VI.

Causa publica e cousas particulares.

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A nenhu era ouvida rezão, nem escuza, que por sua parte dar

quizesse, mas como hum falava dizendo: que fohão he delles; não

havia cousa que lhe desse vida, nem justiça que o livrasse das suas

mãos: e isto era especialmente contra os melhores e mais honrados,

que havia nos logares, dos quaes muitos foram postos em grande

cajão de morte...

FERNÃO LOPES.--Chronic.

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Em quanto Irene soluçava, Tello Rabaldo vociferava, sacudindo a poeira

do gibão, e João Bispo evitava na rêde de bêccos e escadas do bairro a

sanha do bésteiro e de alguns mesteiraes, que o suppunham réo de crime

grave, ou queriam nelle desacatar o alcaide, que viam, como a grande

parte dos nobres, com maus olhos, no terreiro de S. Domingos havia

grande ajuntamento de povo, e na portaria do convento e claustro da

igreja se reuniam os homens bons da cidade, burguezes e cavalleiros; que

a ordenação de D. Diniz era desattendida durante aquelles transtornos,

como o tinha sido por vezes, e depois havia de ser.

Ruy Pereira e a edilidade portuense combinavam os meios, já o sabemos

por via de Luiz Giraldes, de corresponder ao appello do Mestre, e

corriam as cousas ás mil maravilhas. Affonso Eannes Pateiro e Alvaro da

Veiga, bastante compromettidos com a acclamação do novo governo,

juntamente com o rico mercador que fôra despertar Gonçalo Domingues

sopravam em pequenos conciliabulos o enthusiasmo de amigos e conhecidos,

e não perdiam o tempo. Os periodos mais ou menos bombasticos, mais ou

menos curtos, tinham, depois de um ou outro commento, como ponto, a

deslocação de dous ou tres individuos, que se dirigiam a uma mesa

cercada de tamboretes e cadeiras, onde dous homens vestidos de negro, um

redondo, de nariz globuloso e vermelho, outro côr de pergaminho e de

feições angulares, se viam ao par de alguns vereadores, afagando este

com a rama da penna os lábios ressecidos, abanando-se aquelle com um

caderno de papel. Um dos patriotas segredava tres palavras ou quatro ao

ouvido de um dos alvazires; os burguezes diziam outras tantas; os homens

negros traçavam algumas letras e algarismos, que liam em voz alta, e de

tudo isto sahia, póde-se dizer, a Milheira, a Estrella e a Sangrenta, o

levantamento do cerco e bloqueio de Lisboa, a dynastia de Aviz e--quem

sabe?--a salvação e civilisação da Europa. Se julgam paradoxal a ultima

parte, provem como sem os donativos daquelles bons homens se accudiria

ao Mestre; se este não se veria obrigado a tornar real o fingido

embarque para Inglaterra; se, simples João Pires, casaria com a exemplar

filha de João de Ghaunt; se haveria quem formasse um viveiro de

navegantes tão destemidos, arrojados, para devassar a costa d'Africa e

penetrar na Asia pelo Oceano, como o infante D. Henrique; como sem o

córte dado naquellas paragens ao poder ottomano, se lhe sustaria a

carreira victoriosa dos seus estandartes, que chegaram a tremular junto

dos muros de Vienna, na costa da Italia, na Hungria e na Bohemia, que

pendiam bafejados pelas tépidas aragens de Aldjesireh, da Arabia, e

açoutavam os ares impellidos pelos ventos gelados na Polonia, se

espalhavam nas aguas do Mediterraneo, no mar-Negro, no golfo Persico e

no Oceano, e acobertavam os recebedores de pareas até ao Dekan.

Se algumas circumstancias concorreram tambem para este gigante resultado

foram as narradas nos antecedentes capitulos, desde as dos namoros de

Irene com Fernando e de Garifa com João Bispo, até á daquelle virote

quebrado.

Não cuidem que um escriptor consciencioso escreva uma linha só com o fim

de encher papel; que invente um episodio por seu alto recreio: tudo aqui

vem a pello desde o mais somenos facto ao de mais vulto, e os leitores

phylosophos, que esquadrinham os fins moraes, procuram o succo de todo o

livro e folheto, farejam uma ideia em cada letra impressa, acharão neste

romance demonstrações de que grandes successos, que pasmam do mundo, são

como os nevões: um floco de neve, que rola do cimo dos Alpes, ao chegar

ás fraldas destroe casas e plantios; uns bigodes cortados em 1152, ainda

no seculo em que viviam estes nossos heroes, destruia cidades, assim

como as bagatellas acima apontadas salvavam este canto da terra de ser

hoje em dia... um pachalik ou cousa peior.

E João Bispo, Fernando Vasques, e até para muita gente João Ramalho,

Affonso Eannes, Alvaro da Veiga, Domingos Pires das Eiras, Luiz Giraldes

e outros com quem o leitor tomará ainda conhecimento, estavam no

olvido?!

Lamentemos esta má sina de ingratidão pelos grandes homens... que em

vida não tiverem condados d'Ourem, nem terras do Alfeite; lamentemos, e

vamos de novo para S. Domingos.

Ao passo que os burguezes davam que fazer a Gonçalo Pires, escrivão de

chancellaria e ao seu companheiro, na casa do capitulo, bocejavam os

poucos cavalleiros que tinham adherido, como hoje se diz, ao

pronunciamento do Porto, por vontade, ou circumstancias. Dissemos que

bocejavam; pois movimento, acção em poucos se notava, a não ser um

alguns dos recem-chegados de Lisboa, dos quaes o mestre soubera captar a

benevolencia com aquella largueza de mãos, que o deixaria rei das

estradas de Portugal, se não fossem depois as garnachas, de que já se

queixavam então, e em alguns pobres infanções e simples cavalleiros. Ruy

Pereira reunia em volta de si, os dous sobrinhos do rei de Castella, D.

Pedro e Affonso Henriques de Transtamara, misser Manoel Pessanha, João

Rodrigues Guaday, Ayres Pires de Camões, Affonso Furtado e os irmãos

d'Alvalade, e em uma das extremidades da quadra segredavam, ou antes

fallavam quasi por signaes o alcaide de Monsaraz, Affonso Darga, o

irlandez Down-Patrick e o velho fidalgo de Riba-Tua. Do resto, faziam

uns retinir pelo sobrado os acicates dos seus sapatos de ferro, que

vinham em traje de guerra não poucos, outros descançavam nas grandes

cadeiras de espaldar, que os reverendos para alli tinham feito conduzir.

De tempos a tempos um pagem ou um leigo entravam com recado para o tio

do condestavel, ou este fallava a alguns dos seus homens, que

estanceavam á porta, e elles partiam ás carreiras para diversos pontos.

Ruy Pereira tractava de aproveitar o tempo o melhor possivel, como bom

cabo de guerra e bom politico, depois de ter conferenciado com os

influentes da cidade, conferencia que déra em resultado decidir-se que

se chamasse ao partido do defensor o conde Gonçalo, combinação que não

era mais do que uma lisonja aos bons burguezes: pois, soprada pelo

mensageiro de sua senhoria a Domingos Pires, e por este appresentada,

fôra já decidida nos paços de S. Martinho. D. João resolvera comprar o

conde com os bens pertencentes á irmã desthronada, bens que já tinham

servido de engodo a outros. O escolhido para o ajuste do balsão do nobre

senhor, de quem tinham sido já indagadas as ambições--que se iam

encontrar com as de Nuno Alvares, felizmente bastante patriota para

ceder ás circumstancias;--o escolhido fôra o alcaide de Monsaraz,

Gonçalo Rodrigues de Sousa, e devia seguir logo com alguns navios para a

Figueira, emquanto outros iriam correr a costa da Galliza, inquietar em

casa o inimigo, e nos seus barcos, pescarias e alfandegas procurar um

reforço para as arcas exhaustas do thesouro.

O movimento dos pagens, dos sergentes do convento, dos bésteiros e

homens d'armas tinha produzido o ajuntamento da pequena praça ou

terreiro, que ficava em frente do convento, e das tortuosas ruas

visinhas. Na praça, vistas do alto, as cabeças dos curiosos formavam uma

massa, que ondeava como as espigas de trigo sazonado, impellidas pelo

vento, e no meio de borborinho constante, especie de gemer de tempestade

em praia cheia de recifes, surgiam ora estrepitosas gargalhadas, ora

gritos, apodos e vivas. As gargalhadas eram provocadas pelo bôbo da

cidade. O Porto não era uma terra de pouca monta para não ter um bôbo

seu, como qualquer principe, mesmo no meio daquellas calamidades e

sustos, e tinha-o até que não ficava nada a dever aosque se importavam

de França, por aquellas epochas, com o mesmo cuidado com que se haviam

de importar cabelleireiros--o que, entre parenthesis, não quer dizer que

para escolha dos primeiros se expedissem tão gordas personagens como

para o dos segundos--.Voltando ao nosso caso, ao bôbo da cidade: os

leitores que comnosco fazem esta viagem ao seculo XIV e ao terreiro de

S. Domingos, devem confessar que a verba votada no orçamento municipal,

verba insignificantissima, não devia ser chorada. D. Golias era uma

raridade; uma creatura de seis palmos de alto, se tanto, comprehendendo

esta medida uma desmarcada cabeça, cortada de lado a lado no terço

inferior por uma bocca, cousa unica que correspondia naquelle todo ao

nome com que o tinham baptisado. D. Golias áquella bocca, mais do que ao

infésado da estatura e uma mobilidade de feições extraordinaria, devia o

seu emprego e a sua popularidade. Os mesteiraes e burguezes que o

encontraram, vindo do acampamento, onde exercia as suas funcções,

tinham-lhe feito um acolhimento brilhante, uma ovação, e elle,

escarranchado sobre um vádio espadaúdo e meio idiota, com o seu vestido

variega­do e o seu capirote, notavel por duas immensas ore­lhas

asininas, correspondia a tanto extremo disparando, entre esgares e

tregeitos, epygrammas para a direita e esquerda, na portaria do

convento.

Uns bons dous terços destes gracejos, dos mais pesados, eram dirigidos a

nobres senhores ou a alguns ricos burguezes, o que os fazia ser

acolhidos com prazer pela gente da praça.

--Olé, mossem Methusael, D. Methusael, tio Methusael! ginchou elle

sacudindo os cascaveis do vestido e da palheta, dirigindo-se ao

arrabi-menor, que por entre a multidão abria caminho; o vinho que á

socapa comprastes a mestre Manoel do Arco, subiu-vos á cabeça, ou foi

exconjuro que vos trouxe aqui?! Mossem Methusael, as vossas dobras vão

tinir como a minha jornea, e o vinho vae desfazer-se em lagrimas! Não é

verdade, manos, que vai haver juderega dobrada e tresdobrada. Mossem

Methusael antes quer que elles roubem a pequena Lea do que um punhado

das boas barbudas da arca!

O arrabi resmungou algumas pragas, que se perderam entre as risadas do

povo, e appressou o passo, seguindo um cavalleiro, na direcção da

portaria, a fim de em tal companhia ter mais facil accesso.

--Guarda! berrou o bôbo, attravessando a palheta; guarda! Se queres

entrar pede a frei Roque que te lave em agua-benta!

--Tira a tua vara, truão, gritou o cavalleiro, ao pousar o pé no limiar

da porta.

--Arreda, Portugal! tornou Golias; arreda, que ahi vem Castella em peso!

Passe lá, don cavalleiro; eu levanto o meu sceptro e arredo-me, porque

não quero tocar em scismaticos. Don cavalleiro, tornou, quando o fidalgo

subia já a escadaria, tendes novas do mano Garcia Manrique? Quando lhe

ides dar a mão?!

E voltando-se para o leigo porteiro, que, depois de fazer uma grande

reverencia ao nobre recem-chegado, o fitava, espantado da ousadia,

proseguiu:

­--Eh! beguino de má morte, se cuidas que te estás a vêr a espelho de

Veneza, enganas-te: estas orelhas são do capirote. As tuas são mais

compridas e mais felpudas!

Estes e outros gracejos, que não é licito escrever, pois não curava o

truão da polidez da linguagem, nem eram por esses tempos malsoantes

palavras que o são hoje; estes e outros gracejos eram a pedra de toque

da popularidade dos individuos a quem os dirigiam: a gargalhada e os

assobios, as palmas, os grasnidos e murmurios que provocavam, diziam a

conta em que eram tidos. Quando a vaia partia, e o povo se calava, não

insistia o bôbo, certo de que era a personagem aggredida estimada por

aquella boa gente, e não teria, por isso, defensor, se algum syllogismo

contundente fosse servir de censura ás suas burlescas reflexões.

Regulando por este thermometro, o piloto e mercador João Ramalho e

Gonçalo Domingues eram bemquistos na cidade da Virgem. O forçureiro,

sahindo açodado pela porta do convento, esbarrára em cheio com o piloto

que entrava, e do choque resultou a oscillação dos dous corpos, que

procuravam o equilibrio, e um regougo abafado do burguez. A risada foi

inevitavel, pois as pequenas desgraças teem sempre o riso por

caudatario; mas um olhar do pae de Irene engasgou nas fauces de Golias o

motejo.

João Ramalho não vinha para graças.

Ao olhar sevéro dirigido ao bôbo seguiu-se outro lançado a mestre

Gonçalo, que lhe estendia a mão com a costumada lhaneza, e o piloto

começou, quasi sem tomar folego, uma lenga-lenga de recriminações, que

fizeram abrir os olhos do burguez desmarcadamente. Porque se espantava

um, adivinha-o o leitor, porque desabafava o outro a sua cólera, se o

não sabe, aventa-o: Fernando sahira contra ordem expressa da rua dos

Pellames e fôra colhido em flagrante delicto de namoro, acompanhado das

aggravantes circumstancias de escalada e destruição de um muro. O piloto

deduzira de tanto ruido peccado mais gordo do que sonhára o mancebo, e,

como este se lhe tinha salvado da furia, valendo-se da sua agilidade na

carreira, avinha-se com o tio. Mestre Gonçalo Domingues, se naquelle

instante apanhasse a geito o travesso rapaz, de certo o punha em maus

lençoes, tal era a indignação e raiva, traduzidas nas faces em uma côr

arroixada, que lhe incitava a narração deste successo, feita pelo rude

marinheiro. O sangue subia-lhe á cabeça e ameaçava-o com uma apoplexia.

Sem o querer, applicou-lhe o pae de Irene o remedio; porém, continuou a

aggressão tão viva contra o travesso rapaz; chegou a taes ameaças, que o

forçureiro julgou dever fazer algumas observações a esse respeito, e as

observações fizeram desviar o raio de uma cabeça para outra. A culpa

daquelle attentado, tão grave para o cego piloto, era de Gonçalo

Domingues, que não soubera morigerar o seu pupillo; que lhe déra largas

illimitadas; que lhe deixára damnar alma e corpo com ruins paixões. Quem

ouvisse aquella recapitulação de queixas e accusações tomaria o namorado

de Irene por um D. Juan, se Tirso de Molina já tivesse modelado no

_Burlador_ o typo famoso, que, com um arrebique para aqui, uma limadella

para acolá, um nariz de cartão, uma cabelleira empoada, ou os tezos e

cortantes colarinhos de um mylord tem servido a tanta e tão boa gente. O

bom do tio, posto que chofrado, e duvidando de tanto aggravo, julgou o

caso de consciencia, comtudo, e mentalmente resolveu a questão por um

dos lados; por onde a lei, se fossem veridicas as supposições do

forçureiro, a resolveria, mesmo naquelle tempo, visto que não havia

desigualdade de castas. O rico burguez não mettia em linha de conta a

vaidade do piloto, não se recordava tambem de que o commercio e

industria com que se locupletara eram marcados com despreso tradicional,

despreso ecclipsado para as maiorias pelo brilho das dobras, é verdade;

porém não de todo para os mais pechosos. João Ramalho, á primeira phrase

em que o forçureiro dava a entender a sua resolução, feriu-o vivamente

no fraco, e emcambulhando-se as palavras em dialogo alternado, a voz do

tio de Fernando chegava ao diapasão da do pae da linda namorada deste,

quando arruido maior lhes abafou as vozes, e uma onda de povo os

separou, lançando um para um lado, outro para outro.

Para explicar esse alvoroço voltemos outra vez ás assoadas de D. Golias,

o bôbo da cidade.

Como em baile de etiqueta annunciava o maninelo quanto individuo de seu

conhecimento se approximava do mirante semovente, em que se empoleirara,

quando um claro se fez do lado do arco, que dava serventia para as

Cangostas, rua que não desmente­ ainda hoje o nome posto, para a

Bainharia e almuinhas, e appareceu açodado o nosso conhecido João Bispo.

Se a pressa, que mostrava trazer, e o conservar na mão a adaga não

fizessem notada a pessoa do ex-subordinado de Tello, chamariam sobre

elle a attenção os gritos de Golias.

--Upa! acima sineiros da maldição, berrava elle. Os sinos não tangem?

Beguino, frei velhaco! campas e sino grande, tudo a chocalhar! Venha

toda a monjaria de cruz alçada, que chega o senhor bispo, o bispo João!

Sua mercê traz pressa; mas nem por isso deve ser recebido sem as

honrarias de usança. Vá: deitem-lhe agua benta aos olhos, para que não

veja por ahi moura perdida pelas celas!

E terminando a exclamação imitava com a bocca o repique de sinos,

baloiçando-se sobre os hombros do espadaudo vadio, em quanto este, que

não tinha a insensibilidade de campanario, grunhia incommodado pelo

revolver dos pés do bôbo ante os olhos, e arrepelões dados na hirsuta

cabelleira.

A cidade ficava de certo sem o importante Golias; pois que o vadio

estava já disposto a sacudil-o no lagedo, como o besoiro, que lhe

fizesse cocegas no cachaço, e de certo o estatelava, senão se ouvissem

gritos no meio da praça, e o novo bésteiro de Gaya se não viesse

embaraçar, tentando penetrar na portaria, nas pernas da victima do bôbo,

ao mesmo tempo quasi que o acontiado do municipio.

--Castelhano! gritou este, deitando as mãos ao namorado de Garifa,

castelhano, aqui não te valem os fidalgos traidores!

O homem do virote, que sentira subir-­lhe o sangue á cabeça com a ameaça

de Ayres Gonçalves, correra, mal este embarcára, a procurar desafogo em

João Bispo, e mais desesperado pela velocidade da carreira deste e pelo

emmaranhado dos beccos por onde seguira, quando o encontrou, ao dobrar o

arco, sentiu o despeito renascer; o nosso bésteiro, porém, deitou-o no

chão com um cambapé e seguiu caminho. A vontade de tirar desforço do

novo desappontamento trouxe aos lábios do homem do virote aquella

palavra «castelhano». João Bispo correra menos risco quando lhe chamaram

ladrão, entre os bons burguezes, na baixa, do que baptisado com

semelhante nome.

--Castelhano?! exclamaram alguns mesteiraes correndo para junto dos dous

soldados, emquanto João se desembaraçava do seu aggressor.

E um sussurro indicador de que a tempestade, as iras populares estavam

eminentes se levantava no terreiro, ao passo que a portaria era

invadida.

--Mata, mata! gritaram em seguida alguns garotos do outro extremo da

praça; mata o castelhano!

João Bispo sentiu um suor frio correr-lhe pelo corpo todo, e murmurou

dando um salto, encostando-se a uma das hombreiras da porta, e cobrindo

o peito com a adaga:

--Castelhano... castelhano? Quem falla aqui em castelhano? Affastar,

proseguiu em voz mais forte, affastar! Em castelhanos vou eu pôr o dedo.

--Mata, mata! berraram com os garotos alguns dos homens mais

esfarrapados da chusma; e uma pedra veio ferir fogo nos umbraes do

convento.

O amante de Garifa, metteu a mão no seio e tirou uma pequena tira de

pergaminho, ao passo que o bôbo, atterrado com o arremesso de projectis

em semelhante direcção, julgava dever intervir:

--Sús, boa gente; quem chama castelhano a João Bispo? Frei João não foi

sagrado pelo papa dos scismaticos... foi pelo papa dos velhacos.

--Oh! é João Bispo? perguntaram duas ou tres vozes d'entre a chusma.

--João Bispo, ou o bispo João, tornou o bôbo, fazendo mesuras ao

publico, ao qual soubera modificar as iras com o seu gracejo.

O homem do virote via de novo escapar-se-lhe a victima.

--Vêde, vêde, gritou elle apontando para o pergaminho, que o bésteiro

segurava na mão, e tentando apoderar-se delle: vêde como quer esconder

aquillo.

João Bispo levantou o braço para furtar o escripto, que trazia a Ruy

Pereira, á mão do bésteiro do municipio, ao mesmo tempo que Golias

estendia o braço e o apanhava.

--Ui que esgaravunhos! pipitou elle desenrolando a tira. Isto é

esconjuro de bruxa, ou pacto de venda de alma de judeu?

--Ou mensagem para os do arcebispo! resmungou um dos mesteiraes.

--Mensagem para os do arcebispo... disseste a verdade, mal-­cuidando!

accudiu o bésteiro de Gaya, soltando ao mesmo tempo uma praga, e com a

raiva pintada no rosto dando um salto para rehaver o pergaminho.

O escripto voou das mãos do truão assustado para junto de João Ramalho,

que, levantando-o, passou pelos olhos as primeiras linhas:

--Traidor, Gonçalo de Sousa?! exclamou elle.

--Traidor, sim, disse João Bispo; e ainda ha pouco aqui tramou não sei

que outras villanias! Estes cães que trouxe ás pernas não me deixaram...

João não proseguiu. O alcaide de Monsaraz desembocava no pateo,

acompanhado de Affonso Darga, vindo do lado da casa do capitulo. Entre

os mesteiraes entrados na portaria reinava profundo silencio. O joven

cavalleiro fallava com o commandante da flotilha enviada pelo Mestre de

Aviz ás aguas do Douro:

--Senhor Gonçalo de Sousa...

Como João Bispo não acabára a phrase não a acabou tambem Affonso Darga.

João Ramalho dirigira-se para o alcaide, e batendo-lhe com uma das mãos

no hombro, appresentou-lhe o escripto. Aquelle pergaminho apanhara-­o o

ex-­noviço ao capellão de Ayres Gonçalves. Scismando nas palavras

ouvidas atraz do reposteiro, quando, ao regressar de uma visita á

ucharia, se perdera nos lanços de escada e corredores dos paços de Gaya,

pensou que no aposento do frade lhe acharia a explicação. A prova de que

não pensou mal era o ter encontrado alguma cousa, e essa cousa--o

pergaminho--fizera perder a côr ao alcaide de Monsaraz.

Á pallidez, seguiu-se o rubor, e depois de novo a pallidez. Gonçalo de

Sousa sacudiu a mão do mercador, como se fosse um reptil, que lhe

tivesse pousado nos hombros; quiz fallar e a voz prendeu-se-lhe na

garganta; a espuma produzida por um accesso de bilis appareceu-lhe aos

cantos da bocca. O nobre senhor, nesse instante, temia menos as iras das

turbas, sentia menos a deshonra, se deshonra via na sua traição, do que

a ousadia do homem do povo, que assim se arvorava em seu juiz.

--Arreda, villão! gritou, mal a voz se desembaraçou.

--Villão! repetiu João Ramalho, refece é quem assim atraiçoa a terra que

o viu nascer; não é, senhor alcaide?

A voz do piloto tremia; mas não de susto. Gonçalo Rodrigues de Sousa

arrancou-lhe das mãos o pergaminho, e rasgando-o, lançou-lhe os pedaços

ao rosto.

--Quereis resposta? disse elle com um sorriso nervoso, symptoma de um

excesso de raiva; quereis uma resposta? Eil-a... Outra só a darei quando

o meu accusador não fôr da tua ralé.

O punhal de João Ramalho lampejou no ar. O alcaide de Monsaraz contára

aquella hora como a ultima da vida, se uns poucos de mesteiraes e

bésteiros do municipio não fizessem o mesmo, lançando-se sobre elle,

embaraçando-se uns aos outros.

A onda popular, levantada pelas primeiras palavras do homem do virote,

pela accusação feita ao namorado de Garifa, crescera furiosa, estuara no

meio dos gritos de «morra o traidor, o castelhano». A portaria do

convento fôra invadida, esmagado quasi o porteiro, apeiado e pisado o

pobre D. Golias, e azevans, ascumas e agomias luziam ameaçadoras por

cima daquellas cabeças inquietas, como na crista das vagas os flocos de

espuma feridos pelos raios do sol. Quatro braços possantes seguraram o

alcaide, mais já lembrado de que era homem do que fidalgo: Affonso Darga

e uns dous monges, que o quizeram cobrir com o corpo, foram repellidos

em um abrir e fechar d'olhos.

--Ao pelourinho, ao pelourinho! gritou um dos mesteiraes arvorados em

justiceiros. Açoutado e enforcado!...

--Jesus! gritou o dominico, tentando salvar Gonçalo Rodrigues; Jesus! o

que ides fazer é um homizio, e o sangue...

--Vamos fazer justiça. A traidor como a traidor! Peões, não temos cepo

nem cutello; mas temos boas cordas de canave.

--Ao pelourinho, ao pelourinho!

--Morram os traidores!

--Bésteiros, a mim bésteiros! gritou o alcaide de Monsaraz, vendo

apparecer do lado do claustro dous acontiados da esquadra.

--Quem é aqui por traidores?! exclamou um dos que empunhára o alcaide.

Os bésteiros não se moveram. A celeuma na praça crescia.

--Por Christo crucificado! tornou o dominico pacificador, erguendo a

cima da cabeça a imagem do Redemptor. Quem com ferro matar, morrerá pelo

ferro...

--Ide-­vos, homem de Deus; ide-vos, senão quereis que vos tomem por

traidor.

­A voz de Ruy Pereira, avisado do risco em que estava Gonçalo de Sousa,

trovejou por cima daquella celeuma:

--Quem falla aqui em traições? Traidores, se os ha, deixai-os á justiça

do regedor. D. João vol-a fará boa e prompta, bons homens! Senhor

meirinho, senhor meirinho!

--O povo do Porto sabe fazel-a tão bem e tão boa como o de Lisboa.

--Senhor meirinho, senhor meirinho, gritava o tio de Nuno Alvares,

barafustando para se approximar do commandante das galés do Mestre, e

procurando com o vista o meirinho da cidade, que abafava entre os

mesteiraes.

­--Ao pelourinho! vozeavam estes.

Um bésteiro neste momento atravessava o terreiro, soffreando o cavallo

em que montava, para não pisar o povo, nessa occasião soberano em

verdade. Conhecido de alguns dos amotinados, abaixara-se a fallar-lhes,

e pouco e pouco, á proporção que se approximava da portaria do convento,

ao berreiro de «morras» succedia um borborinho destas palavras trocadas

em voz baixa:

--Os gallegos! os gallegos!

--Os gallegos! exclamou o mesteiral que segurava o alcaide e parecia ter

grande influencia nos seus companheiros; os gallegos veem? Boa idéa:

mandar-lhe-hemos este bom cavalleiro para o arraial. As machinas que

estão do lado das Hortas podem com pesos maiores. É uma boa lança que

enviamos aos do arcebispo. Não é para elles que se queria partir?

Uma gargalhada saudou a lembrança, apesar de não ser original.

Gonçalo Rodrigues de Sousa estava salvo com aquelle addiamento das

vinganças populares.

Os tripeiros romance-chronica do seculo XIV · 第 15 / 26 题