Irene.
Ma son, mentre ella piange, i suoi lamenti
Rotti da un chiaro suon oh'a lei ne viene...
TASSO. Ger. lib. cant. VII.
E a linda Irene, a filha de João Ramalho?
Irene, das primeiras fallas trocadas com Fernando, colheu um resultado
quasi igual ao que este obtivera. A impressão primeira foi a da alegria.
Deslembrada da apparição de mestre Gonçalo, quando foi ao encontro da
cuvilheira, que a chamára, a physionomia illuminára-se, reproduzindo
toda a felicidade que lá ia por dentro naquelle coração. Á pergunta que
lhe fizeram, mas não ouviu, respondeu com um abraço na velha, que, mal
affeita, pela sua rabuje, a taes carinhos, abriu grandes olhos, e o
espanto desta subiu ainda, levando-a a benzer-se, quando viu que, sem
lhe prestar attenção, a moça começou a entoar uma copla de amores,
desses cavalheirescos amores da epocha. Aquella alma de virgem saudava o
enfloramento da nobre paixão que no seio lhe germinára, e a velha, como
Gonçalo Domingues a respeito de Fernando, nem se quer pensou que nessa
exaltação entrasse por alguma cousa o mancebo, de quem já havia notado
os passeios em frente da casa--o que a levára a fazer-lhe carrancas de
sobrecenho capazes de affugentar qualquer outro que não fosse um
namorado.
--A menina Irene namorar! a menina que depois da morte da nossa ama
tenho creado com todos os cuidados?! pensava ella com os seus botões,
quando lhe vinham desconfianças, ou as visinhas, pela sésta, no cavaco
quotidiano que tinha depois de arranjados prateis, agomias, sartã,
pucaros e mais aprestes de cosinha, notavam o volver d'olhos de um ou
outro alindado da terra.
A tia Genoveva tinha de si para si que o coração de Irene se abriria só
quando ella, ou o senhor João Ramalho muito bem quizessem.
As tias Genovevas ainda hoje não são raras.
A linda moça, quando a deixou a cuvilheira, insensivelmente começou a
reflectir nas palavras de Fernando, e pouco a pouco no semblante e no
coração começou a tristeza a vencer. A pobre não sabia que o amor se não
traduz bem em palavras, e esmorecera pensando que podia não ser amada,
ao passo que bem sentia definir-se-lhe no seio a paixão; e quando, noite
cabida, a velha trouxe para o quarto de trabalho um velador do qual
pendia um graúdo candil, não respondeu ás «boas noites» dadas, possuida
de sentimento bem diverso do que horas antes a distrahira. Ainda mais: a
tia Genoveva, ao espiar a roca e terminar a ultima ave-maria da coroa
que todas as noites rezava á Senhora da Silva, para a ter por sua
intercessora; a tia Genoveva notou uma lagrima a balouçar-se nas cilias
da linda joven, como aljofre matutino nos estames de uma flor.
--Porque chora, menina? perguntou a velha criada tomando-lhe o rosto
entre as mãos, para melhor se certificar de que não era illusão sua
aquelle pranto.
--Chorar... eu? murmurou Irene, limpando os olhos.
--Sim, a menina. Então não veem o espanto que faz?
--É que eu não choro... Porque havia de chorar?
--Porque? Ora sei eu o porque?
--Nem eu...
--Credo! Anjo bento da minha guarda! Feitiço por certo lhe fizeram! De
tarde a rir e a cantar como uma louquinha, e a fazer-me momices
carendeiras; agora a choramingar sem que nem para que! É quebranto,
menina... é feitiçaria; e bem fará em pôr esta noite debaixo da
almadraquexa um ramo de arruda.
A velha atinava: que maior feitiçaria que a do amor não póde haver. Só
elle tem o privilegio de dar a uma palavra ecco que, por vezes, dura até
com elle se casar já bem fraco o das ultimas preces: de perpetuar uma
imagem ante os olhos até que os cerre o frio osculo da morte.
Pranto e risos, succedendo-se rápidamente sem explicação para quem os
vê, sem explicação mesmo para quem os sente humedecer as faces, ou
descerrar os lábios, são em geral o resultado vulgar do toque da vara do
grande feiticeiro: emquanto o feitiço conserva toda a força, o pranto é
como os chuveiros de Maio, que veem como para fazer ressaltar o sol que
lhes succede, ou como os orvalhos de Junho, que refrigeram as flores;
quando o feiticeiro se ausenta, o riso é como o luar em noites de
Fevereiro, quando tudo é silencio: contrista como elle,· traz
melancholia. As lagrimas da linda filha de João Ramalho eram chuveiros
de Maio. Correndo á vontade sobre o travesseiro, em que não pozera a
arruda, não lhe imprimiam nas faces a aridez; regavam, permitta-se mais
esta imagem entre tantas, o amor que, como no sobrinho de Gonçalo
Domingues, repetimos, se definira naquella tarde.
O amor na juventude, no sexo que chamamos fragil, porque nós, que nos
dobramos a todo o momento a seus pés, lhe esmigalhamos o coração em um
circulo de ferro chamado positivismo, realidade e conveniencia, quasi
sempre nasce entre lagrimas, lagrimas das que chorava Irene quando
repetia baixinho, comsigo, o nome de Fernando; lagrimas que rebentam
espaçadas, se demoram nas palpebras, e descem lentas pelo rosto.
No outro dia muitas vezes correu a moça namorada á janella da praia,
muitas á que dava para o lado do monte, e impacientou-se e
entristeceu-se quando viu cahir a tarde sem apparecer o sobrinho do
forçureiro; no domingo, durante a missa do dia, na velha igreja de S.
Pedro, fez cochichar umas poucas de comadres, que lhe ficavam na
rectaguarda, tantas foram as vezes que voltou, durante o officio, a
cabeça para o lado da porta, e ainda mais se impacientou e entristeceu
quando, feitas ante todas as imagens as estações que eram da devoção da
senhora Genoveva, regressou a casa sem vêr uma sombra rastejando ao lado
della (que olhar face a face, de perto, para Fernando, nunca a gentil
menina olhara) sem ouvir certas passadas, que distinguia de todas as
outras e lhe causavam uma impressão nervosa agradavel.
Neste descontentamento, sentada na varanda, que tentamos já descrever,
prestava attenção a todos os ruidos, quando a velha criada com quem João
Ramalho havia conferenciado depois de jantar, arrastando um tamborete de
pau e umas contas com que se entretinha todas as vezes que não
trabalhava ou dava á lingua, lhe veio fazer companhia. Genoveva
engorolou um _pater_ e tossiu; engorolou outro _pater_ e tossiu outra
vez; terceiro _pater_ a meio e mais prolongada foi a tosse, e, ao
findar, a esta juntou um arrastar de tamborete e um suspiro. Era
evidente que rebentava por fallar; porém a sua joven ama estava bastante
distrahida para notar todos aquelles preparativos oratorios. A velha
ainda se resignou a fazer passar mais algumas contas, a mudar o
tamborete da direita para a esquerda e a passar na tosse do _piano_ ao
_forte_, do _moderato_ ao _vivace_ e até á _furia_; mas vendo que era
trabalho perdido, pousou o rosario, puchou a touca, crusou os braços
sobre a barriga e exclamou:
--A menina que tem?
--Nada, respondeu Irene, olhando pela abertura da zelozia para o céu,
que mostrava um azul soberbo.
--Nada! Então eu estou cega; ha dias que não sei o que tem... anda
triste!...
--Triste? atalhou Irene, com um desses sorrisos, que se denunciam como
contrafeitos. Ainda esta manhã me disse que andava com a cabeça no ar, e
achou que ria como louca... não sei quando...
--Sim, sim: veja se me engana com esses risinhos sêccos, menina. Por
mais que faça não me faz acreditar que não está magoada. Eu desconfio
que...
--De que? interrogou Irene, fazendo-se vermelha, julgando ser do
sentimento dominante no seu coração que lhe iam fallar.
--Nada, nada. O senhor seu pae não lhe fallou... não lhe deu a
entender...
--Meu pae, tornou a joven sobresaltada, não me disse cousa alguma...
--É que... pensei...
--O que, Genoveva? Que tinha meu pae a dizer-me?
--Nada, nada; respondeu a velha, recomeçando de novo o rozario.
--Não, alguma cousa era! Diga, diga, Genoveva; meu pae está de mal
commigo?
--De mal! elle que não vê outra cousa, que a traz nas palminhas das
mãos, apesar daquelle modo assim de poucas palavras?! Se se amofina é...
--Acabe! supplicou a joven.
--Triste já está a menina; para que a entristecer mais? disse a criada
mastigando. --Não me quer entristecer mais? Pois que ha? exclamou a
filha de João Ramalho, erguendo-se com a anciedade pintada no rosto.
--É... nada, nada, redarguiu a velha. E baixo accrescentou, tornando a
carregar a roca:--Cala-te, bocca. Ora, não ia eu já dizer tudo?
O áparte da cuvilheira, por uma mania que tinha de sempre dar á lingua
para que a ouvissem, pareceu-se com todos os ápartes do theatro, e mais
anciosa ficou Irene.
--Jesus, Genoveva! Succedeu alguma cousa?
--Nada: é que...
--Acabe por uma vez.
--Como tem de ser... porém, olhe, triste já a menina está, e quanto mais
tarde...
--Está a fazer-me mal, minha boa Genoveva! exclamou Irene, juntando e
erguendo as mãos em acção de supplica.
--Ora vejam! mal é que eu lhe não queria fazer; mas visto que teima...
sempre lhe digo: seu pae embarca por estes dias.
--Embarca... disse a joven tornando a sentar-se. Julguei que fosse outra
cousa. Não estou já affeita a vêr partir meu pae, todos os annos, uma,
duas e tres vezes para essas terras de Christo? Se podésse fazer com que
não andasse sobre aguas do mar, exposto; porém...
--Ao mar, atalhou Genoveva, já o senhor João Ramalho está affeito.
Parece que tem todos os santos e santas por elle... e merece-o, que não
ha tempestade que mal lhe faça; e mais dizem que são bem más as da
Inglaterra e Flandres! Mas não é agora só o mar...
--Então que mais é, Genoveva?
--É... que... que volta a Lisboa... e...
--Jesus! agora... que anda a guerra por lá!...
--Deus ha de querer que nenhum mal lhe venha, e eu hei-de recommendal-o
muito á Senhora da Silva e á Senhora do Amparo, as duas santas de mais
valimento que ha no céo... de maiores milagres pelo menos... ao Senhor
S. Pedro, advogado da gente do mar, e ás almas milagrosas! redarguiu a
senhora Genoveva, fazendo uma especie de mesura a cada nome dos beatos
patronos que proferia.
--Bem me dizia o coração que destas náus e galés chegadas me viria mal,
disse Irene recordando-se naquelle instante das palavras de Fernando.
--Mal... mal? Tenha fé em Deus, que é grande peccado descoroçoar assim.
O senhor João Ramalho, seu pae, se anda cuidadoso é por si, menina
Irene: como está já uma moça... eu cá me entendo... quer deixal-a bem
amparada, em logar seguro; que nestes tempos revoltos, e nos que o não
são, todo o cuidado é pouco. Como não vae lobo a redil nem raposa a
gallinheiro senão quando acha a porta mal cerrada e não ha mastins para
açular, queria deixal-a em abrigo seguro, e lembrou-se de um convento.
Já dei recado para uma prima, que tenho, sergente em Entre-Rios, a vêr
como poderei ir fazer companhia á menina...
--Então, Genoveva, vamos para tão longe! exclamou a linda moça com voz
magoada.
--Ainda não é de certo. É precisa licença do senhor D. João Affonso, e
não sei que outras requestas... e como não é para já o caso... por estes
dias...
--Genoveva! Genoveva! gritou do andar terreo o senhor João Ramalho,
fazendo estacar a falladora cuvilheira, que incetando um Padre-nosso em
um tom de voz que, sem offensa da boa da beata, se podia comparar ao
rosnar de um cão, desceu as escadas.
--Virgem santa, valei-me! murmurou a joven fechando uma na outra as
mãos, brancas e delicadas, e deixando sobre o seio pender o rosto, que
não desfeiavam os assomos de tristeza.
Irene assim permaneceu longo tempo, e quando ergueu os olhos orlava-lhe
as palpebras uma côr mais rosada que de costume, e as lagrimas
borbulhavam mais intensas do que as trazidas pela desconfiança de que
Fernando Vasques não correspondesse ao affecto por ella consagrado. Eram
mais intensas, porque junto com as arrancadas pelo amor filial--pois
bemqueria a joven a seu pae, com um extremo inexplicavel, attenta a
rudesa apparente do piloto, se é que uma força occulta a não fazia
corresponder ao sentimento por elle votado ao unico ente que na terra
lhe restava, á imagem de uma esposa adorada com o fogo que empregam
essas almas reconcentradas, os homens que jogam a vida sobre o mais
terrivel dos elementos, e passam dias e noites seguidas a soletrar no
livro da natureza a pagina do infinito, em circulo fachado por céo e
mar;--junto com as saudades e receios por seu pae, se ligavam penas
avultadas pela sua imaginação, suppondo-se já separada, longe de
Fernando, clausurada para a vida talvez; que no amor tudo é coado por um
prisma que engrandece e multiplica os objectos.
Ás lagrimas do travesso moço succedera a resolução: Fernando fizera-se
homem; ás lagrimas de Irene succedia o anniquilamento: póde-se dizer
tambem que se fizera mulher a pobre menina porque: a coroa do seu sexo é
formada por essas perolas nascidas no coração, perolas que resgatam a
propria culpa e a alheia. Para o resgate da humanidade Deus, tornado
homem, deu o seu sangue; para completar essa regeneração, para abrir ás
mulheres as portas da vida, inflar-lhe no seio uma alma, verteu lagrimas
uma virgem.
Irene chorava pela segunda vez, depois que se apoderára do seu coração a
imagem de Fernando, quando lhe veio ferir os ouvidos um som distante e
confuso; confuso porque era grande o arruido que petintaes, espadeleiros
e galeotes faziam na praia, sanctificando o dia do descanço com libações
frequentes de verde e maduro, cidra e outras bebidas. Era o som de um
toque de caça, assobiado por um valente folego. A moça estremeceu,
quando se lhe afigurou reconhecel-o; estremeceu e a alegria repelliu
naquella fronte as nuvens de tristeza com tanta ou mais rapidez de que
nos leva a dar uma ideia dessa mudança. Ergueu-se e correu ao extremo da
varanda, encostou á adufa o ouvido attento a linda namorada; mas
calára-se a marcha, e os berros da chusma iam em um _rinforzando_
prodigioso. Alguns minutos de anciedade assim passou, com o seio a
arfar, os lábios meio-abertos, deixando vêr uma enfiada de dentes alvos
como o fructo das camarinhas, com os olhos brilhantes, fixos, até que
com novo sibilo rompeu um grito da joven, um grito de alegria, e
deixando a varanda subiu a assomar a cabeça por aquella historiada
janella das flores, onde com ella travamos conhecimento.
A cabeça appareceu e desappareceu logo.
Irene soltou outro grito, porque os seus olhos encontraram os de seu
pae, irados, em vez de outros que de certo procurava carinhosos.
Junto com o sibilo, com os gritos, com o bater das adufas da varanda e
portadas da janella--junto, se póde dizer, tal foi a rapidez da
successão--ouviu-se um grande fragor.
A arvore do cercado oscillára e o muro da quelha fôra a terra.
A filha de João Ramalho deixou-se cahir no estrado em que costumava
costurar; o piloto soltou uma praga, e a cabeça da tia Genoveva, que da
cosinha presenceára parte desta scena, appareceu de bocca aberta no
quarto da donzella, persignando-se e abanando a cabeça como um manequim,
pintando em toda esta gesticulação o seu pasmo, e terminando por entre
dentes com esta phrase, que havia de ser, como já fôra, repetida
milhares de vezes:
--Ora fiem-se lá nas innocencias deste tempo! O mundo vai perdido!