--Pensai o que quizerdes! disse Alvaro levantando os hombros

J. DE ALENCAR

O GUARANY

ROMANCE BRAZILEIRO

QUINTA EDIÇÃO

TOMO PRIMEIRO

RIO DE JANEIRO

B.-L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR

71, RUA DO OUVIDOR, 71

PARIS.--E. MELLIER, 17, RUA SÉGUIER.

Ficão reservados os direitos de propriedade.

1883

AO LEITOR

Publicando este livro em 1857, se disse ser aquella primeira edição

uma prova typographica, que algum dia talvez o autor se dispuzesse a

rever.

Esta nova edição devia dar satisfação do empenho, que a extrema

benevolencia do publico ledor, tão minguado ainda, mudou em bem para

divida de reconhecimento.

Mais do que podia fiou de si o autor. Relendo a obra depois de annos,

achou elle tão mau e incorrecto quando escrevera, que para bem

corrigir, fora mister escrever de novo. Para tanto lhe carece o tempo e

sobra o tedio de um labor ingrato.

Cingio-se pois ás pequenas emendas que toleravão o plano da obra e o

desalinho de um estylo não castigado.

INDICE

PRIMEIRA PARTE

OS AVENTUREIROS

I.--Scenario......................................... 5

II.--Lealdade........................................ 13

III.--A bandeira..................................... 23

IV.--A Luta.......................................... 35

V.--Loura e morena................................... 45

VI.--A Volta......................................... 57

VII.--A prece........................................ 63

VIII.--Tres linhas................................... 81

IX.--Amor............................................ 91

X.--Ao alvorecer..................................... 101

XI.--No banho........................................ 111

XII.--A onça......................................... 121

XIII.--Revelação..................................... 133

XIV.--A india........................................ 145

XV.--Os tres......................................... 157

SEGUNDA PARTE

PERY

I.--O Carmelita...................................... 175

II.--Yara!........................................... 191

III.--Genio do mal................................... 205

IV.--Cecy............................................ 217

V.--Vilania.......................................... 231

VI.--Nobreza......................................... 243

VII.--No precipicio.................................. 257

VIII.--O bracelete................................... 269

IX.--Testamento...................................... 281

X.--Despedida........................................ 293

XI.--Travessura...................................... 305

XII.--As mensagens de Pery........................... 317

XIII.--Trama......................................... 329

XIV.--A chacara...................................... 341

Notas................................................ 353

PRIMEIRA PARTE

OS AVENTUREIROS

I

SCENARIO

De um dos cabeços da _Serra dos Órgãos_ deslisa um fio d'agua que se

dirige para norte, e engrossado com os mananciaes, que recebe no seu

curso de dez leguas, torna-se rio caudal.

É o _Paquequer_: soltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma

serpente, vai depois se espreguiçar na varzea e embeber no Parahyba,

que rola magestosamente em seu vasto leito.

Dir-se-hia que vassallo e tributario desse rei das aguas, o pequeno rio,

altivo e sobranceiro contra os rochedos, curva-se humildemente aos pés

do suzerano. Perde então a belleza selvatica; suas ondas são calmas e

serenas como as de um lago, e não se revoltão contra os barcos e as

canôas que resvalão sobre ellas: escravo submisso, soffre o latego do

senhor.

Não é neste lugar que elle deve ser visto; sim tres ou quatro leguas

acima de sua foz, onde é livre ainda, como o filho indomito desta

patria da liberdade.

Ahi, o _Paquequer_ lança-se rapido sobre o seu leito, e atravessa as

florestas como o tapir, espumando, deixando o pello esparso pelas pontas

de rochedo, e enchendo a solidão com o estampido de sua carreira. De

repente, falta-lhe o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio recúa um

momento para concentrar as suas forças e precipita-se de um só

arremesso, como o tigre sobre a presa.

Depois, fatigado do esforço supremo, se estende sobre a terra, e

adormece n'uma linda bacia que a natureza formou, e onde o recebe como

em um leito de noiva, sob as cortinas de trepadeiras e flores agrestes.

A vegetação nessas paragens ostentava outr'ora todo o seu luxo e

vigor; florestas virgens se estendião ao longo das margens do rio, que

corria no meio das arcarias de verdura e dos capiteis formados pelos

leques das palmeiras.

Tudo era grande e pomposo no scenario que a natureza, sublime artista,

tinha decorado para os dramas magestosos dos elementos, em que o homem

é apenas um simples comparsa.

No anno do graça de 1604, o lugar que acabamos de descrever estava

deserto e inculto; a cidade do Rio de Janeiro tinha-se fundado havia

menos de meio seculo, e a civilisação não tivera tempo de penetrar o

interior.

Entretanto, via-se á margem direita do rio uma casa larga e espaçosa,

construida sobre uma eminencia, e protegida de todos os lados por uma

muralha de rocha cortada a pique.

A esplanada, sobre que estava assentado o edificio, formava um

semicirculo irregular que teria quando muito cincoenta braças

quadradas: do lado do norte havia uma especie de escada de lagedo feita

metade pela natureza e metade pela arte.

Descendo dous ou tres dos largos degráos de pedra da escada,

encontrava-se uma ponte de madeira solidamente construida sobre uma

fenda larga e profunda que se abria na rocha. Continuando a descer,

chegava-se á beira do rio, que se curvava em seio gracioso; sombreado

pelas grandes gameleiras e angelins que crescião ao longo das margens.

Ahi, ainda a industria do homem tinha aproveitado habilmente a natureza

para crear meios de segurança e defeza.

De um e outro lado da escada seguião dous renques de arvores, que,

alargando gradualmente, ião fechar como dous braços o seio do rio;

entre o tronco dessas arvores, uma alta cerca de espinheiros tornava

aquelle pequeno valle impenetravel.

A casa era edificada com a architectura simples e grosseira, que ainda

apresentão as nossas primitivas habitações; tinha cinco janellas de

frente, baixas, largas, quasi quadradas.

Do lado direito estava a porta principal do edificio, que dava sobre um

pateo cercado por uma estacada, coberta de melões agrestes. Do lado

esquerdo estendia-se até á borda da esplanada uma aza do edificio, que

abria duas janellas sobre o desfiladeiro da rocha.

No angulo que esta aza fazia com o resto da casa, havia uma cousa que

chamaremos jardim, e de facto era uma imitação graciosa de toda a

natureza rica, vigorosa e esplendida, que a vista abraçava do alto do

rochedo.

Flores agrestes das nossas mattas, pequenas arvores copadas, um estandal

de relvas, um fio d'agua, fingindo um rio e formando uma pequena cascata

tudo isto a mão do homem tinha creado no peqneno espaço com uma arte e

graça admiravel.

Á primeira vista, olhando esse rochedo da altura de duas braças, donde

se precipitava um arroio da largura de um copo d'agua, e o monte de

gramma, que tinha quando muito o tamanho de um divan, parecia que a

natureza se havia feito menina, e se esmerara em crear por capricho uma

miniatura.

O fundo da casa, inteiramente separado do resto da habitação por uma

cerca, era tomado por dous grandes armazens ou senzalas, que servião de

morada a aventureiros e acostados.

Finalmente, na extrema do pequeno jardim, á beira do precipicio, via-se

uma cabana de sapé, cujos esteios erão duas palmeiras que havião

nascido entre as fendas das pedras. As abas do tecto descião até o

chão: um ligeiro sulco privava as aguas da chuva de entrar nesta

habitação selvagem.

Agora que temos descripto o aspecto da localidade, onde se deve passar a

maior parte dos acontecimentos desta historia, podemos abrir a pesada

porta de jacarandá que serve de entrada, e penetrar no interior do

edificio.

A sala principal, o que chamamos ordinariamente sala da frente,

respirava um certo luxo que parecia impossivel existir nessa época em

um deserto, como era então aquelle sitio.

As paredes e o tecto erão caiados, mas cingidos por um largo florão de

pintura a fresco; nos espaços das janellas pendião dous retratos que

representavão um fidalgo velho e uma dama tambem idosa.

Sobre a porta do centro desenhava-se um brasão d'armas em campo de

cinco vieiras de ouro, riscadas em cruz entre quatro rosas de prata

sobre pallas e faixas. No escudo, formado por uma brica de prata, orlada

de vermelho, via-se um elmo tambem de prata paquife de ouro e de azul, e

por timbre um meio leão de azul com uma vieira de ouro sobre a cabeça.

Um largo reposteiro de damasco vermelho, onde se reproduzia o mesmo

brasão, occultava esta porta, que raras vezes se abria, e dava para um

oratorio. Defronte, entre as duas janellas do meio, havia um pequeno

docel fechado por cortinas brancas com apanhados azues.

Cadeiras de couro de alto espaldar, uma mesa de jacarandá de pés

torneados, uma lampada de praia suspensa ao tecto, constituião a

mobilia da sala, que respirava um ar severo e triste.

Os aposentos interiores erão do mesmo gosto, menos as decorações

heraldicas; na aza do edificio, porém, esse aspecto mudava de repente, e

era substituido por um quer que seja de caprichoso e delicado que

revelava a presença de uma mulher.

Com effeito, nada mais loução do que essa alcova, em que os brocateis

de seda se confundião com as lindas pennas de nossas aves, enlaçadas

em grinaldas e festões pela orla do tecto e pela cupola do cortinado de

um leito collocado sobre um tapete de pelles de animaes selvagens.

A um canto, pendia da parede um crucifixo em alabastro, aos pés do qual

havia um escabello de madeira dourada.

Pouco distante, sobre uma commoda, via-se uma dessas guitarras

hespanholas que os ciganos introduzirão no Brasil quando expulsos de

Portugal, e uma collecção de curiosidades mineraes de côres mimosas e

formas exquisitas.

Junto á janella, havia um traste que á primeira vista não se podia

definir; era uma especie de leito ou sofá de palha matisada de varias

côres e entremeiada de pennas negras e escarlates.

Uma garça real empalada, prestes a desatar o vôo, segurava com o bico

a cortina de tafetá azul que ella abria com a ponta de suas azas

brancas e cahindo sobre a porta, vendava esse ninho da innocencia aos

olhos profanos.

Tudo isto respirava um suave aroma de beijoim, que se tinha impregnado

nos objectos como o seu perfume natural, ou como a atmosphera do paraiso

que uma fada habitava.

II

LEALDADE

A habitação que descrevemos, pertencia a D. Antonio de Mariz, fidalgo

portuguez cota d'armas e um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro.

Era dos cavalheiros que mais se havião distinguido nas guerras da

conquista, contra a invasão dos francezes e os ataques dos selvagens.

Em 1567 acompanhou Mem de Sá ao Rio de Janeiro, e depois da victoria

alcançada pelos portuguezes, auxiliou o governador nos trabalhos da

fundação da cidade e consolidação do dominio de Portugal nessa

capitania.

Fez parte em 1578 da celebre expedição do Dr. Antonio de Salema contra

os francezes, que havião estabelecido uma feitoria en Cabo Frio para

fazerem o contrabando de páo-brasil.

Servio por este mesmo tempo de provedor da real fazenda, e depois da

alfandega do Rio de Janeiro; mostrou sempre nesses empregos o seu zelo

pela republica e a sua dedicação ao rei.

Homem de valor, experimentado na guerra, activo, affeito a combater os

indios, prestou grandes serviços nas descobertas e explorações do

interior de Minas e Espirito Santo. Em recompensa do seu merecimento, o

governador Mem de Sá lhe havia dado uma sesmaria de uma legua com fundo

sobre o sertão, a qual depois de haver explorado, deixou por muito

tempo devoluta.

A derrota de Alcacerquibir, e o dominio hespanhol que se lhe seguio,

vierão modificar a vida de D. Antonio de Mariz.

Portuguez de antiga tempera, fidalgo leal, entendia que estava preso ao

rei de Portugal pelo juramento da nobreza, e que só a elle devia preito

e menagem. Quando pois, em 1582, foi acclamado no Brasil D. Filippe II

como o successor da monarchia portugueza, o velho fidalgo embainhou a

espada e retirou-se do serviço.

Por algum tempo esperou a projectada expedição de D. Pedro da Cunha,

que pretendeo transportar ao Brasil a coroa portugueza, collocada então

sobre a cabeça do seu legitimo herdeiro, D. Antonio, prior do Crato.

Depois, vendo que esta expedição não se realisava, e que seu braço e

sua coragem de nada valião ao rei de Portugal, jurou que ao menos lhe

guardaria fidelidade até a morte. Tomou os seus penates, o seu brasão,

as suas armas, a sua familia, e foi estabelecer-se naquella sesmaria que

lhe concedera Mem de Sá. Ahi, de pé sobre a eminencia em que ia

assentar o seu novo solar, D. Antonio de Mariz erguendo o vulto direito,

e lançando um olhar sobranceiro pelos vastos horizontes que abrião em

torno, exclamou:

--Aqui sou portuguez! Aqui pode respirar á vontade um coração leal,

que nunca desmentio a fé do juramento. Nesta terra que me foi dada pelo

meu rei, e conquistada pelo meu braço, nesta terra livre, tu reinarás,

Portugal, como viverás n'alma de teus filhos. Eu o juro!

Descobrindo-se, curvou o joelho em terra, e estendeo a mão direita

sobre o abysmo, cujos échos adormecidos repetirão ao longe a ultima

phrase do juramento prestado sobre o altar da natureza, em face do sol

que transmontava.

Isto se passara em abril de 1593; no dia seguinte, começárão os

trabalhos da edificação de uma pequena habitação que servia de

residencia provisoria, até que os artesãos vindos do reino

construirão e decorárão a casa que já conhecemos.

D. Antonio tinha ajuntado fortuna durante os primeiros annos de sua vida

aventureira; e não só por capricho de fidalguia, mas em attenção á

sua familia, procurava dar a essa habitação construida no meio de um

sertão, todo o luxo e commodidade possiveis.

Além das expedições que fazia periodicamente á cidade do Rio de

Janeiro, para comprar fazendas e generos de Portugal, que trocava pelos

productos da terra, mandara vir do reino alguns officiaes mecanicos e

hortelãos, que aproveitavão os recursos dessa natureza tão rica, para

proverem os seus habitantes de todo o necessario.

Assim, a casa era um verdadeiro solar de fidalgo portuguez, menos as

ameias e a barbacan, as quaes havião sido substituidas por essa muralha

de rochedos inaccessiveis, que offerecião uma defeza natural e uma

resistencia inexpugnavel.

Na posição em que se achava, isto era necessario por causa das tribus

selvagens, que, embora se retirassem sempre das visinhanças dos lugares

habitados pelos colonos, e se entranhassem pelas florestas, costumavão

comtudo fazer correrias e atacar os brancos á traição.

Em um circulo de uma legua da casa, não havia senão algumas cabanas em

que moravão aventureiros pobres, desejosos de fazer fortuna rapida, e

que tinhão-se animado a se estabelecer neste lugar, em parcerias de dez

e vinte, para mais facilmente praticarem o contrabando do ouro e pedras

preciosas, que ião vender na costa.

Estes, apezar das precauções que tomavão contra os ataques dos

indios, fazendo palissadas e reunindo-se uns aos outros para defeza

commum, em occasião de perigo vinhão sempre abrigar-se na casa de D.

Antonio de Mariz, a qual fazia as vezes de um castello feudal na idade

media.

O fidalgo os recebia como um rico-homem que devia protecção e asylo

aos seus vassallos; soccorria-os em todas as suas necessidades, e era

estimado e respeitado por todos que vinhão, confiados na sua

visinhança, estabelecer-se por esses lugares.

Deste modo, em caso de ataques dos indios, os moradores da casa do

Paquequer não podião contar senão com os seus proprios recursos; e

por isso D. Antonio, como homem pratico e avisado que era, havia-se

premunido para qualquer occurrencia.

Elle mantinha, como todos os capitães de descobertas daquelles tempos

coloniaes, uma banda de aventureiros que lhe servião nas suas

explorações e correrias pelo interior; erão homens ousados,

destemidos, reunindo ao mesmo tempo aos recursos do homem civilisado a

astucia e agilidade do indio de quem havião aprendido; erão uma

especie de guerrilheiros, soldados e selvagens ao mesmo tempo.

D. Antonio de Mariz, que os conhecia, havia estabelecido entre elles uma

disciplina militar rigorosa, mas justa; a sua lei era a vontade do

chefe; o seu dever a obediencia passiva, o seu direito uma parte igual

na metade dos lucros. Nos casos extremos, a decisão era proferida por

um conselho de quatro, presidido pelo chefe; e cumpria-se sem appello,

como sem demora e hesitação.

Pela força da necessidade, pois, o fidalgo se havia constituido senhor

de baraço e cutello, de alta e baixa justiça dentro dos seus dominios;

devemos porém declarar que rara vez se tornara precisa a applicação

dessa lei rigorosa; a severidade tinha apenas o effeito salutar de

conservara ordem, a disciplina e a harmonia.

Quando chegava a epocha da venda dos productos, que era sempre anterior

á sahida da armada de Lisboa, metade da banda dos aventureiros ia á

cidade do Rio de Janeiro, apurava o ganho, fazia a troca dos objectos

necessarios, e na volta prestava suas contas. Uma parte dos lucros

pertencia ao fidalgo, como chefe; a outra era distribuida igualmente

pelos quarenta aventureiros, que a recebião em dinheiro ou em objectos

de consumo.

Assim vivia, quasi nomeio do sertão, desconhecida e ignorada essa

pequena communhão de homens, governando-se com as suas leis, os seus

usos e costumes; unidos entre si pela ambição da riqueza, e ligados ao

seu chefe pelo respeito, pelo habito da obediencia e por essa

superioridade moral que a intelligencia e a coragem exercem sobre as

massas.

Para D. Antonio e para seus companheiros a quem elle havia imposto a sua

fidelidade, esse torrão brazileiro, esse pedaço de sertão, não era

senão um fragmento de Portugal livre, de sua patria primitiva; ahi só

se reconhecia como rei ao duque de Bragança, legitimo herdeiro da

corôa; e quando se corrião as cortinas do docel da sala, as armas que

se vião, erão as cinco quinas portuguezas, diante das quaes todas as

frontes inclinavão.

D. Antonio tinha cumprido o seu juramento de vassallo leal; e, com a

consciência tranquilla por ter feito o seu dever, com a satisfação

que dá ao homem o mando absoluto, ainda mesmo em um deserto, rodeado de

seus companheiros que elle considerava amigos, vivia feliz no seio de

sua pequena familia.

Esta se compunha de quatro pessoas:

Sua mulher, D. Lauriana, dama paulista, imbuida de todos os prejuizos de

fidalguia e de todas os abusões religiosas daquelle tempo; no mais, um

bom coração, um pouco egoista, mas não tanto que não fosse capaz de

um acto de dedicação:

Seu filho, D. Diogo de Mariz, que devia mais tarde proseguir na carreira

de seu pai, e que lhe succedeo em todas as honras e foraes; ainda moço

na flor da idade, gastava o tempo em correrias e caçadas:

Sua filha, D. Cecilia, que tinha dezoito annos, e que era a deusa desse

pequeno mundo que ella illuminava com o seu sorriso, e alegrava com o

seu genio travesso e a sua mimosa faceirice:

D. Isabel, sua sobrinha, que os companheiros de D. Antonio, embora nada

dissessem, suspeitavão ser o fructo dos amores do velho fidalgo por uma

india que havia captivado em uma das suas explorações.

Demorei-me em descrever a scena e fallar de algumas das principaes

personagens deste drama porque assim era preciso para que bem se

comprehendão os acontecimentos que depois se passárão.

Deixarei porém que os outros perfis se desenhem por si mesmos.

III

A BANDEIRA

Era meio dia.

Um troço de cavalleiros, que constaria quando muito de quinze pessoas,

costeava a margem direita do Parahyba.

Estavão todos armados da cabeça até aos pés; além da grande espada

de guerra que batia as ancas do animal, cada um delles trazia á cinta

dous pistoletes, um punhal na ilharga do calção, e o arcabuz passado

a tiracollo pelo hombro esquerdo.

Pouco adiante, dous homens a pé tocavão alguns animaes carregados de

caixas e outros volumes cobertos com uma sarapilheira alcatroada, que os

abrigava da chuva.

Quando os cavalleiros, que seguião a trote largo, vencião a pequena

distancia que os separava da tropa, os dous caminheiros, para não

atrazarem a marcha, montavão na garupa dos animaes e ganhavão de novo

a dianteira.

Naquelle tempo dava-se o nome de _bandeiras_ a essas caravanas de

aventureiros que se entranhavão pelos sertões do Brasil, á busca de

ouro, de brilhantes e esmeraldas, ou á descoberta de rios e terras

ainda desconhecidos. A que nesse momento costeava a margem do Parahyba,

era da mesma natureza; voltava do Rio de Janeiro, onde fora vender os

productos de sua expedição pelos terrenos auriferos.

Uma das occasiões, em que os cavalleiros se aproximarão da tropa que

seguia á alguns passos, um moço de vinte e oito annos, bem parecido, e

que marchava á frente do troço, governando o seu cavallo com muito

garbo e gentileza, quebrou o silencio geral.

--Vamos, rapazes! disse elle alegremente aos caminheiros; um pouco de

diligencia, e chegaremos com cedo. Restão-nos apenas umas quatro

leguas!

Um dos bandeiristas, ao ouvir estas palavras, chegou as esporas á

cavalgadura e avançando algumas braças collocou-se ao lado do moço.

--Ao que parece, tendes pressa de chegar, Sr. Alvaro de Sá? disse elle

com um ligeiro accenio italiano, e um meio sorriso cuja expressão de

ironia era disfarçada por uma benevolencia suspeita.

--De certo, Sr. Loredano; nada é mais natural a quem viaja, do que o

desejo de chegar.

--Não digo o contrario; mas confessareis que nada tambem é mais

natural a quem viaja, do que poupar os seus animaes.

--Que quereis dizer com isto, Sr. Loredano? perguntou Alvaro com um

movimento de enfado.

--Quero dizer, Sr. cavalheiro, respondeo o italiano em tom de mofa e

medindo com os olhos a altura do sol, que chegaremos hoje pouco antes

das seis horas.

Alvaro corou.

--Não vejo em que isto vos causa reparo; á alguma hora haviamos

chegar; e melhor é que seja de dia, do que de noite.

--Assim como melhor é que seja em um sabbado do que em outro qualquer

dia! replicou o italiano no mesmo tom.

Um novo rubor assomou ás faces de Alvaro, que não pôde disfarçar o

seu enleio: mas, recobrando o desembaraço, soltou uma risada, e

respondeo:

--Ora, Deus, Sr. Loredano: estais ahi a fallar-me na ponta dos beiços e

com meias palavras; á fé de cavalheiro que não vos entendo.

--Assim deve ser. Diz a escriptura que não ha peior surdo do que

aquelle que não quer ouvir.

--Oh! temos anexim! Aposto que aprendestes isto agora em S. Sebastião:

foi alguma velha beata, ou algum licenciado em cânones que vol-o

ensinou? disse o cavalheiro gracejando.

--Nem um nem outro, Sr. cavalheiro; foi um fanqueiro da rua dos

Mercadores, que por signal tambem me mostrou custosos brocados e lindas

arrecadas de perolas, bem proprias para o mimo de um gentil cavalheiro

á sua dama.

Alvaro enrubeceo pela terceira vez.

Decididamente o sarcastico italiano, com o seu espirito mordaz, achava

meio de ligar a todas as perguntas do moço uma allusão que o

incommodava; e isto no tom o mais natural do mundo.

Alvaro quiz cortar a conversação neste ponto; mas o seu companheiro

proseguio com extrema amabilidade:

--Não entrastes por acaso na loja desse fanqueiro de que vos fallei,

Sr. cavalheiro?

--Não me lembro; é de crer que não, pois apenas tive tempo de

arranjar os nossos negocios, e nem um me restou para vêr essas

galantarias de damas e fidalgas; disse o moço com frieza.

--É verdade! acudio Loredano com uma ingenuidade simulada; isto me faz

lembrar que só nos demorámos no Rio de Janeiro cinco dias, quando das

outras vezes erão nunca menos de dez e quinze.

--Tive ordem para haver-me com toda a rapidez; e creio, continuou

fitando no italiano um olhar severo, que não devo contas de minhas

acções senão áquelles a quem dei o direito de pedi-las.

--_Per Bacco_, cavalheiro! Tomais as cousas ao revez. Ninguem vos

pergunta por que motivo fazeis aquillo que vos praz: mas tambem achareis

justo que cada um pense á sua maneira.

--Pensai o que quizerdes! disse Alvaro levantando os hombros e

avançando o passo da sua cavalgadura.

A conversa interrompeo-se.

Os dous cavalleiros, um pouco adiantados ao resto do troço, caminhavão

silenciosos uma par do outro.

Alvaro ás vezes enfiava o olhar pelo caminho como para medir a

distancia que ainda tinhão de percorrer, e outras vezes parecia

pensativo e preoccupado.

Nestas occasiões, o italiano lançava sobre elle um olhar á furto,

cheio de malicia e ironia; depois continuava a assobiar entre dentes uma

cansoneta de _condottiere_, de quem elle apresentava o verdadeiro typo.

Um rosto moreno, coberto por uma longa barba negra, entre a qual o

sorriso desdenhoso fazia brilhara alvura de seus dentes; olhos vivos, a

fronte larga, descoberta pelo chapéo desabado que cahia sobre o hombro;

alta estatura, e uma constituição forte, agil e musculosa; erão os

principaes traços deste aventureiro.

A pequena cavalgata tinha deixado a margem do rio, que não offerecia

mais caminho, e tomára por uma estreita picada aberta na matta.

Apezar de ser pouco mais de duas horas, o crepusculo reinava nas

profundas e sombrias abobadas de verdura: a luz, coando entre a espessa

folhagem, se decompunha inteiramente; nem uma restea de sol penetrava

nesse templo da creação, ao qual servião de columnas os troncos

seculares dos acaris e araribás.

O silencio da noite, com os seus rumores vagos e indecisos e os seus

échos amortecidos, dormia no fundo dessa solidão, e era apenas

interrompido um momento pelo passo dos animaes, que fazião estalar as

folhas seccas.

Parecia que devião ser seis horas da tarde, e que o dia cahindo

envolvia a terra nas sombras pardacentas do occaso.

Alvaro de Sá, embora habituado a esta illusão, não pôde deixar de

sobresaltar-se um instante, em que, sahindo da sua meditação, vio-se

de repente nomeio do _claro-escuro_ da floresta.

Involuntariamente ergueo a cabeça para vêr se atravez da cupola de

verdura descobria o sol, ou pelo menos alguma scentelha de luz que lhe

indicasse a hora.

Loredano não pôde reprimir a risada sardonica que lhe veio aos labios.

--Não vos dê cuidado, Sr. cavalheiro, antes de seis horas lá

estaremos; sou eu que vo-lo digo.

O moço voltou-se para o italiano, rugando o sobrolho.

--Sr. Loredano, é a segunda vez que dizeis esta palavra em um tom que

me desagrada; pareceis querer dar a entender alguma cousa, mas falta-vos

o animo de a proferir. Uma vez por todas, fallai abertamente, e Deus vos

guarde de tocar em objectos que são sagrados.

Os olhos do italiano lançárão uma faisca; mas o seu rosto

conservou-se calmo e sereno.

--Bem sabeis que vos devo obediência, Sr. cavalheiro, e não faltarei

della. Desejais que falle claramente; e a mim me parece que nada do que

tenho dito póde ser mais claro do que é.

--Para vós, não duvido; mas isto não é razão de que o seja para

outros.

Ora dizei-me, Sr. cavalheiro, não vos parece claro, á vista do que me

ouvistes, que adevinhei o vosso desejo de chegar o mais depressa

possivel?

--Quanto a isto, já vos confessei eu; não ha pois grande merito em

adevinhar.

--Não vos parece claro tambem que observei haverdes feito esta

expedição com a maior rapidez, de modo que em menos de vinte dias

eis-nos ao cabo della?

--Já vos disse que tive ordem, e creio que nada tendes a oppôr.

--Não de certo; uma ordem é um dever, e um dever cumpre-se com

satisfação, quando o coração nelle se interessa.

--Sr. Loredano! disse o moço levando a mão ao punho da espada e

colhendo as redeas.

O italiano fez que não tinha visto o gesto de ameaça; continou:

--Assim tudo se explica. Recebestes uma ordem? foi de D. Antonio de

Mariz, sem duvida?

--Não sei que nenhum outro tenha direito de dar-me; replicou o moço

com arrogancia.

--Naturalmente por virtude desta ordem, continuou o italiano

cortezmente, partistes do _Paquequer_ em uma segunda feira, quando o dia

designado era um domingo.

--Ah! tambem reparastes nisto? perguntou o moço mordendo os beiços de

despeito.

Reparo em tudo, Sr. cavalheiro; assim, não deixei de observar ainda,

que sempre em virtude da ordem, fizestes tudo para chegar justamente

antes do domingo.

--E não observastes mais nada? perguntou Alvaro com a voz tremula e

fazendo um esforço para conter-se.

--Não me escapou tambem uma pequena circumstancia de que já vos

fallei.

--E qual é ella, se vos praz?

--Oh! não vale a pena repetir: é cousa de somenos.

--Dizei sempre, Sr. Loredano: nada é perdido entre dous homens que se

entendem; replicou Alvaro com um olhar de ameaça.

--Já que o quereis, força é satisfazer-vos. Noto que a ordem de D.

Antonio, e o italiano carregou nesta palavra, manda-vos estar no

_Paquequer_ um pouco antes de seis horas, a tempo de ouvir a prece.

--Tendes um dom admiravel, Sr. Loredano; o que é de lamentar, é que o

empregueis em futilidades.

--Em que quereis que um homem gaste seu tempo neste sertão, senão a

olhar para seus semelhantes, e ver o que elles fazem?

--Com effeito é uma boa distracção.

--Excellente. Vede vós, tenho visto cousas que se passão diante dos

outros, e que ninguem percebe, porque não se quer dar ao trabalho de

olhar como eu; disse o italiano com o seu ar de simplicidade fingida.

--Contai-nos isto, ha de ser curioso.

--Ao contrario, é o mais natural possivel; um moço que apanha uma flor

ou um homem que passeia de noite á luz das estrellas... Póde haver

cousa mais simples?

Alvaro empallideceo desta vez.

--Sabeis uma cousa, Sr. Loredano?

--Saberei, cavalheiro, se me fizerdes a honra de dizer.

--Está me parecendo que a vossa habilidade de observador levou-vos

muito longe, e que fazeis nem mais nem menos do que o officio de

espião.

O aventureiro ergueo a cabeça com um gesto altivo, levando a mão ao

cabo de uma larga adaga que trazia á ilharga: no mesmo instante porém

dominou este movimento, e voltou á bonhomia habitual.

--Quereis gracejar, senhor cavalheiro?...

--Enganais-vos, disse o moço picando o seu cavallo e encostando-se ao

italiano, fallo-vos seriamente; sois um infame espião! Mas juro, por

Deus, que á primeira palavra que proferirdes, esmago-vos a cabeça como

a uma cobra venenosa.

A physionomia de Loredano não se alterou; conservou a mesma

impassibilidade; apenas o seu ar de indifferencia e sarcasmo

desappareceo sob a expressão de energia e maldade que lhe accentuou os

traços vigorosos.

Fitando um olhar duro no cavalheiro, respondeo:

--Visto que tomais a cousa neste tom, Sr. Alvaro de Sá, cumpre que vos

diga que não é a vós que cabe ameaçar; entre nós dous deveis saber

qual é o que tem a temer!...

--Esqueceis a quem fallais? disse o moço com altivez.

--Não, senhor, lembro tudo; lembro que sois meu superior, e tambem,

accrescentou com voz surda, que tenho o vosso segredo.

E parando o animal, o aventureiro deixou Alvaro seguir só na frente, e

misturou-se com os seus companheiros.

A pequena cavalgata continuou a marcha atravez da picada, e aproximou-se

de uma dessas clareiras das mattas virgens, que se assemelhão a grandes

zimborios de verdura.

Neste momento um rugido espantoso fez estremecer a floresta, e encheo a

solidão com os échos estridentes.

Os caminheiros empallidecêrão e olhárão um para o outro; os

cavalleiros engatilhárão os arcabuzes e seguirão lentamente,

lançando um olhar cauteloso pelos ramos das arvores.

IV

A LUTA

Quando a cavalgata chegou á margem da clareira, ahi se passava uma

scena curiosa.

Em pé, no meio do espaço que formava a grande abobada de arvores,

encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um indio na flor

da idade.

Uma simples tunica de algodão a que os indigenas chamavão _aimará_,

apertada á cintura por uma faxa de pennas escarlates, cahia-lhe dos

hombros até ao meio da perna, e desenhava o talhe delgado e esbelto

como um junco selvagem.

Sobre a alvura diaphana do algodão, a sua pelle, côr do cobre,

brilhava com reflexos dourados; os cabellos pretos cortados rentes, a

tez lisa, os olhos grandes com os cantos exteriores erguidos para a

fronte: a pupilla negra, mobil, scintillante; a boca forte mas bem

modelada e guarnecida de dentes alvos, davão ao rosto pouco oval a

belleza inculta da graça, da força e da intelligencia.

Tinha a cabeça cingida por uma fita de couro, á qual se prendião do

lado esquerdo duas plumas matizadas, que descrevendo uma longa espiral,

vinhão roçar com as pontas negras o pescoço flexivel.

Era de alta estatura, tinha as mãos delicadas; a perna agil e nervosa,

ornada com uma axorca de fructos amarellos, apoiava-se sobre um pé

pequeno, mas firme no andar e veloz na corrida. Segurava o arco e as

flexas com a mão direita cahida, e com a esquerda mantinha

verticalmente diante de si um longo forcado de páo ennegrecido pelo

fogo.

Perto delle estava atirada ao chão uma clavina tauxiada, uma pequena

bolsa de couro que devia conter munições, e uma rica faca flamenga,

cujo uso foi depois prohibido em Portugal e no Brasil.

Nesse instante erguia a cabeça e fitava os olhos n'uma sebe de folhas

que se elevava a vinte passos de distancia, e se agitava

imperceptivelmente.

Alli, por entre a folhagem, distinguião-se as ondulações felinas de

um dorso negro, brilhante, marchetado de pardo; ás vezes vião-se

brilhar na sombra dous raios vitreos e pallidos, que semelhavão os

reflexos de alguma crystalisação de rocha, ferida pela luz do sol.

Era uma onça enorme; de garras apoiadas sobre um grosso ramo de arvore,

e pés suspensos no galho superior, encolhia o corpo, preparando o salto

gigantesco.

Batia os flancos com a larga cauda, e movia a cabeça monstruosa, como

procurando uma aberta entre a folhagem para arremessar o pulo: uma

especie de riso sardonico e feroz contrahia-lhe as negras mandibulas, e

mostrava a linha de dentes amarellos; as ventas dilatadas aspiravão

fortemente, e parecião deleitar-se já com o odor do sangue da victima.

O indio, sorrindo e indolentemente encostado ao tronco secco, não

perdia um só desses movimentos, e esperava o inimigo com a calma e

serenidade do homem que contempla uma scena agradavel: apenas a fixidade

do olhar revelava um pensamento de defeza.

Assim, durante um curto instante, a fera e o selvagem medîrão-se

mutuamente, com os olhos nos olhos um do outro; depois o tigre

agachou-se, e ia formar o salto, quando a cavalgata appareceo na entrada

da clareira.

Então o animal, lançando ao redor um olhar injectado de sangue,

eriçou o pello, e ficou immovel no mesmo lugar, hesitando se devia

arriscar o ataque.

O indio que ao movimento da onça acurvára ligeiramente os joelhos e

apertára o forcado, indireitou-se de novo; sem deixar a sua posição,

nem tirar os olhos do animal, vio a banda que parára á sua direita.

Estendeu o braço e fez com a mão um gesto de rei, que rei das

florestas elle era, intimando aos cavalleiros que continuassem a sua

marcha.

Como porém o italiano, com o arcabuz em face procurasse fazer a

pontaria entre as folhas, o indio bateu com o pé no chão em signal de

impaciencia, e exclamou apontando para o tigre, e levando a mão ao

peito:

--É meu!... meu só!

Estas palavras forão ditas em portuguez, com uma pronuncia doce e

sonora, mas em tom de energia e resolução.

O italiano rio.

--Por Deus! Eis um direito original! Não quereis que se offenda a vossa

amiga?... Está bem, dom cacique, continuou lançando o arcabuz a

tiracollo; ella vo-lo agradecerá.

Em resposta a esta ameaça, o indio empurrou desdenhosamente com a ponta

do pé a clavina que estava atirada ao chão, como para exprimir que, se

elle o quitasse, já teria abatido o tigre de um tiro. Os cavalleiros

comprehendêrão o gesto, porque, além da precaução necessaria para o

caso de algum ataque directo, não fizerão a menor demonstração

offensiva.

Tudo isto se passou rapidamente, em um segundo, sem que o indio deixasse

um só instante com os olhos o inimigo.

Á um signal de Alvaro de Sá, os cavalleiros proseguirão a sua marcha,

e entranhárão-se de novo na floresta.

O tigre, que observava os cavalleiros immovel, com o pello eriçado,

não ousára investir nem retirar-se, temendo expor-se aos tiros dos

arcabuzes: mas apenas viu a tropa distanciar-se e sumir-se no fundo da

matta, soltou um novo rugido de alegria e contentamento.

Ouvio-se um rumor de galhos que se espedaçavão como se uma arvore

houvesse tombado na floresta, e o vulto negro da fera passou no ar; d'um

pulo tinha ganho outro tronco, e mettido entre ella e o seu adversario

uma distancia de trinta palmos.

O selvagem comprehendeu immediatamente a razão disto: a onça, com os

seus instinctos carniceiros e a sede voraz de sangue, tinha visto os

cavallos e desdenhava o homem, fraca presa para sacia-la.

Com a mesma rapidez com que formulou este pensamento, tomou na cinta uma

flecha pequena e delgada como um espinho de ouriço, e esticou a corda

do grande arco, que excedia de um terço á sua altura.

Ouvio-se um forte sibilo, que foi acompanhado por um bramido da fera; a

pequena setta despedida pelo indio se cravára na orelha, e uma segunda,

açoutando o ar, ia ferir-lhe a mandibula inferior.

O tigre tinha-se voltado ameaçador e terrivel, aguçando os dentes uns

nos outros, rugindo de furia e vingança: de dous saltos approximou-se

novamente.

Era uma luta de morte a que ia se travar; o indio o sabia, e esperou

tranquillamente, como da primeira vez; a inquietação que sentira um

momento de que a presa lhe escapasse, desapparecera: estava satisfeito.

Assim, estes dous selvagens das mattas do Brasil, cada um com as suas

armas, cada um com a consciencia de sua força e de sua coragem,

consideravão-se mutuamente como uma victima que ia ser immolada.

O tigre desta vez não se demorou; apenas se achou á cousa de quinze

passos do inimigo, retrahio-se com uma força de elasticidade

extraordinaria, e atirou-se como um estilhaço de rocha, cortada pelo

raio.

Foi cahir sobre o indio, apoiado nas largas patas de traz, com o

corpo direito, as garras estendidas para degolar a sua victima, e os

dentes promptos a cortarlhe a jugullar.

A velocidade deste salto monstruoso foi tal que, no mesmo instante em

que se vira brilhar entre as folhas os reflexos negros de sua pelle

azevichada, já a fera tocava o chão com as patas.

Mas tinha em frente um inimigo digno della, pela força e agilidade.

Como a principio, o indio havia dobrado um pouco os joelhos, e segurava

na esquerda a longa forquilha, sua unica defeza; os olhos sempre fixos

magnetisavão o animal. No momento em que o tigre se lançava, curvou-se

ainda mais; e fugindo com o corpo apresentou o gancho. A fera, cahindo

com a força do peso e a ligeireza do pulo, sentio o forcado cerrar-lhe

o collo, e vacillou.

Então, o selvagem, distendeu-se com a flexibilidade da cascavel ao

lançar o bote; fincando os pés e as costas no tronco, arremessou-se e

foi cahir sobre o ventre da onça, que, subjugada, prostrada de costas,

com a cabeça presa ao chão pelo gancho, debatia-se contra o seu

vencedor, procurando debalde alcança-lo com as garras.

Esta luta durou minutos; o indio, com os pés apoiados fortemente nas

pernas da onça, e o corpo inclinado sobre a forquilha, mantinha assim

immovel a fera que ha pouco corria a mata não encontrando obstaculos á

sua passagem.

Quando o animal, quasi asphixiado pela estrangulação, já não fazia

senão uma fraca resistencia, o selvagem, segurando sempre a forquilha,

metteu a mão debaixo da tunica e tirou uma corda de _ticum_ que tinha

enrolada á cintura em muitas voltas.

Nas pontas desta corda havia dous laços que elle abrio com os dentes e

passou nas patas dianteira ligando-as fortemente uma a outra; depois fez

o mesmo ás pernas, e acabou por amarrar as duas mandibulas, de modo que

a onça não podesse abrir a bocca.

Feito isto, correu a um pequeno arroio que passava perto; e enchendo de

agua uma folha de cajueiro bravo, que tornou côva, veio borrifara

cabeça da fera. Pouco a pouco o animal ia tornando a si; e o seu

vencedor aproveitava este tempo para reforçar os laços que o

prendião, e contra os quaes toda a força e agilidade do tigre serião

impotentes.

Neste momento uma cotia timida e arisca appareceu na leiseira da matta,

e adiantando o focinho, escondeu-se arrepiando o seu pello vermelho e

afogueado.

O indio saltou sobre o arco, e abateu-a dahi a alguns passos no meio da

carreira; depois, apanhando o corpo do animal que ainda palpitava,

arrancou a flexa, e veio deixar cahir nos dentes da onça as gotas do

sangue quente e fumegante.

Apenas o tigre moribundo sentio o odor da carniça, e o sabor do sangue

que filtrando entre as presas cahira na boca, fez uma contorsão

violenta, e quiz soltar um urro que apenas exhalou-se n'um gemido surdo

e abafado.

O indio sorria, vendo os esforços da fera para arrebentar as cordas que

a atavão de maneira que não podia fazer um movimento, a não serem

essas retorções do corpo, em que debalde se agitava. Por cautela

tinha-lhe ligado até os dedos uns aos outros para privar-lhe que

podesse usar das unhas longas e retorcidas, que são a sua arma mais

terrivel.

Quando o indio satisfez o prazer de contemplar o seu captivo, quebrou na

matta dous galhos soccos de biribá, e roçando rapidamente um contra o

outro, tirou fogo pelo attrito e tratou de preparar a sua caça para

jantar.

Em pouco tempo tinha acabado a selvagem refeição, que elle acompanhou

com alguns favos de mel de uma pequena abelha que fabrica as suas

colmêas no chão. Foi ao regato, bebeo alguns góles d'agua, lavou as

mãos, o rosto e os pés, e cuidou em pôr-se a caminho.

Passando pelas patas do tigre o seu longo arco que suspendeo ao hombro,

e vergando ao peso do animal que se debatia em contorsões, tomou a

picada por onde tinha seguido a cavalgata.

Momentos depois, no lugar desta scena já deserto, entre-abrio-se uma

moita espessa, e surgio um indio completamente nú, ornado apenas com

uma trofa de pennas amarellas.

Lançou ao redor um olhar espantado, examinou cautelosamente o fogo que

ardia ainda e o resto da caça; deitou-se encostando o ouvido em terra,

e assim ficou algum tempo.

Depois se ergueu e entranhou de novo pela floresta, na mesma direcção

que o outro tomára pouco tempo antes.

V

LOURA E MORENA

Cahia a tarde.

No pequeno jardim da casado _Paquequer_, uma linda moça se embalançava

indolentemente n'uma rede de palha presa aos ramos de uma acacia

silvestre, que estremecendo deixava cahir algumas de suas flores miudas

e perfumadas.

Os grandes olhos azues, meio cerrados, ás vezes se abrião

languidamente como para se embeberem de luz, e abaixavão de novo as

palpebras rosadas.

Os labios vermelhos e humidos parecião uma flor da gardenia dos nossos

campos, orvalhada pelo sereno da noite; o halito doce e ligeiro

exhalava-se formando um sorriso. Sua tez alva e pura como um froco de

algodão, tingia-se nas faces de uns longes côr de rosa, que ião,

desmaiando, morrer no collo de linhas suaves e delicadas.

O seu trajo era do gosto mais mimoso e mais original que é possivel

conceber; mistura de luxo e de simplicidade.

Tinha sobre o vestido branco de cassa um ligeiro saiote de risso azul

apanhado á cintura por um broche; uma especie de arminho côr de

perola, feito com a pennugem macia de certas aves, orlava o talho e as

mangas, fazendo realçar a alvura de seus hombros e o harmonioso

contorno do seu braço arqueado sobre o seio.

Os longos cabellos louros, enrolados negligentemente em ricas tranças,

descobrião a fronte alva, e cahião em volta do pescoço presos por uma

resilha finissima de fios de palha côr de ouro, feita com uma arte e

perfeição admiravel.

A mãozinha afilada, brincava com um ramo de acacia que se curvava

carregado de flores; e ao qual de vez em quando segurava-se para

imprimir á rede uma doce oscillação.

Esta moça era Cecilia.

O que passava nesse momento em seu espirito infantil é impossivel

descrever; o corpo cedendo á languidez que produz uma tarde calmosa,

deixava que a imaginação corresse livre.

Os sopros tepidos da brisa que vinhão impregnados dos perfumes das

madre-silvas e das açucenas agrestes, ainda excitavão mais esse enlevo

e bafejavão talvez nessa alma innocente algum pensamento indefinido,

algum desses mythos de um coração de moça aos dezoito annos.

Ella sonhava que uma das nuvens brancas que passavão pelo céo anilado,

roçando a ponta dos rochedos se abria de repente; e um homem vinha

cahir a seus pés timido e supplicante.

Sonhava que córava; e um rubor vivo accendia o rosado de suas faces;

mas a pouco e pouco esse casto enleio ia se desvanecendo, e acabava n'um

gracioso sorriso que sua alma vinha pousar nos labios.

Com o seio palpitante, toda tremula e ao mesmo tempo contente e feliz,

abria os olhos; mas voltava-os com desgosto, porque, em vez do lindo

cavalheiro que ella sonhara, via a seus pés um selvagem.

Tinha então, sempre em sonho, um desses assomos de colera de rainha

offendida, que fazia arquear as sobrancelhas louras, e bater sobre a

relva a ponta de um pézinho de menina.

Mas o escravo supplicante erguia os olhos tão magoados, tão cheios de

preces mudas e de resignação, que ella sentia um quer que seja de

inexprimivel, e ficava triste, triste, até que fugia e ia chorar.

Vinha porém o seu lindo cavalheiro, enxugava-lhe as lagrimas, e ella

sentia-se consolada, e sorria de novo; mas conservava sempre uma sombra

de melancolia, que só a pouco e pouco o seu genio alegre conseguia

desvanecer.

Neste ponto do seu sonho, a por tinha interior do jardim abrio-se, e

outra moça, roçando apenas a gramma com o seu passo ligeiro,

aproximou-se da rede.

Era um typo inteiramente differente do de Cecilia; era o typo brazileiro

em toda a sua graça e formosura, com o encantador contraste de

languidez e malicia, de indolencia e vivacidade.

Os olhos grandes e negros, o rosto moreno e rosado, cabellos pretos,

labios desdenhosos, sorriso provacador, davão a este rosto um poder de

seducção irresistivel.

Ella parou em face de Cecilia meio deitada sobre a rede, e não pôde

furtar-se á admiração que lhe inspirava essa belleza delicada, de

contornos tão suaves; e uma sombra imperceptivel, talvez de um

despeito, passou pelo seu rosto; mas esvaeceo-se logo.

Sentou-se n'uma das bandas da rede, reclinando sobre a moça para

beija-la ou ver se estava dormindo.

Cecilia, sentindo um estremecimento, abrio os olhos e fitou-os em sua

prima.

--Preguiçosa!... disse Isabel sorrindo.

--É verdade! respondeo a moça, vendo as grandes sombras que

projectavão as arvores; está quasi noite.

--E desde o sol alto que dormes, não é assim? perguntou a outra

gracejando.

--Não, não dormi nem um instante; mas não sei o que tenho hoje que me

sinto triste.

--Triste! tu Cecilia! não creio; era mais facil não cantarem as aves

ao nascer do sol.

--Está bem! não queres acreditar!

--Mas vem cá! Porque razão has de estar triste, tu que durante todo o

anno só tens um sorriso, tu que és alegre e travessa como um

passarinho?

--É para vêres! Tudo cança neste mundo.

--Ah! comprehendo! Estás enfastiada de viver aqui nestes ermos.

--Já me habituei tanto a ver essas arvores, esse rio, esses montes, que

quero-lhes como se me tivessem visto nascer.

--Então o que é que te faz triste?

--Não sei; falta-me alguma cousa.

--Não vejo o que possa ser. Sim?... já adevinho!

--Adevinhas o que? perguntou Cecilia admirada.

--Ora! o que te falta.

--Si eu mesma não sei! disse a moça sorrindo.

--Olha, respondeo Isabel; alli está a tua rola esperando que a chames,

e o teu veadinho que te olha com os seus olhos doces; só falta o outro

animal selvagem.

--Pery! exclamou Cecilia rindo-se da idéa de sua prima.

--Elle mesmo! Só tens dous captivos para fazeres as tuas travessuras; e

como não vês o mais feio, e o mais desengraçado, estás aborrecida.

--Mas agora me lembro, disse Cecilia, tu já o viste hoje?

--Não; nem sei o que é feito delle.

--Sahio antes de hontem á tarde; não vá ter-lhe succedido alguma

desgraça! disse a moça estremecendo.

--Que desgraça queres tu que lhe possa succeder? Não anda elle todo o

dia batendo o matto, e correndo como uma fera bravia?

--Sim; mas nunca lhe succedeu ficar tanto tempo fora, sem voltar á

casa.

--O mais que póde acontecer, é terem-lhe apertado as saudades da sua

vida antiga e livre.

--Não! exclamou a moça com vivacidade; não é possivel que nos

abandonasse assim!

--Mas então que pensas que andará fazendo por este sertão?

--É verdade!... disse a moça preoccupada.

O Guarany: romance brazileiro, Vol. 1 (of 2) · 第 1 / 13 段