Dous namorados.
... Donde amor se atraviesa
No hay padres reverenciados.
(ROMANCES DE GAZUL.)
Fernando, chegando a casa, o melhor predio da rua dos Pellames, ao toque
de Angelus, viu seu tio devorar com todo o appetite uma grande posta de
carneiro e um tassalho de toucinho, capaz do pôr em debandada um
exercito mahometano, regado tudo com o summo da uva. Gonçalo Domingues,
se dava descanço aos dentes, não o dava á lingua, pois incetou, ao
_benedicite_, um sermão, que, ao _gratias_, ainda não estava concluido.
O velho fallou na creação do seu tempo, na obediencia da gente moça á
mais idosa em geral, e em especial áquella de quem se recebe o pão do
corpo e o pão do espirito; discorreu sobre as passadas travessuras do
sobrinho, e foi cahir na ultima, terminando pela ameaça de um sevéro
castigo, em caso de reincidencia. Fernando, ao inverso do tio, não
tocava sequer em uma mealha do pão alvo, que a criada com um prato de
figos passos servira por mimo, e, com os olhos fixos na toalha, não
soltava uma palavra de desculpa. O bom velho, notando aquelle
extraordinario fastio e sizudez, tomou tudo por effeito da sua
eloquencia, conversão e compunção do rapaz, e por um triz esteve, no
final, a addicionar ao sermão um palliativo, tirando o exemplo de casa,
pois que o podia fazer; mas a necessidade da disciplina, de conservar
sempre perante o sobrinho um todo de soberania, um sobrecenho, que
julgava indispensavel, embora não quadrasse com a affeição que lhe
tinha, o detiveram. Fernando era, segundo elle, um estouvado, um leviano
como seu pae, do que déra já provas exuberantes, abandonando, depois dos
estudos, o convento de S. Francisco, então extra-muros, para onde um
outro parente o chamára, a fim de o metter na estrada do céu e do mundo
pela clausura. O que nisto amofinava mais o forçureiro era a boa
disposição que mostrava o mancebo para as letras, a intelligencia
desenvolvida, que nos primeiros tempos fizera dizer a frei Gumeado,
grande sabedor para aquellas epochas, que bem podia vir a aspirar a
grandes dignidades da egreja e do seculo, a ser geral, bispo, ou
chanceller. Todo o rigor, pois, que empregasse era pouco, e despediu-se
do mancebo com toda a solemnidade, para dizer á cuvilheira que, como por
seu voto e lembrança, lhe levasse ao quarto alguma cousa de comer.
Se Gonçalo Domingues soubera qual a attenção que lhe dava o sobrinho, de
certo não fizera semelhante recommendação. É bem certo que os annos
trazem, ás vezes, experiencia e algum saber; mas não é menos certo que á
proporção que vão passando se esquece muita cousa egualmente: aos
sessenta perde-se a memoria dos vinte, senão das acções praticadas, dos
pensamentos havidos; um mancebo póde muito bem avaliar o que não
apreciará, não conseguirá distinguir um homem a quem o inverno da vida
tenha gelado o coração. A prédica entrava tanto na absorpção de
Fernando, como entrava a mensagem do Defensor: as palavras do tio
eccoavam-lhe aos ouvidos como sons vagos, que se não reproduziam no
machinismo regulador chamado intelligencia e outros nomes, segundo a
face por onde é visto, porque sons diversos o impressionavam. As fallas
de Irene, as inflexões, os mais leves gestos preoccupavam-no: de uns e
outros tirava esperanças agora, logo motivos de amofinação; traduzia
agora uma phrase, das poucas obtidas de Irene, por um modo que o coração
trasbordava de alegria, e logo parecia-lhe que o timbre de voz, um nada
sonhado lhe dava bem diverso valor; assignalava aquelle dia como o mais
feliz da vida, e recordando-se do desfecho do colloquio, em seguida;
entristecia-se e amaldiçoava o tio, que o fizera descer do galho da
arvore e dos braços da felicidade. O puxão de orelhas, sobretudo,
doia-lhe, quando o recordava, mais do que lhe doera em Miragaya,
julgando-se aos olhos da sua namorada deshonrado... mais que deshonrado,
ridiculo. Este combate entre o desejo e o receio, durou, trazendo a
insomnia, até altas horas da noite; mas, a final, venceu o desejo, e a
alegria espelhou-se-lhe no rosto. Fernando, nas azas da imaginação;
voava do passado ao futuro, e deste áquelle, amontoando as pedras do seu
castello de felicidade. Deitando-se e apagando a luz sorria a todos os
sonhos creados; sentia como nova vida a inflar-se no peito, e parecia
querer affogar-se em ar, tanto era o que respirava de momentos a
momentos. Junto com a imagem da linda filha de João Ramalho toda a
natureza era risonha naquella miragem: as arvores reproduziam-se mais
verdes, mais cheias de perfumes e mais bellas as flores; as aves nos
cantos diziam todas--alegria; o céu transparente deixava adivinhar além
do manto azul uma segunda vida toda amor. O mancebo vira, bem o podem
acreditar, bastantes vezes o céu, as arvores e as flores, mas nunca se
lhe tinham affigurado assim: como á estatua de Pygmalião, faltava-lhe o
fogo no peito. A lavareda ateára-se naquelle dia, posto que incubasse
havia muito.
Fernando Vasques amava Irene desde que a vira, e vira-a nessa edade em
que se sente um vacuo no coração; a si mesmo confessára já esse amor;
mas definido, claro, só então rebentára: o vácuo enchera-se, e a
trasbordar, e para o encher talvez o amaldiçoado puxão de orelhas, a
primeira grande contrariedade, entrasse por muito: «talvez» dizemos, e
podiamos dizer «certamente.» O amor vive de contrariedades, de luctas,
diz um phisiologista; e como um malicioso accrescentou que por isso só
elle nas mulheres se creava, saibam, acreditem as leitoras que todo o
homem tem no coração o seu tanto ou quanto de mulher, na mocidade
sobretudo, e por isso não perde. As mulheres lucram menos com o que
recebem do homem em geral: não as compensamos. Como diziamos, porém,
deixando reflexões, a correcção de Gonçalo Domingues, e ainda, se
quizerem, as poucas palavras trocadas entre os dous namorados, tinham
ateado a lavareda no peito do mancebo, e um dos effeitos della fôra, de
fazer acordar homem quasi quem se deitára creança.
Fernando, no dia seguinte, não era o mesmo rapaz; o tio notou aquella
differença e attribuio-a ao jejum da vespera, com a mesma prespicacia
com que attribuira a causa delle á sua predica; e para contentar o
rapaz, levou-o de manhã, depois de tractar dos seus negocios e da
politica do dia, a visitar frei Gumeado, que o costumava regalar, apesar
da sua deserção, com gulodices, em que não tocou dessa vez, e de tarde,
a passeio até aos Carvalhos do monte, que assim se chamava o local onde
o cabeçudo parodiador do marquez de Pombal no Porto, o corregedor
Almada, edificou um theatro. O effeito destas amabilidades é facil de
adivinhar. O namorado de Irene, que, voltando com a luz da madrugada á
lucta de esperanças e receios, anceava por occasião de ir buscar um
desengano nos olhos da donzella, preso assim todo o dia, revoltou-se
interiormente contra a tutella do tio e desappontou-o com desabrimentos.
O velho pasmou, benzeu-se, e da compaixão, do arrependimento da aspereza
da vespera cahiu com um mau humor verdadeiro, tomando aquelle
procedimento por ingratidão, protestou que a severidade, que até ahi
lhe ficava nos lábios, ia ser posta em acção, e como assim se revoltára
pelo leve castigo de uma travessura, elle trataria em primeiro logar de
as impedir, não lhe deixando uma hora para folias, nem arredar pé da
loja de pellames; em segundo, se se furtasse á sua vigilancia, de passar
além do puxão de orelhas, dando causa verdadeira a amuos.
No outro dia, um domingo, não se esqueceu do seu protesto o velho
forçureiro, e o desespero do sobrinho augmentou, tanto quanto augmentava
o receio de perder o amor da linda moça; que, se até ao dia em que
conseguira trocar algumas palavras com Irene, muitos se passaram em que
não descera a Miragaya, sem que tanto se amofinasse, aquella meia
declaração e o desfecho mudára as circumstancias: daquellas em que se
encontrava bem podem fazer ideia as leitoras e os leitores, aos quaes a
memoria ainda conserva vivas as paginas da mocidade.
Depois de jantar, porém--refeição que se tomava nessas epochas, mesmo
entre aristocratas, desde as onze ao meio dia, exactamente á hora em que
hoje almoça muita gente--quando Gonçalo Domingues executava, dormindo a
sesta, uma musica que se assemelhava a tempestade em chaminé na
combinação de assobios e notas de contrabasso, appareceu Luiz Geraldes,
o mais respeitavel individuo da burguezia, a procural-o para irem a S.
Domingos, onde se devia tractar do meio de corresponder á confiança que
o mestre de Aviz depositára nos bons cidadãos da terra, assumpto em que
o alvitre do forçureiro era valioso, por se poder traduzir na linguagem
sonora das boas dobras de el-rei D. Pedro; appareceu Luiz Geraldes e com
elle a occasião que desde madrugada esperava e provocára á sombra de
todos os pretextos. Mestre Gonçalo, pois, a sahir, e Fernando a procurar
na arca o seu melhor gibão e o barrete, a alindar-se, e a bater com a
porta da rua na cara da velha creada, que lhe recordava as ordens dadas
pelo tio, avivadas segundos antes, e a trovoada que sobre elle e sobre
ella descarregaria se ou o encontrasse na rua, ou o não achasse em casa,
regressando.
O namorado moço deitou a correr; mas, como em certo apologo, a pressa
foi causa de vagares. Tal era o estado daquella cabeça que tomou o
caminho seguido por seu tio e o grande amigo do Mestre, e ao cabo da rua
da Bainharia esbarrava com elles se um encontrão de um homem d'armas o
não obrigasse a uma pausa, e na pausa a um espadeiro, que se sentava em
um desses balcões ou mostradores que fechavam uma das portas das
estreitas e escuras lojas, conservando nas ruas mais estreitas e não
menos escuras os freguezes, não ouvisse dizer para um visinho que
deitava a cabeça por uma adufa:
--Lá vae em cata de mestre Gonçalo, que dobrou agora mesmo para o
terreiro, o sobrinho... o filho de Vasco, que Deus haja.
Fernando, quiz retroceder; porém, como o bom do espadeiro lhe gritasse
que perto ia Gonçalo Domingues, se o procurava, não teve remedio senão
responder que ia a recado para as Aldas, e enfiar pelo arco de
Sant'Anna, tomar caminho pelo lado da judearia e descer aos Banhos, onde
lhe tolheu o passo o personagem que no capitulo antecedente vimos no
castello de Gaya, surdir por entre o reposteiro.
--Vindes de S. Domingos? interrogou elle, pondo-se diante do mancebo.
--Oh! és tu João Bispo! exclamou Fernando, depois de examinar o rosto do
individuo, assombrado por um farto capuz. Ha muitos dias que te não
vejo.
--É verdade, redarguiu o recem-chegado, dando pelo nome, que ouvimos já
da bocca do pae dos velhacos. É verdade, repetiu; e á palavra ajuntou um
profundo suspiro.
--Que tens, tu? Estás tão triste como quando nos tinham no convento.
--D'onde nunca devêra ter sahido! tornou João, soltando outro suspiro.
--Bem mudado estás, meu folião, ou é isso momice nova?
--Antes fôra, Fernando! antes fôra! mas finaram-se as alegrias.
--Mas, ao que parece, a vida não te vae peor. Gibão novo de barregana...
boa adaga! disse o mancebo, medindo-o de alto a baixo.
--Vesti isto; mas embrulhade em almafega respirava melhor: o saio e as
calças riam-se por todas as costuras, mas eu tambem ria, e agora bem
vedes....
--Vejo que estás sizudo como eremitão, ou mestre em leis, é verdade...
Mas onde assim te pozeram? d'onde vens?
--Do castello.
--Do castello? Tomaste lá moradia e serviço?
--Ou cousa parecida... que não se pode assim dizer de praça...
--Segredo! Ora vejam João Bispo feito escrivão da puridade do alcaide!
exclamou o mancebo, sorrindo e dando alguns passos para seguir seu
caminho.
João segurou-o por um dos braços, e encolhendo os hombros respondeu á
zombaria:
--Mofai, que a vez a todos chega. Algum dia haveis de querer bem a
alguem....
--E por isso te amofinas, quando não tens quem te empeça de a vêr a todo
o momento! redarguiu Fernando, que se não recordou naquelle instante de
outro contratempo em amores, senão do que com elle se dava.
--Vêl-a!... vêl-a! exclamou, tornando a suspirar o vadio. Oh! minha
pobre Garifa!
--Garifa, repetiu Fernando; Garifa... ora espera... Garifa não era
aquella rapariga moura que vinha ao terreiro vender fructa?
João Bispo fez com a cabeça um aceno affirmativo.
--Uma rapariga sempre alegre, que na procissão de _Corpus_ tangia
pandeiro e dançava com tanta desenvoltura, trazendo o vestido cheio de
cascaveis?
--Sim.
--Que tão bem cantava umas cantigas castelhanas?
--Sim.
--Pois bonita era... pena que fosse moura! E tu, João...
--Eu quero-lhe, quero-lhe como se em noite de S. João me fizessem
feitiço...
--E feitiço foi de certo; porque uma moura...
--Não sei se é grande peccado o querer-lhe bem; mas cá para mim tenho
que não. Ella é moura, é; mas...
--É por isso que tão magoado te vejo? Querial-a christã, e casavas.
--Não é, não; é porque m'a roubaram!
--Roubaram-ta?
--Roubaram. Ha uma semana, no sabbado, estava eu na encosta do Olival,
ao pé do regato, á espera della, e eis que vejo o pae, o velho Humeia,
vir direito a mim. O pobre homem chorava como uma creança; as lagrimas
eram como punhos pela cara abaixo e os soluços pareciam affogál-o;
cortava o coração! disse João Bispo, limpando com a manga do gibão os
olhos, sensibilisado ou pela recordação da scena, que narrava, ou pela
desapparição de Garifa. O velho proseguiu, quando pôde começar a fallar,
a pedir-me a filha, dizendo que lh'a entregasse; que bem tinha visto
andar-lhe no seguimento, e na vespera a encontrára ainda alli mesmo a
fallar commigo. Olha, Fernando, fiquei como quando me vieram dizer que
meu pae--Deus o tenha--era finado, e jurei áquelle pobre homem que não
fôra eu que lhe tirára a filha... e commigo pela hostia consagrada jurei
tambem descobrir-lhe a rapariga. O velho acreditou-me, e disse-me
cousas, que não poderei repetir; que não sei bem o que foram; mas que
pelo modo de as dizer me deram um nó na garganta: parecia que tinha
engolido uma maçã inteira. Procurei Garifa. Dous homens foram vistos a
passar o rio nessa noite com uma mulher, me disse um petintal, e corri
tudo em Gaya; alistei-me no troço de Pero Bedoido, para ter occasião de
esquadrinhar todos os cantos do castello; mas vêl-a... vêl-a... ainda a
não vi! Desconfio, porém, que lá esteja, e se lá estiver, ai do
rausador! Olhai, elles deram-me esta adaga, e eu trago-a bem afiada, os
ouvidos attentos e os olhos abertos!
João Bispo, ao soltar estas ultimas palavras, baixou a voz e um veo
sinistro lhe assombrou a fronte; por alguns instantes permaneceu calado,
e proseguiu depois, vendo que o sobrinho de Gonçalo Domingues parecia
atterrado com semelhante confidencia:
--A alegria não póde durar sempre. Desde que, morto meu pae, que por
força me queria vêr tonsurado, fiz uma reverencia ao guardião, dei um
cascudo no porteiro e me fiz velhaco, visto que no convento não apprendi
officio e de sujeição estava farto, bem vestido, mal vestido, mais
trapo, menos trapo, barriga mais cheia ou menos, tinha quasi todo o
santo dia os dentes á amostra; agora veio um revez...
--Não és só tu, João, que os tens; eu...
--Que lhe fizeram, atalhou o vadio; diga, que eu dou uma ensinadella,
e...
--É negocio em que nada podes. Não sabes, João, disse o mancebo, pondo a
mão no hombro do seu antigo companheiro, e chegando-lhe a bocca perto do
ouvido, como em segredo; não sabes... eu tambem quero a uma rapariga
como ás meninas dos meus olhos. Oh! é mais bonita que a tua!
--É, disse João Bispo, com um meio sorriso.
--Muito mais; porém, meu tio, tenho eu para mim...
--Não quer?
--Parece-me que não.
--É pobre?
--Pobre!... repetiu Fernando Vasques, encolhendo os hombros.
--Mestre Gonçalo Domingues é rico, e...
O namorado de Irene, ouvindo o nome do tio, lançou em torno de si os
olhos, como se receiasse que alli apparecesse; lembrou-se que passava o
tempo e elle podia, de volta a casa, não o encontrar, se fosse grande a
demora; recordou a causa do seu passeio, e fazendo um gesto de
despedida, deu alguns passos em direcção á porta da cidade.
--Se fôr necessario o antigo companheiro das folias, não o poupeis. Os
meus trapos nunca vos fizeram voltar o rosto, quando nos encontramos, e
hei de mostrar que não tendes feito mal, Fernando, disse o ex-noviço,
estendendo ao mancebo um pulso que não era fraco. Ah! exclamou em
seguida; não vindes do lado de S. Domingos?
--Não.
--Nem pelo caminho vistes o alcaide de Gaya?
--Não.
--E que tens a vêr com o senhor alcaide, meu velhaco? disse uma voz, que
logo João Bispo reconheceu por ser de Tello Rabaldo.
--Ah! sois vós! murmurou o interpellado, visivelmente contrariado por
aquella apparição, em quanto Fernando deitava a correr pela rua abaixo.
--Vosso servo, tornou o pae dos velhacos, tirando com ar zombeteiro o
seu barrete e segurando pelo capuz a João Bispo. O fidalgo de certo que
só com fidalgos tem tracto e por elles procura; porém como está em
behetria, para não haver desaguisado, pondo-o fóra, dou-lhe companhia
mais chã; mas que lhe fará bom agasalho. Vamos! exclamou mudando de tom;
para as tercenas já!
--Senhor Tello, porém...
--Vais seccar a goella sem proveito.
--Senhor Tello, quizera fallar a Ruy Pereira.
--Agora é com Ruy Pereira! Grandes são os negocios! Bravo! continuou o
pae dos velhacos, medindo João Bispo de cima abaixo, como minutos antes
fizera o sobrinho de Gonçalo Domingues, e como elle admirando a mudança
que na roupa havia; bravo! Parece que vamos ter contas graves a ajustar!
Cortaste bolsa, ou arrombaste a porta a mercador ou algibebe para vires
assim garrido?
--Sou bésteiro do rei.
--Bésteiro do rei desde quando, velhaco? desde que fugiste com a filha
do velho Humeia?
--Está excommungado! crédo! gritou uma velha do pequeno ajuntamento que
se fizera á volta dos dous interlocutores. Ter contractos com aquella
condemnada moura, aquella...!
A mulher disse nome que lhe valeu de João Bispo um murro, que levava a
força proporcional á raiva que lhe causára a abelhuda comadre,
insultando Garifa.
--Olhem o maldito! gritaram duas companheiras da aggredida. Onde está a
justiça? Que faz o senhor bispo que o não manda açoutar bem açoutado? E
attreve-se em rosto do senhor Tello...
--Calem a bocca, serpentes! berrou o pae dos velhacos, fazendo um gesto
e meneando o seu bastão.
--Serpentes? grunhiu a velha, segurando com a mão os dentes que o socco
pozera em vesperas de despedida.
--Serpentes? pipitou uma das novas, esganiçando-se.
--Serpentes? resmungou a outra, ferrando os pulsos nas ancas.
--Serpentes! gritaram, grunhiram e pipitaram entre gargalhadas e em
todos os tons os garotos que já embaraçavam o transito.
Tello Rabaldo viu a sua dignidade compromettida, o que não poucas vezes
acontecia, e tractou de a salvar pelos meios usados ainda hoje em
embaraços--pela força; e como á mão não tivesse se não a sua, foi dessa
que se serviu. Segurando sempre o namorado da moura pela extremidade do
capirote, fez rodizo com o seu bastão; tomando-o pela parte superior, e
uma escala salteada de «ais» e «uis» sahiu dentre a roda de curiosos e
curiosas, que augmentava.
--O senhor alcaide! Ahi vem Ayres Gonçalves! gritaram duas vozes quasi
ao mesmo tempo.
--Tolhido sejas tu, maldito! resmungou João Bispo, lançado em apuros com
semelhante apparição.
--Senhor Pero! senhor Pero Bedoido! berrou o pae dos velhacos, para o
capitão de bésteiros, que, seguindo o alcaide de Gaya, se dispunha a
embarcar para o castello, e desepparecia por um dos postigos.
--Já nada faço, disse comsigo o ex-noviço deitando o olho a vêr se o
capitão accudia ao chamamento. A pelle corre-me agora grande risco, se
desconfiam de mim. Com a bocca no pixel não os apanho já!
--Olé, senhor Pero! sua mercê não me diz se este velhaco tomou serviço?
proseguiu Tello, querendo arrastar comsigo João Bispo, mais talvez para
á sombra do capitão dos bésteiros se fazer acatar, do que pela
curiosidade de saber se o namorado de Garifa lhe mentira, ao que estava
bastante affeito, para regular a sua justiça pelo humor em que o
apanhavam e não por depoimentos e confissões. Em materia de confissões
dava fé ás feitas em potro, ou de borzeguins, quando estava de boa
feição, e felizmente não era isto raro.
--Grande velhaco! continuou, dirigindo a palavra ao seu prisioneiro;
ainda ha pouco não tinhas que dizer a todos os fidalgos? Mais depressa
se pilha um mentiroso do que um côxo.
Pero Bedoido, ouvindo a voz do pae dos velhacos, parára junto do
postigo, que dava sobre a margem do rio, e retorcendo o bigode piscava
os olhos para concentrar os raios visuaes afim de melhor reconhecer quem
o chamava. Ayres de Figueiredo parára igualmente.
Quem não deve não teme. João Bispo sentia os seus arripios pelos lombos,
porque um pensamento, que o leitor experto, e que de certo se recorda do
dialogo apanhado atraz do reposteiro, adivinhará, o punha, na
consciencia, em hostilidade com o nobre alcaide, e se na presença delle
Tello Rabaldo de novo se referisse á entrevista que pretendia ter com o
tio de Nuno Alvares, a vida corria-lhe grave risco. João não tinha,
porém, cursado em vão os estudos em S. Francisco e a eschola pratica de
velhacarias dos terreiros, praças e bitesgas da cidade da Virgem, para
não achar um expediente bom ou mau com que se sahisse de apuros,
momentaneamente que fosse. Tello segurava-o, tendo-o quasi esganado pela
extremidade do capirote, e o cabeção deste fechava no peito e garganta
por meio de quatro grossos botões. Desabotoado estava livre.
--Senhor Tello, senhor D. Tello?! murmurou o rapaz, levando as mãos já
aos botões, e esgotando no submisso, no plangente da voz, e naquelle
«dom», o ultimo recurso oratorio.
--Ah! perro, velhaco! Eu te...
O pae dos velhacos não concluiu a phrase: um cascudo que preparava como
paga da nobilitação dada ao seu nome, deu-o no ar, e com o costado no
mesmo momento apalpou o chão, depois de abalroar com as canellas de
alguns curiosos.
Um côro formado de um unisono de gargalhadas e de gritos ensurdeceu os
visinhos que enchiam as janellas e atulhavam as portas. As gargalhadas
provocara-as o desastre de Tello; os gritos soltaram-nos os que abriam
caminho a João Bispo. O amante de Garifa deixando o capirote na mão do
pae dos velhacos, que perdera o equilibrio, mettera mãos á adaga e
corria na direcção da Ferraria.
Ao passar em frente do postigo um acontiado da behetria tomou um virote
para lhe embargar o passo.
Ayres Gonçalves, ao mesmo tempo que Pero Bedoido, reconhecendo no
fugitivo um dos seus homens, lhe sustava o arremesso, gritou em voz bem
alta para chegar aos ouvidos de João:
--Perro, villão, se tocas n'um dos meus homens!...
E a mão do fidalgo pousou como complemento de phrase no punho do
estoque.
O acontiado fez uma careta de despeito, baixou o virote, e quando o
fidalgo voltou costas, deu com elle com uma força tal d'encontro á
parede, que o fez voar em hastilhas, resmungando:
--Perros e villões... perros e villões! A nossa vez ha de chegar,
traidores, scismaticos!