Bem fraca figura fazem hoje nas nossas festas e folguedos, com a esguia
casaca preta e a gravata branca de rigor, os alindados do seculo XIX á
vista da que faziam os nossos avós. Para o namorado de hoje em dia no
baile não ha meio de se distinguir, de lisongear o amor da sua dama,
como então nos torneios, nos jogos de cannas e argolas, nos bafurdios e
cavalgadas; não apparecem hoje os vistosos trajes de seda, ouro e prata,
as mangas bordadas, de honra, as charpas ou bandas, nas quaes em cores
preferidas pela donzella querida se via a tenção ou divisa, que
recordava a ambos um protesto, uma confidencia, ou descobria um
pensamento. O amor tinha, sobretudo no cavalheiresco seculo a que
transportamos o leitor, um culto, que hoje não tem, hoje em que
arrancaram a aljava a Eros, o facho ao Hymeneo, e a ambos deram por
distinctivo um saquitel de lona, como a imagem globulosa de bemfeitor de
confraria. (Entre parenthesis, faço aqui excepção dos meus leitores: os
que são casados, o são por amor, e os solteiros e as solteiras ainda não
deram um sorriso, um olhar a dote algum de boa somma, simplesmente pelo
dote e nada mais. São a nata das creaturas.)
O conde D. Pedro vestia sobre ricas armas de Toledo cheias de relevos,
esmaltes e embutidos, um brial côr de cereja, onde, em vez do brasão
proprio, havia bordadas chammas de ouro, e no escudo, esmaltado da mesma
côr rubra, e taxeado de ouro, lia-se a palavra «_Cuydado_» entre duas
palmas, que enramavam um sol feito de espadas. Um malicioso notou que o
desenho do escudo podia figurar a roda de navalhas de Santa Catharina, e
que a esposa de Ayres Gonçalves trajava um corpete de tela, da côr
favorita do mantenedor do torneio, adornado com um peitilho e fraldilhas
de arminho; todos poderiam notar egualmente que, quando, ao fazer
caracolar o seu ginete, o conde deu uma volta á roda do circo, antes de
tomar das mãos do escudeiro que o seguia o elmo, a lança e o escudo,
entre elle e a nobre castellã se cruzára um olhar expressivo; porém, o
governador de Gaya mostrava-lhe um sorriso de agrado, e eram tão sabidos
os recentes amores, que o tinham feito abandonar a côrte de seu tio, que
a maledicencia achava-se um pouco embaraçada nos vôos.
O mantenedor do campo foi saudado com tanto enthusiasmo ou mais que o
trovador, e da mesma sorte foram acolhidos, em seguida, os
contendedores, que se appresentaram: Vasco Martins de Mello, Gil
Esteves, Affonso Darga, Henrique Fafes, um dos irmãos Alvalade, micer
Manoel Pessanha, Affonso Henriques de Transtamara, e outros mancebos,
todos tão adornados e vistosos, que á multidão iam-se-lhe os olhos
nelles, não sabendo a qual dar primazia. Depois das ceremonias do
costume e de um bafurdio, jogo em que cada um mostrava a destreza no
arremesso das lanças, diversão tomada dos arabes, começou o combate.
Vasco Martins, Henrique Fafes e Alvalade perderam a sella, não
supportando o embate das lanças; micer Manoel, como mais affeito ao mar
que á terra, ao dar a volta em um dos extremos da liça, para arremetter
contra o seu antagonista, o fez de sorte, que, roçando pela barreira com
o cavallo, o arremessou este para o outro lado, deixando-o menos
maltractado que a uns dous burguezes, que lhe amacearam a queda com o
corpo.
As damas debruçavam-se curiosas na balaustrada do cadafalso, e mais
curiosas do que as damas as donzellas de honra e as burguesas, para quem
tudo aquillo era inteiramente novo e de fortes impressões, como hoje se
diria. D. Catharina de Figueiredo, entre as do seu sexo, era a excepção,
como Fernando entre os homens. Alguma cousa lhe prendia a attenção, e
essa cousa ficava perto da bancada onde estava o mancebo. Seguindo a
direcção dos olhares frequentes da bella dama, encontrar-se-hiam as
vistas do sobrinho do forçureiro, e ao primeiro relance dir-se-hia que
se provocavam e comprehendiam. D. Catharina notara Fernando; notara nos
olhos os reflexos do incendio ateado no coração, e illudira-se, como se
poderia illudir muita gente. Extranhar a audacia a principio, podia-a
extranhar; porém, mulher, havia de achar-lhe indulgencia, por virtuosa
que fosse. Não o era. De sangue ardente, fogosa por temperamento
pertencera, demais, á corte de Leonor Telles; era uma das damas com que
a astuta rainha jogara, para formar partido, cativar a benevolencia dos
cavalleiros a principio um pouco do parecer do povo que apedrejara os
paços de apar S. Martinho, e não desdissera depois da escóla em que se
criara. Nos seus galanteios não encontrara nunca um olhar de adoração
como o que interceptava; Fernando Vasques fizera-lhe mesmo uma impressão
mais que extraordinaria: fizera-lhe não só, alli, esquecer o conde; mas,
depois, ainda mais, a distancia em que estava ella, dama de alta
linhagem, de um simples burguez, um peão.
A illustre dama não contava com Irene, que se occultava, córando, atraz
da poltrona em que se sentava: o filho do mestre de Santiago não contava
tambem com o sobrinho de Gonçalo Domingues; mas via claramente que as
côres e divisas que tomara podiam ser taxadas de vaidade, presumpção e
nada mais.
Quando um novo contendor entrou na liça, estava tão preoccupado o nobre
mantenedor, a procurar quem lhe podia roubar completamente as attenções,
que não reparou que era esse o mais destro de todos, affeito aos jogos
dos arabes de Granada, a medir-se com os cavalleiros da Africa ao
serviço dos Alhamarides; que era seu proprio irmão, Affonso Henriques. O
moço castelhano, passando junto do conde guiou tão destramente o
cavallo, que lhe roçou pelas joelheiras, e dando um geito á lança, na
carreira, desviou completamente a do seu antagonista e tocou com a sua
no escudo de tal sorte, que o braço que o segurava, estendeu-se; a mão
abriu-se e aquella arma defensiva foi ao chão. D. Pedro, ao ouvir os
applausos levantados a seu irmão, e com a cabeça perdida pela distracção
da sua dama, ergueu-se furioso nos estribos e arremetteu contra elle. A
sua lança desfez-se desta vez em hastilhas no arnez do mancebo; porém
este não saltou da sella, e em poucos instantes estava outra vez em
frente do conde. A lucta tornou-se então um verdadeiro duello, e as
regras do cartel apresentado no principio, consentindo tudo que fosse
destresa, e mandando parar ao primeiro ferimento ou queda, pois que não
era justo que grande mágoa enlutasse tão grande festejo, foram
despresadas. O conde tinha sido desappontado nos seus galanteios como
homem, e nos seus brios como cavalleiro. Ás lanças succedeu a espada; e
as espadas como a lança quebraram, amolgando os elmos, disjuntando e
torcendo peças dos braçaes. Tomaram um a maça, outro o machado, e
furiosos correram um para outro.
O tio de Nuno Alvares Pereira e Ayres Gonçalves de Figueiredo, estavam
tomados de assombro para intervirem na lucta; os mestres de campo, que a
principio haviam tentado manter com os arautos as condições do cartel,
tinham-se, embaraçados, por noviços, retirado para junto das bancadas, e
olhavam uns para os outros e para os juizes, procurando conselho, que
não viam nos olhos de ninguem. Os espectadores, homens e mulheres, esses
applaudiam os epysodios da lucta.
A massa ressoou na armadura de Affonso Henriques, e a um rugido, um
regougo seguiu-se um fio de sangue a correr por entre as fendas do
gorjal sobre o arnez. Os contendores tinham-se esquecido de que eram
irmãos. D. Pedro, sobretudo, estava cego. O brial do conde fez-se em
farrapos, enrodilhado pela machadinha; o ginete em que montava D.
Affonso, ferido na cabeça, apesar de acobertado de ferro, cahiu na arena
levando o cavalleiro. Os gritos da multidão, como nos circos romanos,
eccoaram pelos montes visinhos.
--A pé, a pé! gritaram alguns cavalleiros enthusiasmados, exigindo a
egualdade de combate.
Não foi preciso repetir a exigencia: ou melhor fôra ella escusada: o
conde de Transtamara lançara-se abaixo do cavallo, e corria direito para
o irmão, que, já erguido, com o machado no ar o esperava.
--Cavalleiros, cavalleiros! exclamou Ruy Pereira ao mesmo tempo que
Ayres Gonçalves, querendo sustar o combate.
Os passavantes e o mestre de campo correram para a arena, porém quando
chegaram junto dos irmãos, um delles, D. Pedro, soltáva um grito
doloroso, e cahia com todo o peso do corpo, fazendo ranger e estallar
todas as peças da armadura.
O guante de ferro que lhe guarnecia a mão direita estava despedaçado, e
despedaçado o pulso. O sangue tingiu a areia da liça.
--Jesus! se ouviu do lado das damas e depois uma borborinha correu pela
assemblea; pois a queda do sobrinho do rei de Castella, tomada como o
baquear extremo, produzira no povo uma impressão desagradavel.
Aquelle rumor e assombro fizeram cahir em si Affonso Henriques.
Os momos que se seguiram ao torneio foram sem interesse para os
espectadores entretidos a commentar o combate extraordinario dos dous
nobres castelhanos. Se recrearam alguem foi a Fernando Vasques e a
Irene, e pela duração; não por outra cousa.
D. Catharina não havia tambem despregado os olhos do mancebo. Ao
cavalleiro que a invocára no torneio, se concedera um olhar, fôra de
curiosidade. Quando este tornára a si do desmaio em que a dôr e o sangue
perdido o haviam feito cahir, passando junto delle, ao entrar para as
andas em que viera de Gaya, teve algumas palavras; mas ainda, se não
dirigidas, allusivas ao sobrinho de Gonçalo Domingues, que tratára de
seguir Irene, apesar das exclamações do velho forçureiro, pouco amigo de
se metter em apertos, lembrado do desembarque de Ruy Pereira.
--Bello pagem se fizera daquelle mancebo... se fôra de linhagem! Não é
certo, micer Guilherme? disse ella.
--Bello pagem! disse o irlandez, que de certo devia ter achado a festa
menos divertida que o recontro de Leça, e sem mesmo olhar para o joven
que D. Catharina designava com a vista.
Fernando, perto da linda filha de João Ramalho, mais formosa agora e
esbelta com as galas que lhe consentira a castellã, embellecido o rosto
pelo amor; Fernando não ousára erguer os olhos, e sustentára assim a
illusão para a antiga donzella de Leonor Telles, que repetio:
--Bello pagem!