação, o indio esqueceu tudo; que lhe importava o
precipicio que se abria a seus pés para traga-lo ao menor movimento, e
sobre o qual plainava n'um ramo fraco que vergava e se podia partir a
todo o instante!
Era feliz; tinha visto sua senhora; ella estava alegre, contente,
satisfeita; podia ir dormir e repousar.
Uma lembrança triste porém o assaltou; vendo os lindos objectos que a
moça recebêra, pensou que podia dar-lhe a sua vida, mas que não tinha
primores como aquelles para offertar-lhe.
O pobre selvagem ergueu os olhos ao céo n'um assomo de desespero, como
para ver se, collocado duzentos palmos acima da terra, sobre as grimpas
da arvore, poderia estender a mão e colher estrellas que deitasse aos
pés de Cecilia.
Assim, era esse o ponto onde se irradiavão aquellas tres linhas
partidas de pontos tão differentes. De maneira porque estavão
collocados, formavão um verdadeiro triangulo, cujo centro era a janella
frouxamente illuminada.
Todos elles arriscavão ou ião arriscar sua vida, unicamente para
tocarem com a mão o umbral da gelosia: e entretanto nem um pesava o
perigo que ia correr; nem um julgava que sua vida valesse a pena de
mercadejar por ella um prazer.
É que as paixões no deserto, e sobretudo no seio desta natureza grande
e magestosa, são verdadeiras epopéas do coração.
IX
AMOR
As cortinas da janella cerrarão-se; Cecilia tinha-se deitado.
Junto da innocente menina adormecida na insenção de sua alma pura e
virgem, velavão tres sentimentos profundos, palpitavão tres corações
bem differentes.
Em Loredano, o aventureiro de baixa extracção, esse sentimento era um
desejo ardente, uma sede de gozo, uma febre que lhe requeimava o sangue;
o instincto brutal dessa natureza vigorosa era ainda augmentado pela
impossibilidade moral que a sua condição creava, pela barreira que se
elevava entre elle, pobre colono, e a filha de D. Antonio de Mariz, rico
fidalgo de solar e brazão.
Para destruir esta barreira e igualar as posições, seria necessario um
acontecimento extraordinário, um facto que alterasse completamente as
leis da sociedade naquelle tempo mais rigorosas do que hoje; era preciso
uma dessas situações em face das quaes os individuos, qualquer que
seja a sua hierarchia, nobres e pariás, nivelão-se; e descem ou sobem
á condição de homens.
O aventureiro comprehendia isto; talvez que o seu espirito italiano já
tivesse sondado o alçance dessa idéa; em todo o caso o que affirmamos
é que elle esperava, e esperando vigiava o seu thesouro com um zelo e
uma constancia á toda a prova; os vinte dias que passára no Rio de
Janeiro tinhão sido verdadeiro supplicio.
Em Alvaro, cavalheiro delicado e cortez, o sentimento era uma affeição
nobre e pura, cheia da graciosa timidez que perfuma as primeiras flores
do coração, e do enthusiasmo cavalheiresco que tanta poesia dava aos
amores daquelle tempo de crença e lealdade.
Sentir-se perto de Cecilia, vê-la e trocar alguma palavra á custo
balbuciada; corarem ambos sem saberem porque, e fugirem desejando
encontrar-se; era toda a historia desse affecto innocente, que se
entregava descuidosamente ao futuro, librando-se nas azas da esperança.
Nesta noite Alvaro ia dar um passo que na sua habitual timidez, elle
comparava quasi com um pedido formal de casamento; tinha resolvido fazer
a moça aceitar máo grado seu o mimo que recusara, deitando-o na sua
janella; esperava que encontrando-o no dia seguinte, Cecilia lhe
perdoaria o seu ardimento, e conservaria a sua prenda.
Em Pery o sentimento era um culto, especie de idolatria fanatica, na
qual não entrava um só pensamento de egoismo; amava Cecilia não para
sentir um prazer ou ter uma satisfação, mas para dedicar-se
inteiramente a ella, para cumprir o menor dos seus desejos, para evitar
que a moça tivesse um pensamento que não fosse immediatamente uma
realidade.
Ao contrario dos outros elle não estava alli, nem por um ciume
inquieto, nem por uma esperança risonha; arrostava a morte unicamente
para ver se Cecilia estava contente, feliz e alegre: se não desejava
alguma cousa que elle adevinharia no seu rosto, e iria buscar nessa
mesma noite, nesse mesmo instante.
Assim o amor se transformava tão completamente nessas organisações,
que apresentava tres sentimentos bem distinctos; um era uma loucura, o
outro uma paixão, o ultimo uma religião.
Loredano desejava; Alvaro amava: Pery adorava. O aventureiro daria a
vida para gozar: o cavalheiro arrostaria a morte para merecer um olhar:
o selvagem se mataria, se preciso fosse, só para fazer Cecilia sorrir.
Entretanto nenhum desses tres homens podia tocar a janella da moça, sem
correr um risco eminente; e isto pela posição em que se achava o
quarto de Cecilia.
Embora o alicerce e a parede corressem a uma braça de distancia da
ribanceira, D. Antonio de Mariz para defender esta parte do edificio
tinha feito construir um respaldo que se abaixava da presinta das
janellas até á beira da esplanada: era impossivel pois caminhar sobre
esse plano inclinado, cuja face lisa e polida não offerecia nenhuma
adhesão ao pé mais firme e mais seguro.
Abaixo da janella abria-se a rocha cortada a pique e formava um vallado
profundo, coberto por um docel verde de trepadeiras e cipós que servia
de habitação a todos esses reptis de mil fórmas que pullulão na
sombra e na humidade.
Assim o homem que se precipitasse do alto da esplanada nessa fenda larga
e funda, se por um milagre não se espedaçasse nas pontas da rocha,
seria devorado em um momento pelas cobras e insectos venenosos que
enchião essas grotas e alcantis.
Havia alguns instantes que a cortina da janella se tinha cerrado; apenas
uma luz vaga e mortiça desenhava na folhagem verde-negra do oleo o
quadro da janella.
O italiano que tinha os olhos fitos nesse reflexo como em um espelho,
onde revia todas as imagens de sua louca paixão, estremeceu de repente.
Na claridade debuxava-se uma sombra mobil; um homem se aproximava da
janella.
Pallido, com os olhos ardentes e os dentes cerrados, pendido sobre o
precipicio seguia as menores evoluções da sombra.
Vio um braço que se estendia para a janella, e a mão que deixava no
parapeito um objecto qualquer, mas tão pequeno que não se percebia a
forma. Pela manga larga do gibão, ou antes pelo instincto, o italiano
adevinhou que este braço pertencia a Alvaro; e comprehendeu o que esta
mão havia deitado na janella.
E não se enganava.
Alvaro, segurando-se a uma estaca do jardim e pondo um pé sobre o
respaldo, coseu o corpo á parede; inclinando conseguio realisar o seu
intento.
Depois voltou partilhado entre o tempo da acção que praticára, e a
esperança de que Cecilia lhe perdoaria.
Loredano apenas viu desapparecer a sombra, e ouvio os echos dos passos
do moço, que se repercutião surdamente no fundo do precipicio, sorrio.
Sua pupilla fulva brilhou na treva, como os olhos da hirára.
Tirou a sua adaga e cravou-a na parede tão longe quanto lhe permittio a
curva que o braço era obrigado a fazer para abarcar o angulo.
Suspendendo-se então a este fraco apoio pôde galgar o respaldo e
aproximar-se da janella; á menor indecisão, ao menor movimento,
bastava que o pé lhe faltasse, ou que o punhal vacillasse no cimento
para precipitar-se com a cabeça sobre as pedras.
Emquanto isto se passava, Pery sentado tranquillamente no galho do oleo,
e escondido pela folhagem, assistia immovel a toda esta scena.
Logo que Cecilia cerrou as cortinas da janella, o indio vira os dous
homens que collocados á direita e á esquerda parecião esperar.
Esperou tambem, curioso de saber o que se ia passar; mas resolvido se
fosse preciso a lançar-se de um pulo sobre aquelle que ousasse fazer a
menor violencia, e a cahirem ambos do alto da esplanada. Tinha
reconhecido Alvaro e Loredano; desde muito tempo que conhecia o amor do
cavalheiro por Cecilia; mas sobre o italiano nunca tivera a menor
suspeita.
O que podião querer estes dous homens? Que vinhão elles fazer alli
naquella hora silenciosa da noite?
O movimento de Alvaro explicou-lhe parte do enigma; o de Loredano ia
fazer-lhe comprehender o resto.
Com effeito, o Italiano que se aproximára da janella conseguio com um
esforço fazer cahir o objecto que Alvaro ahi tinha deixado no fundo do
precipicio. Feito isto voltou do mesmo modo, e retirou-se saboreando o
prazer dessa vingança simples; mas cujo alcance elle previa.
Pery não se moveu.
Tinha comprehendido com a sua sagacidade natural o amor de um e o ciume
do outro; e formulou na sua intelligencia selvagem e na sua adoração
fanatica um pensamento, que para elle era muito simples.
Si Cecilia julgasse que isto devia ser assim, pouco lhe importava o
mais; porém, se o que tinha visto lhe causasse uma sombra de tristeza,
e empanasse um momento o brilho de seus olhos azues, então era
differente. O indio sacrificaria tudo, antes do que consentir que um
pezar annuviasse o rostinho faceiro de sua bella senhora.
Assim tranquillisado por esta idéa, ganhou a cabana e dormio sonhando
que a lua lhe mandava um raio de sua luz branca e assetinada para
dizer-lhe que protegesse sua filha na terra.
E com effeito, a lua se elevava sobre a cupola das arvores, e illuminava
a fachada do edificio.
Então quem se aproximasse de uma das janellas que ficavão na extrema
do jardim, veria na penumbra do portal um vulto immovel.
Era Isabel que vellava pensativa, enxugando de vez em quando uma lagrima
que desfiava-lhe pela face.
Pensava no seu amor infeliz, na solidão de sua alma, tão erma de
recordações doces, de esperanças queridas. Toda essa tarde fôra um
martyrio para ella; vira Alvaro fallar a Cecilia, adevinhára quasi as
suas palavras. Á poucos momentos tinha percebido a sombra do moço que
atravessara a esplanada, e sabia que não era por sua causa que elle
passava.
De vez em quando seus labios tremião e deixavão escaparem-se algumas
palavras imperceptiveis:
--Si eu quizesse!
Tirava do seio uma redoma de ouro, sob cuja tampa de crystal se via um
annel de cabellos que se enroscava no estreito aro de metal.
O que havia dentro desta redoma, de tão poderoso, de tão forte, que
justificasses aquella exclamação, e o olhar brilhante que illuminava a
pupilla negra de Isabel?
Seria um segredo, um desses segredos terriveis que mudão de repente a
face das causas, e fazem surgir o passado para esmagar o presente?
Seria algum thesouro inestimavel e fabuloso, á cuja seducção a
natureza humana não devia resistir?
Seria uma arma poderosa e invencivel, contra a qual não houvesse defeza
possivel senão em um milagre da Providencia.
Era o pó subtil do _curari_, o veneno terrivel dos selvagens.
Isabel collou os labios no crystal com uma especie de delirio.
--Minha mãi?... minha mãi!...
Um soluço rompeu-lhe o seio.
X
AO ALVORECER
No dia seguinte, ao raiar da manhã, Cecilia abrio a portinha do jardim
e aproximou-se da cerca.
--Pery! disse ella.
O indio appareceu á entrada da cabana; correu alegre, mas timido e
submisso.
Cecilia sentou-se n'um banco de relva; e a muito custo conseguio tomar
um arzinho de severidade, que de vez em quando quasi trahia-se por um
sorriso teimoso que lhe queria fugir dos labios.
Fitou um momento no indio os seus grandes olhos azues com uma expressão
de doce reprehensão; depois disse-lhe em um tom mais de queixa do que
de rigor:
--Estou muito zangada com Pery!
O semblante do selvagem annuviou-se.
--Tu, senhora, zangada com Pery! Porque?
--Porque Pery é máo e ingrato; em vez de ficar perto de sua senhora,
vai caçar em risco de morrer! disse a moça resentida.
--Cecy desejou ver uma onça viva!
--Então não posso gracejar? Basta que eu deseje uma cousa para que tu
corras atraz della como um louco?
--Quando Cecy acha bonita uma flôr, Pery não vai buscar? perguntou o
indio.
--Vai, sim.
--Quando Cecy ouve cantar o soffrer, Pery não o vai procurar?
--Que tem isso?
--Pois Cecy desejou ver uma onça, Pery a foi buscar.
Cecilia não pôde reprimir um sorriso ouvindo esse sillogismo rude, a
que a linguagem singela e concisa do indio dava uma certa poesia e
originalidade.
Mas estava resolvida a conservar a sua severidade, e ralhar com Pery por
causa do susto que lhe havia feito na vespera.
--Isto não é razão, continuou ella; por ventura um animal feroz é a
mesma cousa que um passaro, e apanha-se como uma flôr?
--Tudo é o mesmo, desde que te causa prazer, senhora.
--Mas então, exclamou a menina com um assomo de impaciencia, se eu te
pedisse aquella nuvem?...
E apontou para os brancos vapores que passavão ainda envolvidos nas
sombras pallidas da noite.
--Pery ia buscar.
--A nuvem? perguntou a moça admirada.
--Sim a nuvem.
Cecilia pensou que o indio tinha perdido a cabeça; elle continuou:
Sómente como a nuvem não é da terra e homem não pode toca-la, Pery
morria e ia pedir ao Senhor do céo a nuvem para dar a Cecy.
Estas palavras forão ditas com a simplicidade com que falla o
coração.