CHRONICA DE D. JOÃO 1.^o

Uma cidade da peninsula, no seculo XIV, não era um aggregado de

individuos vivendo, como hoje, debaixo da mesma lei--segundo reza a lei,

entenda-se. Afóra as distincções de classes e senhorios diversos, havia

a distincção de crenças, e a separação era visivel nas grossas cadeias

que tornavam ao cahir das Ave-Marias incommunicaveis certos bairros. O

Porto tinha de tudo: subditos da coroa e subditos da mitra, e no tempo

em que succedia o que narramos, moradores que nem reconheciam uma, nem

outra; havia christãos, mouros e judeus. Sobre um monte alteavam-se as

torres da Sé, e os paços fortificados do bispo; sobre o outro mais

humilde levantava-se a esnoga, ou synagoga, e na encosta, entre um e

outro, a pequena aljama appresentava-se, como o symbolo da religião do

propheta de Yatreb, querendo approximar-se do Evangelho e da Biblia, e

lançando depois pela encosta um ou outro casebre, como transição para

alguma morada de heresiarcha que se occultasse entre os foragidos do

Oriente. A aljama era a mais pobre: a esnoga era a mais rica; a cruz,

mais alta, dominando as duas, era a mais forte.

Aljama, municipio, cathedral, esnoga, tudo fôra cintado pela mesma

muralha, como para viver em boa fraternidade; mas esta aguara entre os

dous filhos de Adão, quanto mais entre tanta gente. O judeu despresava o

mouro; o mouro despresava o judeu; o christão despresava a ambos, e,

como fizera a lei, talhára para si mais regalias e para os outros mais

tributos, reservando, para os que nada tivessem de seu, o direito de se

lamentarem em particular de algum pescoção de burguez arrufado, gilvaz

de cavalleiro, pedrada de garoto e praga de rascôa enraivecida, ou velha

rabujenta. Era uma sorte bem agradavel, feliz, comtudo, aquella, em

comparação á que lhes prepararam, aos judeus especialmente, uns beatos

mettidos em politica, de que se serviam para ganhar o céu, suppunham

elles, e um bando de togas, garnachas e roupetas que se serviam do céu

para apanhar dinheiro. Aquella animosidade era a regra geral, mas toda a

regra tem excepção, e na mouraria era ás vezes recebido com os braços

abertos o mesteiral; na judearia havia mão que se estendia ao burguez em

prova de amisade sincera, e um ou outro filho de Israel achava agasalho

não chorado na casa do christão, mesmo quando aquelle não tinha a arca

cheia de boas dobras; que em tal caso todas as portas se abriam, desde a

do paço régio ou episcopal e a do solar do nobre, até á da cella do

reverendo abbade, e a do leigo, e sobre elles choviam honras e mercês;

como eram prova viva D. Judas e D. David, duas creaturas, que, fazendo

grande arruido na côrte, jogaram com os destinos do paiz, como bons

ministros de finanças­--o nome, o titulo ainda não estava creado, mas a

cousa já existia--não se esquecendo de tirar delle todo o succo

possivel. Gonçalo Domingues vivia em boa harmonia com o arabi, ou arrabi

menor, harmonia que o devia lisongear, pois era até certo ponto uma

notabilidade, como chefe dos judeus da cidade e como homem de teres, e

por isso se resolvera a subir a encosta, pelo lado do Olival, para

fallar em certos negocios em que desejava servir um seu compadre, e

tractar da compra de porção de gado. O velho Gonçalo, forçureiro nos

seus principios, reunira o cabedal bastante para alargar a área do seu

commercio: estendera-o ás carnes-verdes e ensacadas e a pellames de todo

o genero; tornara-se em fim um negociante de consideração, como um seu

collega de Coimbra, que salvou a patria, emprestando a sua senhoria, o

Mestre de Aviz, alguns punhados de dobras, serviço que lhe rendeu a

doação de alguns bens nacionaes e a gloria de ser o tronco de uma nobre

familia. A nobreza de elmo cerrado atira-se aos fidalgos do seculo XIX,

lançando-lhe em rosto o não ser com a espada que lavrassem os seus

escudos; mas é porque não teem paciencia ou vagar de revolver os

archivos da familia, senão deixaria de atirar pedra ao telhado dos

visinhos, vendo os seus de vidro: se por tal de vidro os podem

considerar. Deixemos reflexões, porém, e retrogrademos ao bom tempo, que

assim se chama sempre ao tempo passado, a apanhar o rico burguez e o

sobrinho á porta do Olival.

No campo, que, extra-­muros, por aquelles lados se estendia, ainda se

viam alguns individuos, que, com os olhos postos no rio, pareciam

analysar as galés chegadas; mas era visivel que, de todos os portuenses,

estes, que assim ainda pasmavam, eram os menos curiosos, os mais

indifferentes á lucta travada. A boa parte, farrapos, que em bom tempo

tinham formado uma aljuba, denunciavam como decendentes de Tarik; a

outros distinguia-os um circulo de lã amarella pregado nos grosseiros

tabardos; o resto não se distinguia por cousa alguma da roupa, porque

naquelle cerzido de trapos nada se podia distinguir. Os curiosos, os

verdadeiros curiosos tínham, como vimos, descido á baixa da cidade, e

mais crescera o numero depois que se soubera que nada havia que receiar

das galés, e que Ruy Pereira e os outros capitães desembarcaram e

seguiram processionalmente para os paços municipaes. Gonçalo Domingues,

intercalando as combinações de seu negocio com reflexões sobre a

descoberta feita dos amores de seu sobrinho, reflexões que faziam com

que a este mostrasse gesto carregado, e interiormente se sorrisse,

avivando na memoria os seus verdes annos: medindo de tempos a tempos a

altura do sol, que não eram depois de Ave-Marias seguras certas

paragens, passeava de um para o outro lado do campo: Fernando

acompanhava-­o, voltando a todo o instante a cabeça para Miragaya;

procurando aproximar-se de sitio d'onde podésse ao menos vêr a casa do

mercador; reprehendendo-se por não ter aproveitado melhor o tempo que

passára junto de Irene, dizendo uma fineza daquellas do livro de

cavallerias, que frei Gumeado lhe deixára lêr; descoroçoado por aquelle

final, que de certo o rebaixaria no conceito da linda moça. O sobrinho

andava tão embebido, que nem sentia os pés tocar no chão, e o campo não

era jardim areado; o tio cançava-se já de aguardar seu compadre, que não

encontrára em casa, quando a apparição de um personagem veio pôr em

movimento os frequentadores do campo: uns deslisaram-se, o mais

sorrateiramente que lhes foi possivel, pela encosta e por entre o

arvoredo, outros perfilaram-­se, e levaram as mãos aos barretes, os que

os tinham, mostrando, comtudo, pelo gesto, que não era a estima, mas o

temor que os levava a esta delicadesa.

O recem-chegado, personagem lhe chamamos, e mostrava-o ser de conta

entre aquella gente, era uma figura notavel. Um barrete de tela vermelha

de forma exquisita rematava, assentado sobre um capirote, uma fronte um

pouco crescida e saliente, complemento de um rosto ossudo, moreno, em

que dous olhos desesperados com a proeminencia de um nariz, que se

mettia em tudo de permeio, tinham aca­bado por enviar as pupillas, cada

uma para o seu lado, a tomar conhecimento com as orelhas; o lábio

superior era adornado por um bigode esfarrapado, de côr duvidosa, ou de

todas as côres possiveis--preto, branc­o, castanho, louro e ruivo--e de

egual mescla eram os pellos que deixava crescer no queixo. Da cabeça não

desdiziam o resto do corpo e o vestuario: trajava um gibão bipartido

preto e vermelho, e uma das longas pernas enfiava-se em uma calça e

borzeguim vermelho, a outra em calça e borzeguim preto; do pescoço

pendia-lhe uma medalha de metal amarello, com as armas da cidade, da

cinta um grande punhal e uma enorme bolsa de couro, e na mão sustinha um

bastão, terminado por uma cabeça de metal cinzelada, ao que parecia, por

artista que tomára a delle por modello. Medalha e bastão apregoavam que

Tello Rabaldo era o pae dos velhacos, cargo que não tem hoje

correspondente, por não tolerarem as luzes do seculo absurdos. Tello

superintendia, governava tão sómente cidadãos que em noites serenas teem

o docel do leito recamado de estrellas, jejuam sem devoção, deixam

crestar o corpo pelo sol de Agosto e gelar o sangue pelo frio de

Janeiro, e chamar-lhes velhacos era alterar a significação das palavras,

se não era malicia de legislador, que assim arrebanhava e baptisava

alguns centos de creaturas, para que se persuadissem as de boa fé que na

terra não havia mais, como os hospitaes de doudos lisongeam muita gente

que não é forçada a não ter lá moradia. Os velhacos, os verdadeiros,

então, como hoje, não se deixavam governar, sempre governavam tambem, e

havia-os anafados, vestindo custosas telas e abrigados em paços

soberbos.

--Eh! boa gente! exclamou Tello, dirigindo-se aos individuos que

tractavam de lhe evitar a presença; então assim querem fugir a seu pae!

Vamos, venham receber a benção, como bons filhos, e com a benção uma boa

nova. Olá, Pedro Choca! accrescentou, depois de honrar com um sorriso a

facecia que servira de exordio, dirigindo-se a um dos que se

desbarretava; que nenhum dos teus falte depois de ámanhã na Ribeira.

Onde está o João Bispo?

--João Bispo, redarguiu o interrogado, ha dias que desappareceu.

--O velhaco voltaria para o convento farto de estar deitado de barriga

ao sol, ou se metteu outra vez com a filha do velho Humeia, e está a

fazer penitencia por ter peccado com moura?

--Ou se foi lançar com os scismaticos...

--Para que? Toma conta em ti! Chegou-me aos ouvidos que te travaste com

elle de razões por umas nonadas, e se me déste cabo do rapaz, em boa te

metteste! Se não me trouxeres em breve novas delle, a tua pelle m'as

dará. A polé do aljube está nova, e poderá bem comtigo.

Choca resmungou por entre dentes algumas palavras, e o pae dos velhacos

proseguiu:

--Avisa aos compadres para que ou vão comtigo e mais a sua gente, ou a

levem para as tercenas. Que não falte ninguem! Quero duzentos homens,

bons pulsos...

--Duzentos homens, bem sabe sua mercê que não podemos reunir. A melhoria

da gente levou-a o senhor conde Gonçalo; o senhor alcaide tem boa

porção, e se creanças, mulheres e aleijados não servem...

--E esses perros de cabeça amarrada! exclamou Tello, designando um mouro

que a curiosidade trouxera para junto de Pedro Choca, capataz de uma

turma de vádios. Quanto aos aleijados, sei de uma mésinha que os põe

sãos como um pero, ajuntou, mostrando o seu bastão; o manco da porta da

Sé que o diga. Vamos: sua senhoria (uma barretada) appellidou os bons

homens da sua boa cidade (outra barretada) para que o ajudassem a dar

cabo dos perros de Castella, e os alvazires dão-vos honra mettendo-vos

na conta dos bons homens... fazendo-vos trabalhar. Que ninguem falte, e

viva sua senhoria!

--Viva sua senhoria! repetiram os vádios e com elles Gonçalo Domingues,

que se approximára da roda formada ao pae dos velhacos, roda desfeita a

um signal por este dado com a vara, deixando a importante, incansavel e

incorruptivel auctoridade, como lhe chamariam hoje, que todos os

encargos teem um ou mais adjectivos annexos, face a face com o burguez,

que abria a bocca para indagar quaes os serviços que o filho de Thereza

Lourenço reclamava dos portuenses.

A interrogação não foi formulada. Tello Rabaldo, cheio da sua

importancia, fez uma leve saudação, carregou o barrete sobre um dos

olhos em rebeldia, e girou sobre os calcanhares ao mesmo tempo que um

outro individuo assentava nos hombros do forçureiro uma grande palmada.

Gonçalo Domingues voltou-se a vêr quem segundava a amabilidade do

marinheiro, e se não reconheceu logo o seu compadre, foi porque um

abraço de metter costellas dentro o suffocou. O bom homem vinha

lisongeado com a carta de que Ruy Pereira fôra portador, lisongeado em

extremo no seu patriotismo de localidade, e expandia o seu contentamento

daquella sorte e em exclamações, que fizeram suspeitar ao tio de

Fernando, que não estava em bom arranjo aquella cabeça. D. João chamava

aos portuenses o seu bom povo, mi­moseára-o além disso com outros

epythetos taes como--leal, esforçado, etc., e o portador, resolvido,

apesar do seu enfado, a ser amavel e popular, pintára a amisade e

reconhecimento do Mestre, pela espontaneidade da sua acclamação na

cidade da Virgem, com taes côres, descera da sua dignidade

prodigalisando sor­risos ao corpo municipal, batendo no hombro de Luiz

Giraldes de um modo, que o nosso homem esteve por um triz a deixar cahir

uma lagrima de commoção. Era uma alma candida e enthusiastica, apesar do

involucro grosseiro, o compadre do senhor Gonçalo Domingos; tão candida

que acreditava no desinteresse do Mestre de Aviz, suppondo que defendia

a coroa para a entregar ao filho de Ignez de Castro; tão enthusiastica e

patriotica que, quando, á força de lhe perguntar o marchante se

encontrára o arrabi, seccas as goellas e já sem alento para descrever a

reunião nos paços municipaes e mais epysodios da embaixada, se recordou

do seu negocio, era tarde. O sol ia quasi a mergulhar no oceano, e era

provavel não só que, na judearia estivessem fechadas as ruas, mas até

que se lá fossem, encontrassem as portas da cidade cerradas no regresso.

Os dous burguezes separaram-se, pois: o patriota, compadre de Gonçalo

Domingues, seguiu pelos campos em direcção ao povoado de Cedofeita;

est'outro, despertando o sobrinho de pensamentos em que não entravam nem

compras, nem vendas, nem os direitos que os filhos de Henrique 2.^o de

Castella e D. Pedro 1.^o de Portugal, podiam ter á terra que pisava,

tomou com elle o caminho de casa.

As nuvens, que o norte espalhára no ar, como flocos de algodão, ornadas

pelas tintas que formam a gradação entre o rubro e o amarello vivo,

davam ao céu a apparencia de um marmore, um todo que em pintura seria

inverosimil; os edificios de Villa Nova e de Gaya cortavam com o perfil

o horisonte, vestindo pouco a pouco uma côr uniforme, o cinzento-escuro.

De um destes edificios, o que mais se avantajava, do castello de Gaya,

as janellas esguias voltadas para o poente pareciam dar sahida aos fogos

de um incendio. De que não era, porém, este chamejar mais que um reflexo

do sol no occaso, se poderia desenganar quem, mesmo nunca tendo

presenceado este phenomeno, se nos anticipasse na residencia do tenente

do conde D. Gonçalo, onde uma hora depois lhe provariamos que a

reflexão, ao appresentar Tello Rabaldo, não fôra de leve feita: velhacos

não eram só os que não tinham nem leira nem beira.

Em uma das salas que no castello serviam de apposento ao alcaide,

revestida de apainelados de carvalho, em que a luz do dia, coada pelos

miudos vidros de côr, formando losangos, embaçava, e embaçava egualmente

a que davam as tochas sustentadas por braços de ferro, passeava de um

para outro lado um homem de alguma edade já, magro e de estatura

mediana. No peito de uma especie de camisola de panno de curtas fraldas,

cujas mangas, farpadas nas orlas, pendiam até ao joelho, viam-­se

bordadas a verde com nervuras de ouro tres folhas de figueira; o mesmo

distinctivo se reproduzia em uma bolsa de couro, que, do lado contrário

ao estoque, acompanhava um punhal, nos fartos reposteiros das duas

portas, que para a sala davam serventia, e na manga da jornea de um

pagem, creança de dez annos, que cabeceava com somno a um canto. O

barrete adornava-se com duas pennas de aguia, presas em fecho de ouro, e

os borzeguins apresentavam uns longos bicos, moda que um epysodio da

guerra travada deixou assignalada na historia. Encostados, no vão de uma

janella, conversavam, em voz baixa, uma dama e um individuo que se

tornava notavel por usar crescido o cabello, raro e de côr avermelhada,

e por uma longa espada, de que affagava o punho. Do lado opposto havia

seis individuos, um dos quaes vestia hábito monastico, e outro se

acobertava com uma velha armadura de malha.

O homem que passeava era Ayres Gonçalves de Figueiredo; a dama era a

esposa deste, D. Catharina; o individuo, que lhe fazia companhia, o

irlandez Guilherme Down-Patrick; os restantes eram quatro cavalleiros,

homens de solar de Entre-Douro-e-Minho, o capitão de besteiros, Pero

Bedoido, e frei Garcia.

As passadas do alcaide soavam mais alto do que as poucas palavras que

toda aquella gente trocava entre si, e visivelmente preoccupava-­o

negocio, que não era para os outros estranho, a não enganar o modo

porque de tempos a tempos se fitavam e a meditação que se seguia. Duas

pessoas se subtrahiam á influencia geral, a castellã e o irlandez: se se

calavam era, ella para amimar uma galga branca, que se enroscava sobre

um escabello, elle para com a vista percorrer a laçaria e penduróes do

tecto.

Segredos e silencio, aquelles olhares e gestos tinham um todo

mysterioso, que houve por bem quebrar Ayres Gonçalves.

--Que me dizeis, senhores? exclamou, estacando no meio do passeio, como

a procurar alvitre que viesse pôr termo á sua irresolução, parecer que

se conformasse com o que tinha na mente.

Ninguem respondeu, porém, e o castellão, lançando á volta de si um olhar

de quem queria lêr nas physionomias dos hospedes as suas intenções,

proseguiu:

--Sua senhoria quer em volta de si todas as lanças do reino, e não se

lembra, ou não se quer lembrar de que fica desguarnecida uma terra tão

importante como esta, e cercada por tantos senhores que levantaram voz

pela rainha D. Beatriz. Deixa a cidade aos peões, aos peões, que tracta

como a gente de prol?!

--Em boa confusão vae pondo as cousas! Um dia, veremos, senão lhes pozer

cobro ás ousadias, vir arraya tomar-nos os solares; atalhou, abanando a

cabeça com ar sentencioso, um velho fidalgo de Riba-Tua. Bem altaneiros

andam já burguezes e mesteiraes!

--Deixae, accudiu Affonso Darga, as encamiza­das dos peões, que terão

seu cabo. O Mestre precisa de sustentar a guerra, e lisongea por isso

quanto mercador tem a arca bem provida de boas dobras, tornezes, gentis,

florins e pilartes. Aos do Porto pede elle agora uma armada, mantimentos

e dinheiro.

--Armada que nos levará a vêr o rosto ás hostes de Castella; tornou

Ayres Gonçalves.

--Se se fizer.

--O povo do Messias de Lisboa a arranjará. Não viram como os alvazires

propozeram logo uma derrama, e juraram a Rui Pereira que teriam antes de

um mez a nado algumas naus e outras se armariam dos melhores navios do

commercio com Flandres?! Estão inchados com o valimento que lhes dão.

--Por ahi se conhecem os vilões...

--É que dão elles ao Mestre? Grande cousa! Em campo se verá de que

servem, e no campo é que a contenda tem de se decidir. Irão com béstas,

virotes e azevans fazer frente ás lanças de Cas­tella? Lingua teem

elles; mas brio é que nem toda a algaravia desses mestres em leis e

clerigos, que o regedor tomou para seus conselhos, esses falladores de

Pisa e Bolonha, poderá metter nessa gente.

--Mas nella se estriba D. João, disse, meneando a cabeça, um dos

cavalleiros.

--Para elles appella com boas palavras; a nós manda-nos, não recado, mas

ordem! exclamou o alcaide. É dessas garnachas sahidas do nada que vem a

desconsideração em que nos tem.

--Tempos do rei D. Fernando! suspirou Down-Patrick, recordando-se talvez

de quando as hostes do duque de Lencastre faziam, entre os alliados

por­tuguezes e os inimigos de Castella, de tudo roupa de francez.

--Era um bom rei o que Deus tem! ajuntou frei Garcia, fazendo uma momice

de piedade.

­--Rei, e creado como rei, bem sabia elle onde estava a força e grandesa

do reino e sua.

--E melhor agasalho não nos fazem sempre no campo do marido da rainha D.

Beatriz. Aos de sua casa aconselhou D. Leonor que fossem para o Mestre,

que ao menos não era soffrego.

--Com isso perdeu D. João: perdeu-o a altivez.

--E ao Mestre não approveitarão as mercês rastejadas.

--Elle não precisa de nós, tornou o velho, o mais desappontado dos

hospedes do alcaide, ao que perecia; faz cavalleiros a seu capricho do

primeiro peão que se lhe antolha.

--Bons cavalleiros! observou, rindo, o mais moço da reunião. Por lá

andam montados em mulas fazendo rir com os seus ares de importancia. Não

será preciso, para os derribar, erguer clava ou montante: andam tão mal

a geito com arnez e grevas, tão abafados pelos elmos, os que os teem,

que ao primeiro arranco das azes vão ao chão.

--Em se tractando de lançadas é comnosco que se haverão, bem o vêdes,

disse Ayres de Sá.

--E ireis, senhor alcaide? interrogou Affonso Darga.

--Eu, senhores, respondeu Ayres depois de alguma hesitação, levantei voz

pelo Mestre, mas recebi o castello do conde D. Gonçalo: obedecerei a sua

senhoria em tudo, mas só abandonarei o castello...

A phrase do alcaide não terminou. D. Catharina, approximando-se de seu

marido, e impondo-lhe com um relance d'olhos a conveniencia de não

proseguir, atalhou:

--Largos dias tendes para tomar conselho, cavalleiros; alegrae o sarau

com outros contos. Cousas de tanta importancia não se devem tractar de

salto: o tempo que se leva a pensar em casos taes não é perdido. Tomai

exemplo de D. Gonçalo Telles, ajuntou mais baixo, dirigindo-se ao

esposo.

D. Catharina de Figueiredo era, até certo ponto, uma dona prudente, como

chama um historiador, por egual conselho fabiano, a Beatriz Gonçalves de

Moura, aia depois da excellente rainha D. Philippa. O exemplo do conde

era um grande exemplo, pois era de homem que sabia, ou parecia ter de

memoria o _Sic vos non vobis_ de Virgilio, e dar-lhe o valor devido nas

cousas do mundo. D. Gonçalo fechara-se em Coimbra, jogára­ com sua irmã

um jogo pouco leal e parecia aguardar que a sorte decidisse qual dos

pretendentes á corôa tinha razão e direito, ou força e geito para a

segurar na cabeça. O alcaide approveitou o conselho e abandonou o thema

em que o lançára o mau humor causado pela mensagem de Ruy Pereira.

Palestra sobre outro assumpto era naquella occasião difficil de

sustentar. Os cavalheiros pouco a pouco deixaram a sala, e quando só

restavam o aventureiro, Henrique Fafes, o mais moço dos da reunião, e

frei Garcia, indicou este ultimo com o olhar o pagem quasi adormecido,

tirando ao mesmo tempo da manga uma tira de pergaminho dobrada. Ayres de

Figueiredo, sacudindo com violencia a creança de quem o reverendo

parecia recear a indiscripção, a poz, extremunhada, fóra da porta,

ordenando-lhe que se recolhesse, e em seguida percorreu com os olhos o

escripto, que lhe appresentaram.

--O alcaide de Monsaraz veio? disse elle terminando a leitura e

dirigindo-se ao frade.

--Senhor, sim, veio.

--E não desconfiaram de nada?

­--Penso que de nada. As galés castelhanas não appareceram.

--E de boa fonte houvestes esta proposta?

--Do irmão do arrabi-mór, esse judeu a quem sua real senhoria acaba de

fazer mercê.

--Misser Guilherme, senhor Henrique, disse o alcaide depois de fitar os

dous por um momento, se pouco caso se faz de nós em Lisboa, no campo dos

que a sitiam teem-nos em apreço. D. João não é tão soffrego como o

pintavam, e a prova é este pergaminho.

Down-Patrick fez uma visagem e soltou um «oh» guttural, que expressava a

pouca admiração que lhe causava o apreço em que o poderiam ter, como

certo dos seus muitos merecimentos.

--Gonçalo Rodrigues vos fallará depois d'ámanhã em S. Domingos, disse

frei Garcia, attrahindo o alcaide para junto de uma das portas, a

opposta áquella por onde sahira o pagem. E depois, accrescentando

algumas palavras em voz baixa, sahiu pelo outro lado.

Ayres de Sá, chamando Henrique Fafes e o irlandez, seguiu-o.

Quando a sala ficou deserta, o reposteiro, junto do qual frei Garcia

fallára com o alcaide de Gaya, oscillou e appareceu entre elle e a

hombreira da porta um rosto, onde a curiosidade e a malicia se pintavam.

--A mulher tem razão, disse, referindo-­se ás palavras de D. Catharina,

o curioso, depois de ter o ouvido á escuta por alguns segundos; o tempo

que se gasta em certas cousas não se perde, e eu não perdi o meu. Ah!

Garifa, minha pobre Garifa! exclamou em seguida, mudando de expressão e

ajuntando á exclamação um suspiro, de ti é que não apanho novas.

Os tripeiros romance-chronica do seculo XIV · 第 12 / 26 题