IV.

Dous namorados.

... Donde amor se atraviesa

No hay padres reverenciados.

(ROMANCES DE GAZUL.)

Fernando, chegando a casa, o melhor predio da rua dos Pellames, ao toque

de Angelus, viu seu tio devorar com todo o appetite uma grande posta de

carneiro e um tassalho de toucinho, capaz do pôr em debandada um

exercito mahometano, regado tudo com o summo da uva. Gonçalo Domingues,

se dava descanço aos dentes, não o dava á lingua, pois incetou, ao

_benedicite_, um sermão, que, ao _gratias_, ainda não estava concluido.

O velho fallou na creação do seu tempo, na obediencia da gente moça á

mais idosa em geral, e em especial áquella de quem se recebe o pão do

corpo e o pão do espirito; discorreu sobre as passadas travessuras do

sobrinho, e foi cahir na ultima, terminando pela ameaça de um sevéro

castigo, em caso de reincidencia. Fernando, ao inverso do tio, não

tocava sequer em uma mealha do pão alvo, que a criada com um prato de

figos passos servira por mimo, e, com os olhos fixos na toalha, não

soltava uma palavra de desculpa. O bom velho, notando aquelle

extraordinario fastio e sizudez, tomou tudo por effeito da sua

eloquencia, conversão e compunção do rapaz, e por um triz esteve, no

final, a addicionar ao sermão um palliativo, tirando o exemplo de casa,

pois que o podia fazer; mas a necessidade da disciplina, de conservar

sempre perante o sobrinho um todo de soberania, um sobrecenho, que

julgava indispensavel, embora não quadrasse com a affeição que lhe

tinha, o detiveram. Fernando era, segundo elle, um estouvado, um leviano

como seu pae, do que déra já provas exuberantes, abandonando, depois dos

estudos, o convento de S. Francisco, então extra-muros, para onde um

outro parente o chamára, a fim de o metter na estrada do céu e do mundo

pela clausura. O que nisto amofinava mais o forçureiro era a boa

disposição que mostrava o mancebo para as letras, a intelligencia

desenvolvida, que nos primeiros tempos fizera dizer a frei Gumeado,

grande sabedor para aquellas epochas, que bem podia vir a aspirar a

grandes dignidades da egreja e do seculo, a ser geral, bispo, ou

chanceller. Todo o rigor, pois, que empregasse era pouco, e despediu-se

do mancebo com toda a solemnidade, para dizer á cuvilheira que, como por

seu voto e lembrança, lhe levasse ao quarto alguma cousa de comer.

Se Gonçalo Domingues soubera qual a attenção que lhe dava o sobrinho, de

certo não fizera semelhante recommendação. É bem certo que os annos

trazem, ás vezes, experiencia e algum saber; mas não é menos certo que á

proporção que vão passando se esquece muita cousa egualmente: aos

sessenta perde-se a memor­ia dos vinte, senão das acções praticadas, dos

pensamentos havidos; um mancebo póde muito bem avaliar o que não

apreciará, não conseguirá distinguir um homem a quem o inverno da vida

tenha gelado o coração. A prédica entrava tanto na absorpção de

Fernando, como entrava a mensagem do Defensor: as palavras do tio

eccoavam-lhe aos ouvidos como sons vagos, que se não reproduziam no

machinismo regulador chamado intelligencia e outros nomes, segundo a

face por onde é visto, porque sons diversos o impressionavam. As fallas

de Irene, as inflexões, os mais leves gestos preoccupavam-no: de uns e

outros tirava esperanças agora, logo motivos de amofinação; traduzia

agora uma phrase, das poucas obtidas de Irene, por um modo que o coração

trasbordava de alegria, e logo parecia-lhe que o timbre de voz, um nada

sonhado lhe dava bem diverso valor; assignalava aquelle dia como o mais

feliz da vida, e recordando-se do desfecho do colloquio, em seguida;

entristecia-se e amaldiçoava o tio, que o fizera descer do galho da

arvore e dos braços da felicidade. O puxão de orelhas, sobretudo,

doia-lhe, quando o recordava, mais do que lhe doera em Miragaya,

julgando-se aos olhos da sua namorada deshonrado... mais que deshonrado,

ridiculo. Este combate entre o desejo e o receio, durou, trazendo a

insomnia, até altas horas da noite; mas, a final, venceu o desejo, e a

alegria espelhou-se-lhe no rosto. Fernando, nas azas da imaginação;

voava do passado ao futuro, e deste áquelle, amontoando as pedras do seu

castello de felicidade. Deitando-se e apagando a luz sorria a todos os

sonhos creados; sentia como nova vida a inflar-se no peito, e parecia

querer affogar-se em ar, tanto era o que respirava de momentos a

momentos. Junto com a imagem da linda filha de João Ramalho toda a

natureza era risonha naquella miragem: as arvores reproduziam-se mais

verdes, mais cheias de perfumes e mais bellas as flores; as aves nos

cantos diziam todas--alegria; o céu transparente deixava adivinhar além

do manto azul uma segunda vida toda amor. O mancebo vira, bem o po­dem

acreditar, bastantes vezes o céu, as arvores e as flores, mas nunca se

lhe tinham affigurado assim: como á estatua de Pygmalião, faltava-lhe o

fogo no peito. A lavareda ateára-se naquelle dia, posto que incubasse

havia muito.

Fernando Vasques amava Irene desde que a vira, e vira-a nessa edade em

que se sente um vacuo no coração; a si mesmo confessára já esse amor;

mas definido, claro, só então rebentára: o vácuo enchera-­se, e a

trasbordar, e para o encher talvez o amaldiçoado puxão de orelhas, a

primeira grande contrariedade, entrasse por muito: «talvez» dizemos, e

podiamos dizer «certamente.» O amor vive de contrariedades, de luctas,

diz um phisiologista; e como um malicioso accrescentou que por isso só

elle nas mulheres se creava, saibam, acreditem as leitoras que todo o

homem tem no coração o seu tanto ou quanto de mulher, na mocidade

sobretudo, e por isso não perde. As mulheres lucram menos com o que

recebem do homem em geral: não as compensamos. Como diziamos, porém,

deixando reflexões, a correcção de Gonçalo Domingues, e ainda, se

quizerem, as poucas palavras trocadas entre os dous namorados, tinham

ateado a lavareda no peito do mancebo, e um dos effeitos della fôra, de

fazer acordar homem quasi quem se deitára creança.

Fernando, no dia seguinte, não era o mesmo rapaz; o tio notou aquella

differença e attribuio-a ao jejum da vespera, com a mesma prespicacia

com que attribuira a causa delle á sua predica; e para contentar o

rapaz, levou-o de manhã, depois de tractar dos seus negocios e da

politica do dia, a visitar frei Gumeado, que o costumava regalar, apesar

da sua deserção, com gulodices, em que não tocou dessa vez, e de tarde,

a passeio até aos Carvalhos do monte, que assim se chamava o local onde

o cabeçudo parodiador do marquez de Pombal no Porto, o corregedor

Almada, edificou um theatro. O effeito destas amabilidades é facil de

adivinhar. O namorado de Irene, que, voltando com a luz da madrugada á

lucta de esperanças e receios, anceava por occasião de ir buscar um

desengano nos olhos da donzella, preso assim todo o dia, revoltou-se

interiormente contra a tutella do tio e desappontou-o com desabrimentos.

O velho pasmou, benzeu-se, e da compaixão, do arrependimento da aspereza

da vespera cahiu com um mau humor verdadeiro, tomando aquelle

procedimen­to por ingratidão, protestou que a severidade, que até ahi

lhe ficava nos lábios, ia ser posta em acção, e como assim se revoltára

pelo leve castigo de uma travessura, elle trataria em primeiro logar de

as impedir, não lhe deixando uma hora para folias, nem arredar pé da

loja de pellames; em segundo, se se furtasse á sua vigilancia, de passar

além do puxão de orelhas, dando causa verdadeira a amuos.

No outro dia, um domingo, não se esqueceu do seu protesto o velho

forçureiro, e o desespero do sobrinho augmentou, tanto quanto augmentava

o receio de perder o amor da linda moça; que, se até ao dia em que

conseguira trocar algumas palavras com Irene, muitos se passaram em que

não descera a Miragaya, sem que tanto se amofinasse, aquella meia

declaração e o desfecho mudára as circumstancias: daquellas em que se

encontrava bem podem fazer ideia as leitoras e os leitores, aos quaes a

memoria ainda conserva vivas as paginas da mo­cidade.

Depois de jantar, porém--­refeição que se tomava nessas epochas, mesmo

entre aristocratas, desde as onze ao meio dia, exactamente á hora em que

hoje almoça muita gente--quando Gonçalo Domingues executava, dormindo a

sesta, uma musica que se assemelhava a tempestade em chaminé na

combinação de assobios e notas de contrabasso, appareceu Luiz Geraldes,

o mais respeitavel individuo da burguezia, a procural-o para irem a S.

Domingos, onde se devia tractar do meio de corresponder á confiança que

o mestre de Aviz depositára nos bons cidadãos da terra, assumpto em que

o alvitre do forçureiro era valioso, por se poder traduzir na linguagem

sonora das boas dobras de el-rei D. Pedro; appareceu Luiz Geraldes e com

elle a occasião que desde madrugada esperava e provocára á sombra de

todos os pretextos. Mestre Gonçalo, pois, a sahir, e Fernando a procurar

na arca o seu melhor gibão e o barrete, a alindar-se, e a bater com a

porta da rua na cara da velha creada, que lhe recordava as ordens dadas

pelo tio, avivadas segundos antes, e a trovoada que sobre elle e sobre

ella descarregaria se ou o encontrasse na rua, ou o não achasse em casa,

regressando.

O namorado moço deitou a correr; mas, como em certo apologo, a pressa

foi causa de vagares. Tal era o estado daquella cabeça que tomou o

caminho seguido por seu tio e o grande amigo do Mestre, e ao cabo da rua

da Bainharia esbarrava com elles se um encontrão de um homem d'armas o

não obrigasse a uma pausa, e na pausa a um espadeiro, que se sentava em

um desses balcões ou mostradores que fechavam uma das portas das

estreitas e escuras lojas, conservando nas ruas mais estreitas e não

menos escuras os freguezes, não ouvisse dizer para um visinho que

deitava a cabeça por uma adufa:

--Lá vae em cata de mestre Gonçalo, que dobrou agora mesmo para o

terreiro, o sobrinho... o filho de Vasco, que Deus haja.

Fernando, quiz retroceder; porém, como o bom do espadeiro lhe gritasse

que perto ia Gonçalo Domingues, se o procurava, não teve remedio senão

responder que ia a recado para as Aldas, e enfiar pelo arco de

Sant'Anna, tomar caminho pelo lado da judearia e descer aos Banhos, onde

lhe tolheu o passo o personagem que no capitulo antecedente vimos no

castello de Gaya, surdir por entre o reposteiro.

--Vindes de S. Domingos? interrogou elle, pondo-se diante do mancebo.

--Oh! és tu João Bispo! exclamou Fernando, depois de examinar o rosto do

individuo, assombrado por um farto capuz. Ha muitos dias que te não

vejo.

--É verdade, redarguiu o recem-chegado, dando pelo nome, que ouvimos já

da bocca do pae dos velhacos. É verdade, repetiu; e á palavra ajuntou um

profundo suspiro.

--Que tens, tu? Estás tão triste como quando nos tinham no convento.

--D'onde nunca devêra ter sahido! tornou João, soltando outro suspiro.

--Bem mudado estás, meu folião, ou é isso momice nova?

--Antes fôra, Fernando! antes fôra! mas finaram-se as alegrias.

--Mas, ao que parece, a vida não te vae peor. Gibão novo de barregana...

boa adaga! disse o mancebo, medindo-o de alto a baixo. ­

--Vesti isto; mas embrulhade em almafega respirava melhor: o saio e as

calças riam-se por todas as costuras, mas eu tambem ria, e agora bem

vedes....

--Vejo que estás sizudo como eremitão, ou mestre em leis, é verdade...

Mas onde assim te pozeram? d'onde vens?

--Do castello.

--Do castello? Tomaste lá moradia e serviço?

--Ou cousa parecida... que não se pode assim dizer de praça...

--Segredo! Ora vejam João Bispo feito escrivão da puridade do alcaide!

exclamou o mancebo, sorrindo e dando alguns passos para seguir seu

caminho.

João segurou-o por um dos braços, e encolhendo os hombros respondeu á

zombaria:

--Mofai, que a vez a todos chega. Algum dia haveis de querer bem a

alguem....

--E por isso te amofinas, quando não tens quem te empeça de a vêr a todo

o momento! redarguiu Fernando, que se não recordou naquelle instante de

outro contratempo em amores, senão do que com elle se dava.

--Vêl-a!... vêl-a! exclamou, tornando a suspirar o vadio. Oh! minha

pobre Garifa!

--Garifa, repetiu Fernando; Garifa... ora espera... Garifa não era

aquella rapariga moura que vinha ao terreiro vender fructa?

João Bispo fez com a cabeça um aceno affirmativo.

--­­Uma rapariga sempre alegre, que na procissão de _Corpus_ tangia

pandeiro e dançava com tanta desenvoltura, trazendo o vestido cheio de

cascaveis?

--­Sim.

--Que tão bem cantava umas cantigas castelhanas?

--Sim.

--Pois bonita era... pena que fosse moura! E tu, João...

--Eu quero-lhe, quero-lhe como se em noite de S. João me fizessem

feitiço...

--E feitiço foi de certo; porque uma moura...

--Não sei se é grande peccado o querer-lhe bem; mas cá para mim tenho

que não. Ella é moura, é; mas...

--É por isso que tão magoado te vejo? Querial-a christã, e casavas.

--Não é, não; é porque m'a roubaram!

--Roubaram-ta?

--Roubaram. Ha uma semana, no sabbado, estava eu na encosta do Olival,

ao pé do regato, á espera della, e eis que vejo o pae, o velho Humeia,

vir direito a mim. O pobre homem chorava como uma creança; as lagrimas

eram como punhos pela cara abaixo e os soluços pareciam affogál-o;

cortava o coração! disse João Bispo, limpando com a manga do gibão os

olhos, sensibilisado ou pela recordação da scena, que narrava, ou pela

desapparição de Garifa. O velho proseguiu, quando pôde começar a fallar,

a pedir-me a filha, dizendo que lh'a entregasse; que bem tinha visto

andar-lhe no seguimento, e na vespera a encontrára ainda alli mesmo a

fallar commigo. Olha, Fernando, fiquei como quando me vieram dizer que

meu pae--Deus o tenha--era finado, e jurei áquelle pobre homem que não

fôra eu que lhe tirára a filha... e commigo pela hostia consagrada jurei

tambem descobrir-lhe a rapariga. O velho acreditou-me, e disse-me

cousas, que não poderei repetir; que não sei bem o que foram; mas que

pelo modo de as dizer me deram um nó na garganta: parecia que tinha

engolido uma maçã inteira. Procurei Garifa. Dous homens foram vistos a

passar o rio nessa noite com uma mulher, me disse um petintal, e corri

tudo em Gaya; alistei-me no troço de Pero Bedoido, para ter occasião de

esquadrinhar todos os cantos do castello; mas vêl-a... vêl-a... ainda a

não vi! Desconfio, porém, que lá esteja, e se lá estiver, ai do

rausador! Olhai, elles deram-me esta adaga, e eu trago-a bem afiada, os

ouvidos attentos e os olhos abertos!

João Bispo, ao soltar estas ultimas palavras, baixou a voz e um veo

sinistro lhe assombrou a fronte; por alguns instantes permaneceu calado,

e proseguiu depois, vendo que o sobrinho de Gonçalo Domingues parecia

atterrado com semelhante confidencia:

--A alegria não póde durar sempre. Desde que, morto meu pae, que por

força me queria vêr tonsurado, fiz uma reverencia ao guardião, dei um

cascudo no porteiro e me fiz velhaco, visto que no convento não apprendi

officio e de sujeição estava farto, bem vestido, mal vestido, mais

trapo, menos trapo, barriga mais cheia ou menos, tinha quasi todo o

santo dia os dentes á amostra; agora veio um revez...

--Não és só tu, João, que os tens; eu...

--Que lhe fizeram, atalhou o vadio; diga, que eu dou uma ensinadella,

e...

--É negocio em que nada podes. Não sabes, João, disse o mancebo, pondo a

mão no hombro do seu antigo companheiro, e chegando-lhe a bocca perto do

ouvido, como em segredo; não sabes... eu tambem quero a uma rapariga

como ás meninas dos meus olhos. Oh! é mais bonita que a tua!

--É, disse João Bispo, com um meio sorriso.

--Muito mais; porém, meu tio, tenho eu para mim...

--Não quer? ­

--Parece-me que não.

--É pobre?

--Pobre!... repetiu Fernando Vasques, encolhendo os hombros.

--Mestre Gonçalo Domingues é rico, e...

O namorado de Irene, ouvindo o nome do tio, lançou em torno de si os

olhos, como se receiasse que alli apparecesse; lembrou-se que passava o

tempo e elle podia, de volta a casa, não o encontrar, se fosse grande a

demora; recordou a causa do seu passeio, e fazendo um gesto de

despedida, deu alguns passos em direcção á porta da cidade.

--Se fôr necessario o antigo companheiro das folias, não o poupeis. Os

meus trapos nunca vos fizeram voltar o rosto, quando nos encontramos, e

hei de mostrar que não tendes feito mal, Fernando, disse o ex-noviço,

estendendo ao mancebo um pulso que não era fraco. Ah! exclamou em

seguida; não vindes do lado de S. Domingos?

­--Não.

--Nem pelo caminho vistes o alcaide de Gaya?

--Não.

--E que tens a vêr com o senhor alcaide, meu velhaco? disse uma voz, que

logo João Bispo reconheceu por ser de Tello Rabaldo.

--Ah! sois vós! murmurou o interpellado, visivelmente contrariado por

aquella apparição, em quanto Fernando deitava a correr pela rua abaixo.

--Vosso servo, tornou o pae dos velhacos, tirando com ar zombeteiro o

seu barrete e segurando pelo capuz a João Bispo. O fidalgo de certo que

só com fidalgos tem tracto e por elles procura; porém como está em

behetria, para não haver desaguisado, pondo-o fóra, dou-lhe companhia

mais chã; mas que lhe fará bom agasalho. Vamos! exclamou mudando de tom;

para as tercenas já!

--Senhor Tello, porém...

--Vais seccar a goella sem proveito.

--Senhor Tello, quizera fallar a Ruy Pereira.

--Agora é com Ruy Pereira! Grandes são os negocios! Bravo! continuou o

pae dos velhacos, medindo João Bispo de cima abaixo, como minutos antes

fizera o sobrinho de Gonçalo Domingues, e como elle admirando a mudança

que na roupa havia; bravo! Parece que vamos ter contas graves a ajustar!

Cortaste bolsa, ou arrombaste a porta a mercador ou algibebe para vires

assim garrido?

--Sou bésteiro do rei.

--Bésteiro do rei desde quando, velhaco? desde que fugiste com a filha

do velho Humeia?

--Está excommungado! crédo! gritou uma velha do pequeno ajuntamento que

se fizera á volta dos dous interlocutores. Ter contractos com aquella

condemnada moura, aquella...!

A mulher disse nome que lhe valeu de João Bispo um murro, que levava a

força proporcional á raiva que lhe causára a abelhuda comadre,

insultando Garifa.

--Olhem o maldito! gritaram duas companheiras da aggredida. Onde está a

justiça? Que faz o senhor bispo que o não manda açoutar bem açoutado? E

attreve-se em rosto do senhor Tello...

--Calem a bocca, serpentes! berrou o pae dos velhacos, fazendo um gesto

e meneando o seu bastão.

--Serpentes? grunhiu a velha, segurando com a mão os dentes que o socco

pozera em vesperas de despedida.

--Serpentes? pipitou uma das novas, esganiçando-se.

--Serpentes? resmungou a outra, ferrando os pulsos nas ancas.

--Serpentes! gritaram, grunhiram e pipitaram entre gargalhadas e em

todos os tons os garotos que já embaraçavam o transito.

Tello Rabaldo viu a sua dignidade compromettida, o que não poucas vezes

acontecia, e tractou de a salvar pelos meios usados ainda hoje em

embaraços--pela força; e como á mão não tivesse se não a sua, foi dessa

que se serviu. Segurando sempre o namorado da moura pela extremidade do

capirote, fez rodizo com o seu bastão; tomando-o pela parte superior, e

uma escala salteada de «ais» e «uis» sahiu dentre a roda de curiosos e

curiosas, que augmentava.

--O senhor alcaide! Ahi vem Ayres Gonçalves! gritaram duas vozes quasi

ao mesmo tempo.

--Tolhido sejas tu, maldito! resmungou João Bispo, lançado em apuros com

semelhante apparição.

--Senhor Pero! senhor Pero Bedoido! berrou o pae dos velhacos, para o

capitão de bésteiros, que, seguindo o alcaide de Gaya, se dispunha a

embarcar para o castello, e desepparecia por um dos postigos.

--Já nada faço, disse comsigo o ex-noviço deitando o olho a vêr se o

capitão accudia ao chamamento. A pelle corre-me agora grande risco, se

desconfiam de mim. Com a bocca no pixel não os apanho já!

--Olé, senhor Pero! sua mercê não me diz se este velhaco tomou serviço?

proseguiu Tello, querendo arrastar comsigo João Bispo, mais talvez para

á sombra do capitão dos bésteiros se fazer acatar, do que pela

curiosidade de saber se o namorado de Garifa lhe mentira, ao que estava

bastante affeito, para regular a sua justiça pelo humor em que o

apanhavam e não por depoimentos e confissões. Em materia de confissões

dava fé ás feitas em potro, ou de borzeguins, quando estava de boa

feição, e felizmente não era isto raro.

­­--Grande velhaco! continuou, dirigindo a palavra ao seu prisioneiro;

ainda ha pouco não tinhas que dizer a todos os fidalgos? Mais depressa

se pilha um mentiroso do que um côxo.

Pero Bedoido, ouvindo a voz do pae dos velhacos, parára junto do

postigo, que dava sobre a margem do rio, e retorcendo o bigode piscava

os olhos para concentrar os raios visuaes afim de melhor reconhecer quem

o chamava. Ayres de Figueiredo parára igualmente.

Quem não deve não teme. João Bispo sentia os seus arripios pelos lombos,

porque um pensamento, que o leitor experto, e que de certo se recorda do

dialogo apanhado atraz do reposteiro, adivinhará, o punha, na

consciencia, em hostilidade com o nobre alcaide, e se na presença delle

Tello Rabaldo de novo se referisse á entrevista que pretendia ter com o

tio de Nuno Alvares, a vida corria-lhe grave risco. João não tinha,

porém, cursado em vão os estudos em S. Francisco e a eschola pratica de

velhacarias dos terreiros, praças e bitesgas da cidade da Virgem, para

não achar um expediente bom ou mau com que se sahisse de apuros,

momentaneamente que fosse. Tello segurava-o, tendo-o quasi esganado pela

extremidade do capirote, e o cabeção deste fechava no peito e garganta

por meio de quatro grossos botões. Desabotoado estava livre.

--Senhor Tello, senhor D. Tello?! murmurou o rapaz, levando as mãos já

aos botões, e esgotando no submisso, no plangente da voz, e naquelle

«dom», o ultimo recurso oratorio.

--Ah! perro, velhaco! Eu te...

O pae dos velhacos não concluiu a phrase: um cascudo que preparava como

paga da nobilitação dada ao seu nome, deu-o no ar, e com o costado no

mesmo momento apalpou o chão, depois de abalroar com as canellas de

alguns curiosos.

Um côro formado de um unisono de gargalhadas e de gritos ensurdeceu os

visinhos que enchiam as janellas e atulhavam as portas. As gargalhadas

provocara-as o desastre de Tello; os gritos soltaram-nos os que abriam

caminho a João Bispo. O amante de Garifa deixando o capirote na mão do

pae dos velhacos, que perdera o equilibrio, mettera mãos á adaga e

corria na direcção da Ferraria.

Ao passar em frente do postigo um acontiado da behetria tomou um virote

para lhe embargar o passo.

Ayres Gonçalves, ao mesmo tempo que Pero Bedoido, reconhecendo no

fugitivo um dos seus homens, lhe sustava o arremesso, gritou em voz bem

alta para chegar aos ouvidos de João:

--Perro, villão, se tocas n'um dos meus homens!...

E a mão do fidalgo pousou como complemento de phrase no punho do

estoque.

O acontiado fez uma careta de despeito, baixou o virote, e quando o

fidalgo voltou costas, deu com elle com uma força tal d'encontro á

parede, que o fez voar em hastilhas, resmungando:

--Perros e villões... perros e villões! A nossa vez ha de chegar,

traidores, scismaticos!

Os tripeiros romance-chronica do seculo XIV · 第 13 / 26 题