Garifa.
Cade in tanto dolor, che si dispone
Allora allora di voler morire......
_Ariosto_--Orland. fur. cant. V.
Maravilhou a todos o spectaculo
Inesperado...
Que será? disse emfim um rumor surdo
De vozes dos que tremulos pararam...
_Garrett_--D. Branca--cant. I.
--Para longe o agouro! Ora esta! dizia, horas depois do torneio, em
Gaya, junto da fonte do rei Ramiro, a mulher de um galeote.
--Pois que é, tia Dordia? interrogava outra.
--Que ha de ser? Vindo ás vozes do lado do monte, ouvi fallar em
affogado, e bem sabe que o meu Manoel anda por esses mares!
--Para longe o agouro, repetiu a outra mulher. Isto de agouros nem
sempre são certos. Fé em Deus, que elle fará as cousas pelo melhor.
--Fé em Deus tenho eu; mas bem mau é que em noite de S. João se ouçam
cousas destas! A velha Mafalda, o anno passado, ouviu, ao passar ao arco
de S. Domingos, fallar em um justiçado, e bem sabe o que aconteceu ao
filho.
--São signaes que cada um traz ao nascer. Mas ainda não é meia-noite,
proseguiu a mulher, querendo consolar a senhora Dordia da crença ainda
hoje existente junto da foz do Douro, de que, quando, vespera de S.
João, ao cahir da meia-noite, se procura um prognostico, ou noticias da
sorte de pessoa ausente, as dão as primeiras palavras de qualquer
conversa.
--Deus a ouça, visinha... Deus a ouça; mas parece-me que já será: o
sete-estrello vai alto!
--Não é, não. Ólá, João Canhoto, meia-noite será?
--Não é, tia Luiza. Quer ir saltar as fogueiras?
--Eu não: forças para tal Deus as déra. O meu tempo já passou. Quando
rapariga!...
--Então deitou ovo em escudella?
--Para que?
--A vêr se lhe sahe arco de egreja, respondeu o homem, que dava pelo
nome de João Canhoto, rindo.
--A mim agora só se me sahir tumba. Isso é bom para cachopas.
--Vamos, vamos, tia Luiza; ainda está féra, rija como um virote, e um
noivo agora era mel pelos beiços.
--Seu bargante! exclamou a velha, mostrando no rosto que a mofa do
galeote não era inteiramente recebida como tal.
--Então, ainda não é meia-noite? tornou a perguntar a senhora Dordia,
bastante impressionada pelo agouro tomado, para delle tirar o sentido,
não obstante os gracejos dirigidos pelo galeote á sua amiga.
--Qual meia-noite! Ao cantar do gallo toda a chusma, que anda por ahi,
ha de vir em descante. É uma festa de estrondo cá da gente. Verá se lá
os da cidade nos levam as lampas! Só violas é uma meia duzia, e os
rapazes que as tangem são mestres acabados. É de se abrir a bocca. E o
Safio? Se ha por ahi quem saiba deitar uma cantiga como elle, que eu
beba agua toda a minha vida! O Safio vem no rancho.
--Então, temos grande descante? interrogou uma outra mulher.
--É esperar para ver.
--O sitio não é lá dos melhores.
--Dizem que por aqui...
--O que?
--Que em noite de S. João apparece na fonte uma moura encantada... Ora
uma moura de não sei que rei...
--Bôa, bôa! exclamou o galeote. As mouras não se vem metter assim com um
homem do mar, por mais tresloucadas que andem. Se ella quizesse bailar
na festa...
--Credo! Não diga isso, que o póde ella ouvir! exclamaram duas ou tres
mulheres ao mesmo tempo.
--Ai, senhor João, bem se vê que não é da terra, e não sabe que é certo
o apparecer ás vezes ahi a maldicta. Minha avó, que Deus haja, quando
era rapariga, viu-a, disse a tia Luiza.
--E vi-a eu, vai em tres annos, com estes que a terra ha de comer,
accudiu a tia Dordia.
--E eu, disse outra.
--E eu, exclamaram em seguida mais cinco ou seis.
--Então, como é a moura?
--Ora como ha de ser a moura? É uma figura branca, toda branca, muito
branca, com os cabelos, nem fios de ouro, soltos pelas costas; e
apparece a bailar na agua de um para o outro lado...
--Hoje quebra-se-lhe o encanto, atalhou o galeote, que era para o seu
tempo um grande incredulo ouvindo um desfinar de instrumentos do lado da
povoação.
--Alli vem a festa! Lenha para ahi! exclamou em seguida, dirigindo-se a
um rancho de creanças de ambos os sexos, que saltavam por cima do
brazido deixado pela fogueira.
A festa annunciada não tardou com effeito a apparecer. Uma grande porção
de galeotes, petintaes e espadeleiros de Gaya e Villa Nova arranhavam em
violas, tocavam tamboril, ou cantavam, fazendo coro, a canção entoada
por um rapaz alto e de ar jovial, que era nem mais nem menos o Safio
apregoado por João Canhoto. Para se dizer toda a verdade, deve-se
accrescentar que a desafinação dos instrumentos não destoava das vozes,
um pouco roucas, como as de todos os embarcadiços, e demais
ressentindo-se de brodio feito em tasca.
Uma voz cantava:
Em noite de S. João
Até no mar traiçoeiro
Accendem anjos ou fadas
Em cada vaga um luzeiro.
E, velas de seda ao vento,
Passa a galé encantada;
Remos de ouro batem n'agua
Ao som de branda toada.
No ceo bailam as estrellas
Bailam as mouras nas fontes...
..............................
--Jesus! exclamou uma mulher, pallida, com os olhos espantados,
lançando-se a tremer no meio da festa.
As violas calaram-se, o cantor, que desta vez dizia versos, que não eram
de sua lavra; os coros, que repetiam no fim de cada estrophe um
estribilho maritimo, calaram-se tambem; os rostos tornaram-se de
finados, como se tornara o da mulher. Esta, com o braço estendido,
designava a fonte de D. Ramiro.
Se vós, leitora, que talvez por mais de uma vez apregoastes que não
credes em muita cousa natural, quanto mais nas que o não são, visseis o
que Safio e os festeiros de Gaya estavam vendo, a côr do rosto vos
fugira, como a elles lhes fugiu, e talvez, como a vossa organisação não
é a de qualquer petintal, um desmaio vos tirasse de sustos.
A lua no extremo da sua carreira, redonda, mergulhava no mar, marcando
nas aguas uma esteira tremula, de um brilho duvidoso. O disco, meio
embaciado pelos vapores do occeano, podia servir para uma imagem
funebre: dir-se-hia que era o espectro do sol. Na outra margem, para o
lado da cidade, por entre fogos vermelhos, appareciam e desappareciam
figuras negras, como possuidas de uma vertigem, de frenesi, e a aragem
trazia nas azas humidas pelo orvalho, um concerto de rizadas em todas as
notas possiveis da escala, e uma discordancia de instrumentos, como em
ronda de feiticeiras. O rosto tornava-o negro uma immensa fogueira feita
na praia. Os reflexos da luz davam ao rosto dos marinheiros de Gaya,
tomados de assombro, um todo phantastico, assustador. Toda esta scena
momentos antes era alegre. Uma só cousa bastára para a transtornar.
Entre o fundo escuro em que se mergulhava a margem opposta, em
consequencia da fogueira que fizera avivar João Canhoto, e o lanço do
rio tocado pelos derradeiros raios da lua, junto da fonte, á beira da
agua, via-se uma figura branca, indefinida em tudo que não era o
contorno, movel, conforme as oscillações e intensidade dos fogos,
accesos que parecia, mais do que a pousar na terra, suspensa do ar,
baloiçada por fio invisivel.
Aquella apparição, como transtornára o aspecto da scena, como déra aos
cantos e aos risos um tom sobrenatural, tornára immoveis quasi os
collegas de Safio. Se não fosse o movimento que faziam para se
aconchegar uns aos outros, dir-se-hia que ella os havia petrificado. O
suor innundara-lhes a fronte, e o frio corria-lhes pela espinha dorsal.
A campa do convento de Corpus-Christi dobrou compassada marcando a
meia-noite, e ao mesmo tempo quasi uma nota plangente vibrou no ar.
Marinheiros, que tinham affrontado a tempestade com o coração sereno,
que nas galés reaes ouviram sibilar os pelouros, sentiram perto do
craneo o embate do machado no machado tremeram como as folhas dos
alamos. Das mulheres nem fallamos. Todas as orações, todas as fórmas de
esconjuros se lhes embaralhavam na memoria, e os lábios negavam-se a
pronuncial-as.
--Meia-noite, tartamudeou João Canhoto, momentos antes emprazador de
phantasmas, e fazendo ao soar a ultima badalada o signal da cruz ás
avessas.
--Valham-me os santos e santas do céu!
--Jesus! bento nome de Jesus!
O silencio que estas exclamações interrompiam era tal que se ouvia o
respirar não muito desembaraçado daquella boa gente, e o terror tambem
era tamanho, que as passadas e mesmo a apparição de um homem junto do
rancho dos festeiros não foi por elles notada. Daquelle pasmo pasmou o
recem-chegado, mas não por muito tempo.
--Ui, Canhoto, exclamou elle; que mau olhado vos deu, e em toda essa
gente, que tendes cara de quem viu o trêpo em encruzilhada?!
--Jesus! bento nome de Jesus! repetiram as mulheres, deitando a correr
para o lado da povoação, como se a presença daquelle homem quebrára o
encanto de terror em que estavam.
--Ui! tornou elle, que demonio se lhes metteu no corpo?! Nem bando de
cotovias que farejaram besta armada. Eh! Canhoto, que feio esgar que
estás a fazer! Estás mudo, homem? Aquelles pergaminhos velhos de saias
que fugiram a grasnar eram bruxas? Em noite de S. João...
João Bispo, pois era o nosso conhecido o recem-chegado calou-se, e
recuou espantado, fitando um gesto dos galeotes de Gaya a apparição
phantastica que os atemorisára, e quasi ao mesmo tempo dous gritos se
confundiram com o baque de um corpo no rio. O phantasma branco, a moura
encantada durante a enfiada de perguntas de João Bispo, approximara-se
da margem do Douro, erguera os braços ao céo, como em supplica, e
precipitara-se na corrente. Durante este movimento o bésteiro
reconhecera naquelle vulto um ente querido, e ao grito, soltado como em
adeus extremo ao mundo, juntara-se outro de angustia tambem. O pasmo
produzido pelo reconhecimento feito em taes circumstancias não foi
longo, porém; ao baque na agua do corpo da moura seguiu-se outro, o do
bésteiro.
--João! João! exclamaram alguns galeotes perplexos; sem saber como
traduzir na sua intelligencia o passo do condiscipulo de Fernando.
João não ouviu sequer aquelles gritos.
--A moura saltou ao rio! disse um espadeleiro, que se attrevera a
procurar com a vista a causa do terror geral.
--Foi para casa de _Brazabu_! redarguiram dous ou tres, tomando de um
folego o ar necessario para cem homens, e limpando com as costas da mão
o suor frio que lhe banhava o rosto.
--João! João! tornaram os que mais perto estavam da praia.
--Arrastou-o a maldita. Não viram os olhos que ella deitava. Eram dous
luzeiros.
--Guay delle! Aquillo não era moura; era o tinhoso, resmungou o
espadeleiro, fazendo o signal da cruz, o vigessimo talvez nessa noite.
--A modo que sim, tio Vasco. Cheira aqui a não sei que.
--Olhem! olhem! disse com voz abafada outro marinheiro, que se attrevera
a approximar-se da margem, e de novo recuára atterrado. Olhem! olhem!
Não veem na agua aquelle marulhar? A moura filou o bésteiro.
--A Virgem santa seja com elle! murmuraram tres ou quatro a um tempo,
dando o nosso homem como perdido de corpo e alma.
No rio, mesmo na esteira que prateava a lua, com effeito apparecia e
desapparecia, para de novo surgir á flor d'agua, um vulto, a bracejar.
De uma das vezes não veio só. O vestido da moura alvejou, tocado por um
raio de luz, e a crença, dos marinheiros, de que João Bispo era
arrastado por um espirito ou pelo demonio, mais se confirmou, levando-os
a novos esconjuros. O bésteiro sobraçando o corpo e segurando com os
dentes as vestes da infeliz, embaraçado nos movimentos, luctava com a
corrente afim de alcançar a margem.
--A mim! a mim! gritou elle de uma das vezes em que veio ao lume d'agua;
porém os marinheiros olhando espantados uns para os outros não se
moveram em seu auxilio.
--S. Pedro seja com sua alma, murmurou o velho Vasco, recuando ao passo
que o bésteiro se approximava da margem, um pouco escarpada naquelle
sitio e então mais do que hoje. Que se apegue com a Virgem, não com a
gente, que nada póde com encantos.
--Oh de terra! soccorro, por Deus, que se me fina esta desgraçada!
tornou João Bispo com uma inflexão de voz, que denotava o desespero que
ia naquelle coração.
Safio e Canhoto, por um impulso sobre o qual nem tempo tiveram de
reflexionar, correram á praia. Safio approximou-se da rocha junto da
qual o bésteiro se debatia, segurando sempre a mulher de branco.
--Uma mão a esta pobre, que já mal respira.
--É uma rapariga! exclamaram os dous marinheiros, estendendo os braços
a segurar aquella que, momentos antes, tomavam todos por um ente
sobrenatural.
Os petintaes, galeotes e mais festeiros pouco a pouco se tinham
approximado, ouvida esta exclamação, e vendo que se não tratava de mais
do que de arrancar á morte uma creatura, o exemplo de Safio e Canhoto
foi seguido, e, instantes depois, João Bispo a depositava em terra a sua
preciosa carga.
De novo reinou o silencio. Os marinheiros atordoados com as sensações
diversas experimentadas em tão curto espaço de tempo, formaram roda ao
corpo da mulher, que inane, desmaiada haviam conduzido para junto de uma
fogueira, e deitado sobre um monte de trevo, alfombra improvisada das
moças da terra, dispersas pouco havia. João Bispo com o olhar fixo,
espantado, as mãos pendentes, os lábios entreabertos contemplava o rosto
da moura, pois moura era a desfallecida. Parecia ter-se-lhe apagado
completamente da memoria o que acabava de se passar: o corpo alli
prostrado era uma surpresa. De repente deu um grito; lançou-se de
joelhos junto da moura, tomou-lhe a cabeça no regaço, e palpou-lhe as
faces e o seio, a vêr se encontrava o calor da vida, e, curvando-se,
entre carinhos, como se com elles a quizesse acordar daquelle lethargo,
exclamou:
--Garifa! Garifa!
Garifa não respondeu. Os lábios contrahidos, lividos, perdido o fogo que
animava aquelle rosto moreno, quando, pelas grandes festas, nas danças e
folias, com que as da sua raça contribuiam, fazia girar sobre a cabeça o
adufe, ou agitava os cascaveis que lhe adornavam o curto saio; os olhos
cerrados; as longas cilias cheias de gotas d'agua, como se a morte a
surprehendesse entre prantos, nem um suspiro desprendia; nem um
movimento, por leve que fosse, se lhe notava.
--Morta! tornou a meia-voz, atterrado, o bésteiro, tirando do cinto o
punhal, e chegando-lhe a folha aos lábios depois de a ter limpado.
Um raio de luz, um raio de alegria passou pelos olhos do magoado amante,
quando o fraco alento da moça formou uma mancha na folha luzidia.
--Garifa! Garifa! tornou elle a exclamar.
--É viral-a de cabeça para baixo! resmungou o velho Vasco; é a mésinha
dos afogados.
--Garifa... minha pobre Garifa! murmurava o bésteiro.
--Safio, chega-lhe vinho; um trago não lhe fará mal, gritou João
Canhoto; e em seguida, tomando o pichel que o seu companheiro trazia á
cinta, derramou algumas gotas sobre os lábios da desfallecida moça, ao
passo que este resmungava, vendo correr o licôr a que não parecia
desaffeiçoado:
--Boa cera com ruins defuntos!
João Bispo lançou-lhe um olhar terrivel, e fez um movimento, como se
tentasse desafogar em cólera contra o imprudente marinheiro todo o peso
do coração, e estallar, quando Garifa moveu os lábios fazendo um gesto
de repugnancia.
--Basta, Canhoto, basta! acudiu Safio, que não reparara no bésteiro;
vais fazer perder a alma á rapariga. No céu dos mouros... que é o
inferno, accrescentou por entre dentes... não entra quem prova do sumo
da uva, ouvi dizer.
O bésteiro arredára Canhoto, e, com um braço debruçando-se sobre o corpo
da sua namorada, tomava-lhe as mãos entre as suas, quando ella abriu os
olhos, murmurou algumas palavras inintelligiveis, e tornou a fechál-os,
soltando um suspiro.
--Garifa! Garifa! tornou a exclamar o amigo de Fernando.
--Quem me chama? perguntou a moura, como se acordára de um somno, com
voz fraca, descerrando de novo as palpebras, e fazendo um esforço para
se erguer.
--Eu, eu, Garifa! acudiu João Bispo cheio da alegria.
--Porque me não deixaram morrer? murmurou a filha de Humeia cobrindo o
rosto com as mãos.
--Morrer, Garifa?! E que querias depois que eu fizesse no mundo!
exclamou o mancebo affastando-lhe com brandura as mãos do rosto. Que
faria eu? proseguio... Morrer... morrer tambem!
A moura meneou a cabeça; fixou a vista, como admirada no besteiro;
estremeceu toda, e dos olhos rebentou-lhe o pranto ao mesmo tempo que os
soluços do peito. João Bispo, que, em alguns minutos apenas
experimentara os mais contrariados affectos, a extrema dôr e a alegria,
redobrou os seus carinhos, as palavras affectuosas; mas as lagrimas
continuavam a correr em fio dos olhos de Garifa.
--Garifa, minha Garifa, porque choras? Deixa esse pranto com que me
amofinas. Eu estou aqui, Garifa, e ninguem nos ha de agora separar. Tu
cumpres a tua promessa... e teu pae, que não espera já vêr-te...
--Oh, meu pae, exclamou a moça interrompendo-o, e de novo cobrindo as
faces; com que rosto lhe poderei eu apparecer?!...
--Elle perdoará tudo, Garifa; esquecerá tudo... e que não perdôe, eu...
--Nem elle, nem tu; João... Oh! porque me não deixaram morrer!
--Eu? Garifa? Eu não te entendo... Que mal me fizestes? porque te hei de
malquerer?...
João Bispo estacou, e de um salto ficou de pé. O que se passara
causara-lhe um violento abalo, para dar logar a reflexões, e
esquecera-se de que a mulher, que assim tentava pôr termo á vida, tinha,
duas semanas havia, desapparecido; esquecera-se do que lhe dissera o
petintal e das suspeitas que o levaram ao castello de Gaya. Tudo,
porém, resumido em uma idea unica acabára de lhe passar pela mente.
--Rausada?! exclamou, abaixando-se a arredar-lhe de novo as mãos das
faces, procurando vêr se dos olhos mais depressa do que dos lábios
obtinha uma resposta.
A moça só redarguiu:
--Porque me trouxeram á vida... porque?
--Rausada! tornou João, passando uma das mãos pela fronte, em quanto com
a outra apertava o cabo do punhal. O nome desse homem, e pela hostia
consagrada juro que dentro em dias o repetirão em resa de finados.
Falla, Garifa: o nome desse homem? Vilão ou cavalleiro que seja, eu me
pagarei em sangue de quanto elle me roubou. Garifa, Garifa!
Soluços e lagrimas foi a resposta que obteve da filha de Humeia.
--Garifa, não respondes? Dize... dize que não te pozeram mão, dize,
proseguiu o mancebo fóra de si; livra-me desta idea que me faz perder a
cabeça; livra-me della ou aponta-me um homem em quem desafogue todo o
desespero que sinto. Tu não me atraiçoaste, não; não era possivel...
Empregaram a força; empregarei a força, e hei-de esmagar quem quer que
seja o rausador. Garifa, não respondes? Uma palavra!
--Que queres que te diga, João? Esmagaram o nosso amor, tornando-me
indigna de ti: a filha de Humeia não póde mais apparecer com a face
descoberta!
--E o refece, o maldito?! gritou o bésteiro apertando com violencia os
pulsos da moura.
--A aguia vôa tão alto que não a alcança a garrocha, murmurou meneando a
cabeça, depois de alguns instantes de silencio, a namorada de João
Bispo.
--Quem foi, Garifa, quem foi?
--Deixa-me, João.
--O nome desse homem!... o nome desse homem!
--Não, não posso.
--Não pódes?...
--Não, não posso: dizer-te o nome era fazer-te açoutar ámanhã no
pelourinho... era matar-te...
--Ayres Gonçalves... Henrique Fafes!... gritou João Bispo.
--Não... não m'o perguntes...
--Qual delles, Garifa; qual delles? Affonso Darga?
--Ninguem!
--Ninguem?! O nome desse homem, ou tu és tão vil como elle!
--Serei, João... sou. A moura do Olival, que te queria tanto como á luz
dos olhos, morreu no dia em que lhe pozeram uma mordaça na bocca e
ataram os pulsos: atiraram depois o corpo ao monturo... como de moura
que era. Garifa morreu, João: o que aqui está é uma desgraçada corrida
por palafreneiros... a quem a lançaram...
--Calai-vos, calai-vos! exclamou o moço bésteiro, pondo a mão na bocca
da sua namorada. Não póde ser... é impossivel!
--Antes fôra!... murmurou Garifa.
--Em má hora vim ao mundo!
João Bispo calou-se e deixou pender a cabeça sobre o peito. Quando de
novo a ergueu, as palpebras estavam vermelhas, mas seccas; os olhos
vagavam-lhe incertos; o rosto estava pállido, e uma contracção nervosa
dos musculos parecia emagrecer-lhe, avelhentar as feições. O amigo de
Fernando Vasques, occultava sob as vestes grosseiras um grande coração,
cheio de fogo, de energia, e toda essa energia empregára-a no amor da
filha de Humeia. A moura do Olival era tambem a unica mulher que topára
no seu trilho capaz de não esfriar essa paixão. Não prendia, não
captivava sómente com a bellesa do corpo; captivava com os dotes do
coração, da intelligencia. Garifa tivera na infancia faixas bem
superiores ás telas grosseiras dos vestidos que trajava no Porto. Para
corresponder á exaltação, que a vida ociosa e ao mesmo tempo cheia de
sobresaltos e de incertesas produzia na mente do escolar de S. Domingos,
era necessaria a exaltação do sangue arabe, fervente nas veias de
Garifa. É facil de avaliar qual o abalo que o mancebo recebeu no caes de
Gaya. Aquella desventura, receara-a, temera-a; mas não se afizera á idem
de que se realisásse; achára sempre a providencia a estender a mão á sua
namorada, a protegel-a. Na maré mais negra seguindo-a com o pensamento,
depois que ella desapparecera do Olival vira-a morta; mas se encontrasse
no Douro o seu cadaver, a mágoa não fôra tamanha como a que sentia.
Mesteiraes e marinheiros fitavam commovidos os dous amantes, que se
conservavam mudos affastando as vistas um do outro: João de pé, sombrio,
pensativo; Garifa de joelhos, lacrimosa, tremulla, branca como a roupa
que vestia por baixo do roto gabão, que um marinheiro lhe lançara aos
hombros.
--Rausada! murmurou passados momentos o mancebo, sacudindo a cabeça,
como se assim podesse repellir aquella ideia.
Depois, estendendo a mão á pobre moura, ajuntou:
--Vem, Garifa; já não sou tambem o mesmo que era. Vem commigo.
A moça, levada pela solemnidade da voz e do gesto do mancebo, e ajudada
por elle, levantou-se machinalmente, e com passos mal seguros,
seguiu-o, perdendo-se os dois na escuridão da estreita rua que guiava ao
povoado.
Os marinheiros ficaram olhando uns para os outros.
--Pobre rapaz! murmurou um delles.
--A rapariga era a que chegou a noite passada, quasi nua e toda magoada
á taberna do tio Pero, e que elle abrigou por caridade, e livrou de dous
mal encarados que a seguiam.
--Deu-me os seus ares della.
--Era a mesma, sem tirar nem pôr.
--Mal a puzeram em terra, conheci-a: era a moura do Olival.
--Coitado do Bispo, resmungou o velho Vasco. Bem enfeitiçado o traz a
tal moura. Estas condemnadas teem taes artes, que, se vos lançam olhado,
fica-se perdido de todo. Teem feitiços para tudo. Um rapaz conheci eu no
meu tempo, que se myrrou de todo, e morreu por causa de uma destas
maldictas. Em casa da rapariga, uma moura, e linda até alli, encontraram
uma figura de cera feita a imagem d'elle com os olhos pregados, e um
alfinete enterrado no sitio do coração.
--Qual feitiço, nem meio feitiço! resmungou João Canhoto.
--Não acreditas! accudiu outro mesteiral. As mouras todas sabem de
feitiçaria, e quando querem querem que um homem lhes queira, a ellas ou
a quem isso lhe pede, apanham um sapo, e cozem-lhe os olhos.
--Não digo que se não façam desses maleficios; mas a rapariga do
Bispo...
--Homem, é moura e basta.
--Moura ou christã, se enfeitiçava, era com os olhos. Não precisava de
outra cousa, accudiu João Canhoto. A bôa gente vi ficar de bocca aberta
para ella, este anno ainda na procissão de Corpus, e depois não tem sido
nem a um, nem a dous senhores de alta linhagem que tenho visto seguil-a,
todos requebrados. A um dos que está no castello ainda ha semanas
encontrei em seu alcance pela aljama, era já noite cahida. Não disse
nada ao Bispo, por que elle faria alguma!
--Feitiços, feitiços, para nos perder a alma, resmungou o velho.
--Ora, mestre Vasco! Tambem enfeitiçou ella a quem o poz naquelle
estado? A pobre, que se queria finar por se vêr assim, é porque não foi
por sua vontade que a tiraram de casa. Christãs conheço eu, como as
palmas das mãos, que não a valem. Se mestre Vasco estivesse mais novo, e
ella lhe dissesse palavras de bem querer...
--Credo! era um peccado!
--Deus me perdôe; mas eu não o tenho por peccado; se o é, muita gente
pecca.
João Canhoto não deixava de dizer a verdade: as mouras por aquelles
tempos roubavam ás christãs bastantes corações, tanto de nobres, como de
peões, o que as obrigava a crêr em poderes occultos, para não se
confessarem derrotadas nos encantos. Nos paços dos cavalheiros e
ricos-homens, muita descendente de Agar, forjava dos ferros que lhes
lançára a escravidão cadeias para os seus senhores: nas cidades as mais
jovens e formosas eram como Garifa forçadas quasi a mostrarem as suas
graças em publico nas grandes solemnidades: eram as bailarinas da
epocha, e as bailarinas teem feito dançar muita cabeça desde Herodiade
até aos nossos dias. Os escrupulos do velho Vasco não eram partilhados
senão pelos que se viam no seu estado. Os legisladores, entretendo-se a
impedir relações ou ligações entre as duas raças com penas mais ou menos
sevéras, não quizeram, ao que parece, mais do que deixar prova de que
ellas eram um pouco frequentes, e que já então se faziam leis para
ficarem letra morta, salva uma ou outra excepção feita com algum pobre
de Christo. Nos principios do seculo XVI ainda apparecem trovadores,
que, apregoando o seu affecto por descendentes de Azharat e de Shobeia,
não nos deixam ficar por mentiroso.
Para crédito das nossas avós christãs, attribuamos a maior recato
dellas, as conquistas das moças do Islam. O leitor, comtudo, não fique
pensando que estas não tinham sobre a virtude, sobre o pudor e sobre o
amor ideas identicas ás professadas por aquellas. Garifa não era uma
excepção unica feita para João Bispo: as ideas com que hoje são creadas
as mulheres no Oriente, não eram as das mulheres arabes de Hespanha. Com
pequenas excepções, o amor no seculo XIV tinha em Granada as mesmas leis
que na côrte da condessa de Champagne.
O leitor poderá agora dizer-nos o mesmo que Safio a Vasco e João
Canhoto:
--Deixemo-nos dessas cousas.
O marinheiro accrescentou:
--Vamos: a noite de S. João é para descantes e folias! Venham as moças
para o terreiro. Eia! mãos á obra: avivar as fogueiras e tanger as
violas, que as cachopas acudirão! Ehuh! Mafalda! Joanna!
Pouco depois ninguem diria que na praia da velha Cale se tinha passado
uma scena de lagrimas; que uma pobre rapariga tentára pôr termo aos seus
dias; que um coração se despedaçára. Um bando de raparigas, de
marinheiros e mesteiraes, dando as mãos uns aos outros, dançavam, ou
melhor, giravam, formando circulo, em volta de uma grande fogueira, e
entoavam todos esta cantiga, que os musicos da festa faziam por
acompanhar:
«Todas as hervas são bentas
Em noite de S. João
Só o trevo, coitadinho!
Anda a rasto pelo chão.»
E o sol, nascendo, ainda os encontrava no mesmo local.