Cecilia ficou um momento com a cabeça baixa, quasi triste; nesta

posição, a vista cahio sobre o veado, que fitava nella a sua pupilla

negra com toda a languidez e suavidade, que a natureza puzera em seus

olhos.

A moça estendeu a mão, e deo com a ponta dos dedos um estalinho, que

fez o lindo animal saltar de alegria e vir pousar a cabeça no seu

regaço.

--Tu não abandonarás tua senhora, não é? disse ella passando a mão

sobre o seu pello assetinado.

--Não faças caso, Cecilia, replicou Isabel reparando na melancolia da

moça; pedirás a meu tio para caçar-te outro que farás domesticar, e

ficará mais manso do que o teu Pery.

--Prima, disse a moça com um ligeiro tom de reprehensão, tratas muito

injustamente esse pobre indio que não te fez mal algum.

--Ora, Cecilia, como queres que se trate um selvagem que tem a pelle

escura e o sangue vermelho? Tua mãi não diz que um indio é um animal

como um cavallo, ou um cão?

Estas ultimas palavras forão ditas com uma ironia amarga, que a filha

de Antonio Mariz comprehendeu perfeitamente.

--Isabel!... exclamou ella resentida.

--Sei que tu não pensas assim, Cecilia; e que o teu bom coração não

olha a côr do rosto para conhecer a alma. Mas os outros?... Cuidas que

não percebo o desdem com que me tratão?

--Já te disse por vezes que é uma desconfiança tua; todos te querem,

e te respeitão como devem.

Isabel abanou tristemente a cabeça.

--Vai-te bem o consolar-me; mas tu mesmas tens visto, si eu tenho

razão.

--Ora, um momento de zanga de minha mãi...

--É um momento bem longo, Cecilia! respondeo a moça com um sorriso

amargo.

--Mas escuta, disse Cecilia passando o braço pela cintura de sua prima

e chamando-a a si, tu bem sabes que minha mãi é uma senhora muito

severa mesmo para comigo.

--Não te cances, prima; isto só serve para provar-me ainda mais o que

já te confessei: nesta casa só tu me amas, os mais me desprezão.

--Pois bem, replicou Cecilia, eu te amarei por todos; não te pedi já

que me tratasses como irmã?

--Sim! e isto me causou um prazer, que tu não imaginas. Si eu fosse tua

irmã!...

--E porque não has de se-lo? Quero que o sejas!

--Para ti, que para elle...

Este _elle_ foi murmurado dentro d'alma.

--Mas olha que exijo uma cousa.

--O que é? perguntou Isabel.

--É que eu serei a irmã mais velha.

--Apezar de seres mais moça?...

--Não importa! Como irmã mais velha, tu me deves obedecer?

--De certo, respondeu a prima sem poder deixar de sorrir.

--Pois bem! exclamou Cecilia beijando-a na face, não te quero ver

triste, ouviste? Senão fico zangada.

--E tu não estavas triste ha pouco?

--Oh! já passou! disse a moça saltando ligeiramente da rede.

Com effeito, aquella doce languidez com que se embalançava ha pouco,

scismando em mil cousas, tinha desapparecido completamente: seu genio de

menina alegre e feiticeira havia cedido um momento ao enlevo, mas

voltava de novo.

Era agora como sempre uma moça risonha e faceira, respirando toda a

graciosa gentileza, misturada de innocencia e estouvamento, que dão o

ar livre e a vida passada no campo.

Erguendo-se, apinhou em botão de rosa os labios vermelhos e imitou com

uma graça encantadora os arrulhos doces da jurity; immediatamente a

rola saltou dos galhos da acacia, e veio aninhar-se no seu seio,

estremecendo de prazer ao contacto da mãozinha que alisava a sua

penugem macia.

--Vamos dormir, disse ella á rola com a garridice com que as mãis

fallão aos filhinhos recem-nascidos: a rolinha está com somno, não

é?

E deixando sua prima um momento só no jardim, foi agasalhar os seus

dous companheiros de solidão, com tanto carinho e sollicitude que bem

revelava a riqueza de sentimento que havia no fundo desse coração,

envolta pela graça infantil de seu espirito.

Nesta occasião ouvio-se um tropel de animaes perto da casa; Isabel

lançou os olhos sobre as margens do rio, e vio uma banda de cavalleiros

que entravão a cerca.

Soltou um grito de surpreza, de alegria e susto ao mesmo tempo.

--Que é? perguntou Cecilia correndo para sua prima.

--São elles que chegão.

Elles quem?

--O Sr. Alvaro e os outros.

--Ah!... exclamou a moça corando.

--Não achas que voltarão muito depressa? perguntou Isabel sem reparar

na perturbação de sua prima.

--Muito; quem sabe se houve alguma cousa!

--Dezenove dias apenas... disse Isabel maquinalmente.

--Contaste os dias?

--É facil! respondeo a moça corando por sua vez; depois de amanhã

fazem tres semanas.

--Vamos a ver que lindas cousas elles nos trazem!

--Nos trazem? repetio Isabel carregando sobre a palavra com um tom de

melancolia.

--Nos trazem, sim; porque eu encommendei um fio de perolas para ti.

Devem ir-te bem as perolas, com tuas faces côr de jambo! Sabes que eu

tenho inveja do teu moreninho, prima?

--E eu daria a minha vida para ter a tua alvura, Cecilia.

--Ai! o sol está quasi a se pôr! vamos.

E as duas moças tomárão pelo interior da casa, dirigindo-se ao lado

da entrada.

VI

A VOLTA

Ao mesmo tempo que esta scena se passava no jardim, dous homens

passeavão do outro lado da esplanada, na sombra que projectava o

edificio.

Um delles, de alto porte, conhecia-se immediatamente que era um fidalgo

pela altivez do gesto e pelo trajo de cavalheiro.

Vestia um gibão do velludo preto com alamares de seda côr de café no

peito e nas aberturas das mangas; os calções do mesmo estofo, e tambem

pretos, cahião sobre as botas longas de couro branco com esporas de

ouro.

Uma simples preguilha de linho alvissimo cercava o talho do seu gibão,

e deixava a descoberto o pescoço, que sustentava com graça uma bella e

nobre cabeça de velho.

De seu chapéo de feltro pardo sem pluma escapavão-se os anneis de

cabellos brancos, que cahião sobre os hombros; atravez da longa barba

alva como a espuma da cascata, brilhavão suas faces rosadas, sua bocca

ainda expressiva, e seus olhos pequenos mas vivos.

Este fidalgo era D. Antonio de Mariz que, apezar dos seus sessenta

annos, mostrava um vigor devido talvez á vida activa; trazia ainda o

porte direito, e tinha o passo firme e seguro como se estivesse na

força da idade.

O outro velho, que caminhava a seu lado com o chapéo na mão, era Ayres

Gomes, seu escudeiro e antigo companheiro de sua vida aventureira; o

fidalgo depositava a maior confiança na sua discrição e zelo.

A physionomia deste homem tinha, quer pela sagacidade inquieta que era a

sua expressão ordinaria, quer pelos seus traços allongados, uma certa

semelhança com o focinho da raposa, semelhança que era ainda mais

augmentada pelo seu trajo bizarro. Trazia sobre o gibão de belbutina

côr de pinhão uma especie de vestia do pello daquelle animal, do qual

erão tambem as botas compridas, que lhe servião quasi de calções.

--Em que o negues, Ayres Gomes, dizia o fidalgo ao seu escudeiro,

medindo a passos lentos o terreno; estou certo que és do meu parecer.

--Não digo de todo que não, Sr. cavalheiro; confesso que D. Diogo

commetteo uma imprudencia matando essa india.

--Dize uma barbaria, uma loucura!... Não penses que com ser meu filho,

o desculpo!

--Julgais com demasiada severidade.

--E o devo, porque um fidalgo que mata uma creatura fraca e inoffensiva,

commette uma acção baixa e indigna. Durante trinta annos que me

acompanhas, sabes como trato os meus inimigos; pois bem, a minha espada,

que tem abatido tantos homens na guerra, cahir-me-ia da mão se, n'um

momento de desvario, a erguesse contra uma mulher.

--Mas é preciso ver que casta de mulher é esta, uma selvagem...

--Sei o que queres dizer; não partilho essas idéas que vogão entre os

meus companheiros; para mim, os indios quando nos atacão, são inimigos

que devemos combater, quando nos respeitão são vassallos de uma terra

que conquistamos, mas são homens!

--Vosso filho não pensa assim, e bem sabeis que os principios que lhe

deo a Sra. D. Lauriana.

--Minha mulher! . . . replicou o fidalgo com algum azedume. Mas não é

disto que discorriamos.

--Sim; fallaveis dos receios que vos inspirava a imprudencia de D.

Diogo.

--E que pensas tu?

--Já vos disse que não vejo as cousas tão negras como vós, Sr. D.

Antonio. Os indios vos respeitão, vos temem, e não se animarão a

atacar-vos.

--Digo-te que te enganas, ou antes que procuras enganar-me.

--Não sou capaz de tal, Sr. cavalheiro!

--Conheces tão bem como eu, Ayres, o caracter desses selvagens; sabes

que a sua paixão dominante é a vingança, e que por ella sacrificão

tudo, a vida e a liberdade.

--Não desconheço isto, respondeo o escudeiro.

--Elles me temem, dizes tu; mas desde o momento em que se julgarem

offendidos por mim soffrerão tudo para vingar-se.

--Tendes mais experiencia do que eu, Sr. cavalheiro; mas queira Deus que

vos enganeis.

Voltando-se na beira da esplanada para continuarem o seu passeio, D.

Antonio de Mariz e o seu escudeiro virão um moço cavalleíro que

atravessava pela frente da casa.

--Deixa-me, disse o fidalgo a Ayres Gomes; e pensa no que te disse; em

todo o caso que estejamos preparados para recebe-los.

--Se vierem! retrucou o teimoso escudeiro afastando-se.

D. Antonio dirigio-se lentamente para o moço fidalgo que se havia

sentado a alguns passos.

Vendo aproximar-se seu pai, D. Diogo de Mariz ergueu-se e descobrindo-se

esperou-o n'uma attitude respeitosa.

--Sr. cavalheiro, disse o velho com um ar severo, infringistes hontem as

ordens que vos dei.

--Senhor...

--Apezar das minhas recommendações expressas, offendestes um desses

selvagens, e excitastes contra nós a sua vingança. Pozestes em risco a

vida de vosso pai, de vossa mãi e de homens dedicados. Deveis estar

satisfeito de vossa obra.

--Meu pai!...

--Commettestes uma acção má assassinando uma mulher, uma acção

indigna do nome que vos dei; isto mostra que ainda não sabeis fazer uso

da espada que trazeis á cinta.

--Não mereço esta injuria, senhor! Castigai-me, mas não rebaixeis

vosso filho.

--Não é vosso pai que vos rebaixa, Sr. cavalheiro, e sim a acção que

praticastes. Não vos quero envergonhar, tirando essa arma que vos dei

para combater pelo vosso rei; mas como ainda não vos sabeis servir

d'ella, prohibo-vos que a tireis da bainha ainda que seja para defender

a vossa vida.

D. Diogo inclinou-se em signal de obediencia.

--Partireis brevemente, apenas chegar a expedição do Rio de Janeiro; e

ireis pedir a Diogo Botelho que vos dê serviços nas descobertas. Sois

portuguez, e deveis guardar fidelidade ao vosso rei legitimo; mas

combatereis como fidalgo e christão em prol da religião, conquistando

ao gentio esta terra que um dia voltará ao dominio de Portugal livre.

--Cumprirei as vossas ordens, meu pai.

--Daqui até então, continuou o velho fidalgo, não arredareis pé

desta casa sem minha ordem. Ide, Sr. cavalheiro; lembrai-vos que tenho

sessenta annos, e que vossa mãi e vossa irmã breve carecerão de um

braço valente para defende-las, e de um conselho avisado para

protege-las.

O moço sentio as lagrimas borbulharem nos olhos; mas não balbuciou uma

palavra; curvou-se e beijou respeitosamente a mão de seu pai.

D. Antonio de Mariz, depois de olha-lo um momento com uma severidade sob

a qual transparecião os assomos do amor de pai, voltou pelo mesmo

caminho e ia continuar o seu passeio quando sua mulher appareceu no

soleira da porta.

D. Lauriana era uma senhora de cincoenta e cinco annos; magra, mas forte

e conservada como seu marido; tinha ainda os cabellos pretos matizados

por alguns fios brancos que escondia o seu alto penteado, coroado por um

desses antigos pentes tão largos que cingião toda a cabeça, e

fingião uma especie de diadema.

Seu vestido de lapim côr de fumo de cintura comprida, um pouco curto na

frente, tinha uma cauda respeitavel, que ella arrastava com um certo

donaire de fidalga, resto de sua belleza, ha muito perdida. Longas

arrecadas de ouro com pingentes de esmeralda, que lhe roçavão quasi os

hombros, e um collar com uma cruz de ouro ao pescoço, erão todos os

seus ornatos.

Quanto ao moral, já dissemos que era uma mistura de fidalguia e

devoção; o espirito de nobreza que em D. Antonio de Mariz era um

realce, nella tornava-se uma ridicula exageração.

No ermo em que se achava, em lugar de procurar desvanecer um pouco a

distincção social que podia haver entre ella e os homens no meio dos

quaes vivia, ao contrario, aproveitava o facto de ser a unica dama

fidalga daquelle lugar, para esmagar os outros com a sua superioridade,

e reinar do alto de sua cadeira de espaldar, que para ella era quasi um

throno.

Em religião o mesmo succedia; e um dos maiores desgostos que ella

sentia na sua existencia, era não se ver cercada de todo esse apparato

do culto, que D. Antonio, como os homens de uma fé robusta e de um

espirito direito, tinha sabido substituir perfeitamente.

Apezar desta differença de caracteres, D. Antonio de Mariz, ou por

concessões ou por severidade, vivia em perfeita harmonia com sua

mulher; procurava satisfaze-la em tudo, e quando não era possivel,

exprimia a sua vontade de um certo modo, que a dama conhecia

immediatamente que era escusado insistir.

Só em um ponto a sua firmeza tinha sido baldada; e fôra em vencer a

repugnancia que D. Lauriana tinha por sua sobrinha; mas como o velho

fidalgo sentia talvez doer-lhe a consciência nesse objecto, deixou sua

mulher livre de proceder como lhe parecesse, e respeitou os seus

sentimentos.

--Fallaveis a D. Diogo com um ar tão severo! disse D. Lauriana descendo

os degráos da porta, e vindo ao encontro de seu marido.

--Dava-lhe uma ordem, e um castigo que elle mereceu, respondeo o

fidalgo.

--Tratais esse filho sempre com excessivo rigor, Sr. D. Antonio!

--E vós com extrema benevolencia, D. Lauriana. Assim como não quero

que o vosso amor o perca, vejo-me obrigado a privar-vos da sua

companhia.

--Jesus! Que dizeis, Sr. D. Antonio?

--D. Diogo partirá nesses dias para a cidade de S. Salvador, onde vai

viver como fidalgo, servindo a causa da religião e não perdendo o

tempo em extravagancias.

--Vós não fareis isto, Sr. Mariz, exclamou sua mulher; desterrar vosso

filho da casa paterna!

--Quem vos falla em desterro, senhora? Quereis que D. Diogo passe toda a

sua vida agarrado ao vosso avental e á vossa roca?

--Mas, senhor; eu sou mãi, e não posso viver assim longe de meu filho,

cheia de inquietações pela sua sorte.

--Entretanto, assim ha de ser, porque assim o decidi.

--Sois cruel, senhor.

--Sou justo apenas.

Foi nesta occasião que se ouvio o tropel de animaes, e que Isabel

distinguio a banda de cavalleiros que se aproximava da casa.

--Oh! exclamou D. Antonio de Mariz; eis Alvaro de Sá.

O moço que já conhecemos, o italiano e seus companheiros apeárão-se,

subirão a ladeira que conduzia á esplanada, e aproximárão-se do

cavalheiro e de sua mulher, a quem cortejárão respeitosamente.

O velho fidalgo estendeu a mão a Alvaro de Sá; e respondeo á

saudação dos outros com uma certa amabilidade. Quanto a D. Lauriana, a

inclinação da cabeça foi tão imperceptivel, que seus olhos nem se

abaixarão sobre o rosto dos aventureiros.

Depois de trocada essa saudação, o Fidalgo fez um signal a Alvaro, e

os dous se separárão, e forão conversar a um canto do terreiro,

sentados sobre dous grossos troncos de arvore lavrados toscamente, que

servião de bancos.

D. Antonio desejava saber noticias do Rio de Janeiro e de Portugal, onde

se havião perdido todas as esperanças de uma restauração que só

teve lugar quarenta annos depois com a acclamação do duque de

Bragança.

O resto dos aventureiros ganhou o outro lado da esplanada e foi

misturar-se cornos seus companheiros que sahião ao seu encontro.

Ahi forão recebidos por um tiroteio de perguntas, de risadas e ditos

chistosos, em que tomarão parte; depois, uns, curiosos de novidades,

outros, avidos de contar o que virão, começárão a fallar ao mesmo

tempo, de modo que ninguem se entendia.

Nesse instante, as duas moças apparecêrão na porta: Isabel parou

tremula e confusa; Cecilia descendo ligeiramente os degráos, correu

para sua mãi.

Em quanto ella atravessava o espaço que a separava de D. Lauriana,

Alvaro tendo obtido a permissão do fidalgo adiantou-se e com o chapéo

na mão foi inclinar-se corando diante da moça.

--Eis-vos de volta, Sr. Alvaro! disse Cecilia com um certo repente, para

disfarçar o enleio que tambem sentia: depressa tornastes!

--Menos do que desejava, respondeo o moço balbuciando; quando o

pensamento fica, o corpo tem pressa de voltar-se.

Cecilia corou, e fugio para junto de sua mãi.

Durante que esta breve scena se passava no meio da esplanada, tres

olhares bem differentes accompanhavão, e partindo de pontos diversos

cruzavão-se sobre essas duas cabeças que brilhavão de belleza e

mocidade.

D. Antonio de Mariz, sentado a alguma distancia, considerava aquelle

lindo par, e um sorriso intimo de felicidade expandia o seu rosto

veneravel.

Ao longe, Loredano, um pouco retirado dos grupos dos seus companheiros,

cravava nos moços um olhar ardente, duro, incisivo; emquanto as narinas

dilatadas aspiravão o ar com a delicia da fera que fareja a victima.

Isabel, a pobre menina, fitava sobre Alvaro os seus grandes olhos

negros, cheios de amargura e de tristeza; sua alma parecia coar-se

naquelle raio luminoso e ir curvar-se aos pés do moço.

Nem uma das testemunhas mudas desta scena percebeo o que se passava

além do ponto para onde convergião os seus olhares; á excepção do

Italiano que vio o sorriso de D. Antonio de Mariz e o comprehendeo.

Em quanto isto succedia, D. Diogo que se havia retirado, voltou a saudar

Alvaro, e seus companheiros recem-chegados: o moço tinha ainda no rosto

a expressão de tristeza que lhe havião deixado as palavras severas de

seu pai.

VII

A PRECE

A tarde ia morrendo.

O sol declinava no horizonte e deitava-se sobre as grandes florestas,

que illuminava com os seus ultimos raios.

A luz frouxa e suave do occaso, deslisando pela verde alcatifa,

enrolava-se como ondas de ouro e de purpura sobre a folhagem das

arvores.

Os espinheiros silvestres desatavão as flores alvas e delicadas; e o

ouricory abria as suas palmas mais novas, para receber no seu calice o

orvalho da noite. Os animaes retardados procuravão a pousada; emquanto

a jurity, chamando a companheira, soltava os arrulhos doces e saudosos

com que se despede do dia.

Um concerto de notas graves saudava o pôr do sol, e confundia-se com o

rumor da cascata, que parecia quebrara aspereza de sua quéda, e ceder

á doce influencia da tarde.

Era Ave-Maria.

Como é solemne e grave no meio das nossas mattas a hora mysteriosa do

crepusculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Creador para

murmurar a prece da noite!

Essas grandes sombras das arvores que se estendem pela planicie; essas

gradações infinitas da luz pelas quebradas da montanha; esses raios

perdidos, que, esvasando-se pelo rendado da folhagem, vão brincar um

momento sobre a arêa; tudo respira uma poesia immensa que enche a alma.

O urutão no fundo da matta sólta as suas notas graves e sonoras, que,

reboando pelas longas crastas de verdura, vão echoar ao longe como o

toque lento e pausado do _angelus_.

A brisa, roçando as grimpas da floresta, traz um debil susurro, que

parece o ultimo echo dos rumores do dia, ou o derradeiro suspiro da

tarde que morre.

Todas as pessoas reunidas na esplanada sentião mais ou menos a

impressão poderosa desta hora solemne, e cedião involuntariamente a

esse sentimento vago, que não é bem tristeza, mas respeito misturado

de um certo temor.

De repente, os sons melancolicos de um clarim prolongárão-se pelo ar

quebrando o concerto da tarde; era um dos aventureiros que tocava

Ave-Maria.

Todos se descobrirão.

D. Antonio de Mariz, adiantando-se até á beira da esplanada para o

lado do occaso, tirou o chapéo e ajoelhou.

Ao redor delle vierão grupar-se sua mulher, as duas moças, Alvaro e D.

Diogo; os aventureiros, formando um grande arco de circulo,

ajoelharáo-se a alguns passos de distancia.

O sol com o seu ultimo reflexo esclarecia a barba e os cabellos brancos

do velho fidalgo, e realçava a belleza daquelle busto de antigo

cavalheiro.

Era uma scena ao mesmo tempo simples e magestosa a que apresentava essa

prece meio christã, meio selvagem; em todos aquelles rostos,

illuminados pelos raios de occaso, respirava um santo respeito.

Loredano foi o unico que conservou o seu sorriso desdenhoso, e seguia

como mesmo olhar torvo os menores movimentos de Alvaro, ajoelhado perto

de Cecilia e embebido em contempla-la, como se ella fosse a divindade a

quem dirigia a sua prece.

Durante o momento em que o rei da luz, suspenso no horizonte, lançava

ainda um olhar sobre a terra, todos se concentra vão em um fundo

recolhimento, e dizião uma oração muda, que apenas agitava

imperceptivelmente os labios.

Por fim o sol escondeu-se; Ayres Gomes estendeu o mosquete sobre o

precipio, e um tiro saudou o occaso.

Era noite.

Todos se erguêrão; os aventureiros cortejárão e forão-se retirando

a pouco e pouco.

Cecilia offereceu a fronte ao beijo de seu pai e de sua mãi, e fez uma

graciosa mesura a seu irmão e a Alvaro.

Isabel tocou com os labios a mão de seu tio, e curvou-se em face de D.

Lauriana para receber uma benção lançada com a dignidade e altivez de

um abbade.

Depois, a familia chegando-se para junto da porta, dispoz-se a passar um

desses curtos serões que outr'ora precedião á simples mas succulenta

ceia.

Alvaro, em attenção a ser o seu primeiro dia de chegada, fôra

emprazado pelo velho fidalgo para tomar parte nessa collação da

familia, o que havia recebido como um favor immenso.

O que explicava esse apreço e grande valor dado por elle a um tão

simples convite, era o regimen caseiro que D. Lauriana havia

estabelecido na sua habitação.

Os aventureiros e seus chefes vivião n'um lado da casa inteiramente

separados da familia; durante o dia corrião os mattos e occupavão-se

com a caça ou com diversos trabalhos de cordoagem e marcenaria.

Era unicamente na hora da prece que se reunião um momento na esplanada,

onde, quando o tempo estava bom, as damas vinhão tambem fazer a sua

oração da tarde.

Quanto á familia, esta conservava-se sempre retirada no interior da

casa durante a semana: o domingo era consagrado ao repouso, á

distracção e á alegria; então dava-se ás vezes um acontecimento

extraordinario como um passeio, uma caçada, ou uma volta em canoa pelo

rio.

Já se vê pois a razão por que Alvaro tinha tantos desejos, como dizia

o italiano, de chegar ao _Paquequer_ em um sabbado, e antes das seis

horas; o moço sonhava com a ventura desses curtos instantes de

contemplação e com a liberdade do domingo, que lhe offereceria talvez

occasião de arriscar uma palavra.

Formado o grupo da familia, a conversa travou-se entre D. Antonio de

Mariz, Alvaro e D. Lauriana; Diogo ficara um pouco retirado; as moças,

timidas, escutavão, e quasi nunca se animavão a dizer uma palavra sem

que se dirigissem directamente á ellas, o que rara vez succedia.

Alvaro, desejoso de ouvir a voz doce e argentina de Cecilia, da qual

elle tinha saudade pelo muito tempo que não a escutava, procurou um

pretexto que a chamasse á conversa.

--Esquecia-me contar-vos, Sr. D. Antonio, disse elle aproveitando-se de

uma pausa, um dos incidentes da nossa viagem.

--Qual? Vejamos; respondeo o fidalgo.

--Á cousa de quatro leguas d'aqui, encontrámos Pery.

--Inda bem! disse Cecilia: ha dous dias que não sabemos noticias delle.

--Nada mais simples, replicou o fidalgo; elle corre todo este sertão.

--Sim! tornou Alvaro, mas o modo por que o encontrámos é que não vos

parecerá tão simples.

--O que fazia então?

--Brincava com uma onça como vós com o vosso veadinho, D. Cecilia.

--Meu Deus! exclamou a moça soltando um grito.

--Que tens, menina? perguntou D. Lauriana.

--É que elle deve estar morto á esta hora, minha mãi.

--Não se perde grande cousa, respondeo a senhora.

--Mas eu serei a causa de sua morte!

--Como assim, minha filha? disse D. Antonio.

--Vede-vos, meu pai, respondeo Cecilia enxugando as lagrimas que lhe

saltavão dos olhos; conversava quinta feira com Isabel, que tem grande

medo de onças, e brincando, disse-lhe que desejava vêr uma viva!...

--E Pery a foi buscar para satisfazer o teu desejo; replicou o fidalgo

rindo. Não ha que admirar. Outras tem elle feito.

--Porém, meu pai, isto é cousa que se faça! A onça deve têl-o

morto.

--Não vos assusteis, D. Cecilia; elle saberá defender-se.

--E vós, Sr. Alvaro, porque não o ajudastes a defender-se? disse a

moça sentida.

--Oh! se visseis a raiva com que ficou por queremos atirar sobre o

animal!

E o moço contou parte da scena passada na floresta.

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2) · 第 2 / 13 段