Uma cidade da peninsula, no seculo XIV, não era um aggregado de
individuos vivendo, como hoje, debaixo da mesma lei--segundo reza a lei,
entenda-se. Afóra as distincções de classes e senhorios diversos, havia
a distincção de crenças, e a separação era visivel nas grossas cadeias
que tornavam ao cahir das Ave-Marias incommunicaveis certos bairros. O
Porto tinha de tudo: subditos da coroa e subditos da mitra, e no tempo
em que succedia o que narramos, moradores que nem reconheciam uma, nem
outra; havia christãos, mouros e judeus. Sobre um monte alteavam-se as
torres da Sé, e os paços fortificados do bispo; sobre o outro mais
humilde levantava-se a esnoga, ou synagoga, e na encosta, entre um e
outro, a pequena aljama appresentava-se, como o symbolo da religião do
propheta de Yatreb, querendo approximar-se do Evangelho e da Biblia, e
lançando depois pela encosta um ou outro casebre, como transição para
alguma morada de heresiarcha que se occultasse entre os foragidos do
Oriente. A aljama era a mais pobre: a esnoga era a mais rica; a cruz,
mais alta, dominando as duas, era a mais forte.
Aljama, municipio, cathedral, esnoga, tudo fôra cintado pela mesma
muralha, como para viver em boa fraternidade; mas esta aguara entre os
dous filhos de Adão, quanto mais entre tanta gente. O judeu despresava o
mouro; o mouro despresava o judeu; o christão despresava a ambos, e,
como fizera a lei, talhára para si mais regalias e para os outros mais
tributos, reservando, para os que nada tivessem de seu, o direito de se
lamentarem em particular de algum pescoção de burguez arrufado, gilvaz
de cavalleiro, pedrada de garoto e praga de rascôa enraivecida, ou velha
rabujenta. Era uma sorte bem agradavel, feliz, comtudo, aquella, em
comparação á que lhes prepararam, aos judeus especialmente, uns beatos
mettidos em politica, de que se serviam para ganhar o céu, suppunham
elles, e um bando de togas, garnachas e roupetas que se serviam do céu
para apanhar dinheiro. Aquella animosidade era a regra geral, mas toda a
regra tem excepção, e na mouraria era ás vezes recebido com os braços
abertos o mesteiral; na judearia havia mão que se estendia ao burguez em
prova de amisade sincera, e um ou outro filho de Israel achava agasalho
não chorado na casa do christão, mesmo quando aquelle não tinha a arca
cheia de boas dobras; que em tal caso todas as portas se abriam, desde a
do paço régio ou episcopal e a do solar do nobre, até á da cella do
reverendo abbade, e a do leigo, e sobre elles choviam honras e mercês;
como eram prova viva D. Judas e D. David, duas creaturas, que, fazendo
grande arruido na côrte, jogaram com os destinos do paiz, como bons
ministros de finanças--o nome, o titulo ainda não estava creado, mas a
cousa já existia--não se esquecendo de tirar delle todo o succo
possivel. Gonçalo Domingues vivia em boa harmonia com o arabi, ou arrabi
menor, harmonia que o devia lisongear, pois era até certo ponto uma
notabilidade, como chefe dos judeus da cidade e como homem de teres, e
por isso se resolvera a subir a encosta, pelo lado do Olival, para
fallar em certos negocios em que desejava servir um seu compadre, e
tractar da compra de porção de gado. O velho Gonçalo, forçureiro nos
seus principios, reunira o cabedal bastante para alargar a área do seu
commercio: estendera-o ás carnes-verdes e ensacadas e a pellames de todo
o genero; tornara-se em fim um negociante de consideração, como um seu
collega de Coimbra, que salvou a patria, emprestando a sua senhoria, o
Mestre de Aviz, alguns punhados de dobras, serviço que lhe rendeu a
doação de alguns bens nacionaes e a gloria de ser o tronco de uma nobre
familia. A nobreza de elmo cerrado atira-se aos fidalgos do seculo XIX,
lançando-lhe em rosto o não ser com a espada que lavrassem os seus
escudos; mas é porque não teem paciencia ou vagar de revolver os
archivos da familia, senão deixaria de atirar pedra ao telhado dos
visinhos, vendo os seus de vidro: se por tal de vidro os podem
considerar. Deixemos reflexões, porém, e retrogrademos ao bom tempo, que
assim se chama sempre ao tempo passado, a apanhar o rico burguez e o
sobrinho á porta do Olival.
No campo, que, extra-muros, por aquelles lados se estendia, ainda se
viam alguns individuos, que, com os olhos postos no rio, pareciam
analysar as galés chegadas; mas era visivel que, de todos os portuenses,
estes, que assim ainda pasmavam, eram os menos curiosos, os mais
indifferentes á lucta travada. A boa parte, farrapos, que em bom tempo
tinham formado uma aljuba, denunciavam como decendentes de Tarik; a
outros distinguia-os um circulo de lã amarella pregado nos grosseiros
tabardos; o resto não se distinguia por cousa alguma da roupa, porque
naquelle cerzido de trapos nada se podia distinguir. Os curiosos, os
verdadeiros curiosos tínham, como vimos, descido á baixa da cidade, e
mais crescera o numero depois que se soubera que nada havia que receiar
das galés, e que Ruy Pereira e os outros capitães desembarcaram e
seguiram processionalmente para os paços municipaes. Gonçalo Domingues,
intercalando as combinações de seu negocio com reflexões sobre a
descoberta feita dos amores de seu sobrinho, reflexões que faziam com
que a este mostrasse gesto carregado, e interiormente se sorrisse,
avivando na memoria os seus verdes annos: medindo de tempos a tempos a
altura do sol, que não eram depois de Ave-Marias seguras certas
paragens, passeava de um para o outro lado do campo: Fernando
acompanhava-o, voltando a todo o instante a cabeça para Miragaya;
procurando aproximar-se de sitio d'onde podésse ao menos vêr a casa do
mercador; reprehendendo-se por não ter aproveitado melhor o tempo que
passára junto de Irene, dizendo uma fineza daquellas do livro de
cavallerias, que frei Gumeado lhe deixára lêr; descoroçoado por aquelle
final, que de certo o rebaixaria no conceito da linda moça. O sobrinho
andava tão embebido, que nem sentia os pés tocar no chão, e o campo não
era jardim areado; o tio cançava-se já de aguardar seu compadre, que não
encontrára em casa, quando a apparição de um personagem veio pôr em
movimento os frequentadores do campo: uns deslisaram-se, o mais
sorrateiramente que lhes foi possivel, pela encosta e por entre o
arvoredo, outros perfilaram-se, e levaram as mãos aos barretes, os que
os tinham, mostrando, comtudo, pelo gesto, que não era a estima, mas o
temor que os levava a esta delicadesa.
O recem-chegado, personagem lhe chamamos, e mostrava-o ser de conta
entre aquella gente, era uma figura notavel. Um barrete de tela vermelha
de forma exquisita rematava, assentado sobre um capirote, uma fronte um
pouco crescida e saliente, complemento de um rosto ossudo, moreno, em
que dous olhos desesperados com a proeminencia de um nariz, que se
mettia em tudo de permeio, tinham acabado por enviar as pupillas, cada
uma para o seu lado, a tomar conhecimento com as orelhas; o lábio
superior era adornado por um bigode esfarrapado, de côr duvidosa, ou de
todas as côres possiveis--preto, branco, castanho, louro e ruivo--e de
egual mescla eram os pellos que deixava crescer no queixo. Da cabeça não
desdiziam o resto do corpo e o vestuario: trajava um gibão bipartido
preto e vermelho, e uma das longas pernas enfiava-se em uma calça e
borzeguim vermelho, a outra em calça e borzeguim preto; do pescoço
pendia-lhe uma medalha de metal amarello, com as armas da cidade, da
cinta um grande punhal e uma enorme bolsa de couro, e na mão sustinha um
bastão, terminado por uma cabeça de metal cinzelada, ao que parecia, por
artista que tomára a delle por modello. Medalha e bastão apregoavam que
Tello Rabaldo era o pae dos velhacos, cargo que não tem hoje
correspondente, por não tolerarem as luzes do seculo absurdos. Tello
superintendia, governava tão sómente cidadãos que em noites serenas teem
o docel do leito recamado de estrellas, jejuam sem devoção, deixam
crestar o corpo pelo sol de Agosto e gelar o sangue pelo frio de
Janeiro, e chamar-lhes velhacos era alterar a significação das palavras,
se não era malicia de legislador, que assim arrebanhava e baptisava
alguns centos de creaturas, para que se persuadissem as de boa fé que na
terra não havia mais, como os hospitaes de doudos lisongeam muita gente
que não é forçada a não ter lá moradia. Os velhacos, os verdadeiros,
então, como hoje, não se deixavam governar, sempre governavam tambem, e
havia-os anafados, vestindo custosas telas e abrigados em paços
soberbos.
--Eh! boa gente! exclamou Tello, dirigindo-se aos individuos que
tractavam de lhe evitar a presença; então assim querem fugir a seu pae!
Vamos, venham receber a benção, como bons filhos, e com a benção uma boa
nova. Olá, Pedro Choca! accrescentou, depois de honrar com um sorriso a
facecia que servira de exordio, dirigindo-se a um dos que se
desbarretava; que nenhum dos teus falte depois de ámanhã na Ribeira.
Onde está o João Bispo?
--João Bispo, redarguiu o interrogado, ha dias que desappareceu.
--O velhaco voltaria para o convento farto de estar deitado de barriga
ao sol, ou se metteu outra vez com a filha do velho Humeia, e está a
fazer penitencia por ter peccado com moura?
--Ou se foi lançar com os scismaticos...
--Para que? Toma conta em ti! Chegou-me aos ouvidos que te travaste com
elle de razões por umas nonadas, e se me déste cabo do rapaz, em boa te
metteste! Se não me trouxeres em breve novas delle, a tua pelle m'as
dará. A polé do aljube está nova, e poderá bem comtigo.
Choca resmungou por entre dentes algumas palavras, e o pae dos velhacos
proseguiu:
--Avisa aos compadres para que ou vão comtigo e mais a sua gente, ou a
levem para as tercenas. Que não falte ninguem! Quero duzentos homens,
bons pulsos...
--Duzentos homens, bem sabe sua mercê que não podemos reunir. A melhoria
da gente levou-a o senhor conde Gonçalo; o senhor alcaide tem boa
porção, e se creanças, mulheres e aleijados não servem...
--E esses perros de cabeça amarrada! exclamou Tello, designando um mouro
que a curiosidade trouxera para junto de Pedro Choca, capataz de uma
turma de vádios. Quanto aos aleijados, sei de uma mésinha que os põe
sãos como um pero, ajuntou, mostrando o seu bastão; o manco da porta da
Sé que o diga. Vamos: sua senhoria (uma barretada) appellidou os bons
homens da sua boa cidade (outra barretada) para que o ajudassem a dar
cabo dos perros de Castella, e os alvazires dão-vos honra mettendo-vos
na conta dos bons homens... fazendo-vos trabalhar. Que ninguem falte, e
viva sua senhoria!
--Viva sua senhoria! repetiram os vádios e com elles Gonçalo Domingues,
que se approximára da roda formada ao pae dos velhacos, roda desfeita a
um signal por este dado com a vara, deixando a importante, incansavel e
incorruptivel auctoridade, como lhe chamariam hoje, que todos os
encargos teem um ou mais adjectivos annexos, face a face com o burguez,
que abria a bocca para indagar quaes os serviços que o filho de Thereza
Lourenço reclamava dos portuenses.
A interrogação não foi formulada. Tello Rabaldo, cheio da sua
importancia, fez uma leve saudação, carregou o barrete sobre um dos
olhos em rebeldia, e girou sobre os calcanhares ao mesmo tempo que um
outro individuo assentava nos hombros do forçureiro uma grande palmada.
Gonçalo Domingues voltou-se a vêr quem segundava a amabilidade do
marinheiro, e se não reconheceu logo o seu compadre, foi porque um
abraço de metter costellas dentro o suffocou. O bom homem vinha
lisongeado com a carta de que Ruy Pereira fôra portador, lisongeado em
extremo no seu patriotismo de localidade, e expandia o seu contentamento
daquella sorte e em exclamações, que fizeram suspeitar ao tio de
Fernando, que não estava em bom arranjo aquella cabeça. D. João chamava
aos portuenses o seu bom povo, mimoseára-o além disso com outros
epythetos taes como--leal, esforçado, etc., e o portador, resolvido,
apesar do seu enfado, a ser amavel e popular, pintára a amisade e
reconhecimento do Mestre, pela espontaneidade da sua acclamação na
cidade da Virgem, com taes côres, descera da sua dignidade
prodigalisando sorrisos ao corpo municipal, batendo no hombro de Luiz
Giraldes de um modo, que o nosso homem esteve por um triz a deixar cahir
uma lagrima de commoção. Era uma alma candida e enthusiastica, apesar do
involucro grosseiro, o compadre do senhor Gonçalo Domingos; tão candida
que acreditava no desinteresse do Mestre de Aviz, suppondo que defendia
a coroa para a entregar ao filho de Ignez de Castro; tão enthusiastica e
patriotica que, quando, á força de lhe perguntar o marchante se
encontrára o arrabi, seccas as goellas e já sem alento para descrever a
reunião nos paços municipaes e mais epysodios da embaixada, se recordou
do seu negocio, era tarde. O sol ia quasi a mergulhar no oceano, e era
provavel não só que, na judearia estivessem fechadas as ruas, mas até
que se lá fossem, encontrassem as portas da cidade cerradas no regresso.
Os dous burguezes separaram-se, pois: o patriota, compadre de Gonçalo
Domingues, seguiu pelos campos em direcção ao povoado de Cedofeita;
est'outro, despertando o sobrinho de pensamentos em que não entravam nem
compras, nem vendas, nem os direitos que os filhos de Henrique 2.^o de
Castella e D. Pedro 1.^o de Portugal, podiam ter á terra que pisava,
tomou com elle o caminho de casa.
As nuvens, que o norte espalhára no ar, como flocos de algodão, ornadas
pelas tintas que formam a gradação entre o rubro e o amarello vivo,
davam ao céu a apparencia de um marmore, um todo que em pintura seria
inverosimil; os edificios de Villa Nova e de Gaya cortavam com o perfil
o horisonte, vestindo pouco a pouco uma côr uniforme, o cinzento-escuro.
De um destes edificios, o que mais se avantajava, do castello de Gaya,
as janellas esguias voltadas para o poente pareciam dar sahida aos fogos
de um incendio. De que não era, porém, este chamejar mais que um reflexo
do sol no occaso, se poderia desenganar quem, mesmo nunca tendo
presenceado este phenomeno, se nos anticipasse na residencia do tenente
do conde D. Gonçalo, onde uma hora depois lhe provariamos que a
reflexão, ao appresentar Tello Rabaldo, não fôra de leve feita: velhacos
não eram só os que não tinham nem leira nem beira.
Em uma das salas que no castello serviam de apposento ao alcaide,
revestida de apainelados de carvalho, em que a luz do dia, coada pelos
miudos vidros de côr, formando losangos, embaçava, e embaçava egualmente
a que davam as tochas sustentadas por braços de ferro, passeava de um
para outro lado um homem de alguma edade já, magro e de estatura
mediana. No peito de uma especie de camisola de panno de curtas fraldas,
cujas mangas, farpadas nas orlas, pendiam até ao joelho, viam-se
bordadas a verde com nervuras de ouro tres folhas de figueira; o mesmo
distinctivo se reproduzia em uma bolsa de couro, que, do lado contrário
ao estoque, acompanhava um punhal, nos fartos reposteiros das duas
portas, que para a sala davam serventia, e na manga da jornea de um
pagem, creança de dez annos, que cabeceava com somno a um canto. O
barrete adornava-se com duas pennas de aguia, presas em fecho de ouro, e
os borzeguins apresentavam uns longos bicos, moda que um epysodio da
guerra travada deixou assignalada na historia. Encostados, no vão de uma
janella, conversavam, em voz baixa, uma dama e um individuo que se
tornava notavel por usar crescido o cabello, raro e de côr avermelhada,
e por uma longa espada, de que affagava o punho. Do lado opposto havia
seis individuos, um dos quaes vestia hábito monastico, e outro se
acobertava com uma velha armadura de malha.
O homem que passeava era Ayres Gonçalves de Figueiredo; a dama era a
esposa deste, D. Catharina; o individuo, que lhe fazia companhia, o
irlandez Guilherme Down-Patrick; os restantes eram quatro cavalleiros,
homens de solar de Entre-Douro-e-Minho, o capitão de besteiros, Pero
Bedoido, e frei Garcia.
As passadas do alcaide soavam mais alto do que as poucas palavras que
toda aquella gente trocava entre si, e visivelmente preoccupava-o
negocio, que não era para os outros estranho, a não enganar o modo
porque de tempos a tempos se fitavam e a meditação que se seguia. Duas
pessoas se subtrahiam á influencia geral, a castellã e o irlandez: se se
calavam era, ella para amimar uma galga branca, que se enroscava sobre
um escabello, elle para com a vista percorrer a laçaria e penduróes do
tecto.
Segredos e silencio, aquelles olhares e gestos tinham um todo
mysterioso, que houve por bem quebrar Ayres Gonçalves.
--Que me dizeis, senhores? exclamou, estacando no meio do passeio, como
a procurar alvitre que viesse pôr termo á sua irresolução, parecer que
se conformasse com o que tinha na mente.
Ninguem respondeu, porém, e o castellão, lançando á volta de si um olhar
de quem queria lêr nas physionomias dos hospedes as suas intenções,
proseguiu:
--Sua senhoria quer em volta de si todas as lanças do reino, e não se
lembra, ou não se quer lembrar de que fica desguarnecida uma terra tão
importante como esta, e cercada por tantos senhores que levantaram voz
pela rainha D. Beatriz. Deixa a cidade aos peões, aos peões, que tracta
como a gente de prol?!
--Em boa confusão vae pondo as cousas! Um dia, veremos, senão lhes pozer
cobro ás ousadias, vir arraya tomar-nos os solares; atalhou, abanando a
cabeça com ar sentencioso, um velho fidalgo de Riba-Tua. Bem altaneiros
andam já burguezes e mesteiraes!
--Deixae, accudiu Affonso Darga, as encamizadas dos peões, que terão
seu cabo. O Mestre precisa de sustentar a guerra, e lisongea por isso
quanto mercador tem a arca bem provida de boas dobras, tornezes, gentis,
florins e pilartes. Aos do Porto pede elle agora uma armada, mantimentos
e dinheiro.
--Armada que nos levará a vêr o rosto ás hostes de Castella; tornou
Ayres Gonçalves.
--Se se fizer.
--O povo do Messias de Lisboa a arranjará. Não viram como os alvazires
propozeram logo uma derrama, e juraram a Rui Pereira que teriam antes de
um mez a nado algumas naus e outras se armariam dos melhores navios do
commercio com Flandres?! Estão inchados com o valimento que lhes dão.
--Por ahi se conhecem os vilões...
--É que dão elles ao Mestre? Grande cousa! Em campo se verá de que
servem, e no campo é que a contenda tem de se decidir. Irão com béstas,
virotes e azevans fazer frente ás lanças de Castella? Lingua teem
elles; mas brio é que nem toda a algaravia desses mestres em leis e
clerigos, que o regedor tomou para seus conselhos, esses falladores de
Pisa e Bolonha, poderá metter nessa gente.
--Mas nella se estriba D. João, disse, meneando a cabeça, um dos
cavalleiros.
--Para elles appella com boas palavras; a nós manda-nos, não recado, mas
ordem! exclamou o alcaide. É dessas garnachas sahidas do nada que vem a
desconsideração em que nos tem.
--Tempos do rei D. Fernando! suspirou Down-Patrick, recordando-se talvez
de quando as hostes do duque de Lencastre faziam, entre os alliados
portuguezes e os inimigos de Castella, de tudo roupa de francez.
--Era um bom rei o que Deus tem! ajuntou frei Garcia, fazendo uma momice
de piedade.
--Rei, e creado como rei, bem sabia elle onde estava a força e grandesa
do reino e sua.
--E melhor agasalho não nos fazem sempre no campo do marido da rainha D.
Beatriz. Aos de sua casa aconselhou D. Leonor que fossem para o Mestre,
que ao menos não era soffrego.
--Com isso perdeu D. João: perdeu-o a altivez.
--E ao Mestre não approveitarão as mercês rastejadas.
--Elle não precisa de nós, tornou o velho, o mais desappontado dos
hospedes do alcaide, ao que perecia; faz cavalleiros a seu capricho do
primeiro peão que se lhe antolha.
--Bons cavalleiros! observou, rindo, o mais moço da reunião. Por lá
andam montados em mulas fazendo rir com os seus ares de importancia. Não
será preciso, para os derribar, erguer clava ou montante: andam tão mal
a geito com arnez e grevas, tão abafados pelos elmos, os que os teem,
que ao primeiro arranco das azes vão ao chão.
--Em se tractando de lançadas é comnosco que se haverão, bem o vêdes,
disse Ayres de Sá.
--E ireis, senhor alcaide? interrogou Affonso Darga.
--Eu, senhores, respondeu Ayres depois de alguma hesitação, levantei voz
pelo Mestre, mas recebi o castello do conde D. Gonçalo: obedecerei a sua
senhoria em tudo, mas só abandonarei o castello...
A phrase do alcaide não terminou. D. Catharina, approximando-se de seu
marido, e impondo-lhe com um relance d'olhos a conveniencia de não
proseguir, atalhou:
--Largos dias tendes para tomar conselho, cavalleiros; alegrae o sarau
com outros contos. Cousas de tanta importancia não se devem tractar de
salto: o tempo que se leva a pensar em casos taes não é perdido. Tomai
exemplo de D. Gonçalo Telles, ajuntou mais baixo, dirigindo-se ao
esposo.
D. Catharina de Figueiredo era, até certo ponto, uma dona prudente, como
chama um historiador, por egual conselho fabiano, a Beatriz Gonçalves de
Moura, aia depois da excellente rainha D. Philippa. O exemplo do conde
era um grande exemplo, pois era de homem que sabia, ou parecia ter de
memoria o _Sic vos non vobis_ de Virgilio, e dar-lhe o valor devido nas
cousas do mundo. D. Gonçalo fechara-se em Coimbra, jogára com sua irmã
um jogo pouco leal e parecia aguardar que a sorte decidisse qual dos
pretendentes á corôa tinha razão e direito, ou força e geito para a
segurar na cabeça. O alcaide approveitou o conselho e abandonou o thema
em que o lançára o mau humor causado pela mensagem de Ruy Pereira.
Palestra sobre outro assumpto era naquella occasião difficil de
sustentar. Os cavalheiros pouco a pouco deixaram a sala, e quando só
restavam o aventureiro, Henrique Fafes, o mais moço dos da reunião, e
frei Garcia, indicou este ultimo com o olhar o pagem quasi adormecido,
tirando ao mesmo tempo da manga uma tira de pergaminho dobrada. Ayres de
Figueiredo, sacudindo com violencia a creança de quem o reverendo
parecia recear a indiscripção, a poz, extremunhada, fóra da porta,
ordenando-lhe que se recolhesse, e em seguida percorreu com os olhos o
escripto, que lhe appresentaram.
--O alcaide de Monsaraz veio? disse elle terminando a leitura e
dirigindo-se ao frade.
--Senhor, sim, veio.
--E não desconfiaram de nada?
--Penso que de nada. As galés castelhanas não appareceram.
--E de boa fonte houvestes esta proposta?
--Do irmão do arrabi-mór, esse judeu a quem sua real senhoria acaba de
fazer mercê.
--Misser Guilherme, senhor Henrique, disse o alcaide depois de fitar os
dous por um momento, se pouco caso se faz de nós em Lisboa, no campo dos
que a sitiam teem-nos em apreço. D. João não é tão soffrego como o
pintavam, e a prova é este pergaminho.
Down-Patrick fez uma visagem e soltou um «oh» guttural, que expressava a
pouca admiração que lhe causava o apreço em que o poderiam ter, como
certo dos seus muitos merecimentos.
--Gonçalo Rodrigues vos fallará depois d'ámanhã em S. Domingos, disse
frei Garcia, attrahindo o alcaide para junto de uma das portas, a
opposta áquella por onde sahira o pagem. E depois, accrescentando
algumas palavras em voz baixa, sahiu pelo outro lado.
Ayres de Sá, chamando Henrique Fafes e o irlandez, seguiu-o.
Quando a sala ficou deserta, o reposteiro, junto do qual frei Garcia
fallára com o alcaide de Gaya, oscillou e appareceu entre elle e a
hombreira da porta um rosto, onde a curiosidade e a malicia se pintavam.
--A mulher tem razão, disse, referindo-se ás palavras de D. Catharina,
o curioso, depois de ter o ouvido á escuta por alguns segundos; o tempo
que se gasta em certas cousas não se perde, e eu não perdi o meu. Ah!
Garifa, minha pobre Garifa! exclamou em seguida, mudando de expressão e
ajuntando á exclamação um suspiro, de ti é que não apanho novas.