X.

Uma idea.

Não falta com razões quem desconcerte

Da opinião de todos na vontade.

Em quem o esforço antigo se converte

Em desusada e má deslealdade.

Camões. _Lusiad._ Cant. IV.

Os burguezes do Porto tinham desempenhado a sua palavra: os navios

promettidos estavam a nado nos aguas do Douro, promptos para dar á véla.

Os cavalleiros e ricos-­homens nem todos procediam do mesmo modo; o fogo

do amor da patria era em alguns, tibio, em outros nullo. Ayres Gonçalves

de Figueiredo era deste numero. Approveitara os conselhos de sua mulher,

e fazia todo o possivel por aguardar que a situação se definisse para

entrar com segurança na contenda. Martim Gil, mandado pelos portuenses,

ao conde D. Gonçalo, delle recebera uma resposta favoravel, depois de

feita, entende-se, a concessão das terras da rainha D. Leonor a sua

mercê, e a das de Lordello e Bouças seu filho D. Martinho, fóra outras

miudesas, taes como dinheiro e peças de panno; porém o conde adiava, sob

pretexto de aprestes, a sua partida, quanto lhe era possivel. O Mestre

lembrava continuamente os apuros em que estava a sua boa cidade de

Lisboa; mas os nossos homens não se queriam metter tambem nelles, sem a

certesa de bom resultado. Ayres Gonçalves tinha os olhos no conde de

Neiva; Affonso Darga e outros cavalleiros aguardavam a resolução do

alcaide de Gaya. Ruy Pereira, no entanto, enfastiara-se de tanta

delonga, e tendo Alvaro da Veiga, Luiz Giraldes e Domingos Pires

lembrado que se enviasse a armada receber o conde á Figueira, o alvitre

fôra acceite, com grande amofinação­ dos Fabios politicos, que trataram

logo de procurar embaraços á sua realisação.

Uma circumstancia os favoreceu.

Quando, pouco depois do S. João, a municipalidade tratava não só de

abastecer as galés, mas até de enviar alguns viveres para os sitiados,

como fôra requerido, alguns companheiros de Fernando Affonso de Zamora,

deslembrados da lição dada em Santo Thyrso, ou outros aventureiros

similhantes appareceram nas visinhanças da cidade. Mal a noticia se

espalhára, frei Garcia fora ter com Pedro Choca, e causára nas tercenas

um alvoroço extraordinario, pintando as cousas o mais feias possivel.

Este alvoroço, graças a outros individuos, se tornou contagioso; o temor

calou nos animos fracos, e na tarde desse mesmo dia nas ruas, terreiros

e praças lamentações não faltavam.

--Eis de novo esses malditos gallegos! más terçães os colham! dizia um

mercador. Não nos deixam tomar folego os hereges, e em bem mau estado

vão já os negocios. O tempo vai bom para espadeiros; que os outros não

veem pogea. Tudo são guerras, agora, e desordens. Dantes não era assim.

No tempo do rei D. Pedro!... suspirou o bom homem, e concluiu meneando a

cabeça, e fitando os olhos no tecto da loja.

Este gesto queria dizer que no tempo do pae do Defensor a paz florescia

na terra, e era, talvez, copiado de outro identico, feito pelo senhor

seu progenitor quando o amante de Ignez de Castro talava o Douro e o

Minho, e mesmo de algum feito por seu avô, affectado pelas desavenças de

D. Diniz com o pae do rei D. Pedro.

--Não foram bem sangrados, e veem por mais esses castelhanos ou

acastelhanados, redarguia um visinho; pois terão o seu escote, como o

teve o de Zamora e o arcebispo.

--Mal haja quem mal faz!

--Ruy Pereira, Ayres Gonçalves, ou qualquer os receberão como merecem.

--Assim creio; e por isso, como me dizia ha pouco mestre Lourenço, é que

não acho muito acertado mandarem para Lisboa quanta bôa lança ha por

ahi. É dever acudir ao proximo; mas em primeiro logar estão os da casa.

Quasi todos os dialogos, travados em diversos pontos appresentavam,

espremidos, o mesmo succo que o ­do bom mercador quando pelo lado das

Hortas entrava uma grande manada de bois, e rebanhos de ovelhas e

cabras, destinados ao abastecimento das galés. Alguns ociosos,

encontrando-se com a manada fizera-­lhe cortejo; alguns mesteiraes,

vendo os ociosos, pousaram a ferramenta e engrossaram-no; os garotos,

que possuem o faro dos grandes ajuntamentos, conhecendo que se formava

um, surdiram de todos os bêcos, para o completar. Ao chegar o gado a S.

Domingos, caminho das tercenas, onde deviam os carniceiros preparar as

carnes, a procissão era solemne pelo numero. A ideia que presidia a

todas as lamentações ia ser formulada de outra sorte: frei Garcia e

alguns outros apaniguados do alcaide, achavam-se entre as turbas; Pedro

Choca, desembocára do lado da Esnoga, sahido de uma taberna, onde, junto

com individuos que deviam estar debaixo da jurisdição de Tello Rabaldo,

tinha enxugado algumas medidas de vinho, e não era pelo menos destituido

da manha necessaria para certas empresas.

Se o concurso era grande, tambem era ruidoso. Os conductores da manada

gritavam, vendo que uma ovelha tresmalhava, picada por algum rapaz

travesso, ou um boi estacava, atemorisado por negaças; os homens d'armas

da escolta praguejavam no meio de tantos embaraços; aqui uma mulher

queixava-se de que a pizavam; além alguns homens altercavam com os

bésteiros, que os repelliam do transito; mais longe chorava uma creança.

Os garotos e os vádios praguejavam, gritavam, riam-­se, assobiavam,

cantavam e imitavam o balido de ovelhas e cabras, e o mugido dos bois,

como se os animaes se recusassem a tomar parte naquelle concerto.

Entrando no terreiro a multidão, crescera a algazarra. Uma chusma de

homens cobertos de andrajos, bem similhante á que estacionava no Olival,

no dia da chegada da mensagem, correra para as boccas das ruas que iam

dar ao rio, obstruindo-as completamente. Quando os guardas dos rebanhos

quizeram abrir caminho para as tercenas, os vadios demonstraram a sua má

vontade com apodos a que responderam os acontiados da behetria com os

contos das azevans, ou as béstas, manejadas em ar de clava. Nesta

destribuição de pancadas foram, como succede muita vez em casos taes,

contemplados bastantes innocentes. Um bésteiro, querendo chegar a um

velhaco, feriu no rosto uma mulher, levada para o centro do motim pelas

ondas de povo. O sangue, correndo pelas faces da pobre creatura,

indignou alguns circumstantes, que só a curiosidade alli trouxera.

--Fazei praça, exclamou d'entre elles um burguez, fazei praça, mas com

tento. Guardai os virotes para castelhanos escismaticos. Em recontro ou

batalha talvez o braço não ande tão destro.

O acontiado fez um gesto como de quem ia empregar syllogismo

contundente; mas a prudencia o aconselhou melhor, e contentou-se com

redarguir:

--Cuidai no vosso mester, bom homem, e deixae-­me. Onde pozeram a mira

estes velhacos sei eu. Não lhes passa ha mezes pelas goelas bocado de

cabrito, e querem fazer bôdo com algum que filem.

--Olha o outro! gritou um petintal. Se não comemos cabrito todos os

dias, comemos pão; mas amassamol-o com o nosso suor: não o vamos roubar

pelas padeiras. Os tagantes do aljube ainda teem a pelle de dous dos

vossos! Nós não nos servimos das adagas para cortar escarcellas de

mercadores encontrados fóra d'horas.

--Muito nos custa a viver! acudiu uma gôrda cidadôa, e mais custará

agora que levam todo isso para Lisboa.

--E não parará ahi, disse um dos companheiros de Pedro Choca do meio da

turba: vai quanto mantimento se encontra pela redondesa e ha na cidade.

--Se os de Lisboa estão cercados pelos de Castella, que façam como

fizemos em Leça: se por lá estão minguados de mantimentos, tambem não

nos sobejam.

--E os do arcebispo ainda não foram desta tão malferidos, que não possam

voltar, disse uma voz. Alguns corredores teem sahido de Braga.

--É verdade, é verdade! berraram ao mesmo tempo dez ou doze mesteiraes.

Os de Lisboa que se avenham como poderem.

--Teem braços como nós.

--E não havemos de finar-nos á mingua. Os mercadores mandam boas dobras.

--E a prata da Sé vai tambem!

--Já os alvazires carregaram uma galé de armas, e de Coimbra e Montemór

vieram outras.

--Que se contentem com isso, e com o biscouto e farinha que embarcaram!

--Deixai que não faltará, louvado Deus, mantimento na cidade, embora

levem tudo isso ao Mestre.

--Fallais assim redarguiu um dos queixosos, voltando para o ordeiro, que

proferira estas ultimas palavras, porque se um pão de praça vos custar

dous reaes brancos, tendel-os na arca! Nem mealha deixaremos embarcar.

--Nem mais tanto como uma unha negra!

Este dialogo, ou esta scena, que se passava ao pé do arco, como nas

tragedias antigas tinha o seu côro n'uma gritaria descompassada de que

seria difficil dar uma ideia. O que sobresahia no meio de tudo, eram os

_vivas_ e os _morras_. Se se perguntasse a cada um dos coristas em

separado porque davam essas vozes, nenhum talvez vol-o diria, a não ser

que confessassem que sentiam a necessidade de gritar, e que na falta de

melhor cousa, aquellas palavras serviam perfeitamente para tudo:

enthusiasmavam, animavam o tumulto, e de mais apregoavam que eram muitos

bons patriotas. Os vivas eram ao Mestre; os morras aos scismaticos:

levar a mal aquella berraria, ninguem podia levar.

Do lado opposto a algazarra era a mesma, com pequenas variantes.

Os conductores de gado e os guardas embrulhados pela chusma não tratavam

já senão de se deslimdarem della, e de acudir aos rebanhos.

Alguns amotinados tinham, para desembaraçar o terreiro, conduzido a

maior parte do gado graúdo para as azenhas: ovelhas e cabras, essas

corriam em todas as direcções. Para cumulo da confusão, quando Pedro

Choca e os seus companheiros persuadiam o povo a que se dirigissem ao

paço episcopal ou á casa do municipio, dous touros, enfurecidos ou

assustados pelo ruido e negaças d'alguns garotos, tinham aberto caminho

para o lado da Esnoga, derribando e maltractando algumas creanças e

mulheres. A culpa do desastre era dos amotinados; mas todos elles á uma

tinham procurado origem mais remota, e lançaram aos vereadores e bons

homens que tinham ordenado a remessa dos mantimentos. Um velhaco

lembrara-se de juntar aos «morras» da ordem um aos «alvazires, que

queriam matar o povo á fome» e entre multidão, mesteiraes, que horas

antes teriam dado a sua ultima pogea, se para sua senhoria lh'a

pedissem, repetiram aquelle grito.

Uma voz ampliou-o:

--Morram os traidores, que querem dar cabo da arraia miuda para entregar

a cidade aos de Castella!­

--Morram os traidores! uivou a chusma.

E apparecia já o alvitre de se ir em procura de alguns alvazires, e até

mesmo de os tractarem como ao arrabi-menor, quando dois daquelles

appareceram no terraço do arco de S. Domingos. Ruy Pereira, que vira

rebentar o alvoroço, mandara-os chamar e a alguns bons homens para que

socegassem os animos como podessem. O tio de Nuno Alvares, a principio

tivera, ao ouvir o arruido, vontade de baixar ao terreiro e cortar

naquella villanagem, que de cabeça tão levantada, insolente e turbulenta

trazia o Deffensor; mas, apenas mandara sellar o seu cavallo, a reflexão

lembrou-lhe a inconveniencia de um tal passo, e ­a reminiscencia poz-lhe

diante dos olhos os tumultos de Lisboa e Evora e tantas outras terras do

reino. O mensageiro do mestre, contentou-se, pois, em desabafar em

pragas, em dar duas grandes punhadas sobre a mesa, e desappareceu pelo

lado da cerca­ do convento onde pousava, para não se ver obrigado a

aturar o bom povo, deixando as authoridades municipaes em apuros. Não

eram fortes em rhetorica os bons homens, e a pouca que lhes concedera a

natureza fugira assustada.

Os velhacos, dando por elles saudaram-nos com uma ladainha de apôdos que

faria pasmar ao leitor pela quantidade e pelo desusado.

A arraia do terreiro tinha grande vantagem sobre os burguezes do arco:

para o attaque bastavam palavras soltas, ou mesmo gritos inarticulados;

para a defesa, para satisfazer as exigencias de Ruy Pereira, era

necessario um discurso, pequeno ou grande, mas um discurso.

Os alvazires e mais cidadãos que os acompanhavam, depois de se empuxarem

e acotovellarem uns aos outros, por bom espaço de tempo, tinham

resolvido, ou antes forçado o mais bojudo e o mais endinheirado d'entre

elles a tomar a palavra, e o nosso homem depois de um gesto bastante

solemne feito ao bom povo; depois de tossir e escarrar, como o faria, ao

encetar um sermão, o frade mais sabedor do convento de a pár, balbuciára

uma ou duas duzias de palavras. É de crêr que fossem boccados de ouro;

mas asseverál-o ninguem, a não serem os collegas, o poderia fazer, pois,

quasi nada perceberam no terreiro os que lhe quizeram prestar attenção.

Uma grande parte não lh'a dava, e continuava a formular as suas queixas

ou accusações.

--Querem dar cabo do povo, e entregar a cidade aos de Castella!

--Morram os traidores!

--Morram os scismaticos.

--Amigos, tornou o alvazir levantando a voz, logo que a tempestade

popular serenou mais; o Mestre nosso regedor e defensor se encomendou ás

vossas boas lealdades, e vos mandou dizer que, como este reino andava

todo revolto com desvairadas tenções...

--E bem desvairadas são as que tendes! exclamou cortando a palavra ao

orador, um amotinado, pouco reverente para com o plagio da mensagem de

Ruy Pereira, de que em apuros aquelle se valera.

O pobre homem, olhou em torno de si espantado; limpou o suor, que lhe

corria em bagas pela fronte; tossiu de novo; poz a mão no peito para

tomar um ar mais solemne, e começou novo aranzel:

--Todos vós sabeis que esta cidade levantou voz pelo Mestre...

--Viva o Mestre! Alcacere por sua senhoria! gritou a chusma...

--Todos vós sabeis, repetiu o alvazir, que esta cidade deu voz pelo

Mestre, que jurou defender-nos e amparar-nos, e tambem sabeis que el-rei

de Castella veio sobre Lisboa com toda a sua gente...

--Morram os castelhanos! gritaram do terreiro.

O illustre orador, como hoje lhe chamariam, se ele vivesse, as gazetas,

orgãos ou respiradouros do partido em que se tivesse lançado; o illustre

orador, vendo que não havia com tal gente meio de atar duas phrases sem

uma interrupção, tratou, já desesperado, de resumir o seu discurso:

--O regedor mandou pedir a esta boa cidade que lhe enviassem todas as

galés e barcos que fosse possivel armar e equipar, e bem assim

mantimentos e dinheiros, os quaes--­ajuntou o bom do alvazir, como se

entre os amotinados houvesse alguem que com tal se importasse--­como

filho de el-rei que é, por toda a sua verdade jurou pagar muito bem...

--E ressuscita os que tiverem morrido á fome? perguntou um velhaco, que

subira acima de um poial, arrimado ao arco, e de braços cruzados, com

gesto zombeteiro encarava o orador.

--Morram os traidores!

--O regedor não quer que matem o povo!

--Viva o Mestre!

--Fora os alvazires, gritou Pedro Choca.

--Fora, fora! vozearam d'entre a multidão.

O orador tornou a limpar o suor, que se tornava copioso e frio cada vez

mais, e ainda tentou proseguir; mas a sua má estrella quiz que ao

examinar o seu auditorio désse de novo com os olhos no velhaco do poial.

O maldito riu-se, e fez-lhe um esgar; e risada e esgar seccaram-­lhe

completamente a prosa na garganta. O bojudo cidadão bateu com a lingua

nos dentes, soltou dous ou tres sons, estendeu os braços, e meneou-os,

como se pertencesse á seita dos mestres pedreiros que, pouco havia,

tinham concluido os muros da cidade, ou quizesse nadar em secco; mas nem

uma palavra mais conseguiu formular, nem com todos aquelles tregeitos

exprimir uma ideia.

A atrapalhação do orador deu incremento ao alvoroço, e os bons-homens

que tentaram substituir aquelle na tribuna, não conseguiram um momento

de attenção. Era este o estado das cousas, quando Gonçalo Domingues e

Fernando, appareceram no terreiro, vindos do lado do Palmeirim. Mestre

Gonçalo e o compadre, que já encontramos no campo do Olival, tinham sido

os encarregados de arranjar o gado, e portanto a sua apparição trouxe

áquellas cabeças ­ desorientadas a ideia de que uma boa parte da culpa

dos males que receiavam, delles provinham. O acolhimento foi pois o

menos amavel possivel. As relações de mestre Gonçalo com o judeu Moyses,

em quem o povo já fizera justiça a seu modo, foi a primeira pecha que

lembrou a alguns dos amotinados, e mal lhes lembrou, logo foi lançada em

rosto. A chusma fez côro, como fazia a todas as lembranças, e o bom

burguez ficou perplexo: fez-se vermelho e fez-se amarello quasi ao mesmo

tempo, e o caso não era para menos. Quem não respeitava nem bispos, nem

abbadessas, não era muito que desacatasse um forçureiro, por mais

endinheirado que fosse. Não era mesmo naquellas circumstancias o

dinheiro carta de seguro; bem pelo contrario: era mais uma razão para

temores.

Gonçalo Domingues, impallidecendo, agarrou-se ao braço do sobrinho e

quiz retroceder; mas a rectaguarda estava-lhe já cortada, e entre

ameaças foi levado pela multidão até junto do paiol, onde se empoleirára

o vadio que seccára a eloquencia ao orador do arco. Fernando tomado de

assombro seguiu o tio. O sangue do mancebo, porém, não era o do velho, e

a vozearia, os insultos bem depressa o fizeram ferver. O primeiro

impulso do namorado de Irene, recuperada a exaltação que o dominava

desde o recontro de Leça, e levado por assomos de cholera foi o de se

lançar contra os amotinados. Desembaraçando-­se das mãos de seu tio,

atirou-se a um mesteiral, que junto do rosto daquelle erguera o punho

cerrado, e ia ser victima talvez dos seus brios, quando dous braços

musculosos seguraram o seu antagonista, e uma voz, que devia ser

conhecida de alguns dos que se mostravam mais enfurecidos contra mestre

Gonçalo, exclamou:

--Ter mão rapazes!

Pedro Choca vira Fernando Vasques ameaçado e correra em seu auxilio. O

velhaco, apesar de tudo, não deixava de ser um bom patriota, de ter o

seu enthusiasmo pelos defensores da arraia meuda. Conhecia Fernando do

assalto ao bailiado, e o denodo do mancebo fizera com que elle o tivesse

na conta de um heroe, contra o qual não levantára mão, nem consentira

que se levantasse por todo o dinheiro que lhe dessem.

As suggestões e os tornezes do capellão de Ayres Gonçalves, e mesmo o

prazer de fazer arruido não eram as unicas causas que o tinham feito

estafar os pulmões; frei Garcia gastára tempo e algumas malgas de vinho

para o convencer de que entre os alvazires havia partidarios de

Castella, que tinham tido o negregado pensamento de se vingarem do povo,

por meio da fome, fingindo que serviam ao mestre. Que Fernando pactuasse

com traidores não acreditava porém, o velhaco, e por isso repetiu com ar

ameaçador, vendo que alguns animos ainda se mostravam hostis ao mancebo:

--Que ninguem lhe toque em um cabello da cabeça, senão commigo tem de se

haver!

--A traidor, como a traidores! gritou o mesteiral, querendo

desembaraçar-se da prisão em que estava.

--Traidor, quem tomou uma bandeira aos gallegos, quem eu vi atirar-se a

esses perros como se os virotes fossem palheiras?!

--Se não é traidor, é por elles, que vale o mesmo. Que tem elle com esse

forçureiro de má morte!

--Que enriqueceu furtando ao peso.

--E mais sabe Deus se era cabrito ou cão o que dantes vendia!

--E agora comprou o gado todo, para nos deixar á fome!

--Mentis! exclamou Fernando, respondendo a estes capitulos de accusação;

mentis!

--Ahi o tendes! ponde a mão no fogo por elle! resmungou um dos vadios,

dirigindo-se a Pedro Choca.

--Se tão bom é um como o outro! ajuntou uma mulher. O rapazelho é filho,

ou cousa que o valha do forçureiro.

Pedro Choca coçou a cabeça, e olhou para Fernando com ar indeciso, mas

logo formulou este raciocinio:

--O mancebo era incapaz de pactuar com os inimigos do Defensor, e

protegia Gonçalo Domingues logo a não quadrava tambem o appellido de

traidor.

--Se é pae do meu homemsinho é outro caso, exclamou em seguida,

voltando-se para os circumstantes. Deve ser dos nossos.

Gonçalo Domingues, vendo que alguem mais de que o sobrinho vinham em seu

auxilio, tartamudeou.

--Domingues Pires ou Affonso Eannes, se aqui estivessem vol-o diriam!

--Que resmunga elle?

--Acoberta-se com o trato que tem com Domingues Pires?

--Sim, sim; mas tambem era dos amigos do perro Moyses! se ouviu dentre a

multidão.

A arraia meuda, como se baptisára o povo naquella quadra, tresvairada,

estreitára o circulo formado á volta do burguez e as suas intenções

pareciam ser bem pouco pacificas, quando Fernando, saltou acima do

poial, abandonado pelo companheiro de Pedro Choca. A vis oratoria,

molestia que se dá em quadras revoltas como sezões em terrenos

alagadiços, acommettera tambem o namorado de Irene. O rapaz emprehendia

tarefa espinhosa, como os respeitaveis edis o podiam attestar,

commettia, pode-se avançar uma loucura; mas é sabido que neste mundo por

vezes as loucuras aproveitam mais do que as cousas pensadas. Fernando

tivera uma idea, que vos fará rir talvez leitor, e que podia ter entre

os amotinados o mesmo, ou peior acolhimento; porem que foi agua em

fervura, como diz o povo. Fora uma idea feliz, uma idea luminosa a do

mancebo.

--Metteram-vos em cabeça que vos queriam matar á fome... porque se

embarca alguma carne na esquadra! exclamou elle: mas não se lembrou

ninguem de que todos os miudos cá ficam.

--É verdade?! acudiu com outros Pedro Choca, que desfazia agora, por

causa do seu heroe, a obra para que concorrera; é verdade!

--E depois? interrogou um mesteiral, embasbacado.

--E depois com tanta forçura, com tanta miudagem de todo esse gado não

se morre á fome.

--E a carne não é cousa que engasge a arraia muita vez no anno! observou

o vadio.

--Demais, proseguiu o mancebo, aos corredores gallegos nós os

ensinaremos, e haverá ahi mantimentos de sobra. Para dez scismaticos

basta um portuguez. A gente que foi a Leça e Santo Thyrso está ahi, e

antes da chegada das galés os do Porto esperaram a pé quedo os do

arcebispo, sem que elles se atrevessem a vir ás mãos comnosco. Deixai ir

as galés...

--Quem as quita? exclamou um mesteiral, a quem aquellas palavras tinham

inflamado o orgulho patrio. Se os de Lisboa carecem de nós, nós não

carecemos delles. Não nos atraiçoem os de casa...

--De casa... aqui neste boa cidade não ha traidores, atalhou o namorado

de Irene; aqui, ninguem põe o seu braço em almoeda: as lanças e ascumas

dos populares não teem preço!

­--Como certas espadas.

O mancebo apesar das interrupções, de approvação agora, não se calou.

Surprehendendo, como vimos, os amotinados com a primeira lembrança que

tivera, lançando por instincto mão dos argumentos melhores em taes

circumstancias, proseguiu appellando para os brios do povo, appellando

com a convicção de ser attendido, e o rumor levantado pouco a pouco em

torno de si provar-lhe-hia, se a isso désse attenção, se elle mesmo não

se enthusiasmasse com as suas palavras, que senão havia enganado. Quando

terminou o descontentamento da arraia, estava convertido em abnegação

civica, em enthusiasmo patriotico. O povo tem, como o oceano, destas

mudanças repentinas. Pedro Choca, cuja bossa decididamente era a de

vivorio, encarregou-se de dar expansão aos sentimentos que o agitavam.

--Viva Fernando Vaz! que... gritou elle; mas não pôde proseguir, porque

o distrahiu e engasgou uma pancada em um hombro e uma voz zombeteira,

que lhe dizia ao ouvido:

--Assim é que sua mercê trabalha nas tercenas?

O impulso estava porém dado, e Choca, desapparecendo, pois bem

reconhecera pela amabilidade da pancada e da voz a presença do pae dos

velhacos, deixava de novo o rico forçureiro em suores nos apertos da

ovação do sobrinho. O nome de Fernando Vasques era bastante popular

desde o recontro de Leça... pelo que demonstravam os successos, mais do

que a pessoa.

Quando Pedro se eclypsava com os seus companheiros, os acontiados do

municipio, ha pouco apupados, arrebanhavam sem a menor opposição o gado

que se espalhára pelos campos das azenhas. Os planos de Ayres Gonçalves

goravam completamente, graças sobretudo ao namorado de Irene. O rapaz,

tivera, repetimos, uma ideia feliz, e soubera tocar no fraco dos

amotinados melhor do que os alvazires, que no convento ainda discutiam,

embaraçados, a maneira de darem conta da sua missão. Falho o expediente

do alcaide de Gaya, as indecisões dos seus nobres companheiros tinham de

ser cortadas pela emulação dos caudilhos.

Os portuenses davam o primeiro passo para obterem em chrisma uma alcunha

que tinha de durar seculos; mas a honra da cidade estava salva. O pae

dos velhacos capitaneava os vadios, que, juntos com os besteiros,

levavam o gado ás tercenas, e os mesteiraes, que momentos antes tão

descontentes se mostravam acompanhavam-nos, berrando:

--Viva o Mestre de Aviz! Viva a arraia meuda do Porto!

Os tripeiros romance-chronica do seculo XIV · 第 21 / 26 题